miniaturadaimagem|BR-222 na ladeira da Serra de Ibiapaba, em Tianguá
A Serra da Ibiapaba, também conhecido como Serra Grande, Chapada da Ibiabapa e Cuesta da Ibiapaba, é uma região montanhosa que se localiza entre os estados do Piauí e do Ceará.
Possui uma grande biodiversidade e importância no cenário social, ambiental, econômico, cultural e histórico do Ceará, sendo um dos palcos da colonização no estado. Abrange oito municípios: Viçosa do Ceará, Tianguá, Ubajara, Ibiapina, São Benedito, Carnaubal, Guaraciaba do Norte e Croatá, além de se estender por regiões dos municípios de Granja, Ipu e regiões do Piauí. Desde o século XIX está em uma zona de conflitos fronteiriços entre o governo do Piauí e do Ceará até a atualidade.
Toponímia O topônimo "Ibiapaba" é oriundo do termo tupi yby'ababa, que significa "terra fendida" (yby, terra + 'ab, cortar + aba, sufixo).NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 565.
História miniaturadaimagem|esquerda|Na Carta da capitania do Ceará, de António José da Silva Paulet, 1818, a serra é referida por Serra Grande ou Serra Geral.A região da Ibiapaba é rica em biodiversidade e recursos minerais, sendo um dos principais palcos da colonização do nordeste brasileiro, foi devido à invasão e conquista da Ibiapaba que os portugueses puderam ocupar os sertões adjacentes no Ceará e Piauí.
Período pré-colonial A Ibiapaba possui 19 sítios arqueológicos pré-coloniais, com a maioria concentrados entre os munícipios de Carnaubal, Croatá, Guaraciaba do Norte e Ipu. Por toda a serra são encontradas pinturas rupestres, com tonalidades de vermelho, amarelo e laranja e diversos tamanhos. Algumas pinturas encontradas em Viçosa do Ceará e Ibiapina possuem gravuras geométricas, enquanto outras em Ibiapina e Croatá, possuem representações de animais.
Também são encontrados materiais líticos de sílex lascado e alisado, além de dezenas de pilões líticos, que eram comuns entre os povos indígenas brasileiros. Em várias dessas localidades são encontradas cerâmica indígenas, com algumas sendo identificadas como pertencente à Tradição Tupi-Guarani.
Há mais de cinco séculos a Ibiapaba é habitada pelos povos indígenas Tacarijúse Aconguaçus (ou Kamamús), são etnias de origem macro-jê Relatos jesuíticos posteriores afirmam que um povo de origem tupi, os Tabajaras, chegaram na Ibiapaba, vindos por migrações pré-coloniais da região norte do rio São Francisco, ficariam conhecidos como "Os Senhores da Serra", pelos europeus.
Primeiras tentativas de colonização (1590-1694) Com o Tratado de Tordesilhas, o atual território do Ceará foi revindicado como posse dos portugueses, mas não houve presença portuguesa no Ceará durante todo século XVI. Os primeiros europeus a entrarem no territórios do estado foram franceses que em 1590, se instalaram na Serra da Ibiapaba, liderados por Adolf Montbille, formando a Feitoria da Ibiapaba e fundando o Forte Saint-Alexis, assim passaram conviver com os indígenas Tabajaras, comercializando bens como pimenta. No início do século XVII, a feitoria é liderada por Jacques Riffault, enquanto os tabajaras tinham dois grandes morubixabas: Irapuã (Mel Redondo), na atual Viçosa do Ceará e Juripariguaçu (Diabo Grande), na atual Ibiapina. Os relatos jesuíticos contam que nessa época, na Ibiapaba haviam mais de setenta aldeias Tabajaras.
A primeira tentativa de colonização cearense por portugueses, se deu em 1603, pelo capitão açoriano Pero Coelho de Sousa e Martim Soares Moreno que erguem o Fortim de São Tiago da Nova Lisboa na foz do Rio Jaguaribe e iniciam uma marcha até a Ibiapaba, acompanhados de 86 soldados e 200 indígenas escravizados, com objetivo de expulsar os franceses. A expedição chegou na Ibiapaba em janeiro de 1604, resultando em uma série de conflitos entre a aldeia do morubixaba Irapuã até as margens do rio Arabê. Os franceses acabaram fugindo para o Maranhão, enquanto os Tabajara foram forçados a se aliarem dos portugueses, também devido ao grande número de mortes causadas pela guerra e pelas doenças trazidas pela expedição de Pero Coelho, enfraquecendo as forças indígenas. Ao partir, o capitão açoriano levou Tabajaras escravizados para Recife e foi punido pelo governador da capitania pernambucana, pois a captura de indígenas não havia sido autorizada. Porém, no ano seguinte, ocorreu a primeira seca registrada no Ceará, que forçou os lusitanos a fugirem e abandonarem a colonização no território cearense.
Em 1607, iniciou-se outra tentativa de conquista da Ibiapaba, por meio dos jesuítas portugueses Francisco Pinto e Luís Figueira que chegaram na serra com objetivo de catequizar os nativos e fundar um aldeamento jesuítico. Os jesuítas foram recebidos pelos Tabajaras, na aldeia do morubixaba Juripariguaçu e seu irmão, Diabo Ligeiro. Nessa expedição, os jesuítas escreveram o primeiro documento escrito em território cearense, a “Relação do Maranhão”. Também fizeram o primeiro registro da passagem do cometa Hale-Bopp nas Américas, em setembro daquele ano. No documento citado, os jesuítas relatam que as doenças, guerras e escravidão trazida pelos lusitanos deixou sua marca nas tribos indígenas do Ceará, desde os povos do rio Jaguaribe, até os povos da Ibiapaba, por isso, muitos Tabajaras migraram para o Maranhão, onde encontraram seus parentes, os Tupinambás, o que resultou na redução de setenta aldeias na Ibiapaba, em 1603, para pelo menos duas grandes aldeias, em 1607. Mas, uma tragédia ocorreu em 11 de janeiro de 1608, quando o padre Francisco Pinto é assassinado por indígenas Tacarijús, incentivados por franceses que ainda tinham influência na região. O assassinato do padre marcou a história do povo Tabajara que sepultaram seu corpo no sopé da serra e reconheceram a imagem do padre como uma figura milagrosa ou um espírito, o "Pai Pina". Por fim, o jesuíta Luís Figueira fugiu da serra, enquanto os Tabajaras iniciaram um conflito contra os Tacarijús, estes que habitavam principalmente os sertões do oeste, indo até o atual município de São Miguel do Tapuio.
Após a morte do jesuíta, novas tentativas de colonização do Ceará ocorreram pelo litoral, mas a Ibiapaba não foi mais alvo de expedições lusitanas por décadas, foi somente visitada pelo padre francês Yves d'Évreux, em 1612. O padre francês registrou várias histórias e costumes indígenas da Ibiapaba, como a caça da formiga tanajura e a "Lenda dos Campos Elísios", em que os tabajaras acreditavam que abaixo das três maiores aldeias tabajaras da época, haviam três outras aldeias subterrâneas: Ibirupiguia, Inambuapixoré e Anhamari, onde os espíritos dos mortos habitavam, incluindo o padre Francisco Pinto, vivendo em fartura, festividade e grande descanso. A serra da Ibiapaba também foi brevemente visitada pelo frei Christóvão Severim de Lisboa, em maio de 1626, quando ele excursionava em direção do Fortim de São Sebastião (atual Fortaleza), passando por uma aldeia localizada nas proximidades de Ibiapina.
Em 1654, o líder potiguara Antônio Paraupaba chegou na Ibiapaba acompanhado de milhares de indígenas Potiguaras de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, vinham fugindo após o fim do domínio holandês no Nordeste. Antônio Paraupaba tinha objetivo de fundar uma república calvinista na Ibiapaba, com apoio dos holandeses, sendo chamada "República Cambressive". Rapidamente a coroa portuguesa reagiu e tentou impedir, enviando o jesuíta Francisco Ribeiro, para liderar outra tentativa de aldeamento na serra. Ao chegar, foi recebido pelos Tabajaras que ainda celebravam a memória de "Pai Pina", ele registrou toda sua experiência no documento "Relação da Ibiapaba". Mesmo após o fracasso da República de Cambressive, devido a falta de apoio holandês, o jesuíta registrou o impacto desse evento nos povos tupi da Ibiapaba, onde uma parte possuíam uma religião com somente alguns traços cristãos, enquanto outros já eram completamente evangelizados, principalmente no protestantismo, devido a influência holandesa e francesa. Também notou que parte da população usava roupas de seda, vindas de trocas com holandeses e franceses do Maranhão, além de terem alguns indivíduos bem letrados. A sociedade indígena da Ibiapaba, relatada no documento de Francisco Ribeiro foi uma experiência única no nordeste brasileiro, recebendo o apelido de "Genova do Sertão". A serra foi visitada em 1660 pelo famoso jesuíta António Vieira, porém dois anos depois, os jesuítas são novamente expulsos da Ibiapaba em um conflito com o morubixaba Simão Tagaibuna, de origem Tabajara, que se revoltou contra a repressão que os indígenas estavam sofrendo pelos jesuítas, tendo seus costumes e tradições marginalizados. O líder Tabajara foi acusado como razão do fracasso dessa nova tentativa de aldeamento da Ibiapaba, então as forças coloniais prenderam Simão Tagaibuna por um breve período, mas posteriormente ele foi solto.
Colonização efetiva (1694-1822) Após a segunda tentativa fracassada de erguer uma aldeia jesuíta na Ibiapaba, se passaram mais três décadas sem missões ao local. Em 1694, ocorreu outra tentativa de colonização na serra, pelos jesuítas padre Ascenso Gago e Manuel Pedroso, que novamente tentaram fundar uma missão jesuíta. Os indígenas da Ibiapaba estavam cada vez mais atentos aos avanços dos portugueses pelos sertões, litorais e serras da região, nessa mesma época estava ocorrendo a Confederação dos Cariris, na qual povos indígenas dos sertões do Cariri Cearense e do Jaguaribe, se uniram em uma resistência aos portugueses. Os Tabajaras da Ibiapaba temiam a perda de suas terras e perseguição de sua cultura pelos portugueses invasores, por isso, concordaram com o aldeamento pelos jesuítas Ascenso Gago e Manuel Pedroso, em uma tentativa pacífica de manter suas terras e costumes. Em 1699, os jesuítas reuniram as principais lideranças indígenas da Ibiapaba, incluindo Simão Tagaibuna, e formaram uma aldeia em um serrote circunvizinho, mas aquele local não deu certo. Por isso, tentaram novamente em outra localidade na serra, onde fundaram a Aldeia da Ibiapaba (atual sede de Viçosa do Ceará), em 15 de agosto de 1700. O marco inicial da aldeia foi a criação de uma capela de taipa, que se tornaria a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, uma das mais antigas igrejas do Ceará.
Durante o século XVIII, o noroeste cearense passou ser ocupado efetivamente, com a doação de dezenas de sesmarias para colonizadores portugueses, que traziam gado, cavalos e plantações nos sertões próximos. Foram estes que deram início a diversas famílias da região do Vale do Rio Acaraú, formando povoamentos vizinhos como Granja, Coreaú e Sobral, sendo esta última, o principal centro urbano dessa região até a atualidade. Contudo, a ocupação dos sertões nos sopés da Ibiapaba não foi pacífica, os indígenas tapuias resistiram bravamente ao avanço colonial, como o povo Arérius.
Para manter fidelidade das lideranças indígenas da Ibiapaba, o Rei de Portugal decretou em 1720 que "toda terra em cima da serra pertencia aos indígenas". Em troca, além catequização, os indígenas da serra deveriam auxiliar os portugueses no combate dos tapuias que habitavam os sertões do Vale do Acaraú, Camocim e Piauí.
Em 1743, chegou na serra da Ibiapaba, uma equipe de engenheiros de minas e mestres-fundidores sob liderança do francês Jean Christophe Sporgel, contratados pela coroa portuguesa, com objetivo de explorar as riquezas minerais da serra, onde haviam rumores da presença de prata. Foram realizadas expedições em uma mina entre Bari, Ubari e Ubajara (atual mina de Pedra Verde), contudo a exploração foi fracassada, devido à escassez de minerais. Entre os engenheiros estava o francês Jean Pierre Fontenelle, que fixou residência na aldeia da Ibiapaba e deixaria grande descendência na região, sendo o patriarca da família Fontenelle no Brasil.