miniaturadaimagem|Palmyra Wanderley em sua juventude Palmira Guimarães Wanderley (Natal, 6 de agosto de 1894 — Natal, 18 de novembro de 1978) foi uma escritora e poetisa brasileira, reconhecida como a precursora do jornalismo feminino do Rio Grande do Norte.Secretaria Extraordinária de Cultura. Fundação José Augusto. Mulher Portiguar Século XIX — A Mulher Potiguar, Cinco Séculos de Presença. Palmira Wanderley. ACERVO. Disponível em: <DOC000000000106151.PDF>. Acesso em 13 de setembro de 2025.

Figura central da literatura engajada do Rio Grande do Norte, é considerada sucessora de Nísia Floresta e uma das pioneiras em dar voz às lutas feministas das primeiras décadas do século XX, sobretudo no cenário cultural brasileiro das letras.

Vida Foi a terceira dos quatorze filhos do desembargador Celestino Carlos Wanderley e da escritora amazonense Ana Freitas Guimarães.

Dentre seus irmãos, três faleceram ainda crianças: Marta, Lauro e Amélia, sua irmã de criação. Os demais não se desvincularam do traço artístico da família, seguindo carreira ou casando-se com outros intelectuais, como foi o caso de Eponina, Maria Cármen, Cônego Luís e Renato Guimarães Wanderley.

Ainda entre seus irmãos, destacam-se o poeta Jayme dos Guimarães Wanderley, o teatrólogo José dos Guimarães Wanderley, o médico cardiologista Lauro dos Guimarães Wanderley e as freiras, Francisca Carolina (Irmã Marta) e Rosilda (Irmã Rosali).CARVALHO, Isabel Cristine Machado de. Palmyra Wanderley e a educação da mulher no cenário Norte-rio-grandense (1914-1920). Dissertação de mestrado ao Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2004. esquerda|miniaturadaimagem|Palmyra acompanhada de familiares. Era neta de Luís Carlos Wanderley, o primeiro médico norte-rio-grandense, e sua primeira esposa, Francisca Carolina Wanderley. Pertenceu aos Wanderley, família reconhecida no Rio Grande do Norte pelo número expressivo de intelectuais, artistas, poetas e músicos. Segundo Luís Câmara Cascudo, numa família de “Apolo”, inevitavelmente, Palmyra não escapou das sete cordas da lira. Foi, também, bisneta do fundador do primeiro jornal do estado, o Assuense, João Carlos Wanderley.SILVEIRA, Marília Gonçalves Borges. Roseira Brava: Pós-romantismo e modernidade na poética de Palmyra Wanderley. Tese de Doutorado - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2016.

No auge da sua produção literária, em 1917, noivou com Moysés Soares de Araújo, advogado, deputado estadual e jornalista. Durante os preparativos para o casamento, próximo ao aniversário de 23 anos de Palmyra, ele faleceu de cirrose.

Em 1930, contrariando a família, casou-se com Raimundo de França, homem simples, mestiço e funcionário dos Correios e Telégrafos. Palmyra tinha 46 anos, considerada uma senhora aos padrões da época. O casamento pode ter sido motivado pelo seu medo de ficar solteira, o que pode ter contribuído para um casamento infeliz. Apesar da festa preparada para 400 convidados, apenas cinco compareceram, afirmando os preconceitos de cor entranhados nas relações sociais do seu tempo.

Palmyra não teve filhos e viu sua herança ser dissipada pelos maus negócios de seu marido, que também sustentava uma segunda família.

Educação Além de abastados, os Wanderley destacavam-se pela educação fornecida às mulheres e incentivo às artes. Além de Palmyra, outras figuras femininas da sua família foram poetisas, dramaturgas, teatrólogas e autoras de crônicas, contos e hinos, como Sinhazinha Wanderley (1886-1954), Virgília Wanderley (1882-1960), Carolina Wanderley (1891-1975), Eponira dos Guimarães Wanderley (1892-1914), Alice Wanderley (1894-1964) e outras.

Iniciou seus estudos em 1902 no Colégio da Imaculada Conceição (CIC) das irmãs doroteias, onde permaneceu até 1909. O CIC era uma das instituições potiguares destinadas à educação feminina, assim como o Colégio Nossa Senhora das Neves, ambos de orientação católica. A rigidez de normas de conduta no período restringia leituras vistas como subversivas, o que pode ter aguçado a sua insatisfação com a condição das mulheres da sua época, principalmente sobre a educação que lhes era oferecida. Sua percepção sensível da realidade, contudo, resistiu a essas barreiras.

Entre 1910 e 1914, junto às outras moças da família, estudou em Recife, no Instituto das Damas da Instrução Cristã.

Ao longo da vida, manteve o comportamento religioso. Católica assumida, participou assiduamente de eventos da igreja, compondo hinos e escrevendo poemas de temática religiosa.

O prestígio do nome com "Y" Com o casamento, além da ortografia de batismo, “Palmira”, em algumas fontes o seu nome também aparece como “Palmyra Wanderley de França”. A preferência da autora pela grafia "Palmyra" é objeto de debate.

Além de sugestões como escolha estilística ou casualidade, também convém considerar sua época, em que mulheres buscavam reconhecimento em espaços majoritariamente masculinos, como o campo literário. O uso do "Y", incomum no português contemporâneo de Palmira, conferia distinção e prestígio, alinhado ao ambiente intelectual e elitizado, acrescentando sofisticação, modernidade e favorecendo a aceitação literária e jornalística.

Essa opção também pode expressar a necessidade de resistência e afirmação das barreiras enfrentadas pelas mulheres como produtoras de conhecimento, em busca de respeito, reconhecimento e espaço.

Morte Segundo relatos de familiares, Raimundo França, marido de Palmyra, teria sido responsável pelo declínio financeiro que marcou os seus últimos anos. O patrimônio herdado foi comprometido, já que ele fornecia aval a todos que o solicitavam e, em consequência, acabou sendo obrigado a vender os bens da esposa para quitar as dívidas.

Apesar da longa vida, Palmyra faleceu pobre e esquecida, em 18 de novembro de 1978, aos 84 anos, na Casa de Saúde São Lucas. Em condições provavelmente associadas à idade avançada, foi vítima de insuficiência cardiorrespiratória e vascular cerebral.

Palmyra foi sepultada no Cemitério do Alecrim, sob o discurso de Diógenes da Cunha Lima.

Vida social esquerda|miniaturadaimagem|Palmyra pela revista Cigarra. O espaço urbano de Natal, na década de 1920, adentrando na Belle Époque, buscava intervenções para acompanhar a modernização ou, ao menos, imitar Paris, seu modelo inspirador. Embora distante da capital francesa, construções como o Teatro Carlos Gomes e o jardim da Praça Augusto Severo interligaram espaços sociais, surgindo áreas de lazer, cultura e educação. Cafés, bilhares, salões e conferências de jornais eram constantemente frequentados pelos grupos letrados, a elite e intelectuais potiguares. Nesses ambientes, a troca de experiências e manifestações favoreciam a circulação de ideias. Com a intensa vida social nas primeiras décadas do século, Palmyra frequentava reuniões, saraus literários e clubes. Neles, declamava versos, realizava conferências e produzia um arcabouço literário de eventuais artigos, crônicas e contos que abordavam a condição feminina e ideias emancipadoras.SILVA, Maiara Juliana Gonçalves da. Feminismo em marcha: reflexões feministas em Palmyra Wanderley (1914-1928). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, XXVIII, Florianópolis, 2015. miniaturadaimagem|300x300px|Palmyra Wanderley e suas amigas, pela revista Cigarra, na década de 1920. Nesse período, os espaços literários recebiam uma boa quantidade de mulheres, muitas vezes registradas pela revista Cigarra. Entre os flagrantes, Palmyra aparece com um grupo de amigas no Restaurante Rotisserie, todas de cabelos curtos, sem espartilhos e com saias mais curtas, em trajes considerados libertários à época.

Frequentava, ainda, o Natal-Club, associação restrita a sócios homens, privilégio de poucos. Sua presença pode ter ocorrido pelo parentesco com o tio Ezequiel Wanderley, pelo noivado com o então sócio, Moysés Soares, ou pelo destaque que já possuía no campo jornalístico na década de 1910.

O clube, além de promover bailes, realizava a “Hora Literária”, com leitura, declamação e apreciação de produções literárias, contando com a presença de escritores locais. Palmyra e Carolina Wanderley foram convidadas para a 'Hora Literária' do 11º aniversário do clube, como anunciou o jornal A República em 9 de julho de 1917. esquerda|miniaturadaimagem|Nota no jornal A República, de 28 de dezembro de 1923.

Apoio às camadas mais carentes da população natalense Em 13 de dezembro de 1923, o jornal A República noticiou a grande quermesse que ocorreria na noite de Natal nos jardins do Palácio do Governo, organizada por senhoras da sociedade para arrecadas fundos ao Instituto de Proteção e Assistência à Infância (IPAI), visando a construção do que projetavam ser o Hospital das Crianças, atualmente Hospital Infantil Varela Santiago.

Num período de altos índices de mortalidade infantil e condições precárias de higiene e saúde pública, Palmyra Wanderley, já reconhecida como intelectual de destaque, reuniu-se com mais de 50 mulheres, em sua maioria da elite natalense, engajadas na obra. A participação feminina foi significativa diante do predomínio patriarcal e do forte machismo em Natal.

Durante o evento, Palmyra também destacou a figura de Fabião das Queimadas, preferindo valorizar um artista idoso, negro e ex-escravizado ao invés do comodismo de apresentações clássicas, voltadas ao gosto europeu, ou artistas de outras capitais, como era de costume. Aos 62 anos, em uma época em que a expectativa de vida era de 60 anos, Fabião declamava versos com uma rabeca e se fazia notório no estado.

A quermesse atraiu cerca de 4 mil pessoas, exigindo mudança de espaço para a principal praça da cidade, que costumava ficar deserta à noite. Junto de Manuel Varela Santiago Sobrinho, médico especializado em pediatria, pioneiro do IPAI, Palmyra e as demais colaboradoras agradeceram pessoalmente ao público durante o evento.

Carreira miniaturadaimagem|Dedicatória de "Roseira Brava" a Moysés Soares, seu primeiro noivo. No início do século XX, diante das rápidas transformações no cenário brasileiro, como o fim do império, a consolidação da república, o êxodo rural e o Modernismo, a arte e a literatura tornaram-se meios de expressão e resistência, conciliando inovação e desafio.

No Rio Grande do Norte, a literatura ainda estava em ascensão, mas dominada por homens. Palmyra, considerada uma das vozes femininas mais importantes do estado na primeira metade do século, era elogiada pela crítica e constantemente convidada a tertúlias e saraus literomusicais, ocasiões que inspiraram poemas e contribuíram para o seu reconhecimento.

Enquanto o Brasil buscava uma identidade cultural após a Semana de 22, Palmyra construía uma poesia que equilibrava o regional e o universal, tradicional e moderno, somando a coragem de escrever em um mundo hostil à expressão feminina.

Em seus escritos, assumiu pseudônimos como “Mirthô”, “Li lá”, “Masako” e “Ângela Marialva”. Do seu trabalho, muitas crônicas, textos teatrais, conferências, contos e críticas de arte permanecem inéditos. miniaturadaimagem|Palácio do Governo, na praça Sete de Setembro.

Educadora e "Aliança Feminina" Embora sem formação pedagógica, Palmyra atuou como educadora, sobretudo em sua participação na Aliança Feminina, entidade católica formada por mulheres natalenses. Iniciativas como o Curso Comercial Feminino, a Casa de Proteção às Moças Solteiras e a Escola Primária Noturna atendiam mulheres operárias, preparando-as para o trabalho que ainda era restrito à indústria têxtil e ao comércio.

Em março de 1921, Palmyra proferiu uma conferência no Salão de Honra do Palácio do Governo, destacando a Aliança Feminina e a defesa das mulheres operárias do Rio Grande do Norte. Atuava também como educadora intuitiva, sendo convidada para solenidades de entrega de diplomas.

Imprensa esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Artigo de Palmyra sobre Auta de Souza, publicado jornal A República em 3 de julho de 1930.