Maurren Higa Maggi (São Carlos, 25 de junho de 1976) é uma ex-atleta, saltadora, velocista e política brasileira filiada ao Republicanos. Tornou-se o maior nome da história do atletismo feminino do Brasil ao ganhar a medalha de ouro no salto em distância dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, saltando 7,04 metros.

Com uma carreira profissional de quase vinte anos no esporte, na qual chegou a ser suspensa por dois anos pelo uso de doping pela World Athletics (IAFF), mesmo após a comprovação da falta de intenção da atleta no uso da substância proibida pelas regras internacionais e sua absolvição por unanimidade nos tribunais esportivos brasileiros, ela é a recordista brasileira e sul-americana do salto em distância – 7,26 m – e tricampeã pan-americana em Winnipeg 1999, Rio 2007 e Guadalajara 2011 na mesma prova. É também recordista sul-americana da prova dos 100 metros com barreiras, com a marca de 12s71, obtida em 2001, e já foi recordista sul-americana do salto triplo, com 14,53 m, marca obtida em 2003.

Foi por duas vezes na carreira a nº 1 do ranking mundial do salto em distância feminino, em 1999 e 2003, e a nona melhor atleta da história da modalidade, em 1999, à época do seu salto de 7,26 m. Também por duas vezes recebeu o prêmio Atleta do Ano concedido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Em abril de 2015, anunciou sua intenção de encerrar sua carreira ao fim deste ano, tornando-se comentarista profissional de atletismo na televisão.

Início Nascida na cidade de São Carlos, no interior do estado de São Paulo, é filha de Rute e William Maggi. Seu nome vem de uma homenagem equivocada do pai aos Beatles, de quem era fã. William, que também tem um nome de origem estrangeira, pretendia dar à filha o mesmo nome da mulher do baterista Ringo Starr, Maureen Cox, com um "R" e dois "E". Mas um erro no cartório acabou resultando no nome único e que ficou famoso, Maurren, com dois "R" e um "E". Tem dois irmãos, Wiliam e Jefferson.

Uma criança que adorava bonecos de pelúcia, Maurren começou a praticar esportes variados aos sete anos de idade – voleibol, natação, ginástica, tênis de mesa e até xadrez – e na adolescência já disputava competições de atletismo no interior do estado, esporte a que passou a se dedicar. Em 1994, aos 17 anos, por convite daquele que seria seu técnico de toda vida, Nélio Moura, e sua mulher, Tânia, a quem conheceu numa competição em Cubatão, desembarcou sozinha na capital paulista para participar do projeto "Futuro do Ibirapuera", uma iniciativa esportiva do governo de São Paulo, para viver e treinar no alojamento da equipe ADC-Eletropaulo, dirigida pelo casal de técnicos.

Maurren vivia num alojamento para atletas com mais 15 meninas em apenas um quarto grande, onde o mais difícil era respeitar o espaço e as limitações das colegas, além da saudade constante da família. Nesta época, sendo a "garota problema" do grupo, chegou a sofrer um processo de expulsão por indisciplina – não concretizado por interferência de Moura – depois de mandar a melhor amiga para o hospital com crise nervosa ao assustá-la de madrugada com uma máscara de lobisomem. No fim do ano as meninas eram obrigadas a voltar para suas casas porque o Ibirapuera fechava para alojamento e treinamento, para contragosto de Maurren e das demais atletas, que queriam continuar treinando.

Neste primeiro ano em que chegou a São Paulo, já demonstrou o talento acima da média, conquistando os títulos de campeã brasileira e sul-americana juvenil do salto em distância, além de campeã sul-americana dos 100 metros com barreiras.

Carreira 1996 – 2003 Maurren começou sua carreira de atleta profissional em 1996, integrando a equipe de atletismo da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&FBOVESPA) junto com seu técnico. Neste ano obteve 6,47 m como melhor marca do salto em distância. O ano de 1999 a transformou numa estrela internacional, começando com uma medalha de bronze na Universíade, em Palma de Mallorca, e, logo depois, ao saltar 7,26 m no Campeonato Sul-americano de Atletismo em Bogotá, Colômbia, a melhor marca do mundo naquele ano e a nona da história para o salto em distância. Pouco depois, ela conquistava a medalha de ouro em Winnipeg 1999, seu primeiro título em Jogos Pan-americanos. Nestes mesmos Jogos, ainda ficou com a prata em sua segunda modalidade, os 100m com barreiras. Passou a ser um figura nacionalmente conhecida e popular, após aparecer na televisão, no pódio de Winnipeg, com as unhas pintadas de verde e amarelo e um ursinho de pelúcia nos braços. Sua vitória na cidade canadense, a primeira viagem de Maggi ao exterior com uma delegação esportiva brasileira completa, começou a mudar sua vida: "Tudo era novo para mim em Winnipeg e depois dos Jogos me tornei uma pessoa famosa no Brasil; passei a conhecer artistas, atores e celebridades que nunca tive a oportunidade de conhecer antes". Ainda em 1999, competiu no Campeonato Mundial de Atletismo em Sevilha, na Espanha, ficando em oitavo lugar. No fim de 1999, era escolhida Atleta do Ano na edição inaugural do Prêmio Brasil Olímpico, entregue pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Na primeira metade de 2000, Maggi, agora na equipe União Esportiva Funilense-Vasco da Gama, estava saltando próximo aos sete metros em competições na Europa e tinha se transformado numa das favoritas para a medalha de ouro para os Jogos Olímpicos de Verão de 2000. Nos seus primeiros Jogos Olímpicos, porém, contundiu-se na coxa logo no primeiro salto e teve que deixar a competição aos prantos, sem classificação: "Eu estava na melhor forma da minha vida, melhor ainda que Winnipeg e nunca pensei que aquilo pudesse acontecer comigo. Nunca quis ver na televisão o salto em que me machuquei, para não dificultar psicologicamente minha recuperação".

Em maio de 2001, já recuperada, quebra o recorde sul-americano dos 100 m c/ barreiras – 12s71 – no Campeonato Sul-americano de Atletismo disputado em Manaus e conquista o ouro no salto em distância e a prata nas barreiras na Universíade, em Pequim, na China. Em 2002, vive o que considerou "o melhor ano de sua carreira". Saltando o ano todo com consistência e sem contusões, vence o Campeonato Ibero-americano na Cidade da Guatemala, a final do 18º Grand Prix da IAAF em Paris – com um salto de 7,02 m, o melhor do ano – e conquista a medalha de prata na Copa do Mundo, em Madri. Durante sua temporada europeia, morou por alguns meses nos Países Baixos.

Em março de 2003, ganha a medalha de bronze no salto em distância no Campeonato Mundial de Atletismo em Pista Coberta, realizado em Birmingham, Reino Unido, com a marca de 6,70m. Em junho, num torneio em Milão, consegue 7,06 m, uma marca que a faria terminar novamente como nº 1 do mundo no salto em distância naquele ano. Mas, antes disso, em abril, Maurren faz uma marca que lhe dá três recordes sul-americanos ao mesmo tempo. Desde o fim da década de 90, ela vinha sendo incentivada a disputar o salto triplo por seu grande ídolo no esporte, Adhemar Ferreira da Silva. Começou a disputar por essa época, de maneira despretensiosa, a prova que havia consagrado o bicampeão olímpico e, na virada do século, já tinha alguns resultados expressivos. Em abril de 2003, num torneio em São Caetano do Sul, marcou 14,53 m em seu salto e estabeleceu novo recorde sul-americano para a modalidade, tornando-se ao mesmo tempo recordista brasileira e sul-americana do salto triplo, salto em distância e 100 metros com barreiras.

Doping Pouco antes do Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, em julho de 2003, após conquistar um ouro no Troféu Brasil de Atletismo, Maurren Maggi foi acusada de doping, depois de um exame de urina feito naquela competição. A atleta alegou que não sabia da presença de clostebol, encontrado em seu organismo, na composição do creme cicatrizante Novaderm, que aplicou na virilha após uma sessão de depilação definitiva. A substância é a primeira na lista de proibições da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF).

O fato alcançou repercussão nacional e internacional, numa época em que a atleta se encontrava no topo do ranking mundial do salto em distância, e ameaçava sua presença no Pan, no Campeonato Mundial de Atletismo em Paris logo a seguir, nos Jogos Olímpicos do ano seguinte e a sua própria carreira e reputação. Em agosto, um mês depois da noticia estourar nos meios de comunicação, a repórter do jornal Diário de S. Paulo Luciana Ackermann resolveu passar pelo mesmo processo de depilação para confirmar se a versão da atleta era possível. Após uma sessão de depilação a laser, ela aplicou na virilha a mesma pomada cicatrizante usada por Maggi, Novaderm, e o fez por mais duas vezes, à noite e pela manhã do dia seguinte, seguindo o mesmo processo alegado por Maggi. Dois dias depois foi ao Laboratório do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Universidade de São Paulo (USP) para repetir o exame da atleta. Fez o exame de urina acompanhada por um fiscal para evitar quaisquer dúvidas de que ela estivesse tentando mascarar o doping de alguma forma e, curiosamente, passou a mesma dificuldade para urinar que Maggi teve quando fez o seu exame. O resultado, em prova e contraprova, foi positivo para clostebol, o esteroide anabolizante existente no creme e substância proibida pelo Comité Olímpico Internacional (COI) e a IAAF. Luciana provou que o doping de Maurren foi involuntário e não tinha a intenção de melhorar sua performance. miniaturadaimagem|Maurren Maggi O teste da jornalista foi anexado ao processo como prova de defesa de Maurren e, em 19 de janeiro de 2004, ela foi absolvida por unanimidade – com 7 votos a 0 – pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt). Em 19 de março, a IAAF não aceitou as alegações nem a absolvição local e a baniu por dois anos do atletismo. A apelação à Corte Arbitral do Esporte teria que ser feita em Monte Carlo, demandaria muito dinheiro com viagens e advogados e tinha toda as possibilidades de ser infrutífera. Maggi desistiu e ficou de fora dos Jogos Olímpicos de Verão de 2004 devido à suspensão. Só voltou a treinar no fim de 2005. A partir daí e pelo resto da carreira, seu treinador Nélio Moura passou a fazer exames em laboratório de todo creme hidratante que Maurren quisesse usar e a atleta passava loções e pomadas na filha Sophia usando luvas de borracha descartáveis.

Volta às competições Maggi passou quase dois anos e meio afastada do atletismo e deixou de treinar neste período, levando uma vida completamente diferente da que estava acostumada desde a infância, sem nenhum tipo de preparação física, dedicando-se apenas à vida doméstica e à sua filha, Sophia, nascida em dezembro de 2004 de seu relacionamento com o ex-piloto de Fórmula 1, Antônio Pizzonia, com quem foi morar em Mônaco.

Com o fim do relacionamento e o divórcio em 2006, foi a preocupação com o futuro da filha que a fez voltar ao atletismo. No retorno, novamente sob os cuidados dos Moura, abriu mão do salto triplo e dos 100 m com barreiras considerando-se mais produtiva e confiante no salto em distância. Logo saltou 6,84 m em Bogotá e entrou em ritmo intenso de preparação visando aos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro, no ano seguinte. Em 2007, voltou ao topo da forma depois de saltar 6,91 m para ganhar o ouro no Campeonato Sul-americano de Atletismo em São Paulo e, em julho, na Rio 2007, tornou-se campeã pan-americana pela segunda vez, com a marca de 6,84 metros. Fez seu melhor salto do ano nas classificatórias do Mundial de Osaka 2007 (6,95 m), no qual ficou na sexta colocação na final com um salto de 6,80 m.

Na preparação olímpica no início de 2008, Maurren saltou 6,89 m no Campeonato Mundial de Atletismo em Pista Coberta, em Valência, Espanha, e conquistou a medalha de prata, sua segunda num mundial em pista coberta. No Troféu Brasil de Atletismo, em junho, conquistou a medalha de ouro com a marca de 6,99 m, o segundo melhor salto do mundo no ano.

Pequim 2008