Atlântida das Areias é o nome dado a um lendário local perdido nos desertos do sul da Península Arábica, conhecido como Ūbār ou Awbār () e também como Wabār ou Wubār (), em árabe. Acredita-se que tenha sido destruído por um desastre natural ou como punição divina.
O nome em inglês é comumente atribuído a T. E. Lawrence no século XX, mas ele nunca aparece em suas obras publicadas. Nem Bertram Thomas, que tornou o termo público (e provavelmente foi quem realmente cunhou a expressão), nem Ranulph Fiennes e Nicholas Clapp, que o popularizaram, atribuíram tal termo a Lawrence.
Frequentemente se afirma que Ubar é mencionado no Alcorão e em As Mil e Uma Noites, mas isso é incorreto. O equívoco surge da associação feita por Nicholas Clapp entre Ubar e Iram, associação que não é geralmente aceita entre estudiosos.
Introdução Nos tempos modernos, o mistério da cidade perdida de Atlântida inspirou inúmeros livros, filmes, artigos e páginas da Web. (Ver Atlântida na cultura popular) De modo semelhante, o mundo árabe possui sua própria lenda de uma cidade perdida — a chamada Atlântida das Areias —, que continua a gerar debate entre historiadores, arqueólogos e exploradores.
Em fevereiro de 1992, o jornal The New York Times anunciou uma grande descoberta arqueológica:
A descoberta foi resultado do trabalho de uma equipe liderada por Nicholas Clapp, que escavou um poço beduíno em Shisr, província de Dófar, Omã. Com base nas escavações e em imagens de satélite, Clapp concluiu que o local correspondia a Ubar, que ele identificou como Iram dos Pilares, nome mencionado no Alcorão, que pode designar uma cidade perdida, uma tribo ou uma região.
Outro membro da expedição, Sir Ranulph Fiennes, afirmou que esse seria o Omanum Emporium do famoso mapa de Cláudio Ptolomeu sobre a Arábia Feliz.
Atualmente, uma placa no sítio arqueológico de Shisr declara:
Entretanto, estudiosos permanecem divididos sobre se este realmente é o local da lendária cidade perdida das areias.
Primeiros exploradores em Dófar Em 1930, o explorador Bertram Thomas aproximava-se da borda sul do Rub' al Khali (“O Quarto Vazio”). Thomas pretendia ser o primeiro europeu a cruzar o grande deserto, mas, ao iniciar sua jornada de camelo, ouviu de seus guias beduínos a história de uma cidade perdida cujos habitantes, por sua maldade, haviam sido destruídos pela ira divina. Ele não encontrou vestígios da cidade, mas marcou no mapa uma trilha que, segundo os guias, levava à lendária Ubar. Apesar de planejar retornar, nunca pôde fazê-lo.
A história da cidade perdida tornou-se uma obsessão entre exploradores. T. E. Lawrence acreditava que ruínas de uma antiga civilização árabe podiam ser encontradas no deserto e chegou a considerar o uso de um dirigível para procurá-las, mas seus planos nunca se concretizaram.
O explorador inglês Wilfred Thesiger visitou o poço de Shisr na primavera de 1946, descrevendo “as ruínas de um rude forte de pedra sobre um afloramento rochoso, marcando a posição deste famoso poço”. Ele observou que alguns fragmentos de cerâmica encontrados ali poderiam ser do início do período islâmico. O poço era o único ponto permanente de água na região, e palco de confrontos entre beduínos por séculos.
miniatura|direita|upright=1.1|Ruínas do antigo forte em Shisr, Dófar, Omã.
Em 1948, uma equipe geológica da empresa Petroleum Development (Oman and Dhofar) Ltd., associada à Iraq Petroleum Company, fez um levantamento da província de Dófar. Como Thesiger, aproximaram-se de Shisr pelo sul, avistando um penhasco branco que, de perto, revelou-se a muralha de um forte em ruínas construído sobre uma grande caverna parcialmente soterrada por areia.
O forte havia sido erguido com a mesma rocha branca do penhasco, dando-lhe aparência de estrutura única. Um dos geólogos registrou: “Não há casas, tendas ou pessoas aqui — apenas as ruínas desabadas deste forte pré-islâmico.” Sem ferramentas arqueológicas modernas, consideraram-no sem importância. Três dias depois, partiram, após grande dificuldade para extrair água do poço.
Em 1953, o filantropo e arqueólogo Wendell Phillips tentou seguir a trilha de Thomas, mas as areias pesadas o impediram.
Cerca de 35 anos depois, Clapp e sua equipe afirmaram ter descoberto sob o forte desabado uma grande fortificação octogonal com cerca de dois milênios. Sob o portão principal havia uma mesa calcária que desmoronara em um enorme sumidouro. Alguns acreditaram que se tratava da mítica cidade de Ubar — também conhecida como **Iram** — ou, ao menos, de uma cidade da região outrora próspera na rota do incenso.
Alguns intérpretes religiosos sustentaram que a cidade teria sido destruída como punição divina. O Alcorão descreve Iram assim:
Pesquisas posteriores, porém, indicaram que Iram possivelmente corresponde a Wadi Rum, com base em inscrições safaíticas encontradas na região.
Teorias sobre a localização
Dófar O guia de Bertram Thomas apontou para largas trilhas entre as dunas e disse:
Thomas escreveu ainda:
Rub' al-Khali (O Quarto Vazio) A maior parte das narrativas situa a cidade perdida em algum ponto do Rub' al Khali, o chamado “Quarto Vazio”, vasta região de dunas que cobre o sul da Península Arábica, incluindo grande parte da Arábia Saudita e trechos de Omã, Emirados Árabes Unidos e Iémen.
O explorador inglês St. John Philby — que preferia o nome “Wabar” para a cidade perdida — servia como conselheiro do emir Abdulaziz ibne Saud em Riade. Seu guia beduíno lhe contou sobre um local com ruínas de castelos, onde o rei ʿĀd teria guardado seus cavalos e esposas antes de ser destruído por fogo do céu.
Determinando-se a encontrar o local, Philby partiu em busca da cidade, mas acabou descobrindo o que descreveu como um “vulcão extinto semilacrado pelas areias”, ou possivelmente os restos de um impacto de meteorito. Pesquisas modernas confirmaram que a depressão nas areias foi causada por um evento de impacto antigo.
O geólogo H. Stewart Edgell observou que, “nos últimos seis mil anos, o Quarto Vazio tem sido continuamente um deserto de dunas, ambiente hostil onde nenhuma cidade poderia ter sido construída”.
Shisr Nicholas Clapp afirmou que a descoberta das ruínas de torres no sítio arqueológico de Shisr sustentava a teoria de que esse seria o local de Ubar — a cidade de ʿĀd com “altas colunas” descrita no Alcorão. Bertram Thomas, porém, havia descartado o forte de Ash Shisr como uma construção rústica de apenas alguns séculos.
Omanum Emporium O explorador Ranulph Fiennes especulou que Ubar seria o local identificado em antigos mapas como Omanum Emporium, nome que aparece em um mapa da Arábia compilado por Cláudio Ptolomeu por volta de 150 d.C.
Outras teorias A exploradora Freya Stark analisou os textos de geógrafos árabes e encontrou uma grande diversidade de opiniões sobre a localização de Wabar:
Concluiu então:
As descobertas em Shisr
A busca de Nicholas Clapp por Ubar começou após ele ler o livro Arabia Felix, de Bertram Thomas. Clapp havia retornado de Omã, onde ajudara na criação de um santuário para Órix na Jiddat al-Harasis, e ficou inspirado pelas referências de Thomas à cidade perdida.
Ele iniciou sua pesquisa na biblioteca da Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde encontrou um mapa do século II d.C., elaborado pelo geógrafo alexandrino Cláudio Ptolomeu, que mostrava um lugar chamado Omanum Emporium. Clapp especulou que esse poderia ser o local de Ubar, situado na rota do incenso entre Dófar e o Mediterrâneo. Sabendo que ruínas maias haviam sido identificadas por fotografias aéreas, Clapp entrou em contato com o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA e obteve imagens de satélite de Dófar. Essas imagens revelaram trilhas antigas de caravanas de camelos escondidas sob as areias do deserto, que podiam indicar poços e antigos centros comerciais.
Após visitar vários locais possíveis para Ubar, a equipe de Clapp voltou-se novamente às ruínas de Shisr. Embora exploradores anteriores tivessem considerado o forte local como uma construção recente, a equipe de Clapp começou a suspeitar que ele poderia ter sido reconstruído no século XVI sobre uma estrutura muito mais antiga.
Sob a direção do arqueólogo Juris Zarins, as escavações revelaram, em poucas semanas, muralhas e torres de uma fortaleza com mais de 2.000 anos. Clapp considerou as evidências “uma correspondência convincente” com a lendária cidade perdida de Ubar. Ele sugeriu que sua destruição teria ocorrido entre os anos 300 e 500 d.C., em consequência de um terremoto que provocou o colapso da mesa de calcário sobre a qual a cidade se erguia. Entretanto, o declínio do comércio de incenso e o esvaziamento das rotas de caravanas também teriam contribuído para o fim de Ubar.
miniatura|direita|upright=1.1|Ruínas escavadas no sítio arqueológico de Shisr, possivelmente associadas à lendária Ubar.
Zarins, contudo, discordou de Clapp. Em uma entrevista concedida em 1996, ele afirmou:
Em trabalhos posteriores, Zarins sugeriu que o verdadeiro local de Ubar poderia ser Habarut.
Em 2007, após novas pesquisas e escavações, os resultados gerais foram resumidos da seguinte forma:
As escavações indicaram um longo período de comércio intenso na área de Shisr, comprovado por artefatos de origem persa, romana e grega. O forte seria o mais oriental de uma série de antigos caravançarais que sustentavam a rota do incenso. Não há evidências de que a cidade tenha sido destruída por uma tempestade de areia. Parte do forte desabou em um sumidouro, provavelmente causado pela retirada de água subterrânea para irrigação. O nome “Ubar” parece referir-se a uma região, e não a uma cidade, correspondente à “Terra dos Iobaritas” de Ptolomeu. O declínio da região deveu-se provavelmente à queda do comércio de incenso após a Cristianização do Império Romano, que reduziu a demanda por resinas aromáticas, e a mudanças climáticas que tornaram o transporte marítimo mais viável. A importância arqueológica do sítio foi reforçada por imagens de satélite que revelaram uma rede de trilhas convergindo para Shisr, algumas sob dunas de até 100 metros de altura. Não foram encontrados outros grandes sítios não documentados na região que pudessem corresponder à “Ubar” lendária.
Recepção crítica
A imprensa da Arábia Saudita reagiu com ceticismo à identificação de Ubar em território omanense. Abdullah al-Masri, então subsecretário-adjunto de Assuntos Arqueológicos, declarou ao jornal Asharq al Awsat:
Ainda assim, o professor Mohammed Bakalla, da Universidade Rei Saud, afirmou que não se surpreenderia se as cidades da nação de ʿĀd fossem encontradas sob as escavações de Shisr ou em suas proximidades.
Pesquisadores posteriores mostraram-se igualmente céticos quanto à precisão das conclusões de Nicholas Clapp. Críticos apontaram que o próprio autor prejudicou a credibilidade de sua narrativa ao incluir, em seu livro The Road to Ubar, um capítulo especulativo sobre o “rei de Ubar”, o que, segundo alguns, diluiu o rigor científico de suas descrições.
A identificação de Shisr como o Omanum Emporium também foi questionada. O pesquisador Nigel Groom argumentou, em artigo publicado em 1994 na revista Arabian Archaeology and Epigraphy, que o mapa de Cláudio Ptolomeu contém “muitas distorções” e que o termo “emporium” (em grego, “local de comércio atacadista”) poderia se referir tanto a uma cidade portuária quanto a um centro de coleta de impostos no interior. Com base em coordenadas geográficas antigas, Groom sugeriu que o Omanum Emporium talvez estivesse localizado em Izki ou Nizwa, no centro de Omã.
O geólogo H. Stewart Edgell sustentou que Ubar é essencialmente um mito e que o sítio de Shisr provavelmente não passou de um pequeno caravançarai, ocupado por poucas famílias. Para Edgell, a “descoberta” de Ubar demonstra o quanto até cientistas podem sucumbir ao desejo de confirmar uma lenda.
O professor Barri Jones, em artigo publicado na revista Minerva em 1992, escreveu: