O reforço intermitente é um conceito do condicionamento operante, ramo da psicologia comportamental, que descreve um esquema de reforço no qual a resposta desejada é recompensada apenas em algumas das ocasiões em que ocorre, e não de forma contínua após cada emissão do comportamento. Documentado sistematicamente por Charles Ferster e B. F. Skinner em sua obra seminal Schedules of Reinforcement (1957), o reforço intermitente demonstrou produzir padrões comportamentais altamente resistentes à extinção. Na literatura sobre abuso interpessoal, o conceito é aplicado para explicar os mecanismos pelos quais relacionamentos abusivos mantêm vínculos emocionais intensos e dificultam o afastamento por parte da vítima. Definição No âmbito do condicionamento operante, o reforço intermitente contrasta com o reforço contínuo, no qual cada emissão do comportamento é seguida de um reforçador. Ferster e Skinner (1957) sistematizaram os principais esquemas de reforço intermitente, entre os quais se destacam: Razão fixa: reforço fornecido após um número fixo de respostas Razão variável: reforço fornecido após um número variável e imprevisível de respostas Intervalo fixo: reforço fornecido após o transcurso de um período de tempo fixo Intervalo variável: reforço fornecido após períodos de tempo variáveis e imprevisíveis O esquema de razão variável é o que produz a maior taxa de resposta e a maior resistência à extinção, sendo frequentemente comparado ao funcionamento das máquinas caça-níqueis, nas quais a imprevisibilidade da recompensa é o principal fator de manutenção do comportamento. Fundamento teórico A obra de Ferster e Skinner (1957) compilou dados de mais de 70.000 horas de pesquisa experimental e aproximadamente um quarto de bilhão de respostas registradas, documentando como diferentes esquemas de reforço produzem padrões comportamentais distintos e previsíveis. A descoberta fundamental do trabalho foi a de que o padrão pelo qual o reforço é administrado, e não apenas sua quantidade, determina de forma crítica a velocidade de aquisição do comportamento, a taxa de resposta e a resistência à extinção. Skinner havia identificado previamente, em 1938, os primeiros esquemas de reforço intermitente, mas foi apenas com a publicação de Schedules of Reinforcement (1957) que um tratamento experimental sistemático e abrangente dos diferentes esquemas foi apresentado. Os resultados apresentados nessa obra estabeleceram que o reforço intermitente, especialmente nos esquemas de razão variável e intervalo variável, produz os comportamentos mais persistentes e mais difíceis de extinguir experimentalmente. Aplicação em relações abusivas A aplicação do conceito de reforço intermitente à dinâmica de relacionamentos abusivos foi sistematizada por Donald Dutton e Susan Painter em trabalho publicado no periódico Violence and Victims em 1993. Os autores conduziram avaliações aprofundadas com 75 mulheres que haviam recentemente deixado relacionamentos abusivos (50 dos quais envolviam violência física) e desenvolveram a teoria do vínculo traumático como estrutura explicativa para a persistência do apego emocional em relacionamentos marcados pelo abuso intermitente. Dutton e Painter (1993) identificaram duas características centrais dos relacionamentos abusivos que, combinadas, produzem os efeitos do vínculo traumático: o desequilíbrio de poder entre os parceiros e a intermitência do comportamento abusivo, que alterna períodos de maltrato com períodos de comportamento positivo. Este padrão de alternância cria uma estrutura de reforço intermitente no sentido operante do termo, na qual o comportamento de aproximação da vítima em relação ao agressor é reforçado de forma variável e imprevisível. Mecanismo No contexto das relações abusivas, o reforço intermitente opera da seguinte maneira: o agressor alterna episódios de comportamento abusivo com períodos de comportamento positivo, como demonstrações de afeto, promessas, presentes ou atitudes atenciosas. Esta alternância cria um estado de alerta e antecipação contínuos na vítima, que mantém comportamentos de busca de aprovação e de apaziguamento na expectativa do retorno do período positivo. A imprevisibilidade do momento em que o comportamento positivo voltará a ocorrer é, segundo a teoria do condicionamento operante, o fator que torna o comportamento de busca mais resistente à extinção. Assim como um apostador continua a jogar apesar das perdas na expectativa de um ganho futuro imprevisível, a vítima de um relacionamento abusivo mantém o comportamento de busca de proximidade e aprovação em razão do reforço imprevisível representado pelos períodos de afeto do agressor. Vínculo traumático O estudo de Dutton e Painter (1993) forneceu suporte empírico para a teoria do vínculo traumático ao demonstrar que variáveis relacionais, incluindo a intensidade do maltrato, a intermitência do abuso e os diferenciais de poder, explicaram 55% da variância no apego emocional ao parceiro medido seis meses após o fim da relação. Além disso, os autores observaram que o apego emocional diminuiu em média 27% no período entre a saída do relacionamento e a reavaliação realizada seis meses depois, sugerindo que o processo de desapego é gradual e não imediato. Os três desfechos avaliados no estudo, apego emocional ao parceiro, autoestima e sintomas de trauma, mostraram-se significativamente correlacionados entre si em ambos os momentos de avaliação, corroborando a hipótese de que a dinâmica abusiva produz efeitos psicológicos interligados e duradouros. Ver também Condicionamento operante B. F. Skinner Vínculo traumático Ciclo do abuso Violência por parceiro íntimo Abuso psicológico Narcisismo Síndrome de Estocolmo
Categoria:Psicologia comportamental Categoria:Condicionamento operante Categoria:Abuso psicológico Categoria:Violência doméstica Categoria:Aprendizagem