O SS Australasian foi um transatlântico australiano operado pela European & Australian Royal Mail Company. Foi construído pelos estaleiros da J&G Thomson & Co., em Glasgow. O navio destacou-se por sua velocidade recorde de mais de 14 nós, embora sofresse de graves problemas crônicos de vibração.

Em 1859, foi adquirido pela prestigiada Cunard Line para atuar na rota transatlântica entre Liverpool e Nova Iorque, após a European & Australian falir em 1858. Após passar por uma extensa reforma estrutural e de motorização em 1869 para corrigir seus defeitos de vibração, a embarcação foi rebatizada como SS Calabria em 1870. Sob este novo nome, integrou a famosa frota de "cinco irmãos" (fleetmates) da Cunard no início da década de 1870, operando ao lado dos navios Abyssinia, Algeria, Batavia e Parthia.

Em 1876, o navio encerrou sua carreira de passageiros ao ser vendido para a Telegraph Construction & Maintenance Company, sendo convertido em um navio lançador de cabos submarinos. Nessa segunda fase, desempenhou um papel fundamental na expansão global das telecomunicações até ser finalmente desmantelado em 1898.

História

Construção O navio teve seu batimento de quilha em 1⁰ de novembro de 1856. Quando sua construção começou, ele foi registrado provisoriamente sob o nome Australian. Contudo, pouco antes do lançamento, o nome foi alterado para Australasian. O navio foi totalmente moldado em ferro fundido. O projeto contava com três decks principais: o spar deck (deck superior), o main deck (deck principal) e o lower deck (deck inferior).

O comprimento total era de 110 metros (360 pés incluindo o gurupés), com uma largura de boca de 12,8 metros (427 pés) e profundidade de 9,6 metros (31,5 pés). Sua arqueação original ficou registrada em 2.761 GRT.

Uma das maiores novidades de engenharia na construção do Australasian foi a inclusão de um tanque de lastro de água hermético com capacidade para 400 toneladas. O tanque era versátil: dependendo da necessidade da viagem, podia ser esvaziado para transportar carvão ou cargas secas adicionais. Para gerenciar o fluxo, o estaleiro instalou um motor a vapor auxiliar dedicado, capaz de bombear ou inundar quatro toneladas de água por minuto.

Em termos de maquinário, foram instalados dois motores verticais de ação direta que geravam a altíssima potência combinada de 700 hp. O sistema contava com as engrenagens patenteadas de expansão da J&G Thomson (Thomson’s patent expansive gear), projetadas sob medida com o objetivo de economizar combustível em longas viagens oceânicas. O vapor vinha de seis grandes caldeiras tubulares que alimentavam uma única hélice propulsora de três pás.

A construção do gigantesco casco de ferro foi concluída em meados de 1857. O navio foi lançado ao mar em 10 de junho de 1857, deslizando com sucesso pelas rampas da J&G Thomson & Co. em Govan. Pouco depois, em agosto, ele foi levado para os testes de velocidade em mar aberto, onde atingiu a impressionante marca de 14,57 nós.

Instalações miniaturadaimagem|Interior do Calabria em 1882 Enquanto os porões inferiores eram protegidos para as salas de correio, caixas de ouro em barra (bullion-rooms) e adegas de vinho, as áreas superiores foram decoradas para atrair a alta sociedade. No deck superior (spar deck), a popa foi reservada inteiramente para cabines de primeira classe, garantindo menor ruído de carga. No deck principal, o estaleiro montou um salão de jantar monumental, planejado especificamente para acomodar e servir confortavelmente mais de 200 passageiros simultaneamente.

Para manter a autossuficiência nas longas jornadas, os construtores integraram padarias, açougues, cozinhas de grande porte e até estábulos para vacas leiteiras diretamente nas estruturas das casas de convés.

Carreira miniaturadaimagem|Australasian em 1857 Após ser entregue à European & Australian Royal Mail Company, o Australasian iniciou suas operações sob grande expectativa do governo britânico.

Em 12 de outubro de 1857, ele partiu de Southampton com destino a Alexandria, no Egito. Seu papel era cobrir o trecho europeu da rota até a Austrália (onde os passageiros desembarcavam no Egito, cruzavam o istmo por terra e embarcavam em outro navio no Mar Vermelho).

Australasian realizou apenas duas viagens redondas completas nessa rota; o seu proprietário havia falido devido a pesadas multas por atrasos de seus outros navios e à má gestão financeira. Em meados de 1858, o Australasian foi retirado da linha e ancorado no rio Clyde, aguardando um comprador judicial.

Compra pela Cunard Line Em fevereiro de 1859, a Cunard Line comprou o navio em um leilão por uma fração de seu custo original de construção. A Cunard o enviou para reformas pontuais para adaptá-lo às águas rigorosas do Atlântico Norte.

Em 17 de dezembro de 1859, ele fez sua primeira viagem sob a bandeira da Cunard, navegando de Liverpool para Nova Iorque. O navio provou ser extremamente rápido, mas o problema da vibração violenta na popa começou a gerar reclamações constantes dos passageiros de primeira classe.

Incidente do Trent No final de 1861, durante a Guerra Civil Americana, ocorreu o Incidente do Trent — uma crise diplomática que quase levou o Reino Unido a declarar guerra aos Estados Unidos (União).

Como precaução, o governo britânico decidiu reforçar urgentemente suas guarnições militares no Canadá. Assim, o governo britânico fretou o Australasian da Cunard para atuar como navio de transporte de tropas.

Em dezembro de 1861, o navio zarpou de Liverpool superlotado com regimentos britânicos e munições. Ele enfrentou tempestades severas no Atlântico e congelamento no rio São Lourenço, mas conseguiu desembarcar as tropas em segurança no Canadá.

Retorno a rota regular e carreira na Allan Line Após o serviço militar, o navio retornou ao serviço regular de passageiros da Cunard. Entre 1861 e 1863, para rentabilizar o navio nos meses de inverno (baixa temporada), a Cunard o fretou temporariamente para a operadora canadense Allan Line, realizando viagens entre Liverpool, Quebec e Montreal.

De volta à rota estável Liverpool–Nova Iorque a partir de 1864, o navio tornou-se comercialmente problemático. Sua velocidade era excelente, mas a vibração estrutural excessiva afastava os passageiros mais ricos e exigia manutenções mecânicas constantes na hélice. Sua última viagem transatlântica como Australasian começou em 24 de outubro de 1868.

Carreira como Calabria miniaturadaimagem|Calabria em 1870 Em 1869, a diretoria da Cunard Line concluiu que a estrutura do navio ainda era forte demais para ser desmantelada, mas o maquinário de ação direta estava obsoleto e barulhento. O navio foi enviado para o estaleiro da John Elder & Co., em Glasgow, onde:

O interior foi totalmente remodelado. Os motores antigos de 700 hp foram removidos e substituídos por modernos motores de expansão composta, muito mais silenciosos e econômicos. Para apagar o histórico de "o navio que vibra", a Cunard alterou oficialmente o seu registro para SS Calabria em 1870, iniciando sua fase com os quatro navios irmãos.

A Cunard o escalou para trabalhar diretamente ao lado dos recém-lançados Batavia, Parthia, Algeria e Abyssinia. Juntos, esses cinco navios mantinham um fluxo semanal e pontual de passageiros, cargas e correspondências reais entre Liverpool e Nova Iorque.

Ele operou nessa linha transatlântica principal por seis anos seguidos, tornando-se um navio querido pelos passageiros devido ao luxo de suas antigas acomodações e à sua agora confiável estabilidade mecânica.

Guerra de Aceh Durante o seu período na Cunard, o governo britânico permitiu que o navio fosse fretado temporariamente para missões de logística internacional devido à sua enorme capacidade de carga.

O Calabria foi enviado para o Sudeste Asiático para apoiar o transporte de suprimentos militares e carvão para as forças coloniais durante o início da Guerra de Aceh (um conflito prolongado nas Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia). Essa viagem provou que o navio, apesar de projetado para o frio do Atlântico Norte, operava muito bem em águas tropicais.

Lançador de cabos submarinos Em 1876, a Cunard começou a modernizar sua frota com navios de aço ainda maiores. Assim, o Calabria foi vendido para a Telegraph Construction & Maintenance Company, uma empresa pioneira que estava conectando o mundo através dos primeiros cabos telegráficos submarinos.

O navio foi enviado para um estaleiro e sofreu uma mutação completa:

Todos os salões de jantar aristocráticos, cabines de primeira classe e estábulos de convés foram demolidos. O interior do navio foi escavado para dar lugar a três gigantescos tanques circulares de ferro, projetados para armazenar milhares de quilômetros de pesados cabos telegráficos isolados com guta-percha. Foram instaladas grandes roldanas e guindastes a vapor na proa e na popa para guiar e desenrolar os cabos em direção ao fundo do oceano.

Como navio lançador de cabos, o Calabria viveu sua fase mais longa e globalmente importante. Ele passou mais de duas décadas cruzando o planeta e operando em missões críticas.

Por exemplo:

Ele ajudou a lançar e reparar os cabos transatlânticos que uniam a Europa à América do Norte; Realizou expedições no Atlântico Sul, instalando linhas que conectavam a Europa ao Brasil e ao restante da América do Sul; Navegou extensivamente pelo Mar Mediterrâneo e pelo Oceano Índico, garantindo que o Império Britânico ficasse conectado instantaneamente por telégrafo às suas colônias na Ásia.

Fim de carreira Após 41 anos de uma carreira incrivelmente versátil — sobrevivendo a falências, crises militares no Canadá, décadas de travessias no Atlântico e uma reconversão industrial completa —, o casco de ferro do navio já não atendia às novas exigências do mercado no fim do século XIX.

Assim, em 1898, o Calabria foi oficialmente retirado de serviço e vendido para um estaleiro de demolição na Holanda, onde foi totalmente desmantelado.

Ver também Lista de navios da Cunard Line

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