Derivacivilização é o segundo álbum do cantor brasileiro Ian Ramil, lançado em 13 de outubro de 2015. Recebeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa, empatado com Éter do Scalene, sendo o primeiro disco do Rio Grande do Sul a conquistar a premiação. Ian foi indicado ao Grammy Latino juntamente a seu primo Thiago, que disputou a categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa com seu disco de estreia Leve Embora.

Conceito e temáticas O álbum Derivacivilização surgiu a partir da pergunta: "Para onde deriva a civilização?" As faixas que o compõem foram escritas no período de dois anos entre a concepção e o lançamento do seu antecessor, Ian (2014).

Em entrevista à revista Rolling Stone Brasil, Ian declarou que o conceito do disco é "a relação da pessoa com o urbano. Estava pensando nessa situação de histeria pelo excesso de informação. Esse sufocamento das cidades que sentimos todo dia na pele. Existe um vazio um enorme que parece nunca ser preenchido. E estamos sempre tentando preenchê-lo."

Ao compará-lo com Ian, o cantor o considerou "muito mais maduro e consciente" e acreditou que as pessoas poderiam ou não gostar "muito mais" dele, pois "é um disco mais difícil, mais agressivo, e hoje em dia as pessoas gostam mais de ursinhos, cachorrinhos... Ninguém gosta muito do que se propõe a uma reflexão mais profunda ou que tenha uma ironia ou uma acidez. A gente vive uma época de marasmo intelectual generalizado, me parece". Ele também negou que a recepção do lançamento anterior - que lhe rendeu o Prêmio de Revelação do Ano em Música Popular pela Associação Paulista de Críticos de Arte - tenha colocado pressão na criação do segundo trabalho, pois este já estava estruturado quando a premiação veio.

Ele também defendeu que a agressividade do disco foi pensada, e não é fruto de pura "raiva". "Temos que ter cuidado pra não cair nessa raiva infundada e dispersa que tá rolando no país. Que é gritar sem antes ter parado pra pensar no que tá falando, sem se informar, sem tentar entender a situação. Gritar por gritar. Gritar pra se posicionar. Eu me posiciono bastante no disco, mas eu não tô me posicionando por me posicionar. Tô me posicionando em função do que venho refletindo há bastante tempo. Procurando não ser vazio nunca, e nem leviano, porque são questões delicadas. E hoje em dia todo mundo grita o tempo inteiro e 95% não sabe o que tá gritando".

Em declaração ao jornal O Globo, disse que queria "que o disco saísse desse padrão industrial que vemos por aí. Hoje, a indústria exige tudo certinho, perfeito. Eu queria trazer a realidade para dentro do disco. Com as imperfeições, a gente traz a essência da música [...]. Eu procurei olhar para fora, menos para o lado pessoal e mais para as questões externas em que eu estou inserido. Olhar para a civilização e tentar entender como nos colocamos nela, o que estamos construindo e destruindo como espécie humana. Nesse mundo tão louco, de tanta coisa difícil de engolir, a arma que eu tenho é a música". No mesmo texto onde saíram essas afirmações, é dito que Chico César descreveu as faixas como "punk-progressivas".

Produção e gravação A gravação do disco aconteceu ao longo de 15 dias de janeiro de 2015 na cidade de Pelotas, na casa onde Ian cresceu dos 5 aos 17 anos de idade, uma construção datada de 1920. Os pais de Ian ainda moravam no local, mas estavam em Barcelona na época da gravação. Os reverbs ouvidos ao longo do disco são frutos da acústica da prórpia casa, e não efeitos adicionados posteriormente. Uma inspiração para essa forma de gravar foi o álbum Blood Sugar Sex Magik, gravado pelos Red Hot Chili Peppers em uma casa também.

A edição física do trabalho foi financiada coletivamente pelo site Catarse. Sua capa é uma arte de André Bergamin baseada numa obra de Isabel Ramil com fotos de Lauro Maia, Mario Maia e Tuane Eggers.

Informações das faixas A abertura do disco, "Coquetel Molotov", combina uma letra escrita "num jorro" com um instrumental que por muito aguardava uma letra (apenas uma frase já estava pronta: "eu tô sentado em casa vendo qualquer merda na tv, há muito não entendo nada e sempre tenho o que dizer".). Seu nome já existia desde 2012. Ian a descreve como "mais um esporro, um soco na parede, uma raiva de como as coisas acontecem e como a gente se coloca nas situações".

A faixa título, com participação de Catto, foi desenvolvida a partir de um arpejo originado em um ensaio e adota a palavra "cocar" em sua letra para representar "a cor, a nossa natureza exuberante e o pisoteamento de uma civilização que seguimos esmagando e desprezando em nome de progresso e tecnologia."

"Salvo-Conduto", co-assinada por Poty Burch, é inspirada em "absurdos e inversões de valor nessa casa de espelhos distorcidos que é a humanidade". "A Voz da Indústria", com participação de Alexandre Kumpinski (Apanhador Só), versa sobre a indústria musical a partir do ponto de vista dela mesma e "Corpo Vazio" fala de consumismo.

"Artigo 5º", com participação de sua irmã Gutcha Ramil, transforma em música as frases que compõem este dispositivo da atual Constituição brasileira, uma ideia de Leo Aprato, que assina a faixa com Ian. Depois da enumeração dos itens do artigo, vem uma risada e uma série de críticas e questionamentos à real aplicação desses direitos.

A música reflete a opinião de Ian de que "se diz, mas não se faz. Não se respeita nada. Há uma falta de senso coletivo, de entender o coletivo como parte da gente. Ver como, direta ou indiretamente, as coisas nos afetam na nossa cidade, no planeta. No momento em que tem um monte de gente de [sic] miserável sofrendo, no limite, tu, enquanto classe média, fecha o olho e só quer se proteger e levantar grade por tudo. Como é que se chega em uma sociedade mais justa com um pensamento mais coletivo?"

Em um artigo para a UFRJ, o pesquisador da Universidade Luterana do Brasil Moysés Pinto Neto viu tanto ela quanto "Coquetel Molotov" como críticas a um estado de exceção. Por outro lado, ele colocou "Salvo-Conduto" e "Devagarinho" como momentos em que é possível existir fora do ritmo opressor e acelerado, indo, no caso da segunda, de encontro com o que defenderam Mauro Ferreira e Cleber Facchi em suas críticas do disco. "Devagarinho" foi inicialmente inspirada pela namorada de Ian, que é médica e segue uma rotina muito mais regrada que a dele, de artista.

"Rita-Cassete (a re par ti ção)" é descrita por Ian como "um delírio", criado a partir de uma letra esboçada porém rejeitada do baixista Guilherme Ceron. "Não Vou Ser Chão Pros Teus Pés" é a mais antiga do disco, e foi reaproveitada após um período deixada de lado. Da sua versão original, restou apenas o refrão e poucos versos.

Divulgação Em 7 de dezembro de 2015, Ian divulgou um vídeo para "A Voz da Indústria", com participação de Alexandre Kumpinski, vocalista do Apanhador Só. O vídeo foi dirigido por Christopher Augusto e combina imagens da internet (incluindo virais) com propagandas, de modo a construir uma crítica à indústria cultural. As faixas "Coquetel Molotov" e "Devagarinho" também foram lançadas como um single duplo.

O álbum foi disponibilizado para download gratuito no site oficial do cantor.

Turnê e shows de lançamento Ian Ramil promoveu alguns shows de lançamento do trabalho, incluindo na Praça Coronel Pedro Osório, em Pelotas, e no Parque da Redenção, em Porto Alegre.

Em sua turnê de divulgação do trabalho, Ian montou um grupo com o guitarrista Lorenzo Flach, o baixista Guilherme Ceron, o pianista e clarinetista Pedro Dom e o baterista Pedro Petracco. Chegaram a abrir shows de Elza Soares, que então excursionava para promover A Mulher do Fim do Mundo.

Faixas

Recepção Recepção da crítica

Em seu blog Notas Musicais, o jornalista Mauro Ferreira viu tons de rock indie e experimental no disco, que considerou melhor que o anterior. Enquanto que em Ian ele teria mostrado "forte personalidade musical", para Mauro é em Derivacivilização que Ian "encontra sua turma e afia sua linguagem, encontrando o tom apropriado para obra ora calcada no indie rock". Ele chamou o disco de "nervoso, que capta as aflições e os ruídos urbanos do mundo contemporâneo - e que diz coisas até desagradáveis" e de "ruidoso, raivoso, de digestão difícil pelo conteúdo corrosivo", finalizando com a análise de que, com a obra, Ian "eleva seu nome na contemporânea cena musical do Brasil".

Em seu site Música Instantânea, o jornalista Cleber Facchi acreditou que o cantor deixou uma "estrutura melódica testada no primeiro álbum [...] para incorporar arranjos e versos essencialmente caóticos" e que ele pinta "um retrato honesto dos diferentes núcleos e conflitos que fragmentam o atual cenário político e social brasileiro". Ele chamou o trabalho de "intenso" e afirmou que ele "parece orquestrado de forma a surpreender o ouvinte a cada nova execução.

No portal Nonada, João Vicente Ribas diz que, se fosse lançado nos Estados Unidos, o CD provavelmente traria o adesivo do Parental Advisory Explicit Content. Ele analisou que Ian "superou nosso velho desejo de agradar, de se enquadrar, de se formatar a um mercado que não existe mais".

No site Monkeybuzz, André Felipe de Medeiros diz que o álbum "encontrou o formato ideal para que o músico gaúcho explorasse ainda mais seu potencial em composições que resumem o espírito de inevitável revolta das mentes atentas aos problemas sócio-culturais que o Brasil enfrenta hoje em dia". Ele elogiou a maneira com que as músicas parecem resultar de experimentações, bem como a sonoridade direta e urgente. Ele finalizou dizendo que "tudo isso funciona em função da interpretação sempre potente de Ian Ramil, que dá seu recado com clareza e, repare, boa sensibilidade nas entrelinhas de quem canta cansado da situação e disposto a mudá-la."

O site Tenho Mais Discos que Amigos! o incluiu na lista de 50 melhores discos nacionais de 2015, dizendo que, nele, Ian é "direto, contundente e experimental".

Análises mais amplas Ainda em seu artigo, Moysés Pinto Neto vê Derivacivilização como "profundamente político" e analisa que ele musica o que chama de "hiperaceleração", dor corporal e colapso civilizacional. Segundo Moysés, Ian Ramil faz crítica ao mundo contemporâneo em que o corpo é sufocado por demandas produtivas, tecnológicas e urbanas e sofre intrusão do do aspecto mental pelo físico. Ele vê na obra críticas e abordagens ao fim dos mundos, a crise ecológica e o progresso, traçando paralelos com Gaia e o antropoceno.

Ao avaliar a conquista do Grammy Latino pelo álbum por Ian, o professor da UFPel Leandro Maia opinou que o prêmio foi "um recado da comunidade internacional ao que ocorre no Brasil", por ver o disco como "de posicionamento fortíssimo e contemporâneo". Leandro colocou Ian num grupo de novos artistas de destaque do Rio Grande do Sul (juntamente a Apanhador Só, Catto, Gisele De Santi, Trem Imperial, Fabrício Cambogi, Marcelo Fruet), comentando que "esta geração resolveu importantes equações da música MPB/Rock no RS, sem afetação ou provincianismo. Com visão abrangente, sem queixumes, mas sabendo das boas brigas."

Em uma análise na Gazeta do Povo, Rafael Rodrigues Costa notou a presença desse disco "caseiro, financiado por crowdfunding e gravado 'entre amigos' por longos meses, pirando, marginais à indústria, cagando pros-e-nos donos do mundo" em meio a trabalhos lançados por gravadoras grandes. Para ele, tratou-se de um sinal de mudança no mercado fonográfico.

Prêmios e indicações Ano Prêmio Categoria Resultado 2016 Grammy Latino Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa Melhor Artista Revelação Prêmio Açorianos Música – pop

Créditos Conforme Mauro Ferreira, Cleber Facchi e Ariel Fagundes Ian Ramil — vocais, produção Felipe Zancanaro (Apanhador Só) — guitarras Guilherme Ceron — baixo, produção Martin Estevez (Quarto Sensorial, ex-Apanhador Só) — bateria