A Igreja Anglicana em Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia, anteriormente conhecida como Igreja da Província da Nova Zelândia, é uma província da Comunhão Anglicana que abrange os territórios de Nova Zelândia, Fiji, Tonga, Samoa e as Ilhas Cook. Desde 1992, a igreja é composta por três tikanga ou correntes culturais: Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia. A constituição da igreja afirma que, entre outras coisas, é necessário "manter o direito de cada pessoa de escolher qualquer expressão cultural particular da fé". Como resultado, o Sínodo Geral da igreja concordou com o desenvolvimento da primazia dividida em três, com base no sistema de três tikangas; ela tem três primazes, cada um representando uma tikanga, que compartilham a autoridade.
A Igreja Anglicana é uma igreja apostólica, que afirma traçar a linhagem de seus bispos até os apóstolos por meio de ordens sagradas. O livro de orações da Nova Zelândia, A New Zealand Prayer Book, He Karakia Mihinare o Aotearoa (ANZPB/HKMOA), contendo liturgias, ritos e bênçãos tradicionais, é fundamental para o culto da igreja.
A Igreja Anglicana em Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia não está estabelecida como igreja oficial de nenhum estado soberano, ao contrário da Igreja da Inglaterra, da qual se originou. No entanto, os anglicanos têm desempenhado um papel de liderança preeminente em ocasiões de Estado na Nova Zelândia. Em 2016, em resposta a um estudo revisado por pares no Journal of Anglican Studies, publicado pela Cambridge University Press, a igreja relatou ter um total de 459.711 membros, dos quais 220.659 eram membros ativos regulares. Em 2017, o relatório Growth and Decline in the Anglican Communion: 1980 to the Present, publicado pela Routledge, compilou pesquisas que indicavam a existência de 632.100 anglicanos na Nova Zelândia e Polinésia, incluindo 6.600 em Fiji, 1.600 em Tonga, 340 em Samoa e 90 nas Ilhas Cook. O anglicanismo é a segunda maior afiliação religiosa cristã na Nova Zelândia, de acordo com o censo de 2023, que registrou 245.301 adeptos no país.
Nomes Até 1992, a igreja era formalmente chamada de "Igreja da Província da Nova Zelândia" e também era conhecida como "Igreja da Inglaterra". Agora é conhecida como "Igreja Anglicana", refletindo sua filiação à Comunhão Anglicana mundial. Os membros da igreja geralmente se identificam como "anglicanos".
O nome Māori para a Igreja Anglicana da Nova Zelândia, Te Hāhi Mihinare – que significa "a igreja missionária" – revela suas origens no trabalho dos primeiros missionários a chegar à Nova Zelândia.
História William Wilberforce foi uma das principais figuras do movimento abolicionista britânico, tendo liderado, durante cerca de vinte anos, a campanha parlamentar contra o comércio de escravos, que resultou na aprovação da Lei do Comércio de Escravos de 1807. Paralelamente à sua atuação política, Wilberforce participou da fundação da Sociedade Missionária da Igreja (Church Missionary Society – CMS) em 1799, em conjunto com outros membros do Grupo de Clapham, entre os quais se destacava John Venn. O grupo tinha como objetivo promover a ação missionária anglicana e incentivar uma melhoria no tratamento dispensado pelos britânicos aos povos indígenas sob domínio imperial.
A missão da CMS na Nova Zelândia foi iniciada por Samuel Marsden, o capelão anglicano em Nova Gales do Sul. Ele havia conhecido os chefes Ngāpuhi, Te Pahi e Ruatara, quando estes viajaram para fora da Nova Zelândia, e eles o convidaram para visitar suas terras. Ruatara ofereceu proteção à primeira estação missionária, em Rangihoua, na Baía das Ilhas.
No início do século XIX, a língua maori não possuía um sistema de escrita próprio. Com a chegada dos missionários europeus à Nova Zelândia, iniciou-se o processo de transcrição do idioma maori utilizando o alfabeto latino. Entre 1817 e 1830, a Sociedade Missionária da Igreja (CMS), em colaboração com o missionário Thomas Kendall, os líderes maoris Tītore e Hongi Hika, e o linguista Samuel Lee, da Universidade de Cambridge, desenvolveu a forma escrita da língua.
Em 1833, nas dependências da missão anglicana de Paihia, sob a direção do reverendo Henry Williams, o missionário William Colenso publicou as primeiras traduções da Bíblia em maori, que também se tornaram os primeiros livros impressos na Nova Zelândia. Seu Novo Testamento em maori, de 1837, foi a primeira tradução da Bíblia para uma língua indígena publicada no hemisfério sul. A demanda pelo Novo Testamento em maori, e pelo Livro de Orações que se seguiu, cresceu exponencialmente, assim como a liderança cristã maori e os cultos cristãos públicos, com 33.000 maoris frequentando-os regularmente em pouco tempo. A alfabetização e a compreensão da Bíblia aumentaram os benefícios sociais e econômicos, diminuíram a escravidão e a violência intertribal e aumentaram a paz e o respeito por todas as pessoas na sociedade Māori, incluindo as mulheres.
Missionários e o Tratado de Waitangi
Os maoris geralmente respeitavam os britânicos, em parte devido às suas relações com os missionários e também devido ao status da Grã-Bretanha como uma grande potência marítima, o que se tornava evidente para os maoris que viajavam para fora da Nova Zelândia. Na Inglaterra, a igreja e o estado estavam interligados e a Igreja da Inglaterra tinha um status especial garantido por lei. Os evangélicos, como anglicanos leais, aceitavam esse status e encorajavam os maoris a buscar proteção e reconhecimento junto à Coroa Britânica. Como resultado, os missionários da CMS, especialmente Henry Williams, desempenharam um papel fundamental ao encorajar os maoris a assinarem o Tratado de Waitangi em 1840.
Partindo do pressuposto de que um tratado em inglês não poderia ser compreendido, debatido ou aceito pelos Māori, Hobson pediu ao chefe da missão da CMS, Henry Williams, e a seu filho, Edward Marsh Williams, especialista em língua e costumes Māori, que traduzissem o documento durante a noite de 4 de fevereiro. Henry Williams estava preocupado com as ações da Companhia da Nova Zelândia em Wellington e sentiu-se obrigado a concordar com o pedido de Hobson para garantir que o tratado fosse o mais favorável possível aos Māori. Williams evitou usar quaisquer palavras em inglês que não tivessem expressão em Māori, "preservando assim integralmente o espírito e o teor" do tratado. Ele acrescentou uma nota à cópia que Hobson enviou a Gibbs, afirmando: "Certifico que a tradução acima é tão literal quanto o idioma do tratado de Waitangi permite."
Com o aumento do número de colonos europeus e a venda de mais terras Māori, o respeito dos Māori pelos missionários diminuiu. O surgimento de movimentos religiosos Māori, como o Pai Mārire e o Ringatū, refletiu essa rejeição ao cristianismo missionário. Quando o missionário Carl Sylvius Völkner foi acusado de espionagem pelos Māori em 1865, o fato de ele ser membro do clero anglicano não lhe conferiu proteção, e ele foi executado.
Igreja dos colonos
Após o trabalho missionário entre os Māori, a segunda grande influência na formação do Anglicanismo na Nova Zelândia veio do grande número de colonos anglicanos que chegaram em meados do século XIX. A maioria era da Inglaterra, com alguns da Irlanda e da Austrália. Os primórdios missionários da CMS e o grande número de colonos anglicanos fizeram com que o Anglicanismo se tornasse a maior denominação religiosa da Nova Zelândia. Em 1858, mais da metade da população da colônia era anglicana.
George Augustus Selwyn tornou-se Bispo da Nova Zelândia (o único bispo anglicano a ostentar esse título) em 1841. Ele liderou tanto a ala anglicana maori quanto a ala dos colonos. Os missionários evangélicos desconfiavam de seu controle sobre eles e de sua ênfase na autoridade da igreja, enquanto os colonos se mostravam hostis à sua postura pró-maori. Ele se viu cada vez mais dividido entre as questões de terra e soberania entre maoris e pākehā (neozelandeses de ascendência europeia).
A primeira paróquia anglicana na então capital Auckland foi St Paul's, fundada em 1841, um ano após a fundação da cidade, e conhecida como a "Igreja Matriz". O primeiro edifício da paróquia ficava em Emily Place, perto da Princes Street, onde uma placa ainda marca o local do início da igreja cristã em Auckland. St Paul's foi a sede do Bispo da Nova Zelândia durante todo o mandato de 28 anos de Selwyn e serviu como Catedral de Auckland por mais de 40 anos.
O bispo Selwyn inaugurou a Igreja de São Paulo em quatro cultos no dia 7 de maio de 1843. O próprio aprendeu a língua maori.
A CMS criticou Selwyn por ser ineficaz na formação e ordenação de clérigos – especialmente maoris. Levou-lhe 11 anos para ordenar o primeiro ministro anglicano maori, o Rev. Rota Waitoa (que estudou com Selwyn durante 10 anos) na Catedral de São Paulo, em 22 de maio de 1853. Selwyn se recusava a ordenar ministros maoris por não terem conhecimento do da língua grega, uma das características distintivas da educação clássica na época.
Selwyn geralmente defendia os direitos dos Māori e frequentemente criticava as práticas injustas e imprudentes de aquisição de terras que levaram às Guerras da Nova Zelândia. No entanto, seu apoio à Invasão de Waikato como capelão prejudicou seu relacionamento e o da igreja com os Māori, o que ainda se faz sentir hoje. Em 1865, Selwyn escreveu sobre o relacionamento da Igreja Anglicana com os Māori: Oh! Como as coisas mudaram! Quanta esperança foi diminuída pela experiência! Quando, em vez de uma nação de fiéis me acolhendo como seu pai, encontro aqui e ali algumas ovelhas dispersas, o remanescente de um rebanho que abandonou o pastor.
A igreja de São Paulo era considerada uma igreja de guarnição, mas quando os primeiros estandartes regimentais hasteados na Nova Zelândia foram doadas à igreja após as Guerras da Nova Zelândia, seu segundo vigário, o Rev. John Frederick Lloyd (que também foi capelão nas guerras), as recusou para que "nenhum ciúme de raça ou sentimento de hostilidade jamais fosse permitido entrar, mas que neste lugar os homens se lembrassem apenas de que são um em Cristo".
Constituição Embora os anglicanos tenham levado alguns dos privilégios da Igreja da Inglaterra para a Nova Zelândia, eles tiveram dificuldades em desenvolver um método de organização eclesiástica que levasse em conta seu novo status de igreja não oficial, ao lado de outras igrejas. Em 1857, após 15 anos de consultas, uma constituição para a igreja neozelandesa foi finalizada com base em um pacto voluntário. Os laços com as tradições da igreja-mãe na Inglaterra foram garantidos em seus cultos, ministérios e crenças. Nos níveis nacional e regional, bispos e representantes do clero e dos leigos se reuniam, mas votavam separadamente em assuntos da igreja, garantindo que cada grupo tivesse voz igual. A constituição resolveu os problemas da igreja dos colonizadores, mas não abordou adequadamente as necessidades administrativas e de liderança da igreja Māori.
Identidade regional A diocese de Selwyn foi progressivamente dividida em subdistritos, a partir de 1856, quando Christchurch se tornou uma nova diocese; Wellington, Nelson e Waiapu (Costa Leste) seguiram em 1858, e Dunedin se separou de Christchurch em 1869.
Cada diocese desenvolveu sua própria identidade. A diocese de Christchurch foi fortemente influenciada pelos colonos ingleses que chegaram com a Associação de Canterbury. Sob o comando de seu segundo bispo, Andrew Suter, Nelson desenvolveu uma tendência evangélica que se manteve no século XXI. Waiapu teve origens missionárias, realizando seus quatro primeiros sínodos (conferências oficiais da igreja) em língua maori. Essa influência missionária foi suplantada pelas guerras da Nova Zelândia e pelo crescimento da influência dos colonos.
Séculos XX e XXI