Crenicichla mucuryna, conhecido popularmente como jacundá, é uma espécie de peixe cicliforme da família dos ciclídeos (Cichlidae) e do gênero Crenicichla. É endêmica do Brasil, onde está restrita à bacia do rio Mucuri, no leste de Minas Gerais. Descrita por Rodolpho von Ihering em 1914 a partir de exemplares coletados no rio Todos os Santos, foi durante grande parte do século XX considerada sinônimo ou forma geográfica de Crenicichla lacustris, situação revertida após uma revisão taxonômica publicada em 2006. Embora tradicionalmente associada ao chamado grupo C. lacustris, estudos indicam que a espécie apresenta características morfológicas incomuns entre os representantes costeiros do gênero, possivelmente refletindo relações evolutivas com espécies da bacia do alto rio Paraná.

Trata-se de uma espécie de pequeno porte, alcançando pelo menos 11,3 centímetros de comprimento padrão. Distingue-se das demais espécies costeiras de Crenicichla pela presença de nove a doze estreitas barras verticais escuras ao longo dos flancos e pela ausência das pequenas manchas escuras espalhadas pelo corpo e pela cabeça que caracterizam outras espécies do grupo. Habita trechos fluviais de água doce associados a pequenas corredeiras e substratos arenosos e pedregosos, em ambientes inseridos no domínio da Mata Atlântica. Apesar de sua ocorrência conhecida restringir-se à porção superior da bacia do Mucuri, a distribuição completa da espécie ainda permanece insuficientemente conhecida.

As informações sobre sua biologia e ecologia são escassas. A espécie é considerada pouco comum, não migratória e associada a ambientes bentopelágicos, mas permanecem desconhecidos aspectos como alimentação, reprodução, estrutura populacional e história de vida. Em função de sua distribuição relativamente restrita e do declínio da qualidade dos habitats causado por desmatamento, assoreamento, barragens e espécies exóticas, foi classificada como quase ameaçada (NT) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Avaliações anteriores classificaram-na como Em Perigo (EN) em Minas Gerais e como Dados Insuficientes (DD) em âmbito nacional, ressaltando a necessidade de pesquisas adicionais sobre sua distribuição, ecologia e estado de conservação.

Etimologia

O nome popular jacundá, comum aos representantes do gênero Crenicichla, deriva do tupi yaku'nda. A palavra encontra-se documentada desde o período colonial, com registros históricos das formas jacundâ (1618), iacunda (c. 1631) e jacundá (1895). O nome genérico Crenicichla é formado a partir do latim , com o sentido de “recortado” ou “entalhado”, e do grego kichlē (), termo empregado para designar um tipo de peixe marinho, geralmente traduzido como "bodião".

Taxonomia

Crenicichla mucuryna é uma espécie de peixe cicliforme da família dos ciclídeos, pertencente à subfamília dos e ao gênero Crenicichla. Foi descrita por Rodolpho von Ihering em 1914 com base em exemplares provenientes do rio Todos os Santos, afluente do rio Mucuri, no estado de Minas Gerais. A espécie integra um dos gêneros mais diversos de ciclídeos da América do Sul, distribuído por grande parte das regiões tropicais e subtropicais a leste da Cordilheira dos Andes. Historicamente, C. mucuryna esteve associada ao chamado grupo Crenicichla lacustris, um agrupamento informal utilizado para reunir espécies morfologicamente semelhantes da costa atlântica do Sudeste e Sul do Brasil. Esse grupo era tradicionalmente caracterizado pela ausência de serrilhas no pterótico, contagens intermediárias de escamas, presença de coloração avermelhada no ventre das fêmeas durante o período reprodutivo e ausência de ocelo umeral.

Ao longo do , a espécie foi frequentemente tratada como sinônimo de C. lacustris ou incluída em um conceito amplo dessa espécie. Em revisões anteriores, os táxons costeiros do leste brasileiro eram considerados representantes de um complexo taxonômico pouco compreendido, reunido sob a denominação de grupo C. lacustris. Contudo, estudos posteriores demonstraram que esse agrupamento não constitui uma linhagem monofilética, indicando que espécies anteriormente associadas a ele possuem origens evolutivas distintas. Na revisão das espécies de Crenicichla dos rios costeiros do Sudeste brasileiro publicada por Sven O. Kullander e Carlos A. Santos de Lucena em 2006, C. mucuryna foi reconhecida como uma espécie válida e claramente distinta das demais espécies costeiras examinadas. Os autores destacaram que ela difere de todas as outras espécies da região por apresentar um padrão de coloração dominado por estreitas barras verticais nos flancos e pela ausência das pequenas manchas escuras espalhadas pelo corpo e pela cabeça que caracterizam outras espécies costeiras do gênero.

Kullander e Lucena observaram ainda que C. mucuryna compartilha diversas características com espécies da bacia do alto rio Paraná, incluindo baixas contagens de escamas e a presença de barras verticais estreitas ao longo do corpo. Em razão dessas semelhanças, sugeriram que suas afinidades evolutivas poderiam estar mais próximas de espécies paranaenses como C. haroldoi, C. jaguarensis, C. jupiaensis e C. niederleinii do que das demais espécies costeiras tradicionalmente associadas ao grupo C. lacustris. Apesar dessa hipótese, os autores ressaltaram que as relações filogenéticas da espécie permanecem incertas e que sua posição sistemática deverá ser reavaliada em estudos abrangentes sobre as espécies barradas de Crenicichla da bacia do Paraná.

Descrição

A espécie possui corpo alongado e pode atingir 11,3 centímetros de comprimento padrão, medida registrada para exemplares machos ou de sexo indeterminado. A nadadeira dorsal apresenta entre 20 e 22 espinhos e de dez a 12 raios moles, enquanto a nadadeira anal possui de sete a nove raios. Comparativamente às demais espécies costeiras do gênero, Crenicichla mucuryna é considerada uma espécie de pequeno porte. O corpo é relativamente esguio, com altura correspondendo a cerca de 16,3–22,5% do comprimento padrão. A cabeça é aproximadamente tão alta quanto larga, o pedúnculo caudal é mais longo do que alto e a mandíbula inferior projeta-se ligeiramente à frente da superior. O focinho é moderadamente longo, arredondado quando observado dorsalmente e ligeiramente pontiagudo em perfil. Os olhos situam-se na porção superior e anterior da cabeça, não sendo visíveis quando o animal é observado por baixo. As narinas localizam-se aproximadamente a meio caminho entre o olho e a margem dos lábios, apresentando bordas tubulares discretamente elevadas. A margem vertical do pré-opérculo é lisa ou apresenta poucas projeções irregulares.

As escamas dos flancos são fortemente ctenoides, enquanto as da cabeça, da região anterior do dorso, da base das nadadeiras dorsal e anal, do peito e da região ventral do corpo são cicloides. As escamas pré-dorsais e pré-pélvicas são pequenas e parcialmente embutidas na pele. A bochecha é quase totalmente recoberta por escamas, apresentando entre seis e nove fileiras abaixo do olho. O opérculo acessório permanece desprovido de escamas. A espécie apresenta entre 56 e 63 escamas na série E1, geralmente cerca de 61, valor inferior ao observado na maior parte das espécies costeiras de Crenicichla. Entre a linha lateral superior e a base da nadadeira dorsal ocorrem de oito a onze fileiras de escamas na região anterior do corpo, reduzindo-se posteriormente. As nadadeiras dorsal, anal, peitoral e pélvica não apresentam escamas, enquanto a escamação da nadadeira caudal estende-se aproximadamente até a metade da estrutura. A nadadeira caudal é arredondada, as peitorais possuem formato igualmente arredondado e alcançam aproximadamente a metade da distância até a origem da nadadeira anal. As nadadeiras pélvicas são inseridas posteriormente em relação às peitorais, possuem ápice afilado e atingem aproximadamente a metade do comprimento da região espinhosa da nadadeira anal. Nos machos, a porção mole da nadadeira dorsal é pontiaguda, enquanto nas fêmeas apresenta extremidade mais arredondada.

A dentição é formada por dentes pontiagudos, eretos ou ligeiramente recurvados. Os dentes da fileira externa são maiores que os das fileiras internas e tornam-se progressivamente maiores em direção à parte anterior das mandíbulas. A mandíbula superior apresenta quatro ou cinco fileiras internas de dentes, enquanto a inferior possui três. Pequenos microbranquioespinhos ocorrem externamente no segundo, terceiro e quarto arcos branquiais. A coloração preservada é predominantemente castanha ou acinzentada. Uma faixa escura estende-se da região anterior do olho até os lábios e a mandíbula inferior, enquanto outra faixa pós-orbital segue em direção à extremidade superior do opérculo. A faixa suborbital é estreita, negra e curta, atravessando apenas duas ou três fileiras de escamas. Diferentemente das demais espécies costeiras do gênero analisadas por Kullander e Lucena, C. mucuryna não apresenta pequenas manchas escuras espalhadas pelos flancos ou pela cabeça.

A principal característica diagnóstica da espécie é a presença de nove a doze estreitas barras verticais escuras ao longo da região mediana dos flancos. Essas marcas geralmente resultam da divisão de barras mais largas originadas na região dorsal do corpo. Entre a base da nadadeira dorsal e a linha lateral superior ocorrem ainda seis manchas ou barras castanhas largas, além de outra barra escura situada na margem dorsal do pedúnculo caudal. A espécie também se distingue pela ausência de uma faixa lateral contínua bem definida. Existe dimorfismo sexual na coloração das nadadeiras. Os machos apresentam numerosas pequenas manchas escuras distribuídas pelas nadadeiras dorsal, anal e caudal, além de manchas irregulares no pedúnculo caudal dos indivíduos maiores. As fêmeas possuem nadadeiras geralmente pouco pigmentadas e frequentemente exibem uma mancha negra ocelada na porção espinhosa da nadadeira dorsal. Exemplares juvenis com cerca de 3,4 a 4 centímetros de comprimento padrão já apresentam o padrão de barras verticais característico dos adultos.

Distribuição e habitat

Crenicichla mucuryna é endêmica do Brasil e conhecida exclusivamente da bacia do Mucuri, no leste do país. É uma espécie de água doce, de hábitos bentopelágicos e associada a ambientes de clima tropical. Sua distribuição está restrita à porção alta da bacia do rio Mucuri, no estado de Minas Gerais, sendo conhecida principalmente a partir do rio Todos os Santos, importante afluente do Mucuri. A localidade-tipo situa-se no rio Todos os Santos, no município de Teófilo Otoni, e os registros confirmados incluem ainda o rio Mucuri próximo à confluência com esse afluente e localidades na região de Nanuque. Um exemplar adicional foi coletado em 2008 no rio Todos os Santos, a montante de Teófilo Otoni, ampliando ligeiramente a distribuição conhecida da espécie. A espécie ocorre no bioma da Mata Atlântica e está associada à sub-bacia hidrográfica Litoral BA–ES. A extensão de ocorrência de C. mucuryna foi estimada em quilômetros quadrados. Segundo o ICMBio, esse valor foi calculado por meio do polígono convexo mínimo traçado em torno das microbacias hidrográficas (HydroSHEDS nível 8) que concentram os registros conhecidos da espécie. Embora a região tenha sido intensamente amostrada em alguns setores da bacia, especialmente a montante de Teófilo Otoni, a distribuição completa da espécie permanece insuficientemente conhecida.