Cabeça Dinossauro é o terceiro álbum de estúdio da banda brasileira de rock Titãs, lançado em 25 de junho de 1986 pela gravadora WEA. Marcou a estreia da parceria da banda com o produtor Liminha, que, na época, era diretor da WEA, o que facilitou a aproximação de ambas as partes. Também garantiu o primeiro disco de ouro deles, recebido em dezembro do mesmo ano.
O álbum marca a mudança sonora que o grupo queria tomar a partir de uma fusão de fatores, como o "relativo fracasso" de seu álbum anterior, Televisão, a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto no final do 1985 e a relação dos Titãs com sua gravadora.
As sessões de gravação aconteceram no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, entre os meses de março e abril. A nova paleta sonora da banda apresentou influências evidentes do punk rock, pós-punk, funk rock e reggae. Para o crítico Alberto Villas, escrevendo na época de seu lançamento para O Estado de S. Paulo, "é um disco chocante, punk, nervoso e muito curioso. Um disco de 'rock-veneno', um grito. Um álbum de surpresas."
Cabeça Dinossauro se tornou um dos discos fundamentais do rock brasileiro, e ao lado de outros trabalhos musicais, configurou o cenário brasileiro em meio à redemocratização. É reconhecido por sua famosa capa que apresenta um esboço de Leonardo Da Vinci, intitulado "A expressão de um homem urrando". O álbum trouxe sucessos da banda, como "Homem Primata", "Família" e "Bichos Escrotos". Em 2007, foi incluído na lista dos "100 Melhores Discos da Música Brasileira" da revista Rolling Stone Brasil, ficando na 19ª posição.
Contexto
A prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína no final do ano anterior, o "relativo fracasso" de Televisão e a clara vontade da banda de buscar uma sonoridade pesada influenciaram na mudança estética que tomariam neste disco. Além disso, eles não decidiram virar punks da "noite para o dia". Os ingredientes, segundo Sérgio Britto, já estavam presentes no grupo anteriormente; Belloto vê "Massacre", do disco anterior, como um indicativo dessa sonoridade mais pesada que viria.
Em fevereiro de 1986, antes de uma apresentação em São Paulo, Branco Mello já havia antecipado ao jornal O Estado de S. Paulo que o próximo álbum dos Titãs teria um "rock mais seco, mais cru" e um som "mais primitivo, mais visceral".
Bellotto disse ainda que a banda já dava sinais desta sonoridade no palco, dizendo que "o tempo mostrou que essa vertente estava no nosso DNA, por isso o Cabeça é uma grande marca, com toda a coisa do questionamento, com a crítica que a gente vê nas letras, com o punk, mas também o reggae, o funk. Acho que nesse disco a gente achou o caminho." Para o coprodutor Pena Schmidt, Cabeça Dinossauro "era o momento da verdade. Os Titãs tinham crises entre se entregar à perfeição fonográfica ou à afirmação da rebeldia. Ali o resultado se equilibra faixa a faixa."
A banda também buscava estabelecer uma identidade mais clara, algo que não haviam conseguido até então com uma formação incomum de oito integrantes, vários vocalistas e nenhum crooner. Um exemplo disso foi um show que fizeram num festival em comemoração aos 20 anos de carreira de Gilberto Gil, quando subiram ao palco logo após Os Paralamas do Sucesso. Gil os apresentou dizendo: "Os Paralamas sobrem ao palco em trio e seu som lembra o de um trem. Os Titãs sobem em oito e soam como uma caixinha de música".
Produção e gravação Apesar dos próprios Titãs terem criticado o trabalho anterior do produtor Liminha, chamando-o de "pasteurizador", ele acabou contratado para produzir Cabeça Dinossauro. O material musical do disco já estava definido antes das sessões de gravação começarem. A banda tinha a vontade de reproduzir em estúdio a energia que eles acreditavam ter no palco. O álbum foi gravado e mixado em um mês no estúdio Nas Nuvens, no Jardim Botânico, enquanto sua fita demo foi gravada em apenas dois dias em fevereiro de 1986, em um estúdio na Pompeia.
A primeira canção a ser gravada foi "AA UU", que já era tocada em shows e seria escolhida para ser o primeiro single do álbum. A última a ser gravada foi a faixa de encerramento, "O Que". "O Que" e "Família" foram as únicas que sofreram mudanças significativas em seus arranjos. O vocal de "A Face do Destruidor" foi gravado "em um fôlego só", em cima de uma base instrumental tocada de trás para frente. Segundo Britto, "quando gravamos, tínhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira". Alguns dos solos de Bellotto foram feitos alternando a palheta com um anel grande que ele usava. Desta forma, ele tocava ao mesmo tempo em que fazia uma espécie de percussão na guitarra.
Arte da capa A capa do álbum foi baseada em um esboço do pintor italiano Leonardo da Vinci, intitulado "A expressão de um homem urrando". Um outro desenho de Da Vinci, "Cabeça grotesca", serviu como a contracapa. Ambos os acetatos das imagens vieram diretamente do Museu do Louvre, trazidos por um amigo de Almino Monteiro, pai de Britto. Eles vieram substituir pequenas reproduções das quais a banda dispunha mas que tinham qualidade insuficiente para o projeto. Foi uma das primeiras capas do rock brasileiro a não envolverem uma foto do artista.
Conforme relatou Sérgio em 2006: "As primeiras 30 mil cópias do disco foram feitas em um papel fosco e poroso muito mais caro que o normal. Generosidade do André Midani, então presidente da Warner, que nos deu total apoio antes, durante e depois da gravação, atendendo a quase tudo o que pedíamos."
Em 1987, a arte da capa foi a vencedora do prêmio "Concurso Company de Capas de Rock", promovido pela Rádio Cidade, do Rio de Janeiro.
Canções
Lado um "Cabeça Dinossauro" foi concebida durante uma viagem de ônibus da banda. Paulo Miklos mostrou aos colegas uma fita cassete com gravações de música Xingu. Sobre aquele ritmo, Mello improvisou os primeiros versos, e logo, a letra estava pronta. Outra fonte conta que Miklos pegou seu violão e começou a executar as notas Ré e Dó sustenido, numa sequência que remetia ao tema de Tubarão. Mello, sentado na fileira seguinte, levantou e começou a cantar os versos "Cabeça dinossauro. Cabeça dinossauro. Cabeça, cabeça. Cabeça dinossauro". Depois de alguns minutos, ele veio com os outros versos: "Pança de elefante. Pança de elefante. Pança, pança. Pança de elefante". O último verso, "Espírito de porco. Espírito de porco. Espírito, espírito. Espírito de porco", foi proferido por Antunes, que dormia na primeira fileira e se levantou para vir esbravejar as palavras. A letra sofreu uma única alteração antes de ser gravada: "elefante" foi trocado por "mamute". A percussão da faixa foi tocada por Liminha. Após várias tentativas elaboradas, ele a improvisou com as paredes, o chão e as colunas do estúdio, e a performance "em transe" foi aprovada por todos.
"AA UU" foi composta por Marcelo Fromer e Britto, sendo a primeira faixa a ser gravada para o disco. Ela já era tocada antes em shows. Foi tocada por rádios, mas não sem resistência. Ela só estourou após seu clipe ser exibido no programa Fantástico. Foi incluída na telenovela Hipertensão, e na trilha sonora do filme Meu Nome Não É Johnny, de 2008. A faixa expressa a frustração da banda em não conseguir se comunicar.
"Igreja" foi composta por Nando Reis na casa de sua mãe. Foi uma das últimas canções a entrar no álbum e provocou discórdia entre os membros. Antunes inicialmente se recusou a gravar a canção, e chegou a deixar o palco em algumas ocasiões em que ela foi apresentada ao vivo. Miklos também se opôs à inclusão da faixa, porém mudou de ideia após executá-la nos shows.
"Polícia" foi composta pelo Bellotto, inspirada em sua prisão por porte de heroína no final de 1985. Bellotto tinha em mente Miklos nos vocais, porém, como Britto havia cantado em apenas outras duas canções, acabou ficando com esta. Os membros da banda não achavam que a faixa tinha potencial em primeiro momento, e Bellotto mais tarde atestou "ingenuidade" na letra.
"Estado Violência" foi composta por Charles Gavin, e havia sido inicialmente oferecida ao Ira!, banda na qual ele tocava antes. Reis o ajudou a estruturar a canção, mas não interveio o suficiente para querer constar como coautor. A letra, por sua vez, a exemplo de "Polícia", também foi inspirada pela prisão de seus dois colegas de banda, mais especificamente pelo poder de que o Estado dispõe para "julgar o que você faz na sua casa, com o seu corpo". A faixa foi composta num quarto de hotel no Rio de Janeiro, após Antunes e Mello passarem uma noite em claro na casa de Lobão, e voltarem de lá exaustos.
Lado dois "Bichos Escrotos" foi composta por Reis, Britto e Antunes. Durante a gravação de uma demo, os três aproveitaram para descansar em um pátio. Em dado momento, Reis viu uma barata saindo de um ralo e isso inspirou os três a começarem a criar uma canção sobre o tema ali mesmo. Segundo ele, a letra utiliza os animais citados (baratas, ratos e pulgas), que são considerados marginais, como metáforas para os próprios Titãs, que buscavam fugir de padrões e estereótipos estéticos, musicais e morais.
"Família" foi composta por Antunes e Bellotto, e retrata eventos do dia-a-dia de uma família típica. É musicalmente estruturada no reggae, e sua versão inicial tinha um andamento mais lento. Liminha a tornou mais longa, embora a banda não tenha gostado imediatamente do resultado.
"Homem Primata" já havia sido feita antes das sessões. Entre os compositores, Ciro Pessoa, vocalista que resolveu sair da banda antes da gravação do primeiro álbum. O videoclipe da canção começa com a banda em imagens preto e branco andando em meio a uma multidão, com imagens alternadas de homens das cavernas. Depois (agora em cores), a banda picha um caminhão (com ilustrações que incluem o símbolo do anarquismo) e passa a tocar a canção em cima do mesmo, enquanto passeiam pelo Centro de São Paulo. Alternadamente, imagens da banda tocando dentro de uma jaula com pessoas assistindo de fora aparecem.
"O Que" é composta e cantada por Antunes, sendo a canção de maior duração do álbum. Foi a última faixa gravada para Cabeça Dinossauro e a que mais sofreu mudanças em seu arranjo. O uso de experimentações da música eletrônica influenciaria os próximos trabalhos dos Titãs, principalmente seu álbum seguinte, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas.
Lançamento e recepção crítica
Precedido pelo single "AA UU", Cabeça Dinossauro foi lançado em 25 de junho de 1986 pela gravadora WEA. Inicialmente ignorado pelas rádios, o disco rendeu uma turnê nacional que, até dezembro daquele ano, já havia levado o grupo a cerca de quarenta palcos. Na época, estava prevista para ir até abril do ano seguinte. Os cenários dos palcos traziam peles de animais.
O revisor Alberto Villas, escrevendo para O Estado de S. Paulo, afirmou que o álbum era "a grande surpresa do ano. (...) É um disco chocante, punk, nervoso e muito curioso. Um disco de 'rock-veneno', um grito. Um álbum de surpresas." Villas também disse não conseguir "achar os Titãs", dizendo: "Cólera? Olho Seco? Exploited? Bauhaus? Que som é esse?"
Desempenho comercial e divulgação Na época do lançamento do álbum, Bellotto apostou uma garrafa de uísque com Mello que o álbum não chegaria a 100 mil cópias vendidas. Ele acabou perdendo a aposta (o disco atingiu a marca em dezembro). Até seu primeiro aniversário, é certo que o álbum havia vendido 250 mil cópias, número que havia aumentado para 700 mil em 2016. Quando atingiu a marca de 100 mil, rendeu à banda o seu primeiro disco de ouro, e a marca foi celebrada com um show em São Paulo. Só no período até o primeiro show da turnê, em 23 de agosto, o disco já havia vendido mais que seus dois antecessores somados.