Cabe ibne Zuair (; m. c. 645/647) foi um poeta árabe da tribo dos muzainaítas e um dos mais destacados mucadrames, grupo de autores que viveram tanto na Arábia pré-islâmica quanto nos primeiros tempos do islã. Filho do poeta Zuair ibne Abi Sulma e pertencente a uma família célebre pela tradição poética, distinguiu-se desde a juventude pela habilidade na composição de cássidas. Inicialmente opôs-se ao islã e satirizou Maomé em seus versos, mas converteu-se em 9 A.H. (630), quando compareceu à Mesquita do Profeta e recitou diante dele o poema Bānat Suʿād, obtendo o perdão do profeta. Segundo a tradição islâmica, ao ouvir o poema Maomé lançou sobre os ombros de Cabe seu próprio manto (burda), gesto que deu origem ao título pelo qual a composição se tornou conhecida: Cássida do Manto. Considerada uma das obras mais influentes da literatura árabe, a cássida preserva a estrutura e os recursos estilísticos da poesia da Jailia, ao mesmo tempo que constitui um dos mais antigos e importantes panegíricos dedicados a Maomé. Ao longo dos séculos, recebeu numerosos comentários, imitações e traduções, tornando-se um dos poemas mais estudados da tradição literária islâmica. Além da Cássida do Manto, Cabe compôs diversos outros poemas preservados em seu divã, destacando-se pelo emprego de descrições elaboradas, comparações, provérbios e sentenças de caráter sapiencial. Sua obra representa um elo entre a poesia árabe pré-islâmica e a produção literária dos primeiros séculos do islã, ocupando posição de destaque na história da literatura árabe clássica.

Vida

Cabe ibne Zuair pertencia à tribo dos muzainaítas e nasceu em uma das mais notáveis famílias de poetas da Arábia pré-islâmica. Era filho do célebre poeta Zuair ibne Abi Sulma, autor de uma das , neto de Abu Sulma e irmão de Bujair ibne Zuair, sendo ainda sobrinho das poetisas Alcança e Sulma. Seu filho Uqueba e seus netos Alauame e Curaide também se distinguiram como poetas. A Encyclopaedia of Islam observa que, embora pertencesse aos muzainaítas, passou grande parte da juventude entre os dubianitas, participando dos conflitos travados por esse grupo contra as tribos dos taiítas, dos coraixitas e dos cazerajitas. Ainda jovem, Cabe acompanhou as mudanças ocorridas na vida de seu pai. Segundo a tradição preservada pela TDV, Zuair abandonou sua própria tribo após considerar injusta a repartição dos despojos obtidos numa campanha militar, estabelecendo-se entre os gatafanitas, tribo de sua esposa. Durante algum tempo, Cabe permaneceu sob os cuidados do poeta , tio materno de seu pai, e de , que havia criado Zuair. Posteriormente reuniu-se ao pai e aos irmãos Bujair e Salime, vivendo durante longo período entre os gatafanitas. Cabe recebeu formação poética diretamente de Zuair, ao lado de seu irmão Bujair e do poeta Alutaia. Ainda na juventude começou a compor versos, contrariando o desejo do pai, que considerava prematuro seu ingresso na poesia antes de adquirir maior maturidade. Apesar dessas objeções, revelou talento excepcional e alcançou rapidamente reconhecimento entre seus contemporâneos. Alutaia tornou-se seu principal transmissor (rāwī), decorando e recitando seus poemas, fato que contribuiu para difundir sua produção literária ainda durante sua vida.

Nos primeiros anos da permanência de Maomé em Medina, embora muitos integrantes de seu círculo já houvessem abraçado o islã, Cabe permaneceu entre os poetas que se opunham à nova religião e continuavam a satirizar Maomé em seus versos. A situação agravou-se quando seu irmão Bujair converteu-se ao islã pouco antes de 7 A.H. Em resposta, Cabe compôs um poema no qual censurava a decisão do irmão e dirigia sátiras ao próprio Maomé. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, esse episódio levou o profeta a autorizar sua execução. Após tomar conhecimento da decisão, Cabe procurou refúgio entre os muzainaítas, mas sua própria tribo recusou-se a protegê-lo. A Encyclopaedia of Islam resume esse momento afirmando que, desde então, "a terra tornou-se estreita" para o poeta, que acabou decidindo submeter-se a Maomé. Seu irmão Bujair escreveu-lhe informando que seria perdoado caso aceitasse o islã, circunstância que o levou a abandonar a resistência e dirigir-se a Medina. Em 9 A.H. (630), Cabe apresentou-se inesperadamente diante de Maomé na Mesquita do Profeta, onde se encontravam reunidos muçulmanos dentre os ançares e os muajiritas. Na ocasião, declarou sua conversão ao islã e recitou o poema Bānat Suʿād ("Suade partiu"), composto especialmente para solicitar o perdão do profeta. Durante a declamação, ao chegar ao verso em que afirmava que "o Mensageiro é uma luz pela qual se busca orientação, uma espada desembainhada dentre as espadas de Deus", Maomé emocionou-se e lançou sobre os ombros do poeta seu próprio manto iemenita (burda). Esse gesto tornou-se um dos episódios mais célebres da tradição literária islâmica e fez com que o poema passasse a ser conhecido como Cássida do Manto, denominação posteriormente adotada também por outras composições célebres, especialmente a de .

Obra

Cabe ibne Zuair é considerado um dos principais representantes dos mucadrames, denominação atribuída aos poetas que viveram tanto na Arábia pré-islâmica quanto nos primeiros tempos do islã. Embora tenha abraçado a nova religião, permaneceu fiel à estrutura tradicional da cássida árabe. Seu poema mais célebre, Bānat Suʿād, inicia-se com um , o prelúdio amoroso característico da poesia da Jailia, preservando assim a organização formal da cássida clássica. A Encyclopaedia of Islam observa que a composição não apresenta as características de um poema religioso propriamente dito, mas conserva a inspiração, os temas e a linguagem da poesia pagã. Ainda assim, constitui o mais autêntico exemplo conservado da poesia panegírica produzida nos primórdios do islã, definindo muitos dos elementos característicos desse gênero durante o primeiro quartel do . Entre as principais características da poesia de Cabe destacam-se o emprego de comparações expressivas, descrições minuciosas, provérbios e sentenças de caráter sapiencial, além do uso ocasional de vocabulário raro. Seus poemas refletem a transição entre a tradição literária da Jailia e a cultura islâmica nascente, preservando a estética da antiga poesia tribal ao mesmo tempo que incorporam temas ligados à nova comunidade muçulmana. A Cássida do Manto permaneceu como sua obra mais conhecida e exerceu profunda influência sobre a literatura árabe posterior.

A popularidade da Cássida do Manto deu origem a uma extensa tradição de transmissão, comentários e imitações. A obra foi publicada pela primeira vez em Leiden, em 1748, por Lette, recebeu numerosos tašṭīr e taḫmīs, inspirou diversas naẓīras e foi objeto de cerca de uma centena de comentários produzidos por estudiosos como Açucari, , Ibne Duraide, , Açuiuti e . Ao longo dos séculos, foi traduzida para diversos idiomas, entre eles turco, persa, latim, inglês, francês, alemão e italiano. A produção de Cabe também foi preservada em seu divã, cuja primeira edição crítica moderna foi publicada em 1950 por Tadeusz Kowalski, com o comentário de Açucari. Posteriormente, a obra recebeu novas edições, entre elas a organizada por Hanna Nasr al-Hitti, além de uma tradução alemã preparada por Osman Reşer. As fontes atribuem-lhe ainda outros poemas panegíricos dedicados aos ançares, entre os quais uma Rāʾiyya e uma Mīmiyya, preservadas pela tradição literária árabe.

Bibliografia

Categoria:Muzainaítas Categoria:Mucadrame Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Poetas árabes Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII