Aplastodiscus heterophonicus é uma espécie de anuro da família dos hilídeos (Hylidae) e do gênero Aplastodiscus. Foi descrita em 2021 a partir de exemplares coletados na porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Antes de sua descrição formal, havia sido tratada como Aplastodiscus sp. 4 e como A. aff. cavicola. Análises moleculares e filogenéticas confirmaram sua posição no grupo Aplastodiscus albosignatus, recuperando-a como grupo-irmão de A. ibirapitanga e demonstrando que, embora seja morfologicamente muito semelhante a A. cavicola, não constitui sua parente mais próxima. O epíteto específico heterophonicus, derivado do grego, significa "aquele de voz diferente", em referência ao canto de anúncio peculiar da espécie.

Trata-se de uma perereca verde de pequeno porte, medindo entre 26,9 e 33,6 milímetros de comprimento rostro-cloacal, sem dimorfismo sexual evidente no tamanho corporal. Os adultos apresentam crista supracloacal bem desenvolvida, membranas interdigitais, fímbrias nos membros, pequena franja de guanóforos no lábio inferior e íris alaranjada a avermelhada. Os girinos possuem disco oral com fórmula dentária 2(2)/4(1), corpo marmorizado e nadadeiras translúcidas. O canto de anúncio é composto por uma única nota áspera parcialmente pulsada, com modulação ascendente e frequência fundamental geralmente entre 661 e 948 hertz, distinguindo-se claramente dos cantos tonais conhecidos para os demais representantes do gênero.

A espécie é endêmica das encostas orientais do sul da Serra do Espinhaço, ocorrendo em fragmentos de floresta estacional semidecidual nos municípios de Conceição do Mato Dentro, Dom Joaquim, Alvorada de Minas, Morro do Pilar, Santana do Riacho e Serro, entre 608 e metros de altitude. Os machos vocalizam principalmente durante a estação chuvosa, frequentemente a partir de ninhos subterrâneos escavados em áreas brejosas, onde ocorre a postura; após a inundação desses ninhos, os girinos completam o desenvolvimento em poças e pequenos cursos d'água. Embora sua distribuição conhecida seja restrita e as populações estejam sujeitas à perda de habitat causada pela agropecuária, extração de madeira, mineração e urbanização, a espécie ocorre nas proximidades de diversas unidades de conservação e possui parte de sua população conhecida em uma reserva privada.

Taxonomia e sistemática

Aplastodiscus heterophonicus é uma espécie de anfíbio anuro da família dos hilídeos, pertencente ao gênero Aplastodiscus e ao grupo de espécies Aplastodiscus albosignatus. Foi descrita em 2021 por Paulo D. P. Pinheiro, Tiago Pezzuti, Bianca Von Muller Berneck e Mariana Lyra, a partir de exemplares coletados na porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Antes de sua descrição formal, a espécie havia sido tratada como Aplastodiscus sp. por Pimenta et al. (2014), como Aplastodiscus sp. 4 por Berneck et al. (2016) e como Aplastodiscus aff. cavicola por Pena et al. (2017). O holótipo, UFMG 21556, é um macho adulto coletado em 24 de janeiro de 2019 na Fazenda Estiva, em Dom Joaquim, a 630 metros de altitude. A série-tipo inclui machos adultos, fêmeas, juvenis, um subadulto e girinos provenientes de Dom Joaquim, Santana do Riacho, Morro do Pilar, Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Serro, todos em Minas Gerais. O epíteto específico heterophonicus deriva dos termos gregos heteros, "diferente", e phoné, "som", "voz" ou "canto", significando "aquele de voz diferente", em referência ao canto de anúncio muito distinto da espécie em relação aos demais congêneres.

A descrição da espécie confirmou a hipótese de Berneck et al. (2016) de que Aplastodiscus sp. 4 representava uma linhagem nova. A análise filogenética utilizou uma matriz concatenada de 6.631 pares de bases, com 49 terminais, incluindo sequências mitocondriais e nucleares. A nova espécie foi recuperada dentro do grupo A. albosignatus, com suporte máximo, e como grupo-irmão de A. ibirapitanga, também com suporte máximo. As distâncias genéticas não corrigidas entre A. heterophonicus e A. ibirapitanga variaram entre 2,6 e 3% para o fragmento 16S e entre 8,9 e 10,5% para COI; em relação às demais espécies do grupo A. albosignatus, variaram entre 4,6 e 7,4% para 16S e entre 12,1 e 15,4% para COI. Embora morfologicamente críptica em relação a A. cavicola, a espécie não foi recuperada como sua parente mais próxima, reforçando a importância dos dados moleculares e bioacústicos para sua delimitação.

Descrição

Aplastodiscus heterophonicus é uma perereca verde de pequeno porte, com comprimento rostro-cloacal de 26,9 a 33,6 milímetros nos machos e de 28,3 a 33,6 milímetros nas fêmeas, sem dimorfismo sexual evidente no tamanho corporal. Os adultos apresentam crista supracloacal bem desenvolvida, restrita à região supracloacal, membranas interdigitais entre dedos e artelhos, fímbrias laterais nos antebraços e nas tíbias, ausência de almofada nupcial nos machos e pequena franja de guanóforos na margem do lábio inferior. Em vida, a íris varia de vermelha a alaranjada, com um anel cinza-escuro a prateado ao redor da pupila. A espécie distingue-se de representantes de outros grupos de Aplastodiscus pela combinação de crista supracloacal, presença de membranas interdigitais e fímbrias laterais, coloração da íris e ausência de almofada nupcial. Distingue-se ainda de A. cavicola, espécie morfologicamente semelhante, sobretudo pelo canto de anúncio, muito diferente daquele conhecido para todas as demais espécies do gênero.

O holótipo é um macho adulto de corpo esguio, com 28,8 milímetros de comprimento rostro-cloacal. A cabeça é mais larga que o corpo e quase tão larga quanto longa, com focinho arredondado em vista dorsal, pequena projeção anterior, região loreal levemente côncava, olhos grandes e protuberantes, tímpano distinto e dobra supratimpânica fracamente desenvolvida. Os braços são delgados e não hipertrofiados, com fímbrias homogêneas estendendo-se da mão ao cotovelo. Os dedos são longos, com discos arredondados, tubérculos subarticulares distintos e tubérculos supernumerários presentes; a fórmula relativa dos dedos é II < III < V < IV. Os membros posteriores são longos e delgados, com fímbrias tarsais contínuas com o calcar; os artelhos possuem discos arredondados, de diâmetro semelhante aos dos dedos, e fórmula relativa I < II < III = V < IV. A pele é lisa no dorso, mas granulosa nas regiões gular, peitoral e abdominal e na face ventral das coxas. A abertura cloacal é dirigida posteroventralmente, coberta dorsalmente por uma grande dobra supracloacal branca, sem dobra subcloacal.

Em vida, o holótipo apresenta coloração geral verde, com dorso verde salpicado por melanóforos esparsos e pequenas manchas esbranquiçadas. Coxas e tíbias são um pouco mais escuras, e as articulações e inserções dos membros apresentam tonalidade verde-azulada, provavelmente associada ao acúmulo de biliverdina. Flancos, ventre e pálpebras superiores são amarelados, enquanto as superfícies ocultas das coxas são verde-amareladas. As fímbrias dos antebraços, lábio inferior e tíbias, os calcares, a crista supracloacal e os tubérculos cloacais são esbranquiçados. Em preservativo, as tonalidades verdes, azuladas e amarelas desaparecem, tornando o exemplar creme, embora os melanóforos dorsais permaneçam visíveis. A variação observada na série-tipo inclui diferenças na forma do focinho, no desenvolvimento das fímbrias, calcares e tubérculos, na coloração preservada da íris e na persistência de manchas brancas após a fixação.

Girinos

Os girinos de Aplastodiscus heterophonicus apresentam corpo deprimido, elíptico em vista dorsal, focinho arredondado e olhos dorsolaterais. As narinas são dorsais, grandes, elípticas e dirigidas dorsolateralmente, com projeção carnosa triangular na margem medial, conferindo-lhes contorno reniforme. O espiráculo é sinistro, lateral, visível em vistas dorsal e ventral, dirigido posterodorsalmente. O tubo ventral é longo, com abertura dextral, e sua porção médio-ventral encontra-se fundida à nadadeira ventral. A cauda é baixa, porém mais alta que o corpo, com musculatura robusta alcançando a extremidade pontiaguda. As nadadeiras dorsal e ventral são baixas, translúcidas, com margens livres levemente convexas. O disco oral é ventral, de tamanho médio, com três emarginações posteriores, uma mediana e duas laterais. Possui 109 a 125 papilas marginais cônicas organizadas em uma única fileira, com uma lacuna anterior estreita, ausência de lacuna posterior e duas a dez papilas submarginais em cada porção lateral. A fórmula de fileiras de dentes labiais é 2(2)/4(1). As bainhas mandibulares são estreitas, fortemente pigmentadas e finamente serrilhadas. Em vida, os girinos apresentam fundo corporal acastanhado marmorizado com pontos castanho-escuros, negros e dourados. A musculatura caudal é creme, com manchas castanho-escuras irregulares, uma listra escura longitudinal restrita ao quarto proximal da cauda e uma linha marrom estreita e interrompida na margem dorsal da musculatura. Em estágios avançados, o corpo e a cauda tornam-se mais esverdeados, a íris passa a vermelha e os metamorfos apresentam dorso verde vivo com pontos negros distribuídos regularmente.

Vocalização

O canto de anúncio de Aplastodiscus heterophonicus é composto por uma única nota harmônica áspera, que pode ser emitida repetidamente. Essa nota é parcialmente pulsada ou pulsátil, contrastando com as notas tonais assobiadas conhecidas para as demais espécies do gênero. A duração do canto varia de 167 a 280 milissegundos, com intervalos de 0,51 a 15,9 segundos entre cantos consecutivos. A taxa de emissão varia de 6,6 a 67,2 cantos por minuto. A primeira parte do canto pode apresentar de 17 a 39 pulsos ou ser pulsátil, correspondendo à maior parte da duração total, enquanto a porção final é não pulsada. As frequências apresentam modulação ascendente e várias bandas harmônicas. A frequência de pico geralmente se situa na banda fundamental, entre 661,3 e 947,5 hertz, embora alguns cantos apresentem pico em bandas mais altas. A combinação de nota áspera, modulação ascendente e baixa frequência de pico distingue a espécie de todos os congêneres com canto conhecido.

Distribuição e habitat

Aplastodiscus heterophonicus ocorre nas encostas orientais da porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, nos municípios de Conceição do Mato Dentro, Dom Joaquim, Alvorada de Minas, Morro do Pilar, Santana do Riacho e Serro, entre 608 e metros de altitude. Além das localidades representadas na série-tipo, a espécie foi registrada visual ou acusticamente em outras localidades próximas à rodovia MG-010 e à Estrada Real, entre Conceição do Mato Dentro, Morro do Pilar e São Sebastião do Bom Sucesso. Sua extensão de ocorrência foi estimada em 954,49 quilômetros quadrados, indicando distribuição restrita no contexto da Serra do Espinhaço. A espécie é florestal, ocorrendo no interior ou nas bordas de fragmentos de floresta estacional semidecidual. Não foi registrada em campo rupestre sensu stricto, embora seu registro altitudinal mais elevado, na Serra do Intendente, esteja inserido no ecossistema de campo rupestre sensu lato, em formações de transição como matas de galeria e florestas relictuais de topo de morro. A atividade vocal concentra-se geralmente na estação chuvosa, entre novembro e fevereiro, embora machos tenham sido encontrados vocalizando uma vez em julho, durante a estação seca. Os machos vocalizam à noite, principalmente a partir de ninhos subterrâneos, mas também podem ser encontrados vocalizando no solo e, raramente, empoleirados em vegetação próxima ao chão da floresta.

Reprodução e história natural