A greve da Polícia Militar da Bahia em 2012 foi uma paralisação de integrantes da corporação policial que se estendeu por cerca de 12 dias no estado brasileiro da Bahia. Teve início no fim de janeiro daquele ano, durante o segundo governo de Jaques Wagner (Partido dos Trabalhadores, PT) e ficou concentrado principalmente em Salvador e na região metropolitana, envolvendo também ocupações e mobilizações de policiais militares e bombeiros em diferentes pontos do estado. Os grevistas apresentaram reivindicações relacionadas a reajustes salariais, pagamento de gratificações, plano de carreira e melhores condições de trabalho, além de demandas por anistia administrativa aos participantes do movimento.
A paralisação provocou uma crise na segurança pública, com redução significativa do policiamento ostensivo e aumento da sensação de insegurança na capital baiana. Durante o período, o governo estadual acionou o apoio do governo federal, com envio de tropas das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança para reforçar o patrulhamento das ruas. O movimento ocorreu em meio a disputas entre associações da categoria, governo estadual e decisões judiciais que consideraram a greve ilegal, culminando em negociações que levaram ao encerramento da paralisação após cerca de 12 dias.
Ao longo da crise, consolidou-se entre parte dos policiais envolvidos no movimento a percepção de que o governo de Jaques Wagner adotava uma postura predominantemente confrontativa em relação à mobilização, priorizando medidas judiciais e o reforço da segurança com apoio federal em detrimento de uma negociação direta mais ampla. Esse sentimento foi alimentado por declarações públicas do governo que enfatizavam a ilegalidade da greve e a necessidade de restabelecimento imediato da ordem pública, além do uso de mandados de prisão e da presença de forças militares nas ruas. Para os grevistas, essa combinação de ações foi interpretada como sinal de endurecimento político, ampliando a sensação de distanciamento entre o comando estadual e a base da corporação durante o período da crise.
Antecendetes O movimento se iniciou a partir de uma assembleia realizada por representantes da categoria no Ginásio dos Bancários, em Salvador, na qual foi deliberada a deflagração da paralisação. Após a decisão, um grupo de policiais ocupou a Assembleia Legislativa da Bahia, no CAB, ampliando a tensão política e institucional. O movimento foi articulado por entidades representativas da corporação, com destaque para a Associação de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado da Bahia (ASPRA), que liderou a mobilização.
Entre as principais reivindicações apresentadas pelos grevistas estavam o pagamento das gratificações GAP IV e V, a regulamentação de adicionais como periculosidade, insalubridade e auxílio-acidente, além do cumprimento de legislações relacionadas à anistia de policiais punidos em movimentos anteriores. Parte dos policiais também alegava defasagem salarial e baixa remuneração em relação às funções exercidas. Enquanto representantes do movimento afirmavam adesão ampla à paralisação, autoridades estaduais e unidades da Polícia Militar informavam funcionamento normal em algumas regiões e buscavam negociações para contenção da crise.
Escalada da crise O governador Jaques Wagner afirmou que os dias anteriores haviam sido marcados por um quadro de "intranquilidade" no estado, com impactos diretos no funcionamento do comércio, na circulação urbana e na sensação de insegurança da população. Em pronunciamento oficial, declarou que o governo vinha adotando medidas para conter ações atribuídas a parte dos policiais envolvidos no movimento, as quais, segundo a avaliação do Executivo estadual, estariam contribuindo para o aumento da desordem e da insegurança pública.
Desde a madrugada de 1.º de fevereiro, integrantes da Associação de Policiais e Bombeiros do Estado da Bahia (ASPRA) ocupavam a Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), no Centro Administrativo do Estado, mantendo o estado de greve e condicionando a desocupação do prédio ao atendimento por representantes do governo. A paralisação foi considerada irregular pela Justiça, que, por meio de liminar expedida pela 6.ª Vara da Fazenda Pública, determinou a imediata retomada das atividades e estabeleceu multa para os policiais que descumprissem a ordem judicial, além de reforçar o caráter de ilegalidade do movimento.
O presidente da ASPRA, Marco Prisco, declarou que os grevistas aguardavam a abertura de negociação direta com representantes do governo estadual, defendendo a presença de autoridades com poder de decisão para tratar das reivindicações. Segundo ele, a categoria buscava uma resposta imediata do governo para viabilizar a retomada do diálogo e a resolução do impasse. Em contrapartida, a Polícia Militar manteve a posição de que o movimento não possuía legitimidade institucional, argumentando que as reivindicações apresentadas já integravam pautas de negociação entre o comando da corporação e o governo do estado. A instituição também informou que estudos de impacto financeiro e propostas de melhorias nas condições de trabalho estavam em análise para subsidiar futuras decisões.
Intensificação da crise e situação da insegurança pública Durante o período de instabilidade, a Secretaria Estadual de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) registrou um aumento significativo nos índices de violência em Salvador e na região metropolitana, incluindo a confirmação de 17 homicídios em um intervalo de cerca de cinco horas em uma das jornadas mais críticas do período. Os crimes foram registrados em diferentes bairros da capital e chegaram a incluir casos múltiplos em uma mesma área, levantando suspeitas de ações em série em determinados pontos da cidade. Diante do cenário, o governo estadual solicitou apoio federal, com a chegada de efetivos da Força Nacional de Segurança e o emprego de tropas do Exército nas ruas de Salvador para reforçar o policiamento ostensivo. As medidas foram adotadas em resposta à redução da presença de policiais militares nas ruas, em razão do movimento em curso.
miniaturadaimagem|263x263px|Avenida Paralela, em Salvador Nos dias que antecederam a intensificação do movimento, Salvador e a Região Metropolitana já registravam elevados índices de criminalidade. Em um intervalo de 24 horas, foram contabilizados dezenas de roubos e furtos de veículos, com destaque para ocorrências em vias de grande circulação, como a Avenida Paralela, além de bairros como Brotas, Canabrava e Pituba.
Entre os casos registrados, predominavam furtos de motocicletas e automóveis populares, além de registros de roubos a coletivos e ocorrências de homicídios e tentativas de homicídio no mesmo período. O cenário de segurança também foi afetado por problemas operacionais na central de registro de ocorrências, que chegou a ficar temporariamente fora do ar, dificultando a consolidação dos dados naquele momento.
Durante a ocupação da Assembleia Legislativa da Bahia, policiais vinculados ao movimento permaneceram em posse de viaturas da corporação no interior do prédio. Os veículos ficaram retidos no local ao longo do período de mobilização. No dia 4 de fevereiro, após a expedição de mandados de reintegração de posse, a Polícia Militar realizou a recuperação de 16 viaturas que estavam no local.
Durante o avanço da crise, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT-SP), afirmou que o governo federal havia solicitado a reserva de vagas em presídios federais de segurança máxima para o encaminhamento de policiais que eventualmente cometessem crimes durante a mobilização. Em pronunciamento, classificou o movimento como “inaceitável em um Estado de direito”, defendendo a atuação das instituições para garantir a ordem pública.
O ministro destacou ainda o apoio federal às autoridades estaduais, com a autorização de operações de garantia da lei e da ordem, incluindo o emprego da Força Nacional, Polícia Federal e Forças Armadas. Segundo ele, o objetivo era reforçar a segurança e assegurar o cumprimento de decisões judiciais, em meio ao agravamento da situação na Bahia. Paralelamente, o governo estadual reiterou que não concederia anistia a policiais envolvidos em atos considerados ilegais ou em possíveis danos ao patrimônio público, reforçando que eventuais crimes seriam tratados dentro do rigor da lei. O governador também afirmou que o aumento dos índices de violência registrados no período não deveria ser interpretado isoladamente, atribuindo parte da escalada a um contexto de instabilidade generalizada no estado.
miniaturadaimagem|293x293px|EE-11 Urutu do Exército Brasileiro. No dia 5 de fevereiro, um dos policiais militares com mandado de prisão expedido pela Justiça foi detido sob suspeita de envolvimento em crimes como formação de quadrilha e subtração de um veículo da própria corporação. A ordem judicial fazia parte do conjunto de medidas adotadas durante o avanço da crise e atingia integrantes vinculados ao movimento.
No mesmo período, o Exército intensificou o patrulhamento em Salvador, com o emprego de veículos blindados EE-11 Urutu em ações de segurança ostensiva nas ruas da capital. A medida integrou a operação de garantia da lei e da ordem, em meio ao cenário de instabilidade e à ampliação da presença das Forças Armadas no policiamento da cidade.
Escutas, investigações e desdobramentos Durante a crise, investigações conduzidas com autorização judicial incluíram interceptações telefônicas que passaram a ser utilizadas como parte das apurações sobre a atuação de lideranças do movimento. Em uma dessas gravações, exibida pela imprensa, o então líder Marco Prisco aparece em diálogo com o policial da 77ª Companhia Independente da Polícia Militar (77ª CIPM) de Vitória da Conquista David Salomão, em conversas que mencionam a possibilidade de bloqueio de rodovias e ações de interrupção de vias estratégicas no estado.
Posteriormente, em declaração pública, David Salomão afirmou que as falas ocorreram em um contexto de tensão e monitoramento das comunicações, alegando que o objetivo das articulações era pressionar o governo estadual e evitar uma possível invasão por parte do poder executivo a Assembleia Legislativa, onde estavam os amotinados. Ele também negou a configuração de crime nas declarações atribuídas a ele nas gravações divulgadas.
No dia 9, policiais militares que ocupavam a Assembleia Legislativa da Bahia começaram a desocupar o prédio após nove dias de mobilização. Segundo estimativas do governo estadual, cerca de 300 pessoas, entre policiais e familiares, deixaram o local ao longo da madrugada e início da manhã. Durante a operação de desocupação, o líder do movimento, Soldado Prisco, foi preso e conduzido a instalações da Polícia do Exército em Salvador. Outras detenções também foram registradas, incluindo policiais e integrantes suspeitos de envolvimento em articulações internas relacionadas ao movimento, segundo informações divulgadas pelo governo estadual.
Mesmo com a desocupação, o encerramento definitivo do movimento ainda era incerto naquele momento, em meio a negociações interrompidas e à manutenção de mandados de prisão expedidos contra lideranças da paralisação.
Impactos O movimento teve reflexos diretos na rotina de Salvador, especialmente no setor cultural e de entretenimento. Diante do aumento da insegurança e da instabilidade na cidade, diversos eventos foram cancelados, suspensos ou adiados por organizadores e instituições públicas e privadas. Entre as atividades afetadas estavam shows musicais, espetáculos teatrais, ensaios de blocos afro e projetos culturais tradicionais do calendário soteropolitano, incluindo apresentações no Pelourinho e eventos em espaços culturais da cidade. Museus e teatros também interromperam ou ajustaram seu funcionamento ao longo do período.