Ceuci (tupi: Seîxu; guarani: Eixu) é a representação da constelação das Plêiades na cultura tupi-guarani.

A aparição anual das Plêiades ou Sete Estrelo no horizonte marca o início das chuvas e do inverno e seu ocaso marca o início das secas e do verão, sendo o principal marco no calendário tupi-guarani.AFONSO, Germano Bruno. Mitos e estações no céu tupi-guarani. ’Ciência e Cultura,’ [s. l.], v. 58, n. 4, out./dez. 2006.

A constelação é associada à lenda amazônica da Velha Gulosa e é o nome tupi dado por missionários e cronistas às mães-virgens, também representadas pelas Plêiades, dos heróis conhecidos pelo epíteto de “Dono das Flautas” do noroeste amazônico chamados também por eles de “Jurupari”.

Etimologia O etnógrafo brasileiro João Barbosa Rodrigues apresentou a etimologia do nome Cyiyucé dado à constelação das Plêiades, na constelação ocidental do Touro, que ele informou ter encontrado no Pará como Ceiucê e no Amazonas como Cyiucê, como vindo de cy, “mãe”; i, “dos”; y, “água”, uhei, “desejo”, donde “a mãe dos que têm sede”,RODRIGUES, J. Barbosa. Vocabulário indígena com a ortografia correta. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, v. 16, n. 2, 1889-1890. Direção de Francisco Mendes da Rocha. talvez porque sua aparição no horizonte marque o início da estação das chuvas.

Já o pesquisador guarani Germano Afonso afirma que Eixu, a forma guarani do nome, significa “Ninho de Abelhas”, “Vespeiro”.

Constelação

Segundo o calendário tupi-guarani, o nascer helíaco das Plêiades no horizonte marca o início do ano solar a princípios de junho, iniciando a estação das chuvas e do inverno nas regiões habitadas pelos tupis-guaranis (Amazônia, litoral brasileiro e sul do Brasil) (embora o religioso e entomólogo francês Claude d'Abbeville, no século XVII, tenha dito que isso ocorra em meados de janeiro, e chamou a constelação de “Seichu”d'Abbeville, Claude. (1874). História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circumvisinhaças. Typ. do Frias.).

Por conta do uso da constelação como marcador do tempo anual, os missionários cristãos passaram a usar a palavra para designar “ano” nas suas comunicações em tupi. O padre jesuíta português Antônio de Araújo, por exemplo, usou a palavra “Cei xû” nesse sentido em seu Catecismo na língua brasílica, o maior texto conhecido escrito em tupi antigo.ARAÚJO, Antônio de. Catecismo na lingoa brasilica. Lisboa: Pedro Crasbeeck, 1618. Livro I, cap. I, p. 18, "Mandamentos da Sancta Igreja".

Os antigos tupinambás acreditavam que Ceuci é quem faz crescer a mandioca, da qual fabricam a sua farinha (talvez porque se dizia que a mandioca leva um ano para ser colhida).MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. p. 101 (Brasiliana, v. 267).

Também há a constelação de Seixuiurá (Seychuiura, “jirau das plêiades”; “jirau” é um termo tupi que designa um estrado, palanque, plataforma ou armação elevada feita de madeira, varas ou bambu), com nove estrelas dispostas em forma de grelha, que, segundo os indígenas, também anunciava a chuva. D'Abbeville a considera uma constelação distinta da Seichu.

Como Eixu (seu nome guarani) fica acima da cabeça da constelação tupi-guarani do Homem Velho (Tuya’i), ela representa também um penacho que ele tem amarrado à sua cabeça.

O uso das Plêiades para determinar o início das chuvas e do inverno ainda é usado por povos tupis-guaranis do presente, como os tembés.

Mitologia A Velha Gulosa Na mitologia dos anambés, povo tupi-guarani do Pará, Ceiuci é uma velha gulosa, entidade atormentada por eterna fome, representação, como o velho Chronos grego, do tempo que tudo devora. Ela perseguiu um rapaz que ela tentou comer por toda a vida dele, aparecendo de tempos em tempos, até ele ficar velho.

A narrativa acompanha a saga de um jovem capturado por uma velha gulosa chamada Ceiuci enquanto pescava sobre um mutá (na Amazônia, trata-se de um palanque ou jirau de sobre o qual o caçador espera a caça no mato ou o pescador o peixe à beira d'água). Após tentar capturá-lo inutilmente ao lançar sua tarrafa sobre o reflexo do rapaz na água, a velha usa formigas tucandiras para forçá-lo a descer e o leva amarrado para sua casa. No entanto, a filha da velha descobre a presa e decide escondê-lo, substituindo o rapaz por um pilão untado com cera. Descoberta a farsa, a jovem ajuda o moço a criar cestos de palha que se transformam em animais para saciar a mãe, dando tempo para que o rapaz fira a velha e inicie uma longa fuga pela floresta, sempre alertado pelo canto "kan-kan" que anunciava a aproximação da perseguidora.

Durante a fuga, o rapaz conta com a ajuda de macacos, que o escondem em um pote, e de uma ave makanan (macauã), que o salva de ser assado por dois surucucus traidores que haviam fingido lhe dar abrigo. Por fim, o rapaz recebe a ajuda de um tuiuiú que o transporta em um cesto de carga até os galhos de uma grande árvore, permitindo que ele aviste uma casa nos arredores. Ao descer e relatar sua impressionante trajetória a uma mulher que trabalhava na roça — revelando que fora raptado quando ainda era menino e que agora já era um homem velho de cabelos brancos —, ela se recorda do passado e reconhece que o viajante é o seu filho desaparecido, acolhendo-o finalmente de volta ao lar.

Mãe de Jurupari Nos mitos dos povos do Alto Rio Negro, que não são tupis-guaranis, “Ceuci” ou “Seucy” foi o nome tupi dado pelos missionários cristãos e cronistas a serviço da colonização às mães-virgens (como Amana, deusa da água que vive nas Plêiades segundo a mitologia calina, povo caribeCARVALHO, Sílvia Maria S. Jurupari: Estudos de mitologia brasileira. SP, Ática, 1979) dos heróis civilizadores coletivamente chamados de “Jurupari”, nome de um deus tupi com o qual chamavam o Diabo cristão na costa brasileira, com o intuito de combater o seu culto.FRESSATO, Soleni Biscouto. Investigação sobre o patriarcado na cultura indígena. In: Outras Palavras. São Paulo, 10 nov. 2017. Esta “Ceuci” foi morta e transformada nas Plêiades por ter desobedecido ao filho, que proibiu às mulheres o acesso às flautas sagradas em poder dos homens.CASCUDO, Luís da Câmara (1988). Dicionário do Folclore Brasileiro.

Na "Lenda de Jurupari" compilada pelo conde e explorador italiano Ermanno Stradelli, que intencionalmente mudou os nomes originais dos personagens míticos do Alto Rio Negro para nomes tupis mais familiares ao público sul-americano e europeu, a personagem Ceuci desempenha o papel central de mãe da própria divindade que dá título ao mito. Originalmente uma jovem virgem pertencente ao grupo das mulheres que dominavam as leis secretas da região, que nascera tão bela que fora comparada à Ceuci do céu (a constelação) e batizada com o mesmo nome, Ceuci comete a imprudência de comer o fruto proibido da árvore do cucura (da qual apenas as mulheres grávidas ou em amamentação podiam se alimentar). O sumo do fruto escorre por seu corpo desnudo e a engravida de forma miraculosa. Ao descobrirem a gestação sem a intervenção de um homem, os anciãos e as mulheres da tribo acusam Ceuci de transgredir as leis ancestrais e decidem puni-la severamente. Grávida e repudiada por sua comunidade, ela é exilada da aldeia e forçada a dar à luz sozinha na floresta.STRADELLI, Ermanno. "La leggenda del Jurupary" e outras lendas amazônicas. São Paulo: Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, 1964. 103 p.

O fruto dessa concepção mística é Jurupari, o “Filho do Sol”, que nasce com o destino de reformar os costumes indígenas e restaurar o patriarcado em nome do deus Sol. No entanto, o papel de Ceuci é marcado por um doloroso afastamento de seu filho: logo após o nascimento, o bebê é levado pelos ventos para ser instruído pelos deuses, retornando anos mais tarde já homem feito para cumprir suas leis, que impunham a exclusão total das mulheres dos rituais sagrados. Em um momento de profunda saudade, Ceuci viola uma dessas restrições para tentar ver o próprio filho durante uma cerimônia proibida com as flautas sagradas, vedadas às mulheres. Como punição pela desobediência à lei que ele mesmo instituíra, Jurupari é obrigado a vê-la perecer, transformando-a em pedra; após o falecimento da mãe, suas lágrimas purificam o corpo de Ceuci, que é então transmutada e elevada aos céus na forma das Plêiades, a constelação conhecida na tradição indígena como as "Sete Estrelas".

Variantes locais Segundo a mitologia calina (caribe), a origem do Universo, a essência do tempo, é Amana (já mencionada acima), mãe-virgem, deusa das águas, bela mulher, sem umbigo (não gerada), cujo corpo termina em serpente. Exerce seu poder das Plêiades. Ela se renova sempre, deixando sua pele, como uma cobra. É também chamada Wala Yumu, "espírito das espécies", e é chefe de todos os espíritos aquáticos. Seus dois filhos correspondem à constelação das Plêiades e à Serpente Celestial ("Boiassú", a constelação ocidental do Escorpião), a segunda sempre ameaçando devorar a primeira e ocasionar assim o fim do mundo. Curiosamente, as constelações de Escorpião e de Touro, onde estão as Plêiades, são opostas no céu, e isso lembra a lenda grega do caçador Órion, vizinho de Touro, que fica do lado oposto ao Escorpião no céu, que sempre o persegue.The legend of Scorpius and Orion. Star Name Registry Blog, 23 out. 2017.

Outra virgem estelar da região do noroeste amazônico representada pelas Plêiades é Mēē-spui ("Fogo-das-estrelas" nas línguas tariana e cubeua), que seu irmão Pirõ ("Cobra" em tukano ou "Águia" em dialeto jurupixuna), para garantir a virgindade dela, conduziu-a até a Serra das Pedras Brancas e, lá, para alcançar as portas do céu, fez um gancho e, por ele, subiram ao país das estrelas, e lá deixou Mēē-spui, "que outros chamam de Seucy". Mais tarde Pirõ se tornou o segundo pajé do mundo, ensinado pelo próprio Jurupari, que fora o primeiro.SILVA, Alcionílio Brüzzi Alves da. Crenças e lendas do Uaupés. Apresentação: Dom Walter Ivan de Azevedo. Revisão, anotação e prefácio: Dominique Buchillet. 1. ed. Quito: Ediciones Abya-Yala; Manaus: CEDEM, 1994. 355 p. ISBN 9978-04-035-5.

No entanto, nem todos os povos da região viam uma figura feminina na constelação das Plêiades. Os baníuas, por exemplo, contam de um homem chamado Hivisi que tinha um filho por nome Hareisi, que significa Kamuin ou Sol, que fora devorado pela Cobra-Grande; o acontecimento desgostou tanto Hivisi que, partindo da Terra, foi no firmamento formar a constelação denominada "Siuci". Outra lenda da região, também já contaminada com o vocabulário tupi, fala de outro pai e seu filho, ambos chamados "Ceuci" ou "Ciuci": a lenda explica a disposição de constelações e aglomerados estelares no céu por meio de um conflito de vingança entre Ararapari-Paia ("Ararapari-Pai", as Três Marias, o cinturão da constelação ocidental de Órion, enquanto "Ararapari" significa "Enxó") e Ceuci-Paia ("Ceuci-Pai", as Plêiades); Ararapari-Paia raptou o filho de Ceuci-Paia, Ceuci-Raíra ("Ceuci-Filho"), provocando a fúria deste que, como retaliação, sequestrou o filho de seu rival, Ararapari-Raíra ("Ararapari-Filho"). Como os pais nunca restituíram os filhos roubados e se tornaram inimigos declarados, as estrelas que representam as crianças permanecem até hoje fixadas no firmamento junto aos seus respectivos raptores, em partes afastadas do céu.