O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) é uma unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), dedicada à pesquisa, ao desenvolvimento e à manutenção de recursos, serviços e infraestruturas relacionados à informação científica e tecnológica. Sua origem remonta ao Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD), criado em 1954 no âmbito do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e transformado em Ibict em 1976.
A trajetória do IBBD e do Ibict está associada ao desenvolvimento da documentação, da informação científica e tecnológica e à institucionalização da Ciência da Informação no Brasil. Estudos históricos sobre a instituição analisam sua atuação na organização e disseminação da informação científica, na formação de profissionais especializados e na constituição das condições profissionais e acadêmicas que contribuíram para o desenvolvimento da Ciência da Informação no país. Em 1970, o IBBD organizou um curso de mestrado em Ciência da Informação, desenvolvido em colaboração com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificado na historiografia da área como um marco da institucionalização acadêmica da Ciência da Informação no Brasil.
Ao longo de sua trajetória, o instituto passou a atuar também no desenvolvimento e na coordenação de infraestruturas voltadas ao controle bibliográfico, à comunicação científica, ao acesso aberto à produção acadêmica e à preservação digital, frequentemente em cooperação com universidades, bibliotecas, instituições de pesquisa e outros organismos do sistema brasileiro de ciência e tecnologia.
História
Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação
O Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação foi criado em 27 de fevereiro de 1954 pelo Decreto nº 35.124, a partir de proposta conjunta do Conselho Nacional de Pesquisas e da Fundação Getulio Vargas (FGV). O decreto estabeleceu entre suas finalidades o desenvolvimento de serviços especializados de bibliografia e documentação, o intercâmbio entre bibliotecas e centros de documentação e o melhor aproveitamento dos recursos bibliográficos e documentários do país para a informação científica e tecnológica destinada a pesquisadores.
O regimento do instituto, aprovado pelo Decreto nº 35.430, de 29 de abril de 1954, atribuiu ao IBBD a elaboração e divulgação de informações bibliográficas, o intercâmbio de documentação e informações entre instituições brasileiras e estrangeiras e o apoio ao desenvolvimento das bibliotecas científicas e técnicas. O documento estabelecia como seu principal objetivo prover informação científica e tecnológica aos pesquisadores.
A criação do IBBD ocorreu no contexto de expansão das políticas científicas e de modernização administrativa desenvolvidas no Brasil em meados do século XX. Eduardo Ismael Murguia relaciona a constituição do instituto tanto às instituições envolvidas nas políticas administrativas e científicas brasileiras quanto à influência de organismos internacionais que estimulavam o desenvolvimento de sistemas de difusão da informação científica e tecnológica.
A bibliotecária Lydia de Queiroz Sambaquy participou da concepção do IBBD e dirigiu a instituição entre 1954 e 1965. Antes da criação do instituto, Sambaquy havia desenvolvido atividades relacionadas à catalogação cooperativa e à organização bibliográfica no Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) e na Fundação Getulio Vargas. Segundo Nanci Oddone, princípios como cooperação entre bibliotecas e organização da informação científica, presentes nessa trajetória anterior, influenciaram a concepção e as atividades iniciais do IBBD.
Nos primeiros anos de funcionamento, o instituto desenvolveu serviços bibliográficos, catálogos coletivos, intercâmbio de documentação, serviços de referência e ações de formação profissional. A partir de meados da década de 1950, promoveu cursos de documentação científica destinados a bibliotecários e outros profissionais. Esses cursos contribuíram para a disseminação de técnicas e conceitos relacionados à documentação e à informação científica no Brasil.
Oddone identifica nas atividades realizadas pelo IBBD entre 1954 e 1965 a formação de uma abordagem do trabalho bibliográfico influenciada simultaneamente pela biblioteconomia, pela documentação e pelo conceito de informação científica. Para a autora, essas práticas contribuíram para criar condições profissionais e intelectuais para o posterior desenvolvimento da Ciência da Informação no Brasil.
Ciência da Informação e pós-graduação
Na segunda metade da década de 1960, o desenvolvimento de tecnologias de processamento da informação passou a influenciar as atividades e debates internos do IBBD. A incorporação da eletrônica e da informática aos serviços de informação contribuiu para novas discussões sobre as práticas bibliográficas e documentárias e para uma aproximação com a emergente Ciência da Informação.
Em 1970, durante a gestão de Celia Ribeiro Zaher, o IBBD organizou, com participação de Hagar Espanha Gomes, um curso de mestrado em Ciência da Informação. A iniciativa, desenvolvida em colaboração com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é identificada na historiografia da área como o primeiro mestrado em Ciência da Informação no Brasil e um marco da institucionalização acadêmica do campo no país.
Em 1972, o IBBD iniciou a publicação da revista Ciência da Informação. Criada em um período de expansão das atividades de ensino e pesquisa na área, a revista tornou-se um dos meios de comunicação da produção científica brasileira em Ciência da Informação.
Transformação em Ibict
Durante a década de 1970, a atuação do IBBD foi afetada por mudanças mais amplas nas políticas brasileiras de ciência e tecnologia e de informação científica e tecnológica. Em estudo dedicado ao período de 1972 a 1976, Maria Esther de Araújo Coutinho analisa a transformação institucional a partir de fatores internacionais, das políticas nacionais de ciência e tecnologia e de informação científica e tecnológica e das mudanças ocorridas no próprio CNPq.
Em 25 de março de 1976, a Resolução Executiva nº 20 do CNPq criou o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) como desenvolvimento do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação. A reorganização acompanhou uma ampliação da atuação institucional, inserida em um contexto no qual a informação científica e tecnológica passava a integrar de forma mais explícita as políticas nacionais de ciência e tecnologia.
Atuação
A atuação do Ibict abrange a organização e o acesso à informação científica e tecnológica, a comunicação científica, o acesso aberto e a preservação digital. Parte dessas atividades é desenvolvida por meio de redes cooperativas formadas por universidades, bibliotecas e instituições de pesquisa.
Controle bibliográfico e acesso à informação
Entre os serviços de informação mantidos pelo instituto está o Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Seriadas (CCN), criado em 1954 pelo então IBBD. O catálogo reúne informações sobre coleções de publicações seriadas técnico-científicas, nacionais e estrangeiras, disponíveis em bibliotecas brasileiras.
O Ibict também exerce funções relacionadas ao International Standard Serial Number (ISSN). O instituto atua como centro nacional da Rede ISSN desde a década de 1970, função formalizada em 1980 por acordo entre o Centro Internacional do ISSN e o CNPq. Como Centro Brasileiro do ISSN, é responsável pela atribuição do identificador a recursos contínuos publicados no Brasil.
Outra iniciativa relacionada ao acesso a documentos é o Programa de Comutação Bibliográfica (COMUT), instituído em 1980 pelo então Ministério da Educação e Cultura, inicialmente sob responsabilidade da Capes. No mesmo ano, o Ibict passou a compartilhar com a Capes a responsabilidade pelo programa. Desenvolvido de forma cooperativa, o COMUT facilita o acesso a documentos técnico-científicos disponíveis em bibliotecas brasileiras e em serviços de informação do exterior.
Comunicação científica e acesso aberto
A partir dos anos 2000, o instituto passou a desenvolver e apoiar infraestruturas digitais relacionadas ao acesso aberto à produção científica. Entre elas está a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), cuja criação foi aprovada em 2002, após a realização de estudos e de um projeto-piloto com participação de universidades e outras instituições brasileiras.
A BDTD funciona de forma distribuída, integrando sistemas mantidos pelas instituições participantes. Em estudo sobre sua concepção e implantação, Sílvia Barcellos Southwick descreveu o projeto como uma iniciativa colaborativa entre o Ibict, universidades e centros de pesquisa, baseada nos padrões da Open Archives Initiative, na qual as instituições participantes atuam como provedoras de dados e o Ibict como provedor de serviço. A biblioteca foi também integrada à Networked Digital Library of Theses and Dissertations (NDLTD).
No campo dos periódicos científicos eletrônicos, o Ibict participou da difusão no Brasil do Open Journal Systems (OJS), software de código aberto desenvolvido pelo Public Knowledge Project. A versão traduzida e adaptada pelo instituto passou a ser difundida a partir de 2003 sob a denominação Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER). Bandeira e Freire analisaram a implantação do SEER entre 2003 e 2015 como parte da participação do Ibict na disseminação do acesso aberto à informação científica no país.
O instituto mantém ainda o Portal Brasileiro de Publicações e Dados Científicos em Acesso Aberto (Oasisbr), mecanismo de busca que agrega produção científica disponibilizada em acesso aberto por universidades, institutos de pesquisa e periódicos científicos brasileiros.
Preservação digital
Na área de preservação digital, o Ibict coordena a Rede Brasileira de Serviços de Preservação Digital (Rede Cariniana). A rede utiliza uma infraestrutura distribuída e estabelece cooperação com instituições responsáveis por acervos digitais, incluindo periódicos científicos, repositórios e outras coleções digitais.
A implantação da rede incorporou tecnologias de preservação distribuída, entre elas o sistema LOCKSS, desenvolvido pela Universidade Stanford. Estudos sobre a Cariniana têm abordado sua aplicação à preservação de periódicos eletrônicos brasileiros e as políticas necessárias à manutenção desses conteúdos em longo prazo.
Ligações externas Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Biblioteca Lydia de Queiroz Sambaquy
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