O caso das crianças francesas abandonadas em Alcácer do Sal refere-se à localização, em 19 de maio de 2026, de dois irmãos franceses, de três e cinco anos, encontrados sozinhos junto à Estrada Nacional 253, na zona de Monte Novo do Sul, entre Alcácer do Sal e a Comporta, no distrito de Setúbal, em Portugal. O caso levou à abertura de inquéritos e diligências judiciais em Portugal e em França, envolvendo suspeitas de crime de exposição ou abandono de menores, violência doméstica e eventual deslocação internacional ilícita das crianças.

As crianças foram encontradas ao início da noite por populares, depois de terem sido vistas a vaguear e a chorar numa zona rural. Após assistência pelas autoridades e observação hospitalar, foi determinada judicialmente uma medida provisória de acolhimento familiar. A mãe dos menores, de 41 anos, e o seu companheiro, de 55 anos, ambos franceses, foram detidos pela Guarda Nacional Republicana em Fátima, em 21 de maio, sendo suspeitos da prática dos crimes de violência doméstica e de exposição e abandono.

Antecedentes Segundo a imprensa francesa e portuguesa, as crianças residiam com a mãe em Colmar, no departamento francês do Alto Reno, em França. O pai, separado da mãe, tinha direito de visita limitado e supervisionado. As autoridades francesas tinham recebido, antes da localização dos menores em Portugal, uma comunicação relacionada com o desaparecimento das crianças, tendo sido aberta em Colmar uma investigação judicial por abandono de menores.

A mãe terá levado os menores para fora de França sem autorização paterna, existindo uma queixa apresentada cerca de dez dias antes da detenção dos suspeitos. Segundo o Tribunal da Comarca de Setúbal, uma vez que as crianças tinham residência habitual em França, competiria às autoridades judiciais francesas iniciar, através dos mecanismos de cooperação judiciária, o eventual procedimento de regresso das crianças ao país de residência habitual.

Localização das crianças As duas crianças foram encontradas em 19 de maio de 2026, por volta das 19h00, junto à EN253, na zona de Monte Novo do Sul, entre Alcácer do Sal e a Comporta, por Alexandre Quintas, padeiro residente na zona, que seguia de carro pela EN 253, entre a Comporta e Alcácer do Sal. Quintas viu os dois irmãos, de três e cinco anos, a caminhar na berma da estrada, chorosos e agitados, pedindo ajuda. Quintas afirmou que decidiu parar por ter visto as crianças naquela situação, tendo-as recolhido e levado para a padaria que gere com a mulher, Carla Quintas, com o objectivo de as acalmar e proporcionar um ambiente seguro até à chegada das autoridades. Os menores estavam sozinhos, sem documentos de identificação e em estado de grande perturbação.

Na padaria, o casal recorreu à ajuda de uma amiga do filho mais velho, que falava francês, para conseguir comunicar com as crianças e auxiliar a GNR na recolha inicial do relato. Os menores permaneceram na padaria desde cerca das 19h00 até à meia-noite, tendo aí brincado e sido acompanhados até serem entregues às autoridades. Através da tradutora, o menino mais velho terá relatado que ele e o irmão tinham sido vendados e deixados no mato sob o pretexto de procurarem um brinquedo, tendo ficado sozinhas depois de os adultos se afastarem. Quando foram encontradas, as crianças transportavam consigo mochilas com bolachas, fruta, água e uma muda de roupa.

Após a intervenção das autoridades, os menores receberam acompanhamento médico. Em 21 de maio, o Ministério Público de Setúbal informou que as crianças se encontravam aparentemente bem de saúde, tinham recebido o acompanhamento médico necessário e tinham tido alta hospitalar.

Investigação em Portugal O caso foi inicialmente tratado pelas autoridades portuguesas como uma ocorrência envolvendo duas crianças menores encontradas sozinhas junto à via pública. Em 21 de maio, o Ministério Público de Setúbal esclareceu que corria no DIAP de Grândola um inquérito criminal para apurar eventuais ilícitos relacionados com a localização dos menores. Segundo o comunicado, a investigação estava a ser dirigida pelo Ministério Público, coadjuvado pela Guarda Nacional Republicana, através do NIAVE de Setúbal, a quem foi delegada a investigação. Segundo o Ministério Público, a investigação encontra-se numa fase muito inicial, sendo necessário apurar as circunstâncias em que os menores tinham sido deixados sozinhos naquele local e que estavam em curso diligências destinadas, nomeadamente, à preservação da prova. O inquérito foi declarado em segredo de justiça.

No âmbito da jurisdição de família e menores, o Ministério Público requereu procedimento urgente de proteção. O Tribunal de Família e Menores de Santiago do Cacém determinou uma medida provisória de acolhimento familiar, executada após a alta hospitalar dos menores.

Investigação em França Em França, o Ministério Público de Colmar abriu uma investigação judicial relacionada com o abandono das crianças e a sua deslocação para Portugal. A mãe dos menores, residente em Colmar, havia desaparecido sem explicações na companhia das duas crianças, tendo o pai se apresentado espontaneamente às autoridades francesas depois de saber do caso.

A imprensa francesa sublinhou a dimensão transnacional do caso, com contactos entre as autoridades francesas e portuguesas e com a possibilidade de recurso a mecanismos de cooperação judiciária europeia.

Suspeitos

A mãe das crianças foi identificada como Marine Rousseau, francesa de 41 anos, residente em Colmar, no departamento do Alto Reno, em França. Rousseau não tinha antecedentes criminais conhecidos e apresentava-se profissionalmente como sexóloga, formadora e psicomotricista, tendo estudado na Universidade Pierre e Marie Curie, em Paris. Rousseau recorria, na sua atividade, a técnicas como hipnose, terapia breve e EFT, trabalhando com adultos e adolescentes em situações de trauma, ansiedade ou stress.

Rousseau tem pelo menos outro filho, de 16 anos, que terá sido ele mesmo alvo de abandono, permanecendo em França, facto igualmente alvo de averiguações pelas autoridades francesas. A família da mãe comunicou o seu desaparecimento inquietante em França a 11 de maio de 2026, depois de esta ter desaparecido sem explicações na companhia dos dois filhos mais novos.

O companheiro da mãe foi identificado como Marc Ballabriga, francês de 55 anos, um ex-polícia já conhecido do sistema judicial de Colmar por problemas psiquiátricos e por uma condenação anterior a nove meses de prisão por violência doméstica. O casal atravessou Espanha antes de chegar a Portugal, onde terá entrado a 11 de maio de 2026. Detenção Em 21 de maio de 2026, a GNR deteve em Fátima os dois franceses, por suspeita da prática dos crimes de violência doméstica e de exposição e abandono relacionados com a ocorrência em Alcácer do Sal. O casal foi localizado numa esplanada em Fátima por militares da GNR de Tomar, depois de alerta dado por uma popular, sendo encontrada perto do estabelecimento a viatura de matrícula francesa em que se deslocavam.

Em 22 de maio, os dois suspeitos foram apresentados no Tribunal de Setúbal para primeiro interrogatório judicial. Os suspeitos enfrentavam um mandado de detenção europeu, pelo que o procedimento judicial não deverá se limitar ao primeiro interrogatório em Portugal.

Antes de serem apresentados ao juiz de instrução criminal, os suspeitos foram levados para o posto da GNR de Palmela. O Correio da Manhã noticiou que Ballabriga se encontrava "descompensado", que terá esmurrado equipamentos na cela e que os dois suspeitos, colocados em celas separadas, estavam "alterados" e a gritar um para o outro. O mesmo jornal noticiou posteriormente que o casal teria combinado comportamentos descompensados durante o transporte, segundo uma conversa alegadamente ouvida por um militar da GNR que compreendia francês.

Na tarde de 22 de maio, à chegada ao Tribunal de Setúbal, a mãe das crianças foi ouvida a cantar, enquanto Ballabriga gritou em francês "je vous aime" ("amo-vos").

Situação das crianças e cooperação internacional Depois de receberem alta hospitalar, as crianças foram entregues a uma família de acolhimento, por decisão judicial provisória tomada no âmbito do Tribunal de Família e Menores de Santiago do Cacém. Os menores foram acolhidos por uma família francesa residente em Lisboa, enquanto as autoridades portuguesas e francesas tratavam dos procedimentos relativos ao eventual regresso das crianças a França.

Segundo o Tribunal da Comarca de Setúbal, cabe às autoridades judiciárias francesas, por mecanismos de cooperação judiciária, iniciar o processo de regresso das crianças ao Estado da residência habitual, sendo os tribunais franceses internacionalmente competentes para decidir sobre medidas de proteção definitivas e sobre as responsabilidades parentais, uma vez que, segundo os elementos recolhidos, os menores residiam habitualmente em França.

Repercussão O caso recebeu ampla cobertura mediática em Portugal e em França, sendo tratado por órgãos como a RTP, o Diário de Notícias, a Euronews, o Le Parisien, a TF1info, a RTL, o Le Monde, a TV5Monde e vários jornais regionais da Alsácia. A imprensa francesa destacou sobretudo a origem dos menores em Colmar, a abertura de investigação judicial pelo Ministério Público local e a dimensão transnacional do processo, enquanto a imprensa portuguesa acompanhou a localização das crianças, a detenção da mãe e do companheiro em Fátima e os contactos entre as autoridades dos dois países.

A ministra da Justiça portuguesa, Rita Alarcão Júdice, mostrou-se chocada com o caso, afirmando que as autoridades francesas já tinham apresentado um pedido de retorno das crianças e que o processo seguiria os trâmites normais. A governante referiu ainda que a Direção-Geral da Administração da Justiça estava a assegurar a articulação com os tribunais franceses, facultando informação e recolhendo elementos pedidos pelas autoridades judiciais francesas.

Em França, o caso teve especial repercussão em Colmar, cidade onde a família residia. O presidente da câmara, Éric Straumann, afirmou que não existia qualquer sinalização prévia de perigo ou de dificuldades sociais envolvendo as crianças, que frequentavam uma creche e uma escola na cidade. Segundo Straumann, só depois de as crianças não terem regressado aos estabelecimentos de ensino é que os serviços municipais fizeram uma comunicação por desaparecimento inquietante, reiterada dias depois.

O procurador de Colmar, Jean Richert, confirmou à imprensa francesa a abertura de uma investigação judicial por abandono de menores e indicou que o pai das crianças, separado da mãe, se apresentou espontaneamente à polícia francesa e apresentou queixa por subtração de menores. Categoria:2026 em Portugal Categoria:Alcácer do Sal Categoria:Crimes em Portugal Categoria:Direitos da criança Categoria:Relações entre França e Portugal