Os direitos da comunidade LGBTQIAPN+ na Alemanha estão entre os mais avançados do mundo, tendo evoluído significativamente ao longo das últimas décadas. Durante a década de 1920 e o início dos anos 1930, pessoas lésbicas e gays em Berlim eram, em geral, toleradas pela sociedade, e muitos bares e clubes voltados especificamente para homens gays foram abertos. Embora a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo masculino já tivesse sido criminalizada pelo Parágrafo 175 no Império Alemão em 1871, a Alemanha Nazista ampliou essas leis durante a Segunda Guerra Mundial, o que resultou na perseguição e morte de milhares de cidadãos homossexuais. A atividade sexual entre homens foi descriminalizada tanto na Alemanha Oriental quanto na Alemanha Ocidental em 1968 e 1969, respectivamente.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal desde 1º de outubro de 2017, após o Bundestag (Parlamento alemão) aprovar uma legislação que concedeu aos casais do mesmo sexo plenos direitos matrimoniais e de adoção em 30 de junho de 2017. Antes disso, uniões civis estavam disponíveis para casais do mesmo sexo, tendo sido legalizadas pela Lei de Parceria Civil em 2001. Essas parcerias ofereciam a maioria, mas não todos os mesmos direitos do casamento, e deixaram de existir após a introdução do casamento igualitário. A adoção de enteados por casais do mesmo sexo tornou-se legal em 2005 e foi ampliada em 2013 para permitir que uma pessoa em um relacionamento homoafetivo adotasse uma criança já adotada por seu parceiro.
As proteções contra discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero variam dentro da Alemanha, mas a discriminação no emprego e na oferta de bens e serviços é proibida em todo o país por meio da Lei Geral de Tratamento Igualitário (Allgemeines Gleichbehandlungsgesetz), de 18 de agosto de 2006. Pessoas transgênero têm permissão para alterar seu gênero legal desde 1980. A partir de 1º de novembro de 2024, indivíduos com mais de 18 anos podem mudar seu gênero por autodeterminação. Inicialmente, a lei exigia cirurgia de redesignação genital para a alteração de documentos oficiais, mas isso foi posteriormente declarado inconstitucional. Em maio de 2020, a Alemanha tornou-se o quinto país a proibir a terapia de conversão sexual para menores de 18 anos, lei que se aplica tanto aos profissionais que a oferecem quanto aos pais que submetem os filhos ao processo de forma coercitiva.
Apesar de o maior partido político ser socialmente conservador em relação a questões LGBTs (CDU/CSU), a Alemanha é frequentemente considerada um dos países mais amigáveis para pessoas LGBTs no mundo. Pesquisas recentes indicam que uma grande maioria dos alemães apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outra pesquisa, realizada pelo Pew Research Center em 2013, indicou que 87% dos alemães acreditavam que a homossexualidade deveria ser aceita pela sociedade, sendo esse o segundo maior índice entre 39 países pesquisados, atrás apenas da Espanha (88%). Berlim é frequentemente citada como uma das cidades mais acolhedoras para pessoas LGBTs no mundo.
O ex-prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, é um dos homens gays assumidos mais conhecidos da Alemanha, ao lado do ex-prefeito de Hamburgo, Ole von Beust, do ex-ministro federal da Saúde, Jens Spahn, do ex-ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler, Guido Westerwelle, da ex-ministra do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, dos comediantes Hape Kerkeling e Hella von Sinnen e da jornalista política Anne Will.
Fundada em 1981, a Akademie Waldschlösschen, um centro de educação para adultos perto de Gotinga, tornou-se um importante ponto de encontro nacional para professores, advogados, membros do clero, pais gays e grupos estudantis LGBTQIA+ em universidades alemãs. Outros ativistas importantes dos direitos LGBTQIA+ incluem Rosa von Praunheim, cujo filme Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive (1971) impulsionou o movimento moderno de libertação gay na Alemanha.
História das leis relativas à atividade sexual entre homossexuais Veja também: Parágrafo 175 miniaturadaimagem|Gráfico de condenações pelo Parágrafo 175.
O pico ocorre durante a era nazista, com queda após a revogação parcial em 1969.|296x296px A homossexualidade era punível com a morte no Sacro Império Romano-Germânico de 1532 até sua dissolução em 1806 e, na Prússia de 1620 a 1794. A influência do Código Napoleônico no início do século XIX estimulou descriminalizações em grande parte da Alemanha fora da Prússia. Mesmo antes da fundação do Império Alemão em 1871, já havia campanhas defendendo a descriminalização das relações sexuais entre homens em vários estados alemães.
No final do século XIX e início do século XX, a natureza da sexualidade humana tornou-se um campo central de investigação e debate científico, com a Alemanha ocupando posição de vanguarda nesse processo. O país estava no epicentro dos debates em torno do Parágrafo 175 que, com a formação do Império Alemão em 1871, compunha parte do Código Penal, que criminalizava os atos homossexuais nos seguintes termos:Atos sexuais não naturais (widernäturliche Unzucht) cometidos entre pessoas do sexo masculino, ou por humanos com animais, são puníveis com prisão; a perda dos direitos civis também pode ser sentenciada. (tradução própria) esquerda|miniaturadaimagem|294x294px|Médico alemão e pesquisador da sexualidade humana Magnus Hirschfeld (1868–1935). Hirschfeld buscava educar o público sobre sexualidade. Ele defendeu a descriminalização das relações sexuais entre homens, proibida sob o Parágrafo 175 do código penal alemão. Foto datada de 12 de novembro de 1927. Entre os mais proeminentes defensores dos direitos homossexuais desta época destacou-se o médico e pesquisador Magnus Hirschfeld, fundador do Institut für Sexualwissenschaft, que contestou a concepção então dominante de que a atração pelo mesmo sexo constituía uma perversão patológica. Hirschfeld sustentava que tal orientação era inata (angeboren) e, por isso, não deveria ser passível de punição legal. Com base nesse princípio, adotou o termo "homossexualidade" por considerá-lo mais adequado à sua argumentação e, em 1897, fundou o Comitê Científico Humanitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee), pelo qual liderou uma campanha pela reforma do Parágrafo 175. Sua atuação ganhou especial relevância na década de 1920, durante a República de Weimar. miniaturadaimagem|Eldorado em Berlim (1932), o bar e clube gay mais famoso da Alemanha. Durante a República de Weimar, as comunidades gays alemãs cresceram e se desenvolveram de forma inédita, com homens vivendo abertamente, frequentando bares como o famoso Eldorado em Berlim e se organizando em "ligas da amizade". Periódicos como Die Freundschaft e Der Eigene contribuíram para o fortalecimento dessas redes, educando leitores sobre sexualidade e fomentando o senso de comunidade. Esse florescimento era mais evidente nas grandes cidades, especialmente em Berlim, enquanto cidades menores e áreas rurais tendiam a ser menos receptivas. Apesar dessa primeiro movimento de campanha dos homossexuais, não houve sucesso pela revogação da lei tanto sob o Império Alemão quanto na República de Weimar. Sob o nazismo, as condenações pelo Parágrafo 175 multiplicaram-se exponencialmente. Em 1934, foram registradas 948 condenações — número comparável às taxas do período da República de Weimar, ainda que no limite alto. Em 1936, esse número saltou para 5.320, chegando a aproximadamente 8.500 em 1938, um aumento de cerca de dez vezes em relação ao período anterior. Durante todo o período nazista, estima-se que foram presos cerca de 100 mil homens gays. As penas eram severas, e entre 5.000 e 15.000 suspeitos foram enviados para campos de concentração, onde a maioria deles morreu. Em 1938, esses grupos já eram identificados com vários distintivos coloridos usados nos uniformes do campo. Muitos homens presos por supostamente violar o Parágrafo 175 tiveram que usar um triângulo rosa. Esse distintivo os identificava como "homossexuais" (homosexuell) segundo o sistema de classificação de prisioneiros. miniaturadaimagem|Membros do Partido Nazista durante a queima de livros do Institut für Sexualwissenschaft na Opernplatz, em Berlim, em 11 de maio de 1933. miniaturadaimagem|Prisioneiros no campo de concentração de Sachsenhausen, Alemanha, 1938. Nazistas usavam um triângulo rosa na vestimenta para identificar pessoas homossexuais.Após a guerra, os Aliados forçaram os alemães a revogar estatutos e leis nazistas. O Parágrafo 175, considerado o "parágrafo gay", entretanto, permaneceu em vigor por considerá-lo anterior à era nazista. A Alemanha Oriental adotou a redação mais restrita de 1871, mas parou de aplicá-la em 1957 e a aboliu completamente em 1968. Já a Alemanha Ocidental manteve a versão nazista de 1935, aplicando-a vigorosamente entre 1949 e 1969, o que resultou em cerca de 100.000 homens presos, dos quais aproximadamente 59.000 foram condenados. Em 1969, a Alemanha Ocidental reduziu a aplicação do estatuto, e o Parágrafo 175 foi definitivamente removido do código penal alemão em 1994, após a reunificação do país.
Os nazistas classificavam os prisioneiros em campos de concentração em grupos de acordo com o motivo de sua prisão. Em 1938, esses grupos já eram identificados com vários distintivos coloridos usados nos uniformes do campo. Muitos homens presos por supostamente violar o Parágrafo 175 tiveram que usar um triângulo rosa. Esse distintivo os identificava como "homossexuais" (homosexuell) segundo o sistema de classificação de prisioneiros.
Em 1968, o Parágrafo 151 criminalizava não somente as relações homossexuais entre homens adultos mas também a menores de 18 anos, estabelecendo uma idade de consentimento desigual em comparação com a dos heterossexuais, que era 14 anos para ambos os sexos. Em 1987, entretanto, a Suprema Corte da Alemã Oriental derrubou a disposição, argumentando que uma idade de consentimento diferenciada excluía homossexuais da sociedade e dos direitos civis a eles garantidos. Desse modo, em julho de 1989, a idade de consentimento foi uniformizada em 14 anos para todas as relações sexuais, primeiro na Alemanha Oriental e depois na Alemanha Unificada em 1994.
Alemanha Oriental (1949–1990) A Alemanha Oriental herdou o Parágrafo 175. O ativista comunista gay Rudolf Klimmer, inspirando-se em Magnus Hirschfeld e em seu Comitê Científico-Humanitário, fez campanha em 1954 para que a lei fosse revogada, mas não teve sucesso. No entanto, seu trabalho impediu novas condenações por homossexualidade após 1957.
Nos cinco anos seguintes à Revolta de 1953 na Alemanha Oriental, o governo instituiu um programa de “reforma moral” para construir uma base sólida para a nova república socialista, na qual a masculinidade e a família tradicional eram valorizadas. Enquanto isso, a homossexualidade — vista como contrária aos “costumes saudáveis do povo trabalhador” — continuou a ser perseguida sob o Parágrafo 175. A atividade entre pessoas do mesmo sexo era “alternativamente vista como um resquício da decadência burguesa, um sinal de fraqueza moral e uma ameaça à saúde social e política da nação”.
Na Alemanha Oriental, o Parágrafo 175 deixou de ser aplicado a partir de 1957, mas permaneceu formalmente em vigor até 1968.
Segundo a historiadora Heidi Minning, as tentativas de ativistas lésbicas e gays de estabelecerem uma comunidade visível foram “frustradas a cada passo” pelo governo da Alemanha Oriental e pelo Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) em que a polícia foi usada em diversas ocasiões para dissolver ou impedir eventos públicos gays e lésbicos. A censura centralizada também impediu a representação da homossexualidade na mídia impressa e eletrônica, bem como a importação desse tipo de material.