Lex orandi, lex credendi (em português: A lei do que é rezado [é] a lei do que é crido), algumas vezes expandida para Lex orandi, lex credendi, lex vivendi (A lei do que é rezado [é] a lei do que é crido [é] a lei do que é vivido), é um lema na tradição cristã significando que, no relacionamento entre a oração e a crença, uma é integral a outra e, portanto, a liturgia é inseparável da teologia. Sua aplicabilidade como princípio independente das virtudes da esperança e da caridade foi negada pelo Papa Pio XII, que posicionou a liturgia como expositora da evidência teológica e não única autoridade, embora possua elementos divinos inegáveis.

Origem miniaturadaimagem|320x320px|Gravura de Próspero da Aquitânia, discípulo de Agostinho de Hipona. A máxima original é encontrada no oitavo livro de Próspero da Aquitânia sobre a autoridade dos bispos passados da Santa Sé sobre a graça de Deus e o livre arbítrio, escrito no século V: "ut legem credendi lex statuat supplicandi". Esta máxima é parte de uma citação maior:

Catolicismo O princípio possui importância considerável na teologia católica. Por exemplo, o teólogo católico Gregory Hesse declara, em seu comentário sobre os documentos do Concílio Vaticano II:

Prova, não fonte Em sua encíclica Mediator Dei, o pontífice Pio XII elucida os limites deste princípio e os possíveis erros que podem surgir a partir de sua interpretação incorreta:

miniaturadaimagem|O jesuíta Nicolas Trigaut vestido com trajes confucianos. Peter Paul Rubens (1617). O relacionamento entre a liturgia, a crença e a vida da fé foi ao longo do tempo um problema para os missionários, com uma instância notável sendo a controvérsia dos ritos na China. Em particular, essas controvérsias surgiram sobre como rúbricas litúrgicas e para-litúrgicas deve ser adaptadas para conseguirem se encaixar em sensibilidades locais enquanto cumprem as devidas necessidades.

Teologia litúrgica miniaturadaimagem|Pintura de John Henry Newman, Doutor da Igreja, notável expoente do desenvolvimento da doutrina. Na interpretação da teologia sobre a liturgia, muitos teólogos, especialmente os de viés mais tradicionalista, vêem a liturgia como o resultado do desenvolvimento orgânico da doutrina e, como explicitado na Mediator Dei, apoiam a ideia que os elementos divinos da liturgia não podem ser modificados pelo homem. Pio XII explica esta posição em seu documento:

Nesta interpretação, a formulação de Próspero da Aquitânia estabelece a crença de certas doutrinas cristãs ao colocar sua origem nos ritos litúrgicos autênticos da Igreja, dessa forma descrevendo a própria liturgia como um depósito de revelação extra-bíblica, isto é, a Tradição Apostólica. Na Igreja Primitiva, houve uma tradição litúrgica antes de um credo comum e antes de um único cânone bíblico. Essas tradições litúrgicas forneceram o arcabouço teológico e doutrinal para o estabelecimento dos credos e dos cânones.

Protestantismo De acordo com a teóloga Mary-Anne Plaatjies-van Huffel, enquanto a teologia católica progride da oração como liturgia e súplica em direção à crença e à vida (lex orandi, lex credendi, lex vivendi), a teologia protestante possui uma organização diferente, indo da crença, para a oração e finalmente a para vida (lex credendi, lex orandi, lex vivendi).

Luteranismo O princípio do lex orandi, lex vivendi é presente no Luteranismo. De acordo com o professor de teologia J. Matthew Pinson: "a teologia litúrgica molda o sermão, que por sua vez dá vida à Liturgia, prevenindo sua degeneração em ritualismo morto, misticismo ou superstição".

Anglicanismo A teologia anglicana possui uma tendência ao agostinianismo e à teologia reformada com um foco no culto da Igreja, incorporando uma liturgia fortemente evangélica. O Livro de Oração Comum da teologia reformada de Thomas Cranmer revisou a liturgia seguindo o princípio de lex orandi, lex credendi com o objetivo de propagar às congregações inglesas as doutrinas reformadas sobre a graça e a justificação sola fide.

Ortodoxia oriental miniaturadaimagem|Ícone ortodoxo de Basílio de Cesareia e João Crisóstomo, autores atribuídos das liturgias mais utilizadas pelos ortodoxos. Para eles, a liturgia é expressão da tradição imutável, conservada desde os Apóstolos. O Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla citou esta frase latina na ocasião da visita do Papa Bento XVI, retirando dela a lição de que "na liturgia, nós somos lembrados da necessidade de alcançar a unidade tanto na fé como na oração".

Ao invés de tratar a Tradição como algo abaixo ou paralelo à Escritura, os ortodoxos orientais consideram a Escritura a culminação e a suprema expressão da Tradição divinamente comunicada à Igreja. Os concílios e os credos reconhecidos como oficiais são interpretados como apenas meios de explicitar melhor a fé recebida dos apóstolos, sem alterá-la.

Ver também

Adiáfora Ortopraxia Tradição oral Ritualismo Práxis teológica cristã

Referências

Categoria:Palavras, frases e expressões em latim Categoria:Liturgia católica