Bifrenaria é um género botânico de orquídeas, ou seja, pertencente à família Orchidaceæ, composto por cerca de vinte espécies originárias da América do Sul. Algumas de suas espécies são muito difundidas e bastante cultivadas pelos orquidófilos, principalmente pela abundância de suas vistosas flores que, por sua constituição espessa e disposição na inflorescência, à primeira vista podem ser tomadas por plantas artificiais feitas em cera. As Bifrenaria são cultivadas apenas por colecionadores de orquídeas e institutos de pesquisa botânica, pois não existem utilidades conhecidas para suas espécies a não ser uso o ornamental.

Apesar de agrupar poucas espécies, existem dois grupos de plantas claramente distintas classificadas em Bifrenaria,Cogniaux, Celestin A.: Bifrenaria em Flora Brasiliensis de C.F.P.von Martius & auct. suc. (eds.) vol.3 p. 5: 476, 1902 publicado na internt um de plantas muito robustas e flores grandes, que é o grupo mais antigo de espécies classificadas com este nome; outro de plantas mais delicadas e flores pequenas ocasionalmente denominadas Stenocoryne ou Adipe; além de duas outras espécies que neste gênero encontram-se normalmente classificadas mas que análises moleculares indicam pertencer a grupos diferentes. São elas a Bifrenaria grandis, endêmica da Bolívia, que muitos classificam como Lacaena grandis,Kraenzlin, Friedrich Wilhelm Ludwig: Lacaena grandis em Repertorium specierum novarum regni vegetabilis. Ed. Selbstverlag des Herausgebers, Berlin vol.25: 25, 1928. e a Bifrenaria steyermarkii, do norte da Amazônia,Dunsterville, Galfried Clement Keyworth & Garay, Leslie A.: Venezuelan Orchids Illustrated vol.6: 56. London, 1976. a qual ainda não apresenta alternativa de classificação.

Etimologia O nome deste gênero (Bif.) origina-se do Latim: bi (dois); e frenum freio ou tira; referindo-se aos dois talos parecidos com tiras, estipes que unem as polínias e o viscídio. Esta característica as distingue do gênero Maxillaria.

Distribuição thumb|left|Serra dos ÓrgãosUm importante centro de biodiversidade no Rio de Janeiro onde existem quase todas as espécies de Bifrenaria da mata atlântica.thumb|left|Floresta da TijucaOutro local do Rio de Janeiro habitado pelas Bifrenaria.As Bifrenaria existem desde o norte da América do Sul, uma espécie também em Trinidad, até o Rio Grande do Sul, no entanto divididas por duas áreas isoladas: a Floresta Amazônica, e a região da Mata Atlântica do Brasil. Esta última, onde dezessete espécies se fazem presentes, pode ser considerada seu centro de dispersão recente. A área montanhosa dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo é particularmente rica, com quinze espécies registradas. A Serra dos Órgãos no Estado do Rio de Janeiro é referenciada como habitat de catorze das Bifrenaria.Miller, David , Richard Warren, Izabel Moura Miller & Helmut Seehawer: Serra dos Órgãos sua história e suas orquídeas. Rio de Janeiro, 2006. No entanto sabemos hoje que algumas destas espécies são sinônimas,Koehler, S. & do Amaral, M.D.E.: A taxonomic study of the South american genus Bifrenaria Lindl. (Orchidaceae). Brittonia 56: 314-345, 2004. sendo mais provável que ali estejam cerca de onze espécies.

As espécies de flores grandes são mais comuns na região sudeste do Brasil, contudo, existem desde as áreas mais iluminadas do litoral até áreas montanhosas bem iluminadas dos estados de Minas Gerais e Bahia, desde quase o nível do mar até cerca de 2 mil metros de altitude, algumas espécies atingindo até o Rio Grande do Sul.Castro Neto, Vitorino P. : Bifrenaria atropurpurea em Icones Orchidacearum Brasilienses, 2006. ISBN 8590149447 Não há espécies deste grupo na Amazônia. Algumas espécies vivem apoiadas diretamente nas pedras do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro as quais podem ser observadas pelos passageiros que pegam o bondinho. Os centros recentes de irradiação deste grupo são a zona litorânea da Serra do Mar e as altas serras de Minas Gerais.Frederico C. Hoehne: Bifrenaria em Flora Brasílica, Vol 12, 7. Instituto de Botânica de São Paulo, 1953. A espécie mais comum deste grupo, dispersa desde o Rio Grande do Sul até a Bahia, é a B. harrisoniae.Castro Neto, Vitorino P. : Bifrenaria harrisoniae em Icones Orchidacearum Brasilienses, 2006. ISBN 8590149447

As espécies menores, do grupo Adipe, são mais comuns em áreas menos iluminadas e mais úmidas, podendo ser encontradas de 300 até cerca de 1,6 mil metros de altitude. Seis espécies são nativas das montanhas da Serra do Mar e seus braços, local considerado o centro de dispersão das espécies pequenas. Apenas três espécies habitam a Amazônia, a Bifrenaria venezuelana, B. longicornis e a B. steyermarkii, nenhuma delas em altitudes acima de 1.450 metros, apesar de serem muito mais comuns em baixas altitudes.Koehler, Samantha: Estudo taxonômico e análise cladástica do complexo Bifrenaria Lindl. (Maxillarieae, Orchidaceae). Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Biologia, dezembro de 2001. publicada na internet A espécie mais comum é a B. aureofulva,Lindley, John: Bifrenaria aureofulva em Edwards's botanical register 29: t.52. Ed. James Ridgway, London, 1843. no entanto, pela conformação geográfica do território que habita, a B. longicornis é a espécie espalhada por maior área, atingindo a Colômbia, Venezuela, Peru, Suriname, Guianas, Trinidad e toda a área amazônica do Brasil.Lindley, John: Bifrenaria longicornis em Edwards's botanical register 24: t.93. Ed. James Ridgway, London, 1838.

Duas espécies parecem ser endêmicas de áreas bastante restritas: a B. silvana que foi descoberta em 1987 na Serra da Ouricana perto de Itororó, na Bahia e faz parte do grupo das espécies pequenas;Castro Neto, Vitorino P.: Bifrenaria silvana em Boletim CAOB 3(4): 41, 1991. e a B. verboonenii, descoberta em setembro de 1995 na Serra do Cipó, próximo a Diamantina, em Minas Gerais, do grupo das grandes.Romero, Gustavo A. & Castro Neto, Vitorino P.: Bifrenaria verboonenii em Harvard Papers of Botany 5: 187 Cambridge, 2000.

Ecologia thumb|right|Serra do CipóÁrea de campos rupestres em Minas Gerais onde existem algumas das espécies grandes de Bifrenaria. As espécies de Bifrenaria habitam três tipos de ambientes. As espécies grandes costumam viver em áreas bem iluminadas, ocasionalmente de maneira epífita em árvores de folhagem rala, mais frequentemente de forma rupícola, em campos rupestres ou sobre rochas em áreas abertas das florestas. A B. tyrianthina é exclusivamente rupícola,Toscano de Brito, Antonio & Cribb, Phillip: Bifrenaria tyrianthina em Orquídeas da Chapada Diamantina. Ed. Nova Fronteira, 2005. ISBN 8520917828 a B. tetragona e a B. wittigii raramente. A B. atropurpurea é a única que tem sido encontrada vivendo de forma terrestre, mas em raras ocasiões. São espécies que apresentam crescimento cespitoso.

As espécies pequenas do sudeste preferem florestas úmidas de montanha, onde aparecem em locais muito mais sombreados que as espécies grandes. Nestas florestas a temperatura apresenta sensível diferença entre o dia e a noite e também durante as estações ao longo do ano. São plantas de crescimento cespitoso, quase que na totalidade epífitas, apesar de haver pelo menos um registro da Bifrenaria aureofulva vivendo de maneira rupícola, na Chapada Diamantina, Bahia.Toscano de Brito, Antonio & Cribb, Phillip: Bifrenaria aureofulva em Orquídeas da Chapada Diamantina. Ed. Nova Fronteira, 2005. ISBN 8520917828

As espécies pequenas da Amazônia habitam florestas tropicais de baixa altitude e florestas equatoriais. A Bifrenaria longicornis é encontrada principalmente nas várzeas dos igapós e igarapés, e mesmo algumas campinas onde a umidade é muito elevada e a temperatura mais ou menos constante ao longo dos dias e do ano, normalmente habitando locais iluminados, porém sem luz direta.Miranda, Francisco: Orquídeas da Amazônia Brasileira. Ed. Expressão e Cultura, 1996. ISBN 8520802087 A B. venezuelana habita matas mais elevadas, em regiões mais próximas aos Andes.Castro Neto, Vitorino P. : Bifrenaria venezuelana em Icones Orchidacearum Brasilienses, 2006. ISBN 8590149447 As espécies da Amazônia são epífitas e as únicas Bifrenaria a apresentarem crescimento escandente.

A Bifrenaria steyermarkii, apesar de também ser uma espécie habitante da Amazônia, e possivelmente não ser uma verdadeira Bifrenaria, habita áreas ainda mais altas, por volta de 1.500 metros de altitude, em Roraima, no Brasil, e áreas próximas na Venezuela e Suriname.Freitas Luz, Francisco J.: Orquídeas na Amazônia. Instituto Brasileiro de Cultura, Ed. On Line, 2001. ISBN 8520802087

Descrição thumb|left|Bifrenaria tyrianthinaAspecto da planta, mostrando seus pseudobulbos agregados e robustos, com cor amarelada pela exposição ao sol. O vaso mede 50 centímetros de diâmetro.thumb|left|Bifrenaria vitellinaAspecto vegetativo de uma espécie do grupo das pequenas Adipe mostrando seus pseudobulbos muito mais delicados. Cultivada em um vaso de 18 centímetros de diâmetro em local mais sombreado que a espécie acima.As Bifrenaria são plantas de crescimento simpodial que variam entre 10 e 60 centímetros de altura, geralmente bastante robustas. As qualidades comuns a todas as espécies, necessárias para serem classificadas neste gênero são: apresentarem raizes carnosas de seção redonda com espesso velame; pseudobulbos tetragonados, igualmente carnosos, de internodo único, normalmente guarnecidos por bainhas secas na base, e uma só folha no ápice, excetuada a Bifrenaria steyermarkii, que ocasionalmente apresenta duas;Foldats, Ernesto: Xylobium steyermarkii em Novedades Cientificas, Contribuciones Occasionales del Museo de Historia Natural La Salle vol.35: 1. Serie Botanica. Caracas, 1970. folhas plicadas nervuradas, de consistência coriácea, porém normalmente maleáveis e não muito espessas, com pseudo-pecíolo de seção redonda na base; inflorescências basais, ou seja, que brotam da base dos pseudobulbos, não de suas extremidades, comportando geralmente até dez flores e muito raramente ultrapassando o comprimento das folhas.

As flores de Bifrenaria são perfumadas ou apresentam forte odor, têm sépalas um pouco maiores que as pétalas, as sépalas laterais são unidas na base, com o pé da coluna originando um calcar de extremidade truncada; labelo de formato variável, frequentemente piloso, articulado com a coluna, no centro dotado de calosidade canaliculada longitudinal muitas vezes apresentando uma garra na base; coluna levemente arqueada, geralmente sem asas ou outros apêndices, dotada de pé onde se prende o labelo; apresentam dois estipes muito longos, raramente um, pelo menos duas vezes mais longos que largos, com viscídio proeminente, caudículos definidos e retináculo em posições invertidas; quatro polínias rígidas superpostas, protegidas por antera decídua incumbente. As cápsulas são verdes, eretas ou pendentes, demoram cerca de oito meses para amadurecer e comportam centenas de milhares de sementes amareladas ou amarronzadas, alongadas, medindo até 0,35 milímetros de comprimento.Dressler, Robert L.: Phylogeny and classification of the orchid family. Cambridge University Press, 1993.

Entre todas as citadas acima, a principal característica que distingue Bifrenaria dos gêneros próximos está na presença do esporão ou calcar com extremidade obtusa ou truncada de suas flores. Também são características importantes seus pseudobulbos com quatro lados mais ou menos visíveis e folhas únicas, nervuradas, pseudo-pecioladas; além da inflorescência sempre racemosa brotando da base do pseudobulbo maduro, com duas a dez flores.Campacci, Marcos A.: Coletânea de Orquídeas Brasileiras II, Bifrenaria. Ed. Brasil Orquídeas, julho de 2003. ISSN 16785606