Le régiment (em português: O regimento) é um curta-metragem mudo francês de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Registrado com o número 24 no catálogo da Star Film, o filme é atualmente considerado presumidamente perdido. No catálogo norte-americano, o título foi traduzido como French Regiment Going to the Parade (Regimento francês a caminho do desfile). Trata-se de um actuality film — registro documental de cena cotidiana filmada com câmera fixa — provavelmente retratando soldados do Exército Francês em marcha a caminho de uma parada militar — possivelmente o desfile anual do 14 de julho, que se realizava no hipódromo de Longchamp desde 1880.

Contexto

Em 1896, Méliès rodou seus primeiros filmes com sua câmera artesanal, exibindo-os no Théâtre Robert-Houdin, em Paris. O catálogo da Star Film, fundada naquele mesmo ano, numerava cada título de acordo com a ordem de produção, com cada número correspondendo a aproximadamente 20 metros de negativo.

Le régiment é o vigésimo quarto título do catálogo, inserido entre Sauvetage en rivière (nº 23) e Campement de bohémiens (nº 25). O filme integra a fase de actuality films — cenas cotidianas captadas com câmera fixa — que Méliès produziu nos primeiros anos de atividade cinematográfica, antes de se consagrar pelos efeitos especiais e pelos trick films.

O cinema militar em 1896

O tema militar foi um dos primeiros e mais populares do cinema nascente. Os próprios Irmãos Lumière e seus operadores produziram mais de uma centena de "vistas militares" apenas em 1896, filmadas tanto na França quanto em países estrangeiros — cavalaria, infantaria, exercícios de artilharia e paradas tornaram-se atrações regulares nos programas cinematográficos do período. Entre os títulos Lumière desse período estão Cuirassiers: départ, 96e de ligne en marche e Turcos (défilé), todos de 1896 — demonstrando o quanto o tema era central no repertório cinematográfico da época. Ao filmar Le régiment, Méliès inseria-se nessa corrente, documentando os soldados com o mesmo enquadramento estático utilizado por seus contemporâneos.

Em 1896, o Exército Francês vivia um momento de especial visibilidade pública. O país atravessava o Caso Dreyfus — o escândalo judicial iniciado em 1894, quando o capitão Alfred Dreyfus foi injustamente condenado por traição — que polarizava a opinião pública francesa e colocava o exército no centro do debate nacional. O desfile do 14 de julho — a Fête Nationale — realizava-se anualmente no hipódromo de Longchamp, onde ocorreu sem interrupção de 1880 até 1914, reunindo centenas de milhares de espectadores. A presença militar nas ruas de Paris era, portanto, um espetáculo cotidiano familiar ao público que Méliès buscava atrair para o Théâtre Robert-Houdin.

Méliès e o tema militar

Méliès retornaria ao tema militar em diversas ocasiões ao longo de sua carreira. Em 1897, produziu Cortège du bœuf gras, Boulevard des Italiens (nº 85 do catálogo), que registrava outro desfile de rua no mesmo boulevard onde seu teatro estava situado. Em 1899, realizou uma de suas obras mais politicamente ousadas: L'Affaire Dreyfus, série de dez cenas reconstituindo o julgamento e o caso do capitão Dreyfus, que gerou controvérsia por retratar o exército de forma desfavorável e levou à proibição de exibição do filme em espaços públicos por ordem do prefeito de Paris. A sequência entre Le régiment (nº 24, 1896) — uma vista aparentemente neutra de soldados em marcha — e L'Affaire Dreyfus (1899) ilustra a trajetória de Méliès de documentarista ao cineasta comprometido com a representação crítica da realidade.

Preservação

Le régiment é atualmente considerado um filme presumidamente perdido: nenhuma cópia é conhecida por ter sobrevivido. A perda é atribuída à destruição deliberada que o próprio Méliès promoveu em 1923, quando, em meio à ruína financeira, fundiu os negativos de grande parte de sua coleção para recuperar a prata contida na emulsão, e à fragilidade das películas de nitrato de celulose da época. De aproximadamente 520 filmes que Méliès dirigiu entre 1896 e 1912, estima-se que apenas 231 cópias chegaram à atualidade em alguma forma.

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