Paço Real de Almeirim foi um paço real português situado na vila de Almeirim, no distrito de Santarém, mandado erguer a partir de 1411 pelo rei D. João I. Ampliado sobretudo sob D. Manuel I e D. João III, tornou-se uma das residências preferidas da corte portuguesa durante o inverno, tendo sido por isso apelidado de «Sintra de Inverno». O edifício foi gravemente danificado pelo sismo de 1755 e a sua demolição foi ordenada em 1792, tendo os últimos vestígios visíveis sido removidos em 1890. Do antigo paço não subsiste nenhuma estrutura visível à superfície do terreno, mas o local foi objeto de várias intervenções arqueológicas a partir de 2004.

História Construção Em 1411, o rei D. João I ordenou a construção de um paço fortificado em Almeirim, aproveitando a proximidade ao rio Tejo e a abundância de terrenos de caça da região. As obras exigiram trabalhos prévios de terraplanagem e drenagem dos terrenos pantanosos junto ao rio. Segundo a Direção-Geral do Património Cultural, o paço terá sido edificado ainda no século XV, no local hoje ocupado pelos jardins do antigo hospital de Almeirim.

Apogeu sob a dinastia de Avis D. Manuel I ampliou o paço e passou ali longas temporadas, nomeadamente ao longo de 1510, parte de 1513, o Natal de 1514 e entre outubro de 1515 e maio de 1516. O seu sucessor, D. João III, manteve o mesmo hábito. Em 1512, D. Manuel I mandou ainda construir nas proximidades, junto à Ribeira de Muge, um paço anexo destinado à caça, inicialmente designado Paço da Ribeira de Muge e mais tarde conhecido como Paço dos Negros, bem como um convento dedicado a Nossa Senhora da Serra.

Em 1515, o Papa Leão X ofereceu a D. Manuel I uma lareira de mármore, colocada no Paço de Almeirim; após o desaparecimento do edifício, a peça foi instalada em 1898 na Sala das Pegas do Palácio Nacional de Sintra, onde se mantém. O paço foi também palco de atividade cultural: Gil Vicente representou ali várias das suas obras teatrais perante a corte de D. João III entre 1510 e 1526, e Garcia de Resende terá iniciado no local a impressão do Cancioneiro Geral.

Cortes de 1580 e domínio filipino Após a morte de D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, em 1578, o cardeal D. Henrique convocou em Almeirim, a partir de 11 de janeiro de 1580, as Cortes destinadas a discutir a sucessão ao trono português. D. Henrique morreria no próprio paço a 31 de janeiro de 1580.

O paço tinha já sido palco, em 1543, do casamento por procuração do futuro Filipe II de Espanha com a infanta D. Maria Manuela.Dias Pacheco, Milton Pedro (2017). «Palaces on the Edge of the Atlantic». In: The Habsburgs and their Courts in Europe, 1400–1700. Leuven: Leuven University Press, pp. 55–71. ISBN 978-94-6018-483-3. Após a integração de Portugal na monarquia hispânica, Filipe I de Portugal custeou obras de renovação no paço, dirigidas pelo arquiteto Álvaro Pires e pelo jardineiro Rodrigo Álvares, e visitou o edifício em junho de 1581 e novamente em 1582, acompanhado da irmã, a imperatriz Maria de Áustria, e do filho, o príncipe Alberto. Em 1589, e de novo em 1595, foi fixada uma verba anual destinada à manutenção do edifício e dos jardins.

Declínio e demolição O sismo de 1 de novembro de 1755 provocou danos graves no edifício, que ficou praticamente inabitável e entrou em processo de abandono. Em 1792, o príncipe regente D. João, futuro D. João VI, ordenou a demolição do que restava do paço, então já em avançado estado de degradação. O derradeiro vestígio à superfície, um pórtico com cerca de 24 metros de altura, foi removido em 1890.

Arqueologia e estado do sítio O local, identificado como sítio arqueológico com o número 37951, situa-se na Rua Febo Moniz, no antigo terreno do hospital de Almeirim, e apresenta vestígios de ocupação dos períodos calcolítico, moderno e contemporâneo. Entre 2004 e 2018 realizaram-se ali várias intervenções arqueológicas: em 2004 foram identificadas nove estruturas preservadas; em 2014 foram postas a descoberto estruturas de alvenaria de tijolo e estruturas negativas com materiais dos séculos XV a XVII; em 2017 documentaram-se três fases de ocupação distintas, incluindo possíveis fragmentos cerâmicos calcolíticos em profundidade; e em 2018 foi identificada uma infraestrutura hidráulica.

Em novembro de 2022, o arquiteto Elias Rodrigues apresentou uma reconstituição tridimensional do paço, elaborada a partir de fontes históricas como o Leal Conselheiro de D. Duarte, painéis de azulejos do século XVIII e cartografia de 1855, bem como uma maqueta à escala exposta no cineteatro de Almeirim; nessa altura, a autarquia de Almeirim ponderava a possibilidade de recuperar o pórtico do antigo paço no jardim da República.

Ver também Cortes de Almeirim de 1580 Paço dos Negros Palácio Nacional de Sintra

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