Localizado no centro de Montevidéu, na intersecção da Avenida 18 de julho e a Plaza Independencia, foi considerado o edifício mais alto da América latina em sua inauguração em 1928. O terreno em que foi construído já abrigou a Café y Confitería La Giralda, grande ponto de encontro da cidade e onde o tango mais famoso do mundo, La Cumparsita, tocou pela primeira vez. Em homenagem, o Palácio Salvo abriga o Museu do Tango.

História e contexto O Palácio Salvo está localizado em um ponto de grande importância histórica para o Uruguai, a Praça da Independência Além de marco zero da capital uruguaia, a praça é o limite dos bairros Cidade Velha (Ciudad Vieja) e Centro (antes conhecido como Cidade Nova), por ter abrigado a Puerta de la Ciudadela, uma das entradas para o forte Cidadela, uma das principais principais que protegiam a Montevidéu colonial. A cidade foi fundada em 1724 por Bruno Mauricio de Zabala, governador espanhol de Buenos Aires, em um contexto de disputa entre Portugal e Espanha pelo controle da foz do Rio da Prata, e entre 1741 e 1780 foi erguida uma muralha que envolvia todo o povoado, complementada por dois fortes — a Cidadela, e o Fuerte de San José, na atual Praça Zabala. Esse núcleo fortificado, com suas principais edificações concebidas por engenheiros militares, possuía uma malha urbana bem desenhada e desenvolvida, que definiu por muito tempo, inclusive, os desenhos das residências. Essa malha, em conjunto com o desenho dos prédios, definiu diversas representações de poder, próprias de uma cidade pensada, antes de tudo, como peça de defesa territorial do império espanhol. Com a Independência do Uruguai formalizada pelo tratado da Convenção Preliminar de Paz, é realizado o decreto de 25 de agosto de 1829, pela recém-formada Assembleia Constituinte e Legislativa do país, para a demolição das muralhas, sob a justificativa que elas retardavam o desenvolvimento e a expansão da cidade. O espaço contido pelas antigas muralhas passou então a ser identificado como Cidade Velha, enquanto os territórios ocupados na expansão subsequente passaram a compor a Cidade Nova. Esse novo traçado foi concebido a partir de 1836 pelo sargento-mor José María Reyes, que adotou uma malha ortogonal organizada a partir do divisor de águas que se transformaria na Avenida 18 de Julio, uma das principais vias de Montevidéu.

Já no período de 1870, a cidade começa a apresentar sinais de modernização, com a construção de parques públicos, como a Plaza Independencia. Essa tendência se intensifica nas décadas seguintes: Em 1891, o arquiteto paisagista de origem francesa Édouard André desenvolveu um plano urbanístico voltado à reforma e à valorização estética de Montevidéu, no qual princípios higienistas foram incorporados ao planejamento da cidade . Em sintonia com uma tendência mais ampla das capitais latino-americanas do período, que importavam modelos de urbanismo francês de inspiração higienista como forma de modernização sanitária e estética das cidades. É também nesse momento que se implanta um eixo viário estruturante, a Avenida 18 de Julio, cujo nome homenageia a data em que foi jurada a primeira Constituição do país, em 18 de julho de 1830. Como observa Pérez Piñeyro (2001), "a sede do governo nacional se localiza na 'Plaza Independencia' e a do parlamento nacional é construída na zona de la Aguada (1901-1925); por outro lado, são instalados os primeiros serviços urbanos, com destaque para uma rede completa de traçados viários" Piñero2001</ref>

O crescimento desordenado da cidade, a aparição do automóvel e a necessidade de mais transporte público coletivo passam então a motivar o surgimento de novas propostas urbanas. O pensamento corrente era de que eram precisas grandes vias que interligassem os espaços mais relevantes da cidade. Simultaneamente, ocorre um grande crescimento populacional, resultado de ondas de migração interna, imigração europeia e crescimento vegetativo, um adensamento que se dá justamente durante o período conhecido como "Batllismo", marcado por reformas sociais e econômicas que projetaram o Uruguai a um patamar de desenvolvimento que lhe rendeu o apelido de "Suíça da América", atraindo, entre outros efeitos, grandes contingentes de pessoas para a capital. Esse crescimento populacional é capitalizado pelo mercado, resultando nas primeiras especulações imobiliárias na cidade. A década de 1920 confirma as tendências urbanas sugeridas no período anterior, a construção do Palácio Salvo teve início em 1922, concluindo-se em 1928, em um terreno estrategicamente localizado entre a Praça Independência e a Avenida 18 de Julio. O empreendimento marcou o começo do processo de verticalização da capital uruguaia, consolidando-se como um marco arquitetônico que permanece como referência visual da cidade até os dias atuais Piñero2001. Essa década antecede diretamente as celebrações do centenário da primeira Constituição uruguaia, em 1930, momento em que o país buscava, por meio de grandes obras, projetar uma imagem de modernidade e afirmação nacional, do qual também são exemplos o Estádio Centenário, palco da primeira Copa do Mundo de futebol, e o Obelisco aos Constituintes de 1830, monumento de granito de 40 metros inaugurado em 1938 em homenagem aos participantes da Assembleia que sancionou a primeira Constituição do Uruguai; a construção do Palácio Salvo se insere, assim, nesse mesmo horizonte simbólico de afirmação do Estado pela via da arquitetura monumental. A partir de 1930, a Cidade Velha começa a perder parte de seus moradores, que se mudam para a parte leste da cidade, processo acompanhado de degradação física do espaço. Enquanto o núcleo colonial se esvazia, é na Cidade Nova que se afirma o novo centro simbólico de Montevidéu: o Palácio Salvo ocupa o ponto onde nasce a Avenida 18 de Julio, junto à Plaza Independencia, na própria fronteira entre as duas cidades; no extremo oposto da avenida, a cerca de três quilômetros, no bairro de Tres Cruces, ergue-se o Obelisco aos Constituintes de 1830, de modo que os dois marcos delimitam, em extremos opostos, o eixo mais importante da cidade. Essa configuração permanece legível até hoje: situado em uma área urbana central e consolidada, o Palácio Salvo continua sendo a referência vertical que primeiro anuncia a chegada a essa região da cidade.

Arquitetura - Palácio Salvo Análise do projeto O Palácio Salvo, projetado pelo arquiteto italiano Mario Palanti e inaugurado em 1928, constitui um dos edifícios mais emblemáticos de Montevidéu. Após a produção de diversas obras em Buenos Aires, sendo uma delas um “embrião” para o palácio uruguaio, o Palácio Barolo, Palanti ganhou o concurso feito pelos irmãos Salvo. O autor queria criar uma obra a partir de sua reinterpretação sobre os estilos Neo Gótico e Romântico Lombardo, além de referências renascentistas e Art-Deco, e toques do neoclássico. São 37 mil m² construídos, distribuídos por 27 pavimentos com usos e ocupações diversificadas e que se alteraram durante os anos. A forma do edifício se dá por um volume principal que ocupa todo o terreno até o 10° pavimento. Depois sobe uma única torre de 15 pavimentos concentrada ao canto da intersecção da Av. 18 de Julio e a Praça Independencia. No 17° pavimento, na torre, existem 4 (quatro) torres menores semicirculares que assumem um ar de castelo modernista; em seguida inicia-se a torre abobadada principal e final do projeto. Originalmente o palácio abrigaria um uso misto, incluindo o uso para hotel, comércios, restaurantes, bares, escritórios, salões de eventos, teatro e uma torre monumental com galeria. Em seu subsolo era um teatro importante à cidade, onde hoje funciona como estacionamento. Do térreo ao terceiro pavimento ficavam os usos comerciais e públicos, em que sua planta era modificada a cada andar. A partir do quarto andar funcionava o hotel e as residências suítes, formando um pavimento tipo que se repetia por 24 pavimentos (10 andares completos e 14 andares da torre), resultando em 370 unidades. Dessa forma, o Palácio Salvo hoje possui usos diferentes aos que foi projetado, no entanto manteve sua fachada, que na década de 1950 começou a enfrentar sinais de depredação, que só foi convertida a partir dos anos 2000. De acordo com Virginia Bonicatto, a construção do Palácio Salvo concretiza a união dos conhecimentos técnicos adquiridos na academia com técnicas construtivas novas para a época. Sua estrutura e desenho trazem elementos modernos com o uso de concreto armado, sistema de circulação vertical, eletricidade, sistema de aquecimento e de ar condicionado. Sua decoração traz referências Neoclássicas, com trabalhos manuais em mármore, granito, madeira, ferro e fechamentos de parede combinando essas diferentes materialidades. A verticalidade é enfatizada por elementos como pilastras e linhas ascendentes, criando uma sensação de monumentalidade. </ref>

Do ponto de vista macro da cidade, o Palácio Salvo serve como ponto de referência para o ponto de transição da Cidade Velha para o Centro (Cidade Nova). Por sua excentricidade em relação aos edifícios ao seu entorno, se torna símbolo de orientação para aqueles que por ali passam. A decisão de descentralizar a torre impõem monumentalidade ao prédio e à praça ao seu redor, representando a ousadia e modernidade que o arquiteto trouxe ao projeto. Ao mesmo tempo, no ponto de vista do pedestre, seu entorno é coberto por uma marquise com comércios em toda sua fachada como elemento de costura da relação entre espaço público e privado. Por dentro, as aberturas amplas e regulares, e os pátios permitem a penetração de luz natural e ventilação nos pavimentos superiores.

Sistema estrutural - inovações e características técnicas Marcado por trazer inovações à época, o palácio tem toda sua estrutura em concreto armado, o que o deu o posto de edifício mais alto da América do Sul por um curto período. Além disso, Palanti implementa em sua circulação vertical elevadores além de escadas e sistemas de controle térmico elétrico. O símbolo de modernidade também se expressava na estética do edifício, esbanjando ecletismo e diversidade na materialidade utilizada nos fechamentos e fachadas. Os materiais utilizados foram: - Concreto armado - estrutura; - Alvenaria - vedação; - Pedras: mármores e granilites - pisos e revestimentos internos; - Elementos decorativos em argamassa moldada - fachada; - Portas e esquadrias de madeira ornamentadas - interno.

Aproximações entre o Barolo e o Salvo O Palácio Barolo (Buenos Aires, 1919–1923) e o Palácio Salvo (Montevidéu, 1922–1928) são com frequência chamados de 'edifícios gêmeos', pois foram concebidos praticamente em paralelo pelo mesmo arquiteto e compartilham uma série de características fundamentais: - Ambos consistem em um bloco de base — com programa misto de galeria comercial, hotel, escritórios e áreas de serviço — coroado por uma torre de uso mais restrito, rematada por um farol simbólico no topo. — Ambos foram encomendados por imigrantes italianos que haviam prosperado na América do Sul: Luis Barolo no caso do Palácio Barolo, e os irmãos Salvo — filhos de um imigrante italiano que chegou a Montevidéu em 1860 — no caso do Palácio Salvo. — Ambos apresentam decoração eclética com referências ao Gótico, ao Românico lombardo e à arte medieval, combinados a elementos modernos como sistemas de circulação vertical, eletricidade, aquecimento e ar-condicionado. — Os dois edifícios dialogam simbolicamente entre si: os faróis do Barolo e do Salvo foram projetados para se comunicar através do Rio da Prata, estabelecendo uma espécie de corredor luminoso entre Buenos Aires e Montevidéu.

Projetos além do Palácio Salvo Diferenças e experimentações específicas do Palácio Salvo Apesar das semelhanças, o Palácio Salvo apresenta diferenças significativas em relação ao Barolo, que revelam uma evolução no pensamento de Palanti e as especificidades do contexto uruguaio: