A crise na fronteira México–Estados Unidos é uma crise migratória em curso na América do Norte relativa à imigração ilegal de pessoas para os Estados Unidos através da Fronteira entre México e Estados Unidos. Os presidentes norte-americanos Barack Obama e Donald Trump referiram-se a aumentos no número de migrantes na fronteira como uma "crise" durante seus mandatos. Após um declínio no número de migrantes atravessando a fronteira durante o primeiro governo Trump, as travessias ilegais voltaram a crescer durante o governo Biden, com mais de 7,2 milhões de migrantes encontrados entre janeiro de 2021 e janeiro de 2024, sem contar os gotaways. Especialistas atribuíram o aumento das tentativas de travessia à demanda reprimida, a mudanças nos padrões globais de migração, a uma mudança na percepção dos migrantes sobre a facilidade de cruzar a fronteira e a incentivos para que tentem atravessar novamente após expulsões com base no Título 42. O número absoluto de migrantes devolvidos aumentou, embora a porcentagem de pessoas enviadas de volta tenha diminuído. As detenções na fronteira retornaram a níveis de 2020 em meados de 2024.
Os migrantes, em sua maioria de cidadania guatemalteca, salvadorenha, hondurenha e venezuelana, estariam fugindo de dificuldades econômicas, violência de gangues e desastres ambientais em seus países de origem (particularmente agudos na Guatemala e em Honduras) para buscar asilo nos Estados Unidos. Ao contrário do perfil demográfico dos migrantes em anos anteriores, uma proporção crescente dos atuais migrantes que chegam à fronteira México–Estados Unidos é composta por crianças, incluindo menores desacompanhados e por pessoas provenientes de países fora da América Latina.
Contexto Os agentes da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos (United States Border Patrol, USBP), uma agência federal de aplicação da lei, são responsáveis por dissuadir, detectar e deter qualquer pessoa que cruze ilegalmente para os Estados Unidos em qualquer ponto que não seja designado como ponto de entrada pelo Procurador-geral dos Estados Unidos. Além disso, os agentes interceptam e apreendem contrabando introduzido nos EUA por pontos que não sejam de entrada oficial. Os agentes da USBP atuam tanto como autoridades de imigração quanto de alfândega. A segurança de fronteira e a política de imigração têm sido uma questão divisiva na política há muito tempo. Em 1996, foi aprovada a Lei de Reforma da Imigração Ilegal e Responsabilidade do Imigrante, que acelerou a deportação de imigrantes detidos ao cruzar a fronteira. Após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, foram implementadas leis de imigração mais rígidas, que deram mais poder à USBP.
A violência é uma das principais causas da imigração rumo ao norte, em direção aos Estados Unidos. De acordo com o GAO, o ATF constatou que 70% das armas de fogo recuperadas e enviadas para rastreamento no México, entre 2014 e 2018, tinham origem nos Estados Unidos. Estima-se que entre 200 000 e 500 000 armas sejam contrabandeadas através da fronteira Estados Unidos–México todos os anos. Em El Salvador, 49% das armas ilegais vêm dos Estados Unidos. Em Honduras, 45% das armas recuperadas em cenas de crime foram rastreadas até os Estados Unidos. Em 2021, o governo mexicano processou fabricantes de armas dos EUA, buscando responsabilizá-los pelos danos infligidos por cartéis de drogas mexicanos na guerra às drogas em curso no México.
A interferência dos Estados Unidos na América Latina (incluindo por meio da mudança de regime) também contribuiu para a instabilidade que levou à emigração.
Mortes ao longo da fronteira A Organização Internacional para as Migrações (International Organization for Migration, IOM) documentou 686 mortes e desaparecimentos de migrantes na travessia da fronteira Estados Unidos–México em 2022, tornando-a a rota terrestre mais letal do mundo para migrantes. Isso representa um aumento acentuado se comparado ao período em que a USBP registrou 294 mortes de migrantes no ano fiscal de 2017 (encerrado em 30 de setembro de 2017), número inferior ao de 2016 (321) e a qualquer ano do período 2003–2014. Algumas das principais causas são exposição às intempéries (incluindo golpe de calor, desidratação e hipertermia). Muitas mortes e desaparecimentos recentes foram associados ao calor recorde e, portanto, às condições perigosas de travessia nos desertos de Sonora e de Chihuahua. No entanto, as taxas de mortes e desaparecimentos de migrantes só aumentaram nos últimos anos.
De acordo com estimativas do grupo Border Angels, cerca de 10 000 pessoas morreram na tentativa de cruzar a fronteira desde 1994. Contudo, as estatísticas mencionadas acima refletem apenas mortes conhecidas e não incluem estimativas daquelas pessoas cujos corpos nunca foram encontrados. Algumas mortes de migrantes podem não ser registradas, mesmo quando chegam ao conhecimento das autoridades. Em uma interação recente entre a WOLA e autoridades da Patrulha de Fronteira, a agência afirma ter encontrado 640 migrantes mortos entre outubro de 2022 e agosto de 2023. Ainda assim, isso representa uma contagem subestimada. Houve poucos esforços por parte das forças policiais locais para manter um registro preciso e robusto das mortes de migrantes. Além disso, a infraestrutura para identificar e repatriar os restos mortais às famílias é insuficiente.
Linha do tempo
Governo Obama (2009–2017)
Em 2014, os Estados Unidos declararam uma crise na fronteira devido a um afluxo de menores desacompanhados e mulheres que atravessavam os postos de controle. A fronteira sul dos EUA há muito enfrentava dificuldades na implementação de políticas destinadas a prevenir tragédias relacionadas à imigração. Com o declínio da imigração ilegal oriunda do México, a crise dizia respeito principalmente ao aumento da imigração oriunda do Triângulo do Norte da América Central (NTCA), que inclui Honduras, Guatemala e El Salvador. Acadêmicos afirmaram que a crise migratória foi resultado de intervenções dos EUA na América Central durante a Guerra Fria, com altos níveis de instabilidade política, criminalidade violenta e pobreza derivando do apoio norte-americano a regimes autoritários.
Propostas legislativas thumb|400px|Imigrantes ilegais detidos pela Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos perto de Rio Grande City, 2016 Em junho de 2013, o Senado aprovou o projeto de reforma da imigração mais abrangente desde 1986. Negociado por um grupo bipartidário de oito senadores, catorze republicanos se juntaram a todos os democratas na votação a favor da medida; o presidente Obama prometeu sancioná-la. A maioria dos republicanos conservadores se opôs ao projeto e afirmou que ele "nasceria morto" na Câmara. O texto previa o reforço da segurança de fronteira, incluindo 20 000 novos agentes de patrulha, a conclusão de 700 milhas de cercas na fronteira e novos equipamentos de vigilância. O projeto também oferecia um "caminho para a cidadania" a cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais já vivendo no país. Pesquisas do Gallup indicaram que a reforma era amplamente apoiada tanto por democratas quanto por republicanos. O presidente da Câmara, John Boehner, recusou-se a considerar o projeto, prometendo "fazer o nosso próprio texto". Nenhuma reforma migratória foi aprovada.
Legado
O legado migratório do governo Obama é marcado por complexidade. Embora tenha sido conhecido pela aplicação rigorosa das leis de imigração, resultando na deportação de um número significativo de migrantes, a criação da Ação Diferida para Chegadas na Infância (DACA) se destaca. Essa iniciativa forneceu proteção contra deportação para mais de 750 000 pessoas que foram levadas aos EUA ainda crianças.
Primeiro governo Trump (2017–2021)
thumb|400px|Imigrantes ilegais detidos na superlotada estação da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos em McAllen, Texas, 2019 thumb|O presidente Donald Trump examina protótipos do muro de fronteira em Otay Mesa, San Diego thumb|Em junho de 2018, milhares protestaram contra a política de separação de famílias em São Francisco, no movimento "Families Belong Together" Em janeiro de 2019, Trump introduziu os Protocolos de Proteção ao Migrante (também conhecidos como Remain in Mexico), que obrigavam solicitantes de asilo a esperar no México por suas audiências de imigração nos EUA. Cerca de 70 000 pessoas foram devolvidas ao México como resultado. O governo Trump passou a pedir que os migrantes pegassem uma senha na fronteira e aguardassem até serem chamados para ter seus pedidos de asilo analisados. Como resultado, em setembro de 2019, a justiça de imigração dos EUA acumulava mais de um milhão de casos pendentes, igualando o maior volume de processos já registrado no país.
Em setembro de 2019, a Suprema Corte dos Estados Unidos permitiu que entrasse em vigor uma nova decisão que poderia restringir a maior parte das solicitações de asilo na fronteira. A decisão determina que a maioria dos solicitantes que atravessam outro país antes ficará inelegível para pedir asilo na fronteira sul dos EUA. Mark A. Morgan, comissário interino da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP), afirmou que a medida entraria em vigor na semana de 8 de outubro de 2019.
Em vários locais, perigos como sequestro, assassinato e agressão sexual ameaçavam milhares de migrantes centro-americanos que ficaram meses concentrados em cidades mexicanas de fronteira, como Matamoros, impedidos de solicitar asilo nos EUA devido às novas restrições. O governo dos EUA e as Nações Unidas ofereceram transporte gratuito para retornar refugiados a seus países de origem na América Central, mas muitos dos que ficaram retidos em Matamoros afirmaram que o desespero os levava a considerar métodos arriscados e potencialmente letais de entrada ilegal — atravessar o rio, esconder-se em caminhões de carga conduzidos por traficantes de pessoas, ou ambos. Em 2019, segundo a USBP, o número de migrantes flagrados escondidos em caminhões de carga ao longo da fronteira cresceu 40% naquele ano.
Em março de 2020, Trump instituiu a política do Título 42, que permitiu às autoridades norte-americanas expulsar rapidamente migrantes, incluindo solicitantes de asilo, na fronteira. Entre sua implementação e janeiro de 2021, quase 400 000 pessoas foram expulsas com base no Título 42. Os encontros caíram cerca de metade no ano fiscal de 2020, quando a fronteira foi fechada durante a Pandemia de COVID-19, após um aumento nos encontros no ano fiscal de 2019.
Em 16 de janeiro de 2021, Guatemala e México mobilizaram militares para suas fronteiras na tentativa de impedir que uma caravana de migrantes atravessasse seus territórios rumo aos Estados Unidos.
Governo Biden (2021–2025)
Em seu primeiro dia no cargo, Biden interrompeu a construção do Muro na fronteira Estados Unidos–México, encerrando a emergência nacional declarada pelo governo Trump em 1.º de fevereiro de 2019. Ele também suspendeu a política "Remain in Mexico" de Trump e, embora um tribunal inicialmente tenha bloqueado sua revogação, a Suprema Corte dos Estados Unidos a confirmou em 30 de junho de 2022.
No início do governo Biden, um aumento no número de migrantes na fronteira dos EUA gerou controvérsia. Segundo uma reportagem de 2021 da Politico, republicanos já esperavam, antes da posse de Joe Biden, que haveria um pico na fronteira no início de 2021 (devido a padrões sazonais e crises regionais) e planejaram transformar o tema em eixo central da campanha para as eleições de meio de mandato de 2022. A USBP registrou 5 858 encontros com menores desacompanhados em janeiro de 2021 e 9 457 em fevereiro de 2021. Este foi o maior aumento percentual mês a mês desde que a CBP começou a acompanhar esse dado, em 2010.