As Cuestas Basálticas, também denominadas Cuestas Arenítico-Basálticas, constituem uma das cinco grandes unidades geomorfológicas do Estado de São Paulo e prolongam-se, com continuidade estrutural, pelo nordeste do Estado do Paraná. Correspondem a um alinhamento de escarpas e platôs encaixado entre a Depressão Periférica Paulista, a leste, e o Planalto Ocidental Paulista, a oeste, e devem sua configuração à combinação de dois fatores principais: a deposição de espessos derrames de lavas basálticas sobre uma sequência sedimentar mesozoica durante o Cretáceo, e o subsequente rebaixamento erosivo diferencial que exumou essas lavas e as deixou em relevo invertido em relação às rochas adjacentes menos resistentes.ALMEIDA, F. F. M. de. Relevo de cuesta na bacia sedimentar do Rio Paraná. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. 3, p. 21–33, 1949.ROSS, J. L. S. Compartimentos geomorfológicos do Estado de São Paulo. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. 91, p. 89–98, 2011.

O termo cuesta, cuja origem é espanhola, significa "encosta de um monte". Em geomorfologia estrutural, uma cuesta correponde a um tipo de relevo assimétrico formado por camadas de rocha inclianadas moderadamente, no qual a vertente abrupta (denominada frente ou front) é oposta à face da camada, e a vertente suave (reverso ou contráescapa) segue o mergulho das camadas na mesma direção. No caso das cuestas basálticas paulistas e paranaenses, o front é voltado para leste, em direção à Depressão Periférica, enquanto o reverso desce suavemente para oeste, em direção ao Planalto Ocidental.

A região de abrangência das cuestas basálticas abriga importantes nascentes hidrográficas, incluindo afluentes das bacias do Rio Tietê e do Rio Paranapanema; além de constituir a principal área de recarga do Aquífero Guarani, o maior reservatório de água doce subterrânea do mundo. Formações como as serras de Botucatu e de São Pedro em São Paulo e, no Paraná, a Serra de São Luís do Purunã são suas expressões topográficas mais conhecidas.SANCHEZ, E. et al. Proposta de criação da APA Cuesta Guarani. São Paulo: Fundação Florestal / Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, 2022. Disponível em: https://smastr16.blob.core.windows.net/fundacaoflorestal/sites/243/2022/11/apa-cuesta-guarani-relatorio-tecnico.pdf.

Localização e extensão As cuestas basálticas estendem-se, no Estado de São Paulo, ao longo de uma faixa de orientação predominantemente norte-sul e nordeste-sudoeste, com largura variável entre 30 e 80 quilômetros. Seu front acompanha, de modo geral, a borda oriental do Planalto Meridional, separando a Depressão Periférica a leste do Planalto Ocidental a oeste. Na porção paulista, a altitude do front varia entre aproximadamente 700 e 1 050 metros, enquanto as altimetrias do reverso reduzem-se progressivamente para o interior, atingindo valores em torno de 600 a 700 metros junto ao vale do Rio Paraná.ALMEIDA, F. F. M. de. Fundamentos geológicos do relevo paulista. Boletim do Instituto Geográfico e Geológico, São Paulo, n. 41, p. 167–263, 1964.

No Estado do Paraná, as cuestas manifestam-se como o Segundo Planalto Paranaense, separado do Primeiro Planalto (Planalto de Curitiba) pela Escarpa Devoniana e do Terceiro Planalto (Planalto Basáltico) pela Escarpa Triássico-Jurássica, correspondente ao mesmo alinhamento geomorfológico das cuestas paulistas. As altitudes são semelhantes: o front eleva-se entre 400 e 500 metros sobre as regiões vizinhas, apresentando escarpas abruptas que chegam a 700–1 000 metros de altitude no maciço de Serra da Esperança e nas escarpas de Guarapuava.ALMEIDA, F. F. M. de. O planalto basáltico da bacia do Paraná. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. 24, p. 3–34, 1956.

Em escala regional, o alinhamento das cuestas se prolonga do Estado do Rio Grande do Sul até Minas Gerais, constituindo a borda oriental do Planalto Meridional em toda a sua extensão. No entanto, é na faixa entre os estados de São Paulo e Paraná que esse relevo apresenta sua expressão mais clássica, com a separação mais nítida entre as morfologias do front e do reverso, e onde os estudos pioneiros de Francisco Ferraz de Almeida, em 1949, consolidaram o uso do termo "cuesta" na literatura geomorfológica brasileira.

Substrato geológico

A Bacia Sedimentar do Paraná e o empilhamento mesozoico As cuestas basálticas são sustentadas por uma sequência de rochas sedimentares e vulcânicas pertencentes à Bacia Sedimentar do Paraná, depositadas e extrudidas ao longo do Mesozoico. Essa sequência, da base para o topo, compreende fundamentalmente três unidades que condicionam a geomorfologia atual:

A Formação Pirambóia (Triássico Superior), que constitui a parte basal da sequência nas bordas da bacia, é formada por arenitos eólicos e flúvio-lacustres de coloração esbranquiçada a alaranjada. Sua presença na Depressão Periférica, imediatamente a leste do front das cuestas, marca o contato entre as rochas sedimentares menos resistentes e o início da acumulação que dará origem à escarpa.Análise morfoestrutural de setor da Serra da Atalaia, Analândia/Corumbataí (SP). Revista Brasileira de Geografia Física, Recife, v. 8, n. 5, p. 1410–1434, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/rbgfe/article/download/233613/27204/0.

Sobre a Pirambóia repousa a Formação Botucatu (Jurássico Superior–Cretáceo Inferior), composta por arenitos eólicos médios a finos, de coloração rosada a avermelhada, com estratificação cruzada de grande escala que registra um extenso paleodeserto — um dos maiores já documentados na história geológica da América do Sul. A Formação Botucatu constitui o substrato imediato dos derrames basálticos na base da escarpa e aparece exposta nos paredões rochosos do front das cuestas, especialmente nas grutas e cavernas areníticas da Serra de Itaqueri e de Botucatu. Sua espessura média na borda oriental da bacia varia entre 50 e 200 metros.Análise da influência morfoestrutural na rede de drenagem da bacia do Rio do Peixe, SP. In: 10º Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2014. Anais... SINAGEO. Trabalho 5-280-1161. Disponível em: https://www.sinageo.org.br/2014/trabalhos/5/5-280-1161.html.

O topo da sequência é ocupado pela Formação Serra Geral (Cretáceo Inferior, aproximadamente 137–127 milhões de anos), que corresponde aos derrames de lavas basálticas responsáveis pela cornija resistente que define a morfologia cuestiforme. Intercalados aos derrames, ocorrem intertraps — camadas de arenito eólico preservadas entre dois episódios sucessivos de efusão, testemunhando a continuidade da atividade eólica durante os intervalos de quiescência vulcânica.A Formação Serra Geral (Cretáceo, Bacia do Paraná) — um análogo para os reservatórios ígneo-básicos da margem continental brasileira. Porto Alegre: UFRGS, 2012. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/72233/000882991.pdf.

O vulcanismo fissural cretáceo A Formação Serra Geral representa um dos maiores eventos de vulcanismo fissural da história geológica recente do planeta. Os derrames foram extrudidos a partir de imensos sistemas de geoclases (fissuras profundas no embasamento) de orientação predominante NW–SE no Paraná e em Santa Catarina, e NE–SW em trecho de São Paulo e Rio Grande do Sul. Diques de diabásio aos milhares documentam os condutos de ascensão do magma, com espessuras individuais variando de poucos metros a algumas dezenas de metros.ALMEIDA, F. F. M. de. O planalto basáltico da bacia do Paraná. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. 24, p. 3–34, 1956.

O volume total de material extrudido é estimado em mais de 1,2 milhão de quilômetros cúbicos, cobrindo uma área original que se estendia por cerca de 1,2 milhão de quilômetros quadrados no sul da América do Sul. A espessura máxima dos derrames, preservada no interior da bacia no Paraná e em Santa Catarina, aproxima-se de 2 000 metros, com uma média regional de 300 a 500 metros. Na borda leste da bacia, onde se encontram as cuestas, os derrames já estão significativamente erodidos, com espessuras remanescentes de 100 a 300 metros.MACHADO, F. B.; NARDY, A. J. R.; ROCHA JÚNIOR, E. R. V.; MARQUES, L. S.; OLIVEIRA, M. A. F. de. Geologia e litogeoquímica da Formação Serra Geral nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Geociências, São Paulo, v. 28, n. 4, p. 523–540, 2009.

Do ponto de vista petrográfico e geoquímico, as lavas da Formação Serra Geral são classificadas como basaltos toleíticos, com composição dominada por plagioclásios (40–55%), clinopiroxênios (19–40%, principalmente augita e pigeonita), minerais opacos como magnetita e ilmenita (2–10%) e olivina (até 1,5%). Dois grandes grupos geoquímicos são reconhecidos: os basaltos baixo-Ti (tipo Ribeira), mais comuns nas bordas da bacia e predominantes na faixa das cuestas paulistas, e os basaltos alto-Ti (tipos Pitanga, Paranapanema e Urubici), concentrados no interior da bacia. Rochas ácidas, como riolitos e riodacitos, ocorrem subordinadamente, associadas aos membros Palmas e Chapecó.

As datações por potássio-argônio e SHRIMP indicam que a maior parte dos derrames da Formação Serra Geral foi gerada em um intervalo de tempo relativamente curto — entre aproximadamente 137 e 127 milhões de anos atrás (Cretáceo Inferior, Neocomiano) —, sendo um dos episódios vulcânicos mais volumosos e mais rápidos do Fanerozóico no hemisfério sul. Esse evento está geneticamente associado à ruptura do Gondwana e à abertura do Oceano Atlântico Sul, com o início da separação entre a placa sul-americana e a placa africana.

Gênese e evolução geomorfológica

O problema da origem das cuestas: erosão versus tectônica A explicação da gênese das cuestas basálticas é um dos debates mais duradouros da geomorfologia estrutural sul-americana. Desde os trabalhos pioneiros de Fernando de Almeida na década de 1940 e da escola francesa de geomorfologia atuante no Brasil nas décadas seguintes, dois conjuntos de hipóteses se contrapõem: a erosiva, que atribui a configuração das cuestas integralmente ao recuo da escarpa por erosão diferencial; e a tectônica, que invoca movimentos de soerguimento e falhamento pós-cretáceos como condicionantes principais da altitude e do recuo do front.

O modelo erosivo, amplamente aceito, propõe que a estrutura monoclinário suavemente inclinada para oeste criou condições favoráveis para a instalação de drenagem consequente — rios que fluem no sentido do mergulho das camadas, rumo ao Rio Paraná — no reverso, e de drenagem obsequente — rios que fluem em sentido contrário ao mergulho — no fronte voltado para a Depressão Periférica. Esses rios obsequentes, ao se aprofundarem progressivamente, solaparam a base da cornija basáltica, provocando o colapso gravitacional e o recuo paralelo da escarpa ao longo do tempo geológico.Análise da influência morfoestrutural na rede de drenagem da bacia do Rio do Peixe, SP. In: 10º Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2014, op. cit.

A vertente tectônica foi refinada em trabalhos mais recentes, que documentam alinhamentos estruturais, anomalias de drenagem e lineamentos morfológicos compatíveis com atividade neotectônica no Cenozoico. Análise morfoestrutural do setor da Serra da Atalaia, entre os municípios de Analândia e Corumbataí (SP), demonstrou que os lineamentos de direção NE e NW identificados no relevo são compatíveis com a tectônica cenozoica da borda da Bacia do Paraná, corroborando interpretações de autores como Facincani (2000), que defendem uma origem híbrida — na qual a erosão diferencial foi o agente dominante, mas com condicionamento estrutural significativo desde a abertura gondwânica e reativações posteriores.

A cornija basáltica e o recuo do front