miniatura|Estátua de duas mulheres, Idet e Ruiu, representadas numa pose típica de casais, c. 1480-1390 a.C. A homossexualidade no Egito Antigo é um tema controverso na egiptologia. Historiadores e egiptólogos debatem sobre as visões que a sociedade egípcia antiga nutria em relação à homossexualidade. Apenas algumas evidências diretas sobreviveram, e muitas indicações possíveis são vagas e sujeitas a especulação.
Representações de possível homossexualidade Khnumhotep e Niankhkhnum
miniatura|260px|Niankhkhnum e Khnumhotep, detalhe em vestíbulo da mastaba compartilhada por ambos, c. 2400 a.C. O caso mais conhecido de possível homossexualidade no Egito Antigo é o de dois altos funcionários, Niankhkhnum e Khnumhotep. Ambos viveram e desempenharam funções sob o reinado do faraó Raturés, durante a quinta dinastia (c. 2494–2345 a.C.).Richard Parkinson: Homosexual Desire and Middle Kingdom Literature. In: The Journal of Egyptian Archaeology (JEA), vol. 81, 1995, pp. 57–76 Apesar de possuírem famílias próprias, com esposas e filhos, suas famílias optaram por sepultá-los juntos na mesma mastaba após a morte. Nesse túmulo, várias pinturas representam os dois homens abraçados e tocando seus rostos nariz com nariz — gesto que, no contexto egípcio, frequentemente simbolizava um beijo.
A interpretação dessas pinturas gera divergências entre egiptólogos e historiadores. Alguns estudiosos defendem que as imagens refletem um exemplo de homossexualidade entre dois homens casados, sugerindo que os antigos egípcios poderiam aceitar relações entre pessoas do mesmo sexo. Outros interpretam as cenas como indicação de que Niankhkhnum e Khnumhotep eram irmãos gêmeos, ou até mesmo, possivelmente, gêmeos siameses. Independentemente da interpretação, as representações evidenciam, ao menos, que Niankhkhnum e Khnumhotep mantinham um vínculo muito próximo, tanto em vida quanto na morte.
Rei Pepi II e General Sassenete
Uma narrativa bem conhecida, que remonta ao Império Médio, relata a história de um cidadão anônimo que comparece à sala de audiências do rei Pepi II – chamado de Nefercaré na Lista Real de Abidos. O cidadão pretende apresentar uma queixa sobre uma circunstância não especificada, mas o rei não deseja ouvir suas lamentações e ordena aos músicos da corte que abafem sua fala com ruídos. Frustrado, o forasteiro abandona o palácio. Quando isso se repete por diversas vezes, ele instrui seu amigo, o alto funcionário Tjeti, a seguir o rei. Descobre-se que Pepi II frequentemente deixa o palácio durante a noite, visitando seu leal oficial general Sassenete por várias horas, antes de retornar à residência real. O capítulo que descreve as visitas de Pepi II ao oficial Sassenete é objeto de intensos debates acadêmicos. Uma passagem específica concentra a maior parte das discussões: o texto afirma que "sua majestade entrou na casa de Sassenete e fez com ele o que sua majestade desejava”. A expressão "fazer o que se deseja" é um eufemismo recorrente para designar atos sexuais.Günter Burkard, Heinz J. Thissen: Einführung in die altägyptische Literaturgeschichte vol. 1 (= Einführungen und Quellentexte zur Ägyptologie,vol. 1). LIT, Berlim 2003, , pp. 187–191 Por essa razão, alguns estudiosos defendem que o papiro evidencia interesses homossexuais do rei Pepi II e sugere um relacionamento íntimo entre o monarca e seu oficial general.
Hórus e Seth miniatura|Óstraco do período raméssida retratando dois homens em ato sexual. Uma narrativa proeminente na mitologia egípcia é a do abuso sexual de um deus mais jovem por um deus rival mais velho, Hórus e Seth. Alusões a essa história surgem pela primeira vez nos Textos das Pirâmides, do Império Antigo, e persistem ao longo de toda a história egípcia. As versões mais completas encontram-se nos Papiros de Kahun, do Império Médio, e nas Contendas de Hórus e Seth, do Império Novo. O relato indica que os egípcios consideravam a penetração sexual de um homem por outro como um ato humilhante.
As Contendas de Hórus e Seth apresentam um relato quase integral do julgamento entre Hórus e Set para decidir quem deveria ocupar o trono do Egito. Em determinado episódio, Seth convida Hórus para sua residência e o embriaga. Posteriormente, propõe que se deitem juntos, ocasião em que tenta penetrar Hórus. Este, no entanto, recolhe o sêmen de Seth com as mãos e o oculta. Na manhã seguinte, Hórus relata o ocorrido a sua mãe, Ísis, que corta suas mãos, lança-as no rio e depois as substitui. Ela instrui Hórus a masturbar-se, utilizando o próprio sêmen para lubrificar a alface, alimento favorito de Seth. Ignorante da adulteração, Seth consome a alface e "aparece grávido do sêmen de Hórus". Quando ambos retornam à corte divina, Seth declara ter realizado o "trabalho de um macho" em Hórus. A corte reage com escárnio e desprezo diante de Hórus, mas não contra Seth, até que se revela que o sêmen de Seth encontra-se no rio, enquanto o de Hórus está dentro de Seth, levando à vitória de Hórus nesse episódio.
O papel passivo nesta narrativa é estigmatizado, enquanto o papel ativo não sofre censura. Não há indícios de que as ações de Seth sejam motivadas por desejo, em contraste com a versão preservada nos Papiros de Kahun, na qual o desejo homossexual é explicitamente mencionado. O conto de Hórus e Seth nos Papiros de Kahun encontra-se significativamente danificado, consistindo apenas em um pequeno fragmento do que provavelmente era um texto mais extenso. O trecho preservado inicia-se com Seth tentando seduzir Hórus, dizendo: "Como é linda a sua retaguarda!". Hórus procura então relatar o ocorrido a Ísis, que o aconselha a agir com cautela e a não confrontar Seth diretamente, recomendando que aguarde seu retorno. Ela orienta Hórus a bloquear o sêmen de Seth com as mãos e, em seguida, levá-lo a ela, de forma semelhante ao procedimento descrito nas Contendas, embora a fragmentação do papiro dificulte a compreensão completa do que é dito ao final. As ações de Hórus e Ísis indicam que o ato é percebido como uma forma de humilhação de um rival mais fraco. Contudo, as palavras de Seth sugerem que ele age movido por atração sexual. Um comentário posterior, segundo o qual isso seria "doce para o seu coração", reforça essa interpretação, embora o seu significado exato permaneça incerto. A representação explícita de atração pelo mesmo sexo é incomum na literatura egípcia. Considerando que Seth está frequentemente associado à desordem, à ilegalidade e a atos sexuais considerados tabu, como o adultério, a manifestação de desejo homossexual por parte de Seth provavelmente reflete uma percepção negativa dessa prática no contexto cultural egípcio.
Outros Suty e Hor, conhecidos por meio da famosa estela — frequentemente considerada um locus classicus de gêmeos —, poderiam ter sido um casal masculino.
Em Sheikh Fadl, há um túmulo datado dos séculos VI ou V a.C. que apresenta uma inscrição em aramaico, aparentemente escrita por um membro de um casal masculino para o outro. No texto, o orador declara: "Não posso abandoná-lo, descansarei com ele; amo muito Lekii" (nome pessoal possivelmente indicado).
Visão contemporânea Permanece incerta a compreensão exata dos antigos egípcios acerca da homossexualidade. Os documentos e obras literárias que apresentam narrativas envolvendo atos sexuais jamais explicitam a natureza desses atos, recorrendo, em vez disso, a paráfrases elaboradas e a eufemismos. Embora os relatos sobre Seth e seu comportamento sexual possam indicar concepções e julgamentos bastante negativos, a inscrição tumular de Nyankh-Khnum e Khnum-Hotep sugere que relações entre pessoas do mesmo sexo poderiam ser socialmente aceitas. Os registros do Egito Antigo não afirmam de maneira clara que relacionamentos homoafetivos fossem considerados repreensíveis ou desprezíveis. Tampouco há documentos que indiquem que atos homossexuais constituíssem crimes passíveis de punição legal, embora uma referência isolada à homossexualidade no Livro dos Mortos sugira que tais práticas poderiam ser vistas como uma infração de ordem moral. O capítulo CXXV dessa obra contém a chamada Confissão Negativa, na qual o falecido se apresenta diante de 42 divindades, declarando a cada uma delas não ter cometido determinada transgressão. A 27ª confissão, conforme a tradução do Papiro de Nebseni, afirma: "Não cometi atos de impureza, nem me deitei com homens".Budge, Sir E. A. Wallis, The Book of the Dead: An English Translation of the Chapters, Hymns, etc. of the Theban Recension, with Introduction, Notes, etc. Vol II—Chapters XV.—CXXXV. Kegan Paul, Trench, Trübner & Co., 1899, Chap. CXXV Ainda assim, uma avaliação conclusiva sobre o tema permanece problemática.
Literatura talmúdica
Na literatura talmúdica, os antigos egípcios são frequentemente retratados como possuidores de estilos de vida sexual liberais, sendo utilizados como exemplo paradigmático de devassidão sexual. Rashi, que viveu no século XI d.C., descreve uma prática egípcia em que mulheres mantinham múltiplos maridos. Maimônides, por sua vez, refere-se ao lesbianismo como "os atos do Egito". Embora a poliandria e o lesbianismo sejam associados aos antigos egípcios no discurso religioso judaico, os relacionamentos homossexuais entre homens são, em geral, atribuídos às populações de Sodoma, Gomorra e Amaleque.
Ver também Cronologia da história LGBT
Leitura complementar
Categoria:LGBT no Egito Categoria:História gay Categoria:Antigo Egito Categoria:Homossexualidade