Taki Unquy (em quíchua, com grafias hispanizadas e alternativas como Taqui Ongoy, Taki Oncoy, Taqui Honcoy, Taqui Onccoy, Taki Onqoy) foi um movimento indígena milenar com dimensões políticas, religiosas e culturais que surgiu nos Andes peruanos durante o século XVI, aproximadamente entre 1564 e 1572 em oposição à recente chegada dos espanhóis.
Contexto histórico
Chegada violenta dos europeus e a resistência indígena Quando os europeus, principalmente espanhóis e portugueses, chegaram a América entre os séculos XV e XVI estes promoveram um forte processo de transformação nos locais em que se estabeleceram. As transformações incluíam a catequização forçada e renegação das culturas tradicionais.
A forma como os povos originários receberam os europeus ainda é motivo de debates na comunidade historiográfica, estima-se que aconteceram por volta de 14 revoltas durante a primeira metade do século XVI, muitos povos buscaram resistência contra a forma como os espanhóis e portugueses impunham suas culturas, o movimento Taki unquy é um exemplo dessa rebeldia.
O nome, e seu significado A tradução literal de Taki Unquy é "doença do canto" ou "doença da dança", já a tradução coerente ao sentido dado pelos andinos é complexa. O nome vem daqueles que viveram na época da chegada dos europeus na América, que acreditavam que os Huaca, divindades, estavam incomodados com a expansão do cristianismo e a conversão de muitos originários. Dessa forma, segundo a mitologia, os Huaca, espíritos andinos, teriam então começado a possuir os povos indígenas, fazendo-os dançar ao som da música e anunciar a vontade divina de restaurar a cultura, a mitologia e a política pré-hispânicas, por isso a ligação do nome a cantos e danças.
O movimento Taki Unquy surgiu por volta de 1560 em Huamanga e Aiacucho no Peru, de onde se espalhou para Huancavelica, Lima, Cusco, Arequipa, Chuquisaca e La Paz. Inicialmente, o movimento foi chamado de "A Revolta dos Huaca", que promulgava a rejeição do deus cristão imposto por meio de coerção violenta durante a conquista espanhola. Além disso, o movimento promovia o retorno ao culto das huacas, que são tanto os deuses pré-hispânicos quanto os locais onde seu culto era praticado. Segundo diversos pensadores isso reflete a forma como as culturas andinas enxergavam a cosmologia buscavam se revoltar contra a colonização. miniaturadaimagem|Desenho representando "La Borachera, Machasca", de Guamán Poma(1615:862) possivelmente referindo-se a Taki Onqoy. A mulher no texto está repreendendo o Diabo, que possuiu o homem que bebe muito. O texto em quéchua diz : "Auaya ayauaya! Machac, machaclla. Tucuy cay upyac, upyaclla. Tucuy cay quimnac, quipnaclla. Tucuy cay camca serui, suyulla. Mina suyulla." Em português, isso se traduz como : "Awaya, ayawaya! O bêbado é apenas um bêbado, o bebedor apenas um bebedor, o que vomita apenas vomita. O que você faz é servir a si mesmo, diabo. As minas são o seu lugar"
Características religiosas Os fatores religiosos eram o principal motivo do movimento, segundo à crença os Huacas estariam insatisfeitos com todo o processo de catequização, e por isso, estavam entrando nos corpos dos indígenas para espalhar as ideias de que eles não deveriam ceder ao deus espanhol. De acordo com a nova crença, os poderes dos Huacas não estavam nas pedras, nem nas árvores, nem nas lagoas como na época dos Incas, mas sim no movimento de entrarem nos corpos das pessoas:
[...]de los índios e les hazian hablar e de allí tomaron a temblar dizendo que tenian las guacas no corpo e a muchos delos tomauan y pintauan los rrostros con color colorada y los ponian en unos cercados e allí yuan los yndios a los adoração por tal guaca ydoles que dezia que se le avian metido no corpo[...]María, Santa; Alberto, Luis (2017). "Taki onqoy: epidemia de intoxicación por exposición al mercurio en Huamanga del siglo XVI". Revista Peruana de Medicina Experimental y Salud Publica. 34 (2): 337–342. doi:10.17843/rpmesp.2017.342.2738. ISSN 1726-4634. PMID 29177398.
Tradução do trecho:
“Isso fazia os indígenas falarem e depois tremerem, dizendo que tinham as huacas dentro deles, e muitos deles bebiam e pintavam seus rostos com tinta vermelha e depois iam para recintos onde eram adoradas a huaca ou o ídolo que os possuía”
Transformação em revolta política De uma rebelião contra o cristianismo, o Taki Unquy rapidamente se desenvolveu para uma revolta política com uma ideologia em manter a tradição andina. Acreditava-se que as huacas retornariam com toda a sua força e derrotariam o deus espanhol, bem como os invasores vindos península, restabelecendo o equilíbrio em um mundo devastado pela conquista. Por isso, era necessário se reunir e rebelar-se contra o sistema colonial.
Repressão O líder principal do movimento era um indígena chamado Juan Chocne. A revolta foi severamente reprimida pelo representante oficial da Coroa Espanhola, Cristóbal de Albornoz, que colaborou com o cronista Felipe Guaman Poma de Ayala. Felipe levou Chocne e os outros líderes espirituais para Cusco, onde deveriam renunciar publicamente às suas crenças e aderir ao cristianismo. As mulheres participantes foram aprisionadas em conventos e os Kurakas foram multados por sua participação na revolta.
Conclusão O movimento acabou em poucos anos, estima-se que a prática tenha terminado em 1572, mas a esperança de uma "reconquista" sobreviveu no folclore e nos círculos intelectuais. Bruce Mannheim argumenta que o medo dos colonizadores de acontecer uma nova revolta pode ter sido tão forte que cinquenta anos depois, quando Juan Pérez Bocanegra traduziu e publicou o hino quéchua "Hanacpachap cussicuinin", ele evitou fortemente o termo unquy, embora este se encaixasse bem no tema ao lado de outros nomes das Plêiades.Bruce Mannheim, "A Nation Surrounded," in Native Traditions in the Postconquest World, ed. Elizabeth Hill Boone and Tom Cummins, 383-420 (Dumbarton Oaks, 1998), 400-401.
Transcendência e importância do movimento O tema permaneceu na obscuridade por décadas e foi revitalizado pela obra do historiador peruano Luis Millones em 1964. Desde então, com o movimento decolonial cada vez mais em alta, tem sido objeto de revisão e análise, contribuindo para a compreensão de problemas no Peru contemporâneo, como o processo histórico das insurreições andinas contra os espanhóis. Até então, acreditava-se que outros movimentos, como o liderado por Manco Inca II, Juan Santos Atahualpa ou mesmo a recente rebelião de Túpac Amaru II, possuíam apenas aspectos políticos, sem que as dimensões culturais e religiosas recebessem a devida importância, foi o estudo de conceitos como o Taki Unquy que possibilitou um maior entendimento desses outros movimentos.
O conceito transcendeu as fronteiras do Peru quando começou a ser explorado em outro locais, como quando o cantor e compositor argentino Victor Heredia lançou um álbum intitulado Taki Ongoy em 1986. Em outro momento, o dramaturgo, diretor e ator peruano, Hugo Bonnet Rodríguez, escreveu uma peça intitulada "Taki Onqoy". A peça retrata o arrependimento dos andinos após terem ajudado os espanhóis a destruir os incas, e sua tristeza pelas subsequentes mudanças históricas. A peça pode ser encontrada no livro homônimo, Taki Onqoy, juntamente com outras obras do autor.
Ver também
Inkarri Sincretismo Dança Fantasma Conjuração Baiana Decolonização do conhecimento
Bibliografia
Doig, FK (2002). História e arte do antigo Peru. Volume 6, p. 1000. (Relatório não esclarecido chega do testemunho de Christopher Ximénes sobre o Taqui Oncoy mencionado na obra acima citada). Soriano, NÓS (1987). Los Incas. Lima: Amaru. Del Pino, AT (2001). Enciclopédia Ilustrada del Peru. Lima: PEISA. MACCORMACK, Sabine'. Religion in the Andes: Vision and Imagination in Early Colonial Peru. STERN, Steve J'. Peru’s Indian Peoples and the Challenge of Spanish Conquest: Huamanga to 1640.Madison: University of Wisconsin Press, 1982. BRUIT,Héctor. O visível e o Invisível na conquista hispânica da América. In: VAINFAS, Ronaldo (org.). América em tempo de conquista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1992, p.77- 101 María, Santa; Alberto, Luis (2017). "Taki onqoy: epidemia de intoxicación por exposición al mercurio en Huamanga del siglo XVI". Revista Peruana de Medicina Experimental y Salud Publica. 34 (2): 337–342. doi:10.17843/rpmesp.2017.342.2738. ISSN 1726-4634. PMID 29177398. IGLESIAS,Francisco. Encontro de duas culturas: América e Europa. Revista Estudos Avançados. nº6(14), 1992, p.23- 37
Ligações externas A Hidra das Mil Cabeças - História dos movimentos sociais
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