Marcos António da Fonseca Portugal (24 de março de 1762 – 17 de fevereiro de 1830), conhecido na Itália como Marco Portogallo, foi um compositor de música erudita, organista e professor de música português e brasileiro. Suas óperas cômicas foram encenadas na Itália e em outros países europeus durante a década de 1790 e o início do século XIX. Em Portugal e no Brasil, sua música sacra era mais conhecida do que suas obras teatrais.

Portugal ingressou no Real Seminário de Música da Patriarcal de Lisboa aos nove anos e foi nomeado organista da Igreja Patriarcal em 1782. Escreveu teatro cômico em língua portuguesa para o Teatro do Salitre antes de partir para a Itália em 1792. Entre 1793 e 1800, compôs 21 óperas para teatros italianos. De volta a Lisboa, tornou-se diretor musical do Teatro de São Carlos, lecionou no Seminário da Patriarcal e escreveu para a casa real. O príncipe regente João convocou-o ao Rio de Janeiro em 1811, onde exerceu as funções de mestre e compositor da Real Câmara e ensinou música aos filhos do regente. Portugal permaneceu no Rio depois que o rei voltou a Lisboa em 1821. Tornou-se cidadão brasileiro nos termos da Constituição de 1824 e continuou a servir Pedro I e a família imperial até sua morte.

Seu catálogo reúne mais de setenta obras dramáticas, entre elas cerca de quarenta óperas. Escreveu comédias curtas e entremezes em português, seguidos por óperas cômicas italianas e obras sérias para o São Carlos. As óperas cômicas tiveram a circulação mais ampla, muitas vezes em versões traduzidas ou modificadas, enquanto cantores incluíam árias isoladas em concertos. Sua produção sacra estende-se do Miserere composto aos catorze anos à Missa breve escrita para a casa imperial brasileira em 1824. Portugal também compôs modinhas, música para ocasiões dinásticas e políticas e exercícios de canto e teclado para seus alunos da família real.

As óperas de Portugal haviam praticamente saído do repertório na década de 1820, mas sua música religiosa continuou a ser executada até o início do século XX. Autores do século XIX transmitiram informações erradas sobre sua vida e o apresentaram como o rival português e invejoso do compositor brasileiro José Maurício Nunes Garcia, apesar de não haver provas concretas de uma rixa pessoal entre os dois. Edições críticas e novas montagens também levaram parte da música sacra e dramática de Portugal de volta às salas de concerto e aos teatros.

Vida e carreira

miniatura|Marcos Portugal

Infância e formação, 1762–1784

Marcos António Portugal nasceu em Lisboa em 24 de março de 1762 e foi batizado na Igreja de Santa Isabel em 20 de abril. Era filho de Manuel António da Ascensão, músico da Igreja Patriarcal, e de Joaquina Teresa Rosa. Seu bisavô paterno também havia sido músico profissional. O sobrenome Portugal vinha da família materna, e o nome completo de sua mãe era Joaquina Teresa Angélica da Fonseca Portugal.

Em 6 de agosto de 1771, aos nove anos, Portugal ingressou como aluno interno no Real Seminário da Patriarcal. A instituição preparava meninos para a Igreja Patriarcal e ensinava canto, contraponto, composição, órgão, teclado e baixo contínuo aos estudantes de música. Portugal estudou com João de Sousa Carvalho e provavelmente com José Joaquim dos Santos. Seu catálogo começa com um Miserere escrito em 1776, quando tinha catorze anos. Uma ladainha veio em 1779, e quatro obras suas foram executadas publicamente na Igreja Patriarcal entre 1780 e 1781.

Portugal provavelmente concluiu os estudos em 1782. Em 17 de agosto daquele ano, foi nomeado organista da Igreja Patriarcal. Sua primeira encomenda conhecida da casa real, uma missa para a festa de Santa Bárbara, foi executada no Palácio de Queluz em dezembro. Em 23 de julho de 1783, ingressou na Irmandade de Santa Cecília de Lisboa como compositor e organista.

Teatro do Salitre e corte de Lisboa, 1784–1792

Portugal provavelmente já dirigia a música do Teatro do Salitre, em Lisboa, em 1784, embora não se conheça a data de sua nomeação. O teatro apresentava obras cômicas em português baseadas em modelos italianos. Portugal forneceu comédias curtas e entremezes, seguidos pelas burletas em dois atos A esposa fingida, em 1790, Os viajantes ditosos, em 1791, e O mundo da lua, em 1792. Também escreveu peças para apresentações que assinalavam aniversários da família real e outras ocasiões da corte. Seu catálogo enumera onze obras desse tipo entre 1787 e 1789.

O trabalho no teatro não substituiu suas funções na Igreja Patriarcal. Portugal continuou a receber o salário de organista e, a partir de 1.º de setembro de 1787, passou a ganhar um acréscimo anual de cinquenta mil réis por seu trabalho como compositor. Compôs música sacra para as capelas reais de Queluz e da Ajuda, inclusive missas encomendadas pelo futuro João VI, que assumiu o governo em 1792. Naquele ano, Portugal trabalhava para a Igreja, o teatro público e a casa real.

Carreira na Itália, 1792–1800

Portugal recebeu um passaporte para Gênova em 11 de setembro de 1792. O documento declarava que ele viajaria pela Itália para aperfeiçoar sua arte, e o músico conservou seus cargos e vencimentos na corte portuguesa durante a ausência. Viajou com Giovanni Torriani, cantor italiano que havia trabalhado no Teatro do Salitre. Sua carreira italiana dividiu-se em duas estadias, do fim de 1792 a meados de 1794 e do verão de 1795 a 1800, separadas por cerca de um ano em Lisboa.

Sua primeira ópera italiana, Le confusioni della somiglianza o siano i due gobbi, estreou no Teatro degli Intrepidi, em Florença, em 8 de maio de 1793. Seguiram-se montagens em Florença, Veneza e Milão, entre elas Cinna, Rinaldo d'Aste, Lo spazzacamino principe, Demofoonte e La vedova raggiratrice. Portugal voltou a Lisboa em 1794, onde preparou versões em português de Lo spazzacamino principe e Rinaldo d'Aste e escreveu música para as capelas reais.

Um segundo passaporte, emitido em 22 de julho de 1795, nomeava como seus acompanhantes a esposa, Maria Joana Portugal, a irmã Clara Fortunata e um criado. Veneza tornou-se sua principal base, com montagens também em Nápoles, Florença, Verona, Ferrara e Milão. Sua produção concentrou-se na ópera cômica e incluiu La donna di genio volubile, Le donne cambiate, L'oro non compra amore e La pazza giornata, ovvero Il matrimonio di Figaro. Sua última estreia italiana foi a ópera séria Idante, apresentada pela primeira vez no La Scala, em Milão, em 13 de fevereiro de 1800. Portugal havia composto 21 óperas para teatros italianos em menos de sete anos. Essas obras logo entraram no repertório de casas de ópera de outros países europeus.

Retorno a Lisboa, 1800–1811

miniatura|Marcos Portugal, Retrato no teto do Gabinete do Presidente da Câmara, nos Paços do Conselho de Lisboa.

Portugal voltou a Lisboa em meados de 1800. Em 31 de agosto, regeu La principessa filosofa, de Gaetano Andreozzi, no Teatro de São Carlos, onde logo se tornou diretor musical. Em 17 de setembro, também foi nomeado mestre de solfejo do Real Seminário da Patriarcal, com salário mensal de cinquenta mil réis. O cargo encerrou seu trabalho regular como organista, mas ele continuou a compor para a casa real e suas capelas.

No São Carlos, Portugal trabalhou ao lado do compositor italiano Valentino Fioravanti. De 1803 ao Carnaval de 1807, Portugal foi o principal responsável pela ópera séria e Fioravanti pela ópera cômica. Portugal escreveu dez óperas sérias para a soprano Angelica Catalani entre 1801 e 1806, entre elas La morte di Semiramide, La morte di Mitridate e Artaserse. Catalani incorporou árias de suas óperas ao repertório de concertos e continuou a cantá-las depois de deixar Portugal, levando a música a públicos de Londres, Dublin e Paris.

A partir de 1806, o príncipe regente passou a instalar sua casa com maior frequência no Palácio de Mafra. Para os ofícios celebrados ali, Portugal escreveu mais de vinte obras sacras em 1806 e 1807, destinadas às vozes masculinas dos frades franciscanos e aos seis órgãos da basílica do palácio. Em 18 de janeiro de 1807, recebeu o título de mestre e compositor da Real Câmara. Nunca foi formalmente nomeado mestre da Real Capela.

Quando a corte portuguesa partiu para o Brasil em 29 de novembro de 1807 para escapar da invasão francesa, Portugal permaneceu em Lisboa. A mudança fechou o Seminário da Patriarcal e interrompeu parte de seu salário. Em agosto de 1808, durante a ocupação francesa, um general encomendou-lhe uma nova versão de Demofoonte para o aniversário de Napoleão. A ópera foi apresentada no São Carlos em 15 de agosto, dois dias antes da vitória anglo-portuguesa na Roliça. Depois da retirada francesa, Portugal dirigiu a música das celebrações de ação de graças realizadas em Lisboa.

O governo incluiu Portugal pela primeira vez numa lista de músicos a serem enviados ao Rio de Janeiro em agosto de 1810. Em 7 de janeiro de 1811, veio uma convocação pessoal do príncipe regente. Portugal partiu de Lisboa em março, a bordo da fragata Princesa Carlota, e chegou ao Rio em 11 de junho.

Corte real no Rio de Janeiro, 1811–1821

thumb|left|O Real Theatro de São João, no Rio de Janeiro, onde foram apresentadas várias obras de Portugal. Pintura de Jean-Baptiste Debret, c. 1834.

Em 23 de junho de 1811, Portugal foi confirmado como mestre e compositor da Real Câmara e professor de música dos filhos do príncipe regente. Recebia 480 mil réis anuais por essas funções, um auxílio-moradia de 240 mil réis e o salário ainda vinculado ao cargo no seminário de Lisboa. A casa real também lhe forneceu uma carruagem para as visitas de ensino. Portugal sofreu um derrame em outubro de 1811 que comprometeu um de seus braços, mas retomou o trabalho.

Portugal não substituiu José Maurício Nunes Garcia como mestre da Real Capela. Nunes Garcia administrava o pessoal e os ofícios rotineiros da capela, enquanto Portugal compunha e dirigia a música de cerimônias reais e outras ocasiões de maior hierarquia. Fortunato Mazziotti passou a integrar a direção da capela em 1816. A história conhecida de uma rixa pessoal entre Portugal e Nunes Garcia surgiu apenas depois da morte dos dois.

Uma ordem de 9 de outubro de 1811 deu a Portugal autoridade sobre a música sempre que o príncipe regente comparecesse a um teatro público. Ele podia escolher a obra, escalar os cantores, selecionar os instrumentistas e supervisionar os ensaios. O Real Theatro de São João abriu em 1813 e encenou óperas que ele havia escrito na Europa. Portugal compôs pouca música teatral nova no Rio. Suas obras cênicas desse período foram a breve farsa portuguesa A saloia namorada, de 1812, e L'augurio di felicità, escrita para as celebrações do casamento do príncipe Pedro com a arquiduquesa Leopoldina em 1817.

Para as aulas, Portugal reuniu um Breve e facil rezumo de todas as regras da cantoria e exercícios de solfejo destinados aos filhos da família real. O material didático aproveitava trechos de suas óperas e trazia canções curtas e peças instrumentais. As cópias feitas para as aulas trazem os nomes de Pedro e das infantas Maria Isabel, Maria Francisca de Assis e Isabel Maria.

A música sacra e cerimonial formou a maior parte de sua produção nova no Rio. Portugal escreveu obras para a Real Capela, para a aclamação de João VI em 6 de fevereiro de 1818 e para outras cerimônias de Estado e da dinastia. Um segundo derrame, no fim de 1816 ou início de 1817, voltou a interromper seu trabalho. Em 12 de outubro de 1820, João VI concedeu-lhe uma comenda da Ordem de Cristo, com rendimento anual de dezesseis mil réis. Portugal permaneceu no Rio quando o rei e grande parte da corte partiram para Lisboa em 26 de abril de 1821. Não se sabe por que ficou.

Brasil imperial e últimos anos, 1821–1830