miniaturadaimagem|Tornado em Xanxerê em 2015 Este artigo documenta tornados, incluindo ondas de tornados, que ocorreram no estado brasileiro de Santa Catarina desde o início dos registros oficiais. Em épocas antigas, os registros desses eventos convectivos são extremamente subestimados devido a escassez de dados

O estado brasileiro de Santa Catarina é frequentemente associado a uma das maiores ocorrências de tornados no país. Isso se deve, em parte, à sua localização dentro do chamado corredor dos tornados da América do Sul, além da influência frequente de sistemas convectivos severos e áreas de baixa pressão provenientes da Argentina e do Paraguai. A interação entre massas de ar quente e úmido de origem tropical com massas de ar frio associadas a frentes frias de origem polar e Patagônia cria ambientes atmosféricos instáveis, favorecendo o desenvolvimento de tempestades intensas e, ocasionalmente, de tornados.

No estado, a classificação e a catalogação de eventos severos são realizadas principalmente pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI) por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres Naturais (SIRAN), além da Defesa Civil de Santa Catarina. Outras instituições também contribuem com monitoramento, análise e registros meteorológicos, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e, em alguns casos, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (SIMEPAR).

Física e frequência

As regiões com maior frequência documental de tornados no estado concentram-se no centro e no oeste. Isso se deve, em parte, aos elevados valores de CAPE (energia potencial convectiva disponível) observados durante a primavera tardia e o início do verão, período em que a atmosfera se torna mais instável e favorável ao desenvolvimento de tempestades convectivas intensas. A interação entre massas de ar quente e úmido de origem tropical e sistemas frontais provenientes do sul junto as jatos de baixos níveis (LLJ) também contribui para a formação de ambientes propícios à ocorrência de tempestades severas.

A região da Grande Florianópolis também é conhecida pela ocorrência relativamente frequente de trombas-d’água, que geralmente se formam sobre o oceano a partir do contraste térmico entre o ar quente e úmido próximo à superfície e o ar relativamente mais frio associado à brisa marítima, além da presença de instabilidade atmosférica local.

Observações

"FU" é utilizado para indicar eventos cuja intensidade não pôde ser determinada ou precisa. A Escala Fujita Melhorada (EF) tem sido empregada de forma parcial no Brasil por algumas instituições meteorológicas, como o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Entretanto, ainda não existe uma padronização nacional definitiva quanto à sua adoção em levantamentos históricos e climatológicos. Em razão disso, este artigo emprega tanto a Escala Fujita tradicional quanto a versão melhorada para classificar os eventos documentados, conforme a metodologia ou fonte disponível. '~' indica que o valor apresentado corresponde a uma estimativa aproximada. '≥' indica que o valor registrado foi igual ou superior ao elemento estimado. '≤' indica que o valor registrado foi igual ou inferior ao elemento estimado. A lista busca manter o maior grau possível de precisão terminológica. Dessa forma, são empregadas diferentes designações para indicar o nível de verificação ou documentação de um determinado vórtice. "Reconhecido" ou "notado" indicam que alguma instituição ou órgão oficial sem foco específico em meteorologia de tempo severo — como a Defesa Civil ou estações do Instituto Nacional de Meteorologia — registrou ou mencionou a ocorrência do evento. "Catalogado" é utilizado no contexto de projetos que mantêm bases de dados estruturadas, como a plataforma PRETS da Universidade Federal de Santa Maria. Nesse caso, o termo refere-se à inclusão do fenômeno em um banco de dados especializado, ainda que as evidências disponíveis não permitam uma confirmação completamente conclusiva. "Confirmado" ou "validado" representam o nível mais elevado de confiabilidade, sendo empregados quando o evento foi analisado por instituições ou pesquisadores especializados em meteorologia de tempo severo, ou quando existem evidências substanciais, como análises sistemáticas de danos, dados de radar meteorológico ou documentação fotográfica detalhada.

Classificação da intensidade dos tornados

Escala Fujita F0F1F2F3F4F560–110 km/h120–170 km/h180–240 km/h250–320 km/h330–410 km/h420–510 km/h

Escala Fujita melhorada EF0EF1EF2EF3EF4EF5105–137 km/h138–178 km/h179–218 km/h219–266 km/h267–322 km/h≥322 km/h

Catálogo de eventos em Santa Catarina

FUF0F1F2F3F4F5Total375035141050151

Século XX

Data Local Intensidade Mortos Feridos Observações Fontes 1948 16/05/1948 Canoinhas (Valinhos)F4 23 >80 Praticamente toda a comunidade rural de Valinhos ficou destruída. A maioria das residências, escolas e serrarias da comunidade ficaram completamente destruídas e algumas completamente niveladas ao solo. Alguns veículos foram arremessados a centenas de metros de distância e houve óbitos de animais por projéteis. Larga e extensa faixa de vegetação ficou completamente "descascada" e destruída. Ocorrência durante a noite. Horário relatado da ocorrência do evento: 20h15. A classificação oficial do tornado é F3, mas como os danos foram mais intensos, com construções de alvenaria niveladas, muitos analistas e meteorologistas consideram que o tornado chegou à categoria F4. 1955 18/05/1955 Canoinhas (Serra das Mortes)FU 0 4 Devastação em uma comunidade rural. Residências de madeira foram desmanteladas e arremessadas pelos ares. Muitas plantações foram completamente destruídas. 1959 13/08/1959 Canoinhas (Rio dos Pardos)F4 >18 >50 Comunidade completamente devastada. Residências de madeira foram niveladas e completamente destruídas, restando apenas os assoalhos enquanto seus objetos e móveis foram encontrados a quilômetros do local original. Desaparecimento de pessoas, que foram arremessadas a centenas de metros de distância; com falecimento de vários animais. Estudo classificou como High-end F4. 13/08/1959 LagesF3 12-15 >100 Pavimento da rua removido

Mais de 60 residências parcialmente ou completamente destruídas. Praça da Bandeira foi devastada pelo tornado. Estudo amador mais recente reavaliou de High-end F2, para F3 low-end. 13/08/1959 TaióFU 2 ~9 15 residências completamente destruídas. 1976 08/08/1976 Guarujá do SulF3 1 ? Estimativa de 40 famílias desabrigadas. 1977 28/01/1977 Bom Jardim da SerraFU ? ? Vários danos em habitações e dezenas de residências parcialmente destruídas. 1984 09/10/1984 MaravilhaF3 10 ≥400 9 bilhões e 117 milhões de cruzeiros em prejuízos; 980 pessoas desabrigadas. 1987 13/05/1987 São JoaquimF3 6 ? 250 residências totalmente ou parcialmente destruídas. 07/07/1987 XanxerêF2 1 ? 150 famílias desabrigadas; danos intensos nos locais afetados. 15/10/1987 IndaialFU 0 0 Danos à vegetação e em residências. 1989 08/08/1989 ForquilhinhaF3 ? ? 11/11/1989 São CarlosFU 0 0 11/11/1989 XanxerêFU 0 0 24/11/1989 Correia PintoFU 0 0 24/11/1989 GaruvaFU 0 0 1991 26/04/1991 XanxerêF1 0 0 16/08/1991 Canoinhas (Cerrito), Três BarrasF3 ? ? Vegetação com centenas de árvores violentamente arrancadas e retorcidas. Árvores jogadas à dezenas de metros de distância. Aproximadamente 120 casas atingidas, com mais de uma dezena destruída; danos severos à rede elétrica. 1995 09/01/1995 Benedito NovoFU 0 0 24/09/1995 ParaísoFU 0 0 28/11/1995 Rio dos CedrosF0 0 0 Destelhamento de residências e queda de muros. 1996 27/01/1996 São Francisco do SulF0 0 0 Tromba-d'água observada na Praia Grande, às 14:30. 27/02/1996 MeleiroF1 0 0 27/07/1996 São Francisco do SulF0 0 0 Tromba-d'água observada. 1997 02/02/1997 ItapoáF0 0 0 Tromba-d'água observada.Tromba-d'água 07/02/1997 FlorianópolisF0 0 0 Tromba-d'água observada.

Século XXI

2000

Data Local Intensidade Mortos Feridos Observações Fontes 23/02/2000 FlorianópolisF0 0 0 Observado. Tromba-d'água 01/03/2000 ItapoáF0 0 0 30 residências danificadas. Queda de árvores e torres de energia. Tromba-d'água ?/?/2000 AuroraFU 0 0 21 desalojados. Confirmado pela Defesa Civil (S2iD) no atlas, como tornado. Data e classificação do evento não foi revelada. Evento emblemático em dados. 2001 ?/?/2001 AuroraFU 0 0 Evento documentado no atlas da Defesa Civil (S2iD). Mas a data, classificação e qualquer outra informação do evento é desconhecida. Também evento com dados nebulosos. Segundo tornado em menos de 1 ano. 2002 02/01/2002 PiçarrasF0 0 0 Tromba d'água. 06/09/2002 CanoinhasF2 1 5 Muitos pinheiros decepados, arrancados e/ou arremessados. Construções (residências) levantadas do solo e arremessadas em vários metros de distância. Fatalidade de animais por destroços. 2003 26/10/2003 Faxinal do GuedesF2 0 ~16 520 desabrigados e 2193 desalojados. Confirmado pela Defesa Civil como evento tornádico. Tornado liminar entre F2 e F3, mas se encaixa melhor em F2. 2005 03/01/2005 CriciúmaF2 1 0 4 residências totalmente destruídas, 40 parcialmente destruídas e mais 30 danificadas. Residências deslocadas de suas fundações. Árvores arrancadas e lançadas à 50 metros do local original. Várias árvores retorcidas e quebradas. Projéteis e telhados lançados a mais de 80 metros. 03/01/2005 CriciúmaF1 0 ? Telhados totalmente ou parcialmente destruídos. Destruição parcial de garagens, barracos e currais. Várias árvores destruídas, derrubadas e retorcidas. Um carro lançado para fora da pista, atingindo um muro. Muitos projéteis arremessados a longas distâncias, deixando pessoas feridas. Desaparecimento de alguns animais. De acordo com os danos, é remotamente possível que esse tornado tenha alcançado a intensidade F2 ao longo de sua trajetória. 17/01/2005 XanxerêF0 0 0 Danos leves. Tocou o solo por poucos minutos. 29/12/2005 São Joaquim (Boava)FU 0 0 Destruição de pomares de instalações rurais. 2006 02/01/2006 FlorianópolisF0 0 0 16 residências destelhadas. 25/01/2006 CriciúmaF0 0 0 22/02/2006 JoinvilleF0 0 0 Leves danos registrados. 23/03/2006 FlorianópolisF1 0 2 20 famílias desalojadas. 37 residências totalmente destelhadas. Árvores arrancadas. 1 automóvel virado pelo tornado. 2007 24/03/2007 TubarãoF1 0 1 Destelhamento de dezenas de residências e árvores arrancadas. Ocorreu durante o começo da noite. 05/05/2007 CanoinhasF0 0 0 Atingiu área rural 13/11/2007 Campos Novos, ChapecóF1 0 0 Destelhamento de dezenas de residências. 2008 01/02/2008 PapanduvaFU 0 1 Vários prédios danificados. 90% de plantações agrícolas destruídas. Prejuízos em milhões de reais. 16/02/2008 TubarãoF1 0 1 Tornado de origem supercelular, observado na zona rural. Ligeira destruição em uma residência da zona rural, resultando em 1 ferido. Pode ter sido mais intenso (possível F1 higt-end ou F2) 02/03/2008 Governador Celso Ramos, Florianópolis (Praia de Canasvieiras)F0 0 0 Duas tromba-d'águas afetando a mesma localização. Tromba-d'água 02/03/2008 Governador Celso Ramos, Florianópolis (Praia de Canasvieiras)F0 0 0 Duas tromba-d'águas afetando a mesma localização. Leves danos registrados ao adentrar a faixa litorânea. Tromba-d'água 02/03/2008 Governador Celso RamosF0 0 0 Observado visualmente. Intensidade desconhecida. Tromba-d'água 20/06/2008 Correia PintoFU 0 0 Residências e escolas foram destelhadas. 5 famílias ficaram desabrigadas. 24/10/2008 Abelardo LuzFU 0 0 Dois tornados isolados, o primeiro sendo observado na zona rural. 24/10/2008 Abelardo LuzFU 0 0 Dois tornados isolados, o segundo ocorrendo poucas horas depois. Dezenas de residências destelhadas. Aproximadamente 150 pessoas desalojadas. 26/10/2008 Canoinhas ("Pedreirinha")FU 0 0 Dezenas de árvores quebradas ao meio. 31/12/2008 UrupemaFU 0 0 Tornado de origem supercelular observado na zona rural. 2009 31/01/2009 SombrioFU 0 0 Vários destelhamentos, queda de postes e árvores.