O estandarte — no âmbito da heráldica e da vexilologia — constitui um tipo de bandeira.

Na heráldica, o termo carateriza uma bandeira pelo seu formato específico. Conforme a tradição heráldica, pode referir-se a um tipo de bandeira de formato quadrado ou a um tipo de formato triangular e alongado. Em vexilologia, o termo é usado mais ambiguamente, aplicando-se a uma diversidade de bandeiras, caracterizando-as mais pelo seu tipo de uso, independentemente dos respetivos formatos. Aplica-se assim frequentemente às bandeiras usadas como distintivos pessoais de chefes de estado, bem como a bandeiras portáteis usadas por unidades militares, instituições religiosas e organizações civis em desfiles e outros eventos cerimoniais.LANGHANS, F. P. de Almeida, "Estandartes, Bandeiras, Flâmulas e Galhardetes", Heráldica, Ciência de Temas Vivos (Volume II), Lisboa: Gabinete de Heráldica Corporativa, Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, 1966PEREIRA SALLES, E.A., "Apontamentos acerca das Bandeiras e Estandartes regimentais do Exército e da Armada, e ainda de outras bandeiras militares", Elucidário Nobiliárquico, Vol. 2, n.º 12, dezembro de 1929

O termo "estandarte" é ocasionalmente também usado para designar certos tipos de vexilóides.WISE, Terence, ROSIGNOLI, Guido, Military Flags of the World: 1618-1900, New York: Arco Publishing Company, Inc., 1978PERRIN, W. G., VAUGHANS, Herbert S., British Flags: Their early history and their development at sea with an account of the origin of the flag as a national device, Cambridge: University Press, 1922

Etimologia Em língua portuguesa, a palavra "estandarte" tem origem na antiga palavra francesa estendard (que entretanto evoluiu para étendard no francês moderno). Por sua vez, estendard derivou da palavra frâncica standhard — composta pelos elementos stand (ficar) e hard (firme) — que significava assim "estável", "fixo" ou "inabalável". De observar que este termo deu também origem à palavra inglesa standard que, além de significar "estandarte", também passou a significar "padrão" ou "norma", tendo entrado no léxico da língua portuguesa com esta última significação.Dicionário da Língua Portuguesa, Porto: Porto Editora, 2011

Origem O termo "estandarte" aparece inicialmente referido sob várias variantes no francês antigo, tais como estendard, estandard ou standart, sendo ocasionalmente latinizado para formas como standardum ou standarum. Uma das primeiras aparições do termo ocorre na Canção de Rolando, escrita no século XI, tendo como tema a Batalha de Roncesvales travada em 778 dC. O autor da obra chama estandart (estandarte) a uma insígnia de Maomé e Termagante (divindade mítica que os cristãos medievais acreditavam ser venerada pelos sarracenos), a qual era levada perante o emir Baligant. O texto não explica contudo como seria esta insígnia, mas indicia que a mesma seria um vexiloide e não uma bandeira propriamente dita, uma vez que na obra as bandeiras aparecem referidas como enseigne (signa) or gunfanun (gonfalão). A inspiração do autor poderá ter vindo de uma insígnia sarracena capturada durante a contemporânea Primeira Cruzada. Assim, no verão de 1099 e durante os combates para tomar Jerusalém, Roberto II da Normandia teria tomado aos sarracenos um objeto então referido como "estandarte", que consistia numa longa haste coberta de prata no topo da qual assentava uma bola ou maçã dourada. Segundo Alberto de Aquisgrão, cronista da Primeira Cruzada, este tipo de estandarte seria levado adiante dos exércitos sarracenos, sendo em redor do qual que se reuniria o escol das suas tropas.

Uma segunda forma do uso do termo "estandarte" irá aparecer no século XII, referindo-se agora ao engenho — já então utilizado pelos italianos e por eles referido como carroccio — que consistia num grande carro de guerra de quatro rodas, no qual assentava um grande poste, semelhante a um mastro de navio, no qual eram arvoradas uma ou mais bandeiras. Estes engenhos tinham inicialmente uma função tática nos campos de batalha, servindo como redutos de campanha, onde se posicionavam os comandantes dos exércitos e à volta do quais se reuniam os núcleos principais das tropas para combater o inimigo. A sua importância tática levou a que lhes fosse também uma associada uma forte importância simbólica. Como tal, para além de arvorarem as bandeiras dos respetivos soberanos, ostentavam frequentemente outras insígnias estatais ou religiosas. Um engenho deste tipo, tendo arvorada a bandeira de Ricardo I de Inglaterra, aparece referido como "estandarte" na descrição do seu emprego pelos cruzados num combate com os sarracenos, perto do Acre, no final de agosto de 1191. O uso deste tipo de engenhos estaria algo generalizado nos exércitos europeus da época. A Batalha do Estandarte, travada entre ingleses e escoceses em 1138, perto da localidade inglesa de Northallerton, ficou conhecida por este nome justamente por nela se ter destacado o uso de um engenho como aquele, no qual estariam arvoradas três bandeiras. Tipicamente, as bandeiras arvoradas nos mastros dos estandartes eram geralmente semelhantes às flâmulas arvoradas nos topes dos mastros dos navios, sendo assim de formato longo e triangular, terminando em várias pontas.

A designação "estandarte" aplicada inicialmente ao engenho que servia de suporte às bandeiras acabou por transferir-se para as próprias bandeiras nele arvoradas. Como estas representavam normalmente a entidade à qual as tropas deviam lealdade, no século XIII, o termo "estandarte" começa a ser utilizado para designar as principais bandeiras de monarcas, bem como de cidades-estado e de outras entidades dotadas de soberania.

Na região europeia de influência anglo-normanda, compreendendo parte da França, Flandres e Grã-Bretanha, o termo "estandarte" continuou a ser usado para designar o formato específico de bandeira que era tipicamente arvorado nos antigos engenhos com aquele nome, referindo-se portanto a uma longa bandeira triangular terminando em várias pontas.

Heráldica No âmbito da heráldica, o termo "estandarte" caracteriza uma bandeira pelo seu formato específico, podendo usar-se tanto para designar uma bandeira material contendo emblemas heráldicos, como para designar uma figura na forma daquela, constante do ordenamento de um brasão. As tradições heráldicas ibérica e galo-britânica usam contudo o mesmo termo para designar formatos distintos.

Heráldica galo-britânica Na tradição heráldica galo-britânica, surgida na região que compreende a Flandres, o Norte de França e a Grã-Bretanha, o estandarte constitui uma bandeira longa e estreita, cuja largura vai diminuindo do lado da haste para lado do batente, terminando geralmente em duas pontas arredondadas. Em regra, o seu campo é das cores do libré do titular, nelas assentando as empresas ou emblemas heráldicos deste, incluindo o respetivo mote. Em contraste com a bandeira armorial e outras bandeiras heráldicas — que têm como objetivo a exibição de brasões de armas —, o estandarte tem como objetivo principal exibir as empresas pessoais e as cores do libré do seu titular.

Esta forma de estandarte teria surgido no século XIV, em França, quando do aparecimento dos exércitos profissionais em complemento às já existentes hostes feudais. A bandeira armorial com as armas familiares do senhor feudal servia para guiar a sua hoste no campo de batalha. Não era contudo apropriada para guiar as tropas profissionais, uma vez que estas que não eram constituídas por vassalo do senhor feudal. Foi portanto necessário utilizar uma outra signa para guiar estas tropas, aparecendo assim o estandarte, segundo o conceito galo-britânico. Enquanto que a bandeira armorial era quadrada e continha as armas familiares, o estandarte era triangular e alongado, terminando geralmente em duas pontas e exibindo os sinais pessoais — e não familiares — do titular, nomeadamente as cores do seu libré, as suas empresas e os seus motes.

O estandarte de combate do Rei de França tinha designação particular de "auriflama", sendo por ele levado nas suas campanhas militares, durante a Idade Média.

Na Inglaterra medieval, o estandarte era maior que as outras bandeiras e o seu cumprimento variava de acordo com grau nobiliárquico do portador. Geralmente, tinha do lado da haste a cruz de São Jorge e o restante campo dividido dois esmaltes dispostos em faixa, correspondentes às cores do libré do detentor, sobre o qual assentavam as suas empresas heráldicas e listeis com os motes. Na Inglaterra de hoje, qualquer titular de armas a quem tenha sido também concedida uma empresa heráldica tem direito ao uso de um estandarte. Na Escócia, contudo, o uso de estandarte está sujeito a uma concessão especial e apenas dentro de certas condições. O comprimento dos estandartes escoceses varia entre 10 pés (3 m) e 21 pés (6,4 m) conforme o grau do detentor.BOUTELL, Charles, The Handbook to English Heraldry, Londres: Reeves & Turner, 1914

Heráldica ibérica

No âmbito da tradição heráldica surgida nos reinos cristãos medievais da Península Ibérica, o estandarte constituía uma bandeira de formato quadrado.

Uma das mais antigas definições do que era então um estandarte aparece nas Sete Partidas, uma compilação das leis e costumes seguidos então na Península Ibérica, codificadas a mando do rei Afonso X de Castela (1252-1284). No conjunto de leis que se referem à guerra, as Sete Partidas incluem talvez a mais antiga regulamentação vexilológica conhecida, a qual refletiria a prática ibérica nesta área durante o século XIII. O que são hoje genericamente designadas como "bandeiras" eram então referidas como "signas", estando classificadas nas Sete Partidas como subdivididas em signas maiores e em pendões. O estandarte aparece como sendo a principal das signas maiores, com um formato quadrado e sem farpas. O seu uso estava reservado aos imperadores e aos reis, sendo que o almirante-mor deveria arvorar o estandarte do seu rei na galé em que embarcasse.SOBRAL, José, "As Bandeiras nas Sete Partidas de Afonso X", Audaces, 2012BRUN, Pedro, GENTIL, Juan, "Tratado III - Capítulo XXIX, Nobiliario, Sevilha, 1492DORNELAS, Afonso de, "Subsídios para o estudo das signas portuguesas", Elucidário nobiliarchico : revista de história e de arte, Vol. 2, n.º 4, abril de 1929SÃO PAYO, (D. António) Conde de, "A nomenclatura das signas medievais", Armas e Troféus : revista de História e de Arte, volume I, Lisboa, 1932

Por volta do século XV, a designação das diversas signas torna-se aparentemente mais ambígua, aparecendo o uso do termo "estandarte" também com a mesma aceção que a usada na heráldica galo-britânica, designando assim uma signa longa e triangular. Por outro lado, o termo "bandeira" — que nas Sete Partidas se aplicava apenas a uma signa específica de formato retangular para uso dos chefes de 10 a 50 cavaleiros — passou a ser usado de forma mais generalista, aplicando-se também ao estandarte real de formato quadrado, que passa frequentemente a ser referido como "bandeira real".

Nas heráldicas portuguesa, espanhola e italiana, o termo "estandarte" continua ainda hoje a ser ocasionalmente usado como termo alternativo para designar uma bandeira quadrada empregue como figura do escudo.BANDEIRA, Luís Stubbs Saldanha Monteiro, Vocabulário Heráldico, Lisboa: Edições Mama Sume, 1985GARCIA GARRAFA, Antonio & Arturo, "Capítulo XVI - Las banderas y estandartes", Enciclopedia heráldica y genealógica hispano-americana, tomo I, Madrid: Imprensa de Antonio Marzo, 1920

Vexilologia