Marisa Bittar é historiadora e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Descendente de avós maternos e paternos que, no começo do século XX, deixaram a Síria para viver no Brasil, ela nasceu em Franca (SP) no dia 30 de março de 1955, a primeira dos seis filhos de Mamédio Bittar e Manife Miguel Bittar. Seus irmãos são Mauro Miguel Bittar, Marilena Bittar, Mariluce Bittar, Márcio Miguel Bittar (atualmente Senador da República) e Maura Bittar. Desde 1976, quando aderiu à luta contra a ditadura militar, a sua vida se entrelaçou à de Amarílio Ferreira Junior. com quem viria a se casar e que se tornaria seu parceiro intelectual até 2024, ano de seu falecimento.
Escolaridade, juventude e militância política Nascida no Brasil rural, Marisa Bittar foi alfabetizada em uma classe multisseriada de uma fazenda próxima à cidade de Tambaú (SP), experiência escolar mais marcante de sua vida, conforme escreveu em Viver é melhor que sonharBITTAR, Marisa. Viver é melhor que sonhar. https://www.researchgate.net/publication/379664739_Viver_e_melhor_que_sonhar. Mas antes de ingressar nessa escola, ela já havia aprendido o alfabeto pelas mãos de sua mãe, uma jovem normalista formada no Colégio Nossa Senhora de Lourdes (Franca) e, foi sob a sua condução, que ela passou a fazer caligrafia, a primeira forma de desenho que conheceu. Membro de uma grande família árabe na qual todos os adultos tinham autoridade sobre todas as crianças, ela continuou seus estudos morando com avós e tios na cidade de Franca, já que seus pais permaneceram na área rural. Em meio a numerosos primos e tios, foi educada na cultura árabe e nos valores cristãos.Seu bisavô materno, Jorge Massih Kanni, era sacerdote da Igreja Ortodoxa do Oriente. Diário da Franca. Franca, 20 de outubro de 1988, p. 7. Cursou o Primário e o Ginásio no Instituto Estadual Torquato Caleiro (IETC), a melhor escola pública de Franca na época e, de acordo com sua autobiografia, ao deixar o ambiente da fazenda e chegar àquele imponente estabelecimento, sentiu-se uma “verdadeira caipira”.Instituto Estadual de Educação “Torquato Caleiro”. Registro da conclusão do Curso Primário e documentos estudantis. Franca, 9.12.1967.
Contudo, logo gostou daquela escola-ícone de Franca, célebre pelo basquete e, que, no Ginásio, além de Canto Orfeônico, ensinava Francês e Inglês. Descrita como fundamental para a sua formação, Marisa, contudo, não prosseguiria ali os seus estudos, pois, em plena ditadura militar, sob o slogan de “Brasil grande”, seus pais e mais dois casais de tios com os filhos, deixaram a cidade natal para começar nova vida muito distante dali.BITTAR, Marisa. Tempos de estudar, tempos de mudar: de uma classe multisseriada às escolas do interior do Brasil. In: Beatriz T. Daudt Fischer. (Org.). Tempos de escola. Memórias. 1ed.São Leopoldo e Brasília: Líber Livros; Oikos, 2012, v. 3, p. 65-82. Afastada geograficamente de suas raízes, o estilo beduíno da família paterna lhe propiciou conhecer outros “brasis”. Em 1970, iniciou o curso secundário na Escola Estadual de Mato Grosso, antigo “Lyceu Cuiabano”, símbolo de uma arquitetura escolar que marcou o Brasil. Nessa bela escola, começaram os seus problemas nas disciplinas antagônicas à sua aptidão para as ciências humanas, fato evidenciado quando a “tábua de trigonometria” foi apresentada pelo professor de matemática. Sem compreender os indecifráveis logaritmos, dedicada ao teatro amador e à fanfarra, foi reprovada no primeiro ano.Colégio Estadual de Mato Grosso. Grupo Estudantil de Teatro Amador (GETA). Cuiabá, nov. 1971. Afeiçoada a essa escola, Marisa teve de deixá-la devido a uma nova mudança da família, que, em 1973, se deslocou de Mato Grosso para a Amazônia. Foi em Rio Branco, no Colégio Acreano, onde, todas os dias, antes das aulas, o diretor convocava os alunos na calçada para cantar o hino nacional, que Marisa concluiu o ensino secundário. Mas nem mesmo nessa escola engajada no civismo do seu diretor, conforme escreveu em Tempos de estudar, tempos de mudar, ela percebeu que o Brasil vivia sob ditadura militar. miniaturadaimagem|Marisa Bittar no Colégio Estadual de Mato Grosso (2013). Em 1975, pensando no futuro dos filhos, a mãe de Marisa voltou com eles para Mato Grosso, passando a viver em Campo Grande que, com a divisão territorial efetuada pelo Governo Geisel (1977), tornar-se-ia a capital de Mato Grosso do Sul. Nessa cidade que Marisa definiu como a mais importante encruzilhada de sua vida, ela ingressou nas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT) para cursar História e foi então que conheceu Amarílio Ferreira Júnior, seu colega de sala. Com ele, que viria a ser presidente do Diretório Acadêmico Félix Zavattaro (DAFEZ), aderiu ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que organizava, no sul de Mato Grosso, a frente democrática contra a ditaduraBITTAR, Marisa. ACP : parte integrante da vida de Amarílio Ferreira Jr. https://www.researchgate.net/publication/394423553_ACP-Parte_integrante_da_vida_de_Amarilio_Ferreira_Jr_1#fullTextFileContent. Em seguida, compôs a Diretoria do Movimento Mato-Grossense pela Anistia e Direitos Humanos.
Paralelamente à Faculdade, Marisa participou de grupos de estudos sobre história e filosofia marxista alguns dos quais ministrados por importantes intelectuais do PCB, como Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho e Marco Aurélio Nogueira, que, na época, traduziam a obra de Antonio Gramsci no Brasil. Foi então que, segundo escreveu em sua autobiografia, Marisa passou a acreditar que a humanidade, em seu percurso histórico, depende apenas de si mesma; não foi criada nem é dirigida por deuses.
Em 1979, foi eleita para compor a delegação que reconstruiu a União Nacional dos Estudantes (UNE) na cidade de Salvador (BA). Uma parte de seus irmãos, incluindo Mariluce Bittar, que viria a ser co-fundadora do PT em Mato Grosso do Sul, também fez parte da histórica caravana que saiu de Campo Grande, de ônibus, rumo à capital baiana. Pelo engajamento de sua família na luta contra a ditadura, a casa de Marisa Bittar, conforme escreveu em Viver é melhor que sonhar, tornou-se ponto de encontros e reuniões políticas do PCB e do MDB, bem como de articulações para a fundação do PT de Mato Grosso do Sul. Seu irmão, Márcio Bittar, eleito Senador em 2018, começou ali a sua militância tornando-se presidente da União Campo-Grandense de Estudantes (UCE).BITTAR, Marisa. Tesouros perdidos. In: MATTO GROSSO, Fausto. Histórias que ninguém iria contar: Fundação Astrojildo Pereira, 2022. p. 96-106.
Em 1980, durante uma ação política contra a ditadura militar, Marisa Bittar foi presa e encaminhada à Política Federal, juntamente com Amarílio Ferreira Jr., com quem, em 1984, viria a se casar. Essa prisão, que lhes gerou demissões das escolas em que trabalhavam, e as informações detalhadas sobre as demais atividades do passado político de ambos em Campo Grande (1976-1988) foram registradas por Marisa Bittar em sua autobiografia e pelo Serviço Nacional de Informações (SNI).BRASIL. Serviço Nacional de Informações (SNI). Informação NQ 031/116/ACG/80. BITTAR, Marisa. “Uma prisão providencial”. In: MATTO GROSSO, Fausto. Histórias que ninguém iria contar: Fundação Astrojildo Pereira, 2022. p. 96-99; Diário da Serra, Campo Grande, 4 de maio de 1980.
Sobre a militância política de Marisa Bittar, escreveu Fausto Matto Grosso: “Com vários jovens de sua geração, Marisa ajudou a construir a boa reputação intelectual do Partido; ela, além de dedicada militante social, foi se transformando em educadora política. (...), esse trabalho logo produziu a criação, Marisa à frente, do Centro de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (CEPES), que se transformou em ponto de encontro obrigatório da esquerda em Campo Grande. Mas nem só o trabalho intelectual era espaço onde se movia Marisa Bittar. Lembro-me de seu grupo de colegas professores construindo, em mutirão com a população, o casebre de uma das primeiras associações de moradores da cidade, no Bairro Guanandi, onde desenvolviam, semanalmente, o trabalho de alfabetização de adultos”MATTO GROSSO, Fausto. Marisa Bittar. In: Vozes da Literatura, Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, 2014. p. 234. miniaturadaimagem|Marisa Bittar (na linha de frente é a quarta pessoa abaixada da direita para a esquerda) em manifestação do PCB. Primeiro de Maio de 1985 em Campo Grande Outra experiência política marcante de sua juventude foi ter vivido na União Soviética (1981-1982) onde cursou Filosofia e Teoria Política no Instituto de Ciências Sociais de Moscou.BITTAR, Marisa. O Instituto de Ciências Sociais de Moscou. In: MATTO GROSSO, Fausto. Histórias que ninguém iria contar. Fundação Astrojildo Pereira, Brasília, 2021. P. 99-102. Única mulher do grupo brasileiro, foi designada sua chefe para representá-lo junto à Reitoria e assumir tarefas de organização. Nesse Instituto, Marisa conviveu com pessoas de diferentes continentes e conheceu a República da Armênia, experiência que lhe proporcionou avaliar por si mesma o socialismo real, as conquistas e também os problemas do modelo bolchevique de revolução. Quanto a este aspecto, muito lhe valeu a amizade com a delegação italiana, que manifestava radical visão crítica ao modelo soviético. Após o seu período letivo, conheceu a Itália e as Casas do Povo (Casa del Popolo), que eram centros sociais e culturais ligados a movimentos operários organizados pelo Partido Comunista (PCI) que, assim como a Democracia Cristã, havia se tornado central no sistema político italiano após a Segunda Guerra Mundial.
Com o fim da União Soviética (1991), Marisa intermediou tratativas com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para a contratação de seu ex-professor de Economia Política, Oleg Tsukânov, iniciativa que contou também com os professores Fausto Matto Grosso e Amarílio Ferreira Jr. vindo a ser concretizada graças à política do Ministério da Educação de receber cientistas soviéticos nas universidades brasileiras. “Conviver com Oleg Tsukânov no Brasil por quase dez anos (1992 – 2003) foi uma rara oportunidade para aprofundar a compreensão sobre o que havia sido o socialismo real e por que os seus erros ocasionaram o fim da experiência iniciada em 1917”, escreveu Marisa Bittar em sua autobiografiaBITTAR, Marisa. https://www.researchgate.net/publication/379664739_Viver_e_melhor_que_sonhar. BITTAR, Marisa. Oleg Tsukânov, um russo em Campo Grande. In: MATTO GROSSO, Fausto. Histórias que ninguém iria contar. Fundação Astrojildo Pereira, Brasília, 2021. p. 106-109.
Educação para a democracia Após ter se graduado em História pelas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso – hoje Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), Marisa Bittar passou a participar da Associação Campo-Grandense de Professores (ACP), uma das entidades profissionais mais atuantes contra a ditadura militar em Mato Grosso do SulBITTAR, Marisa. Associação Campo-Grandense de Professores (ACP): Parte integrante da vida de Amarílio Ferreira Jr. , abril, 2025.