A odontologia desenvolveu-se nos primórdios da história de Roma, possivelmente em decorrência da chegada de um médico grego chamado Arcagoto. Os instrumentos cirúrgicos orais utilizados na Roma Antiga incluíam curetas, osteótomos, cautérios, bisturis, fórceps ósseosDonaldson, James; McWilliam, Janette. "Ancient medicines and bone lever in rare Roman medical kit." Premium Official News, 26 Feb. 2016. Gale OneFile: News. e alavancas ósseas. Os romanos antigos também foram pioneiros no uso de narcóticos durante procedimentos odontológicos. Esses instrumentos eram empregados no tratamento de condições como dor de dente e na extração dentária. Acreditava-se, na Roma Antiga, que a causa dessas afecções condições era um suposto "verme dentário".
História Segundo Plínio, o Velho, escritor romano do século I, durante grande parte da história romana, não existiu uma comunidade médica estruturada. Nesse período, os cuidados com a saúde baseavam-se principalmente em remédios caseiros populares, e não em médicos com formação profissional. A medicina teria sido em Roma pelo médico grego Arcagato, que viajou para até a cidade e ali se estabeleceu como médico. Com o tempo, ele adquiriu a reputação de empregar o aço e o fogo de forma excessivamente agressiva, o que lhe rendeu o apelido de "açougueiro" e prejudicou sua imagem. No entanto, evidências arqueológicas e históricas contestam essa narrativa.
As Doze Tábuas — o conjunto de leis que formava a base do direito romano — mencionam dentes revestidos de ouro, o que indica que a odontologia já era praticada naquele período. Outras evidências incluem a descoberta de materiais protéticos destinados ao tratamento de problemas de saúde bucal em cidades romanas como Teano. Instrumentos odontológicos também foram encontrados em diversos sítios arqueológicos romanos, sugerindo que a prática da odontologia se disseminou por todo o mundo romano. Não está claro, contudo, quais profissões romanas exerciam essa atividade. É possível que houvesse médicos especializados em procedimentos odontológicos; também é plausível que a odontologia fosse praticada como parte de outras profissões, como a barbearia.
No século III, São Dionísio relatou a história de Santa Apolônia, que teria sido brutalmente agredida por uma multidão de pagãos. Segundo o relato, seus dentes foram arrancados, e ela foi ameaçada de ser queimada caso não blasfemasse contra Deus. Em resposta, diz-se que Apolônia se lançou-de voluntariamente ao fogo. Após sua morte, tornou-se a padroeira da odontologia na tradição cristã. A análise de amostras dentárias da época romana e do início da Idade Média, logo após o colapso de Roma, indica que a prevalência de lesões dentárias e cáries aumentou durante a transição para o período medieval. Evidências semelhantes provenientes da Croácia, datadas da Antiguidade Tardia e do início da Idade Média, sugerem um aumento nas taxas de abscessos, cáries, perda dentária, cáries em dentes posteriores e reabsorção alveolar no início do período medieval. Por outro lado, essas mesmas evidências indicam que os romanos da Antiguidade Tardia apresentavam taxas mais elevadas de cáries em dentes anteriores, possivelmente em razão de fatores não relacionados a alimentação.
O anatomista romano Galeno comentou os trabalhos de Hipócrates, classificando os dentes como ossos, embora tenha observado suas características distintas em relação aos demais. Foi também o primeiro a identificar a presença de nervos nos dentes e a descrever sete nervos cranianos em suas pesquisas.
Odontologia estética miniaturadaimagem|219x219px|Dentaduras etruscas Os romanos antigos clareavam os dentes utilizando uma pasta dentária feita de urina humana e leite de cabra. Escribônio Largo, médico romano do século I, afirma que Messalina — esposa do imperador Cláudio — utilizava uma pasta dentária composta de mástique, salamoniaca e chifres de veado calcificados. Palitos de dente, conhecidos pelos romanos como dentiscalpia, também eram empregados na higiene bucal; geralmente eram feitos de madeira de lentisco, embora, em alguns casos, penas ou até ouro fossem utilizados. Plínio relata que palitos de dente confeccionados com espinhos de porco-espinho endureciam os dentes, enquanto espinhos de abutre provocavam mau hálito.
As próteses dentárias foram desenvolvidas pela primeira vez pela antiga civilização etrusca no século VII a.C.; nos séculos seguintes, próteses de ouro permaneceram em uso em toda a Etrúria e em Roma. No entanto, essas próteses de ouro desapareceram do registro arqueológico no final do período republicano. O escritor médico romano do século I, Celso, descreveu um procedimento no qual os médicos utilizavam fios de ouro ou de seda para amarrar os dentes à gengiva, permitindo que implantes dentários substituíssem dentes perdidos. O mesmo método também poderia ser aplicado para restaurar partes ausentes de dentes ainda existentes. O uso de implantes de ouro é igualmente mencionado por Marcial, que descreveu o reparo de dentes quebrados por meio de obturações de ouro. Cícero, político romano do século I a.C., faz referência a uma lei que proibia o sepultamento de cadáveres com ouro, exceto nos casos em que o falecido possuísse implantes dentários de ouro. O cirurgião-dentista e historiador Bernhard Wolf Weinberger interpretou essa legislação como um indício de que os implantes de ouro eram comuns, pois, segundo ele, não haveria razão para mencioná-los explicitamente como exceção se fossem raros.
Celso mencionou a possibilidade de substituir dentes usando dentes reais extraídos de cadáveres. Evidências arqueológicas de dentes romanos falsos datando do século I ou II foram possivelmente desenterradas em uma necrópole galo-romana perto do povoado de Chantambre em Essonne, França. Escavadores descobriram os restos mortais de um homem romano de cerca de 30 anos com um implante de metal no segundo pré-molar superior direito. Os escavadores argumentaram que era feito de ferro ou aço não ligado, embora acreditassem que continha traços de cálcio e silício. Certas seções do implante estão mais oxidadas do que outras áreas; os pesquisadores acreditam que essa discrepância indica que a peça pode ter sido forjada por meio de martelamento e dobra. No entanto, a veracidade dessa descoberta foi fortemente criticada pelo arqueólogo Dr. Marshall J. Becker, que argumentou que a descoberta era mais provavelmente um dente natural manchado com óxido de ferro. Em seus Epigramas, Marcial frequentemente ridiculariza outros por utilizarem dentes postiços: ele zomba de uma prostituta caolha por usar dentes postiços e uma peruca, ridiculariza uma velha senhora por seus dentes postiços feitos de osso e marfim, e zomba de uma garota chamada Maximina por seus dentes postiços feitos de buxo e piche. Marcial descreve um médico chamado Cascellius que trabalhava perto do monte Aventino em Roma no século I d.C.; este dentista é descrito como preenchendo dentes com chumbo.
Anatomia do dente De acordo com o texto hipocrático De Carnibus, os dentes eram considerados ossos, uma vez que se estendiam dos ossos dentro da cabeça e da boca. O cirurgião romano Cláudio Galeno, do século II d.C., afirmou que o corpo humano continha 32 dentes divididos igualmente entre as mandíbulas superior e inferior. Ele agrupou esses dentes em três categorias: molares, caninos e incisivos. Os incisivos, conforme descritos por Galeno, eram dentes largos e afiados usados para cortar os alimentos. Galeno escreveu que havia quatro incisivos na parte frontal de cada mandíbula. Havia também apenas quatro dentes caninos; eles tinham uma base larga e estavam localizados em ambos os lados das mandíbulas. Seu nome deriva de supostas semelhanças com os dentes dos cães. Embora Galeno tenha notado os dentes molares, ele não distinguiu entre molares e pré-molares. Galeno documentou ainda casos de indivíduos com 4 molares em cada parte da mandíbula em vez de 5, incidentes de defeitos congênitos que resultaram em anormalidades nos dentes molares, bem como casos de pessoas com molares em excesso. De acordo com Galeno, a formação dos dentes começava dentro do útero e seu crescimento era concluído após a formação dos ossos do crânio. Galeno afirmou incorretamente que os dentes eram o único exemplo de tecido duro inervado.
Técnicas médicas
Restauração dentária A História Natural de Plínio, o Velho (23–79 d.C.), contém referências a materiais de preenchimento usados como obturações em dentes cariados. Coroas de ouro romanas datadas de 100 a.C. foram encontradas na escavação de Satricum.
Dores de dente miniaturadaimagem|232x232px|Fórceps dentários da Roma Antiga Galeno distinguiu entre doenças da raiz e da polpa em sua obra De ossibus, o mesmo texto em que também identificou o problema médico da dor de dente. Por volta de 100 d.C., o médico Arquígenes afirmou que a dor de dente poderia ser causada por uma doença da parte interna do dente, levando a uma inflamação da gengiva. Ele tentou tratar esse fenômeno aplicando uma pequena broca na coroa dentária. Outros médicos romanos acreditavam que as dores de dente eram causadas por um "verme dentário". Escribônio Largo acreditava que essa condição poderia ser tratada aplicando um bisturi para cortar os dentes infectados.
Os tratamentos para dores de dente eram populares e muito procurados devido à dor intensa e à cárie dentária que essa condição causava. Em sua obra História Natural, o escritor romano do século I, Plínio, o Velho, discutiu terapias para dor de dente. Ele descreveu várias misturas, como cinzas de minhocas queimadas, cinzas de ratos queimados misturadas com raízes de funcho e mel, fezes de pardal envoltas em lã; pele de cobra misturada com óleo, resina e resina de pinheiro, e então vertida em um ouvido. Plínio descreve ainda um paciente que, após receber um tratamento para dor de dente composto de cera e assa-fétida, cometeu suicídio. Celso aconselha os pacientes com dores de dente a aplicarem uma almofada de lã e uma esponja nos dentes afetados, abstendo-se inicialmente de beber vinho e comer; eles deveriam então comer apenas alimentos macios para evitar irritar as gengivas. Medicamentos como açafrão, ópio, ovos de aranha, minhocas fritas, pimenta e pasta de nardo podem ter sido usados como analgésicos para dores de dente.
Cárie dentária Evidências arqueológicas da casa de Júlio Políbio em Pompeia revelaram que, entre 11 crânios e 145 dentes, foram identificadas apenas 2 lesões osteolíticas e 10 cáries. Outro estudo sobre os esqueletos de 41 adultos e 12 crianças de Herculano revelou que apenas 3,8% dos 1275 dentes apresentavam cáries. A taxa relativamente baixa de lesões cariosas nessas amostras pode ser atribuída à água rica em flúor próxima a cada assentamento. A análise de uma amostra separada de 700 esqueletos da Via Latina revelou que, embora a maioria dos dentes não apresentasse cáries, 70% das amostras tinham pelo menos uma lesão cariosa. Além disso, 80% dos esqueletos apresentavam tártaro nos dentes e 26% apresentavam abscessos nos alvéolos. Evidências arqueológicas de 77 esqueletos em Viminacium, datados dos séculos II a IV, constataram que a saúde bucal da amostra estudada era comparável aos dados modernos, com apenas 3,9% dos esqueletos apresentando lesões cariosas. Cerca de 64% dos esqueletos apresentavam abrasão dentária, a condição mais prevalente na amostra.