miniaturadaimagem|Júlia Galeno Júlia Cabral da Costa e Silva, conhecida por Júlia Galeno (Fortaleza, 5 de fevereiro de 1890 — Rio de Janeiro, 8 de abril de 1978), foi uma poeta brasileira considerada uma das pioneiras na criação de agremiações literárias femininas no Brasil.

Biografia Família esquerda|miniaturadaimagem|Casa da família Galeno no ano de 1886. Atualmente é o museu Casa de Juvenal Galeno. Júlia era a caçula dos sete filhos do poeta do folclore cearense, Juvenal Galeno da Costa e Silva, com a sua esposa Maria do Carmo Cabral Galeno.

Assim como seus irmãos, João Galeno da Costa e Silva e Henriqueta Galeno, nasceu na residência dos pais, à época na Rua General Sampaio, de número 272, na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará, local onde hoje se encontra o museu Casa Juvenal Galeno.

Foi irmã, também, de José Maria da Costa e Silva, Antônio Galeno da Costa e Silva, Maria do Carmo da Costa e Silva e José Galeno, que nasceram em Aratanha, no Sítio da Boa Vista.

Casou-se duas vezes. Seu primeiro marido foi o comerciante baiano Francisco de Santana, com quem teve três filhos: Francisco Santana Filho, Mary Galeno e Mona Lisa Galeno. Seu segundo casamento foi com Leo Voos.

Educação Sob o olhar atento da família, seus estudos primários foram realizados com professores particulares, eventualmente diplomando-se normalista no Colégio da Imaculada Conceição, em Fortaleza.

Viagens Aos vinte anos, fixando-se em Salvador após um casamento apressado com o comerciante Francisco de Santana, viu-se diante de uma oportunidade de ampliar seu universo cultural por meio de viagens constantes. Diante dos interesses comerciais do marido, aproximou-se de outros saberes, frequentando museus, igrejas, teatros, bibliotecas e gabinetes de leitura.

Em 1912, o casal percorreu o norte do país, Estados Unidos e Europa. Ao passar por Portugal, Júlia Galeno conheceu pessoalmente o escritor Júlio Dantas, que a presenteou com a primeira edição do seu texto "A ceia dos cardeais", de 1902. Já em Paris, participou de reuniões na casa de um de seus escritores favoritos, Anatole France. Essa experiência próxima a escritores foi um grande estímulo, aguçando seu desejo por articular eventos que estimulassem a cultura no Brasil.

Também visitou países como Suíça e Itália, mas a viagem foi interrompida com a gravidez do seu primeiro filho, Francisco.

Em 1916, mesmo durante a Primeira Guerra Mundial, foi convencida a acompanhar o marido em outra viagem aos Estados Unidos, grávida pela segunda vez. A viagem transformou-se numa experiência dramática, prolongada por meses a bordo de um navio e terminando com o retorno ao estado da Bahia de Todos os Santos, onde deu à luz a Mary Galeno.

Com o fim da Guerra, no início de 1919, em sua terceira gestação, embarcou para Fortaleza junto a uma babá na intenção de encontrar aconchego familiar para a chegada de sua filha, Mona Lisa. No entanto, retornou para a Bahia uma outra vez no segundo semestre daquele ano.

Àquela época, mesmo com o sucesso das suas atividades no Brasil, Júlia embarcou a contragosto com a sua família para a Europa. Como era de costume de famílias abastadas, diante da juventude dos filhos, o intuito era realizar estudos no exterior. Durante esse período no continente europeu, em 1924, interrompeu seus trabalhos com uma viagem em casal pelo Velho Mundo.

Por questões profissionais, seu marido retornou à Bahia enquanto Júlia e os filhos se fixaram residência em Düsseldorf, na Alemanha, após percorrerem outros países.

Em março de 1931, recebeu a notícia de falecimento de seu pai e, imediatamente, retornaram à Fortaleza para uma temporada.

Após a morte de Juvenal Galeno, sua vida tomou outros rumos, divorciando-se de Francisco que, àquele momento, era condecorado Comendador. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde eventualmente casou-se com o alemão Leo Voos, quem se tornaria o seu grande companheiro.

Durante a Segunda Guerra, mudou-se para o interior de Minas Gerais e, ao fim, retornou ao Rio de Janeiro, onde permaneceu até a sua morte.

Morte Júlia faleceu em 1978, no Rio de Janeiro, após uma prolongada doença. Recebeu uma despedida com flores e poesia de amigos, conforme havia solicitado em seu primeiro livro, Crepúsculo Iluminado (1969).

Vida Pessoal esquerda|miniaturadaimagem|Júlia Galeno entre os literatos Carlyle Martins, à esquerda, e Rizete Cabral, à direita. Com o epicentro da figura paterna, Júlia cresceu rodeada de livros de bibliotecas públicas e familiares, acostumada, também, com a casa frequentada por intelectuais, artistas, políticos e gerações de literatos. Nesse ambiente, seu interesse pela poesia manifestou-se desde cedo. De um talento exímio para a declamação, mais tarde, tornou-se também incentivadora das artes.

Além de colaborar em diversos periódicos locais, Galeno também preparou programas de rádio, recitais beneficentes e pequenas peças teatrais.

Casa Juvenal Galeno miniaturadaimagem|Fachada da Casa de Juvenal Galeno no ano de 1919, fundada em Fortaleza, Ceará, por Henriqueta Galeno. Junto à irmã, Henriqueta Galeno, começou a planejar reuniões literárias que viriam a se tornarem famosas por décadas na casa onde nasceu. Com a iniciativa, fundou o Salão Juvenal Galeno, um ambiente para saraus literários que animavam as noites de quarta-feira, prestigiados pela elite intelectual da capital cearense.

Construída em 1886 pelo poeta Juvenal Galeno, a casa recebeu personalidades como Antônio Sales, Euclides da Cunha, Gustavo Barroso, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Patativa de Assaré e Rachel de Queiroz. Nas proximidades dos anos 1920, foi transformada por suas filhas, Henriqueta e Júlia Galeno, em um importante centro cultural e, eventualmente, um museu.

Em 1919, no período em que Júlia estava em Fortaleza para conceber sua última filha, Mona Lisa, os encontros na Casa Juvenal Galeno viraram manchete no Correio do Ceará. Sua permanência na capital cearense não perdurou por muito tempo e logo mudou-se para Salvador, onde tinha uma residência própria, dessa forma, organizou alguns presentes aos seus frequentadores mais assíduos. O mimo era um álbum luxuoso comum à época, composto por poemas, contos e cartas de autores como Antônio Sales, Herman Lima, Leonardo Mota, Rodolfo Teófilo e Beni Carvalho.

Salões literários Apesar da mudança para Salvador, em 1910, Júlia continuou demonstrando interesse nessas reuniões culturais, organizando saraus litero-musicais num palacete luxuoso comprado pelo marido, Francisco. Dessa forma, aproximou-se da elite baiana por meio de eventos artísticos beneficentes.

Esses espaços eram considerados ambientes semi-públicos. Eram um dos poucos ambientes onde as mulheres tinham um lugar reconhecido e, efetivamente, desenvolveram formas originais de sociabilidade mediante debates literários.HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Os estudos sobre mulher e literatura no Brasil: uma primeira avaliação. Papéis Avulsos: CIEC/ECO/UFRJ, 1990.

Grande articuladora desses espaços, Júlia dividia a coordenação com os afazeres domésticos, a maternidade e a literatura, protagonizando, também, palestras e conferências.

Além de suas viagens e repertórios anteriores, aprimorou a arte da declamação e, após uma curta passagem pelo Rio de Janeiro, organizou grupos com alunas interessadas em ocupar espaços na cena cultural da capital baiana.

A Cabana Azul Em 1935, em Copacabana, fundou a Cabana Azul, um ambiente onde recebia intelectuais e artistas, como Cassiano Ricardo, Gustavo Barroso, Herman Lima, Cecília Meireles e Gilka Machado, além do maestro Villa-Lobos em apresentações musicais. Mensalmente, motivadas por aniversários, despedidas, lançamentos de livros ou apresentações de novos artistas, realizavam sessões solenes que, constantemente, eram noticiadas pela imprensa carioca.

É com a chegada da Segunda Guerra Mundial, tendo o seu marido, o alemão Leo Voos, considerado perigoso e preso, em 1942, que a Cabana foi enquadrada como um centro mantido por nazistas — afirmação que era reforçada pela presidência de Gustavo Barroso, considerado um integralista convicto. Júlia custou a provar que a Cabana não tinha nenhum envolvimento político.

Após a liberdade de Voos, refugiaram-se no interior de Minas Gerais e tentaram reestruturar a vida em uma "Chácara das Lendas e Canções", alusão ao título homônimo de um livro de seu pai, Juvenal Galeno. Apesar do momento de tensão, Júlia continuou escrevendo poesia, chegando a enviar algumas quadras ao prefeito do município de Pinheiros, quando solicitou luz elétrica.

Academia Juvenal Galeno No ano seguinte à criação da Cabana Azul, em 1936, aproveitando o centenário de seu pai, Júlia inaugurou, também, a Academia Juvenal Galeno, que tinha como órgão de divulgação o folheto azul "Cabana Azul", com o intuito de reunir figuras representativas da dita "elegância" e "inteligência" da época.

A Academia Juvenal Galeno, uma agremiação literária de mulheres, fez de Júlia Galeno uma das pioneiras na defesa do direito de ascensão cultural, econômico e político das mulheres. A criação da Academia aconteceu após Júlia ter o seu ingresso recusado na Academia Brasileira de Belas Artes. Seu caráter exclusivo para mulheres buscava tornar explícita a sua crítica à posição sexista da Academia Brasileira e acabou promovendo a sua inserção no mundo institucionalizado das "belas-artes".

Participação ativa em entidades Foi com o término da Segunda Guerra Mundial, retornando ao Rio de Janeiro após refugiar-se em Minas Gerais, que Júlia Galeno retornou às suas atividades na Cabana Azul e, eventualmente, contribuiu com a fundação e direção do Salão de Poetas e, ampliando seus interesses no ramo, participou como sócia efetiva da UNITER (Sociedade Internacional da Cultura).

Pertenceu, igualmente, à Sociedade Feminina Cintilas e à Sociedade de Homens de Letras do Brasil, além de atuar como delegada da Academia Cearense de Letras junto à Federação das Academias de Letras do Brasil.

Também participou como sócia efetiva de entidades como a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Cultura, Sociedade Brasileira de Filosofia e foi correspondente da Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno, ambiente em que hoje dá nome a um salão.

Obra Júlia Galeno produziu inúmeras conferências sobre temas variados, além de ter publicado com frequência muitos poemas em jornais e revistas cariocas.

Em 1969, ano da morte do seu segundo marido, sua sobrinha, Cândida Galeno, publicou o seu único livro, Crepúsculo Iluminado, pela editora Henriqueta Galeno, de Fortaleza. A obra é uma coletânea que aborda partes de sete livros de poesia, predominando a atmosfera romântica, busca pela liberdade de expressão e tematização da natureza, infância e amor.

Compartilhando do ideal artístico do pai, Juvenal Galeno, em seus poemas, Júlia sempre buscou uma voz poética que, também, utilizasse da dicção popular, com o objetivo único de ser compreendida por um maior número de pessoas, isto é, sem a necessidade de uma elaboração estética ou qualquer rebuscamento. Suas produções eram bastante autobiográficas, com versos simples e sem muito pudor, recortando sua realidade e abordando assuntos como recordações da infância, amores, reflexões, elogios aos amigos e transitoriedade da vida.

Lista de publicações Livro Crepúsculo Iluminado (1969).

Conferências A Arte da Palavra (1925); Impressões de Viagens (1925); Ação Social pelo Divórcio (1934); Verdade e Falsa Concepção da Poesia Popular (1940).

Homenagens póstumas Júlia Galeno dá nome a uma rua no bairro Jangurussu, em Fortaleza. E é, também, nome de um dos salões no atual museu Casa Juvenal Galeno, casa onde nasceu.

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