Abide ibne Alabras (; ) foi um poeta árabe dos açaditas, considerado um dos poetas célebres da Jailia e pertencente à mesma geração de Tarafa ibne Alabede. Pouco se conhece com segurança sobre sua vida, que deve ter transcorrido durante a primeira metade do . Sua trajetória é associada à revolta dos açaditas contra a supremacia do Reino de Quinda e à morte do rei , acontecimentos que deram origem à sua rivalidade poética com Inru Alcaice, filho do soberano. A contemporaneidade dos dois poetas é atestada tanto pela tradição histórico-literária como pelos versos preservados no divã de Abide.

Segundo a tradição, Abide participou das vicissitudes dos açaditas durante o reinado de Hujer, chegando a ser aprisionado pelo soberano e obtendo posteriormente sua libertação e a de outros membros da tribo por meio de um poema. Após a morte de Hujer, defendeu os açaditas poeticamente contra as ameaças de vingança de Inru Alcaice, com quem manteve uma troca de composições. Abide é também associado à corte lácmida de Hira e ao rei , embora seja considerada provavelmente lendária a tradição segundo a qual teria sido morto por ordem desse soberano. As fontes divergem sobre sua longevidade e morte, atribuindo-lhe desde uma vida relativamente breve até uma idade superior a cem anos.

A poesia atribuída a Abide caracteriza-se pelo arcaísmo da linguagem e da estrutura, pela melancolia e austeridade e pela expressão do orgulho individual e tribal. Seu tratamento contido do sentimento amoroso, as reflexões sobre a fugacidade da vida e sobretudo sua habilidade descritiva contribuíram para sua posição entre os grandes poetas pré-islâmicos. Tornaram-se particularmente célebres suas descrições de tempestades, da chuva e de animais, entre elas as cenas de uma águia perseguindo uma raposa e de um peixe no mar. Apenas uma parcela relativamente pequena de sua produção chegou à posteridade: o corpus reunido por Charles James Lyall compreende trinta cássidas mais ou menos completas e dezessete fragmentos. Uma de suas composições foi incluída por alguns autores entre as Muallaqat, e seu divã continuou a ser editado e estudado na época moderna.

Vida

Abide ibne Alabras pertencia a uma família pobre dos açaditas. Sua data de nascimento é desconhecida, e muito pouco se conhece com segurança sobre sua vida, que deve ter transcorrido durante a primeira metade do . Os açaditas estavam submetidos a , rei do Reino de Quinda e pai de Inru Alcaice. Depois que as relações entre a tribo e o soberano se deterioraram, os açaditas deixaram de lhe pagar tributo. Hujer atacou-os, expulsou-os para Tiama, na costa do mar Vermelho, e aprisionou vários dos principais membros da tribo, entre os quais Abide. Durante o cativeiro, Abide compôs um poema em que elogiava Hujer, desculpava-se pelos erros cometidos por sua tribo e pedia ao rei que perdoasse os prisioneiros. Hujer atendeu ao pedido, libertou-os e permitiu que regressassem às suas terras. Pouco depois, contudo, os açaditas voltaram a rebelar-se contra Hujer e mataram-no. A revolta dos açaditas contra a supremacia de Quinda e a morte de Hujer deram origem à inimizade entre Abide e Inru Alcaice. A contemporaneidade dos dois poetas é atestada tanto pela tradição histórico-literária como pelos versos preservados no divã de Abide.

Quando Inru Alcaice ameaçou vingar o pai e declarou sua intenção de matar cem açaditas, iniciou-se uma troca de poemas entre ele e Abide. Defendendo energicamente sua tribo, Abide compôs versos nos quais recordava os sofrimentos que os açaditas teriam suportado sob o avô e o pai de Inru Alcaice. A contemporaneidade de Abide com Inru Alcaice e com o rei lácmida de Hira permite situá-lo aproximadamente entre 530 e 550, embora as tradições sobre sua longevidade e morte sejam divergentes. Abide viveu posteriormente durante longo período na corte de Hira. Segundo a tradição transmitida pela TDV, depois de se desentender com Almondir III, foi morto por ordem do soberano. Gabrieli considera provavelmente lendária a tradição de que Abide tenha morrido pelas mãos de Almondir, embora ressalte que o rei foi contemporâneo do poeta. As tradições divergem consideravelmente quanto à sua idade e à data de sua morte: segundo uma versão, tinha cerca de 55 anos quando morreu; outra lhe atribui uma longevidade superior a cem anos e situa sua morte em 605.

Poesia

Abide é contado entre os poetas célebres da Jailia e considerado pertencente à mesma geração de Tarafa ibne Alabede. Seus poemas foram incluídos por alguns autores entre as Muallaqat, embora apenas uma parcela relativamente pequena da poesia que lhe foi atribuída tenha chegado à posteridade. Parte de sua produção teria sido perdida, enquanto outra parte pode ter sido confundida com composições de outros poetas. Segundo o levantamento de Charles James Lyall, seu corpus compreende trinta cássidas mais ou menos completas e dezessete fragmentos. Gabrieli considera o acentuado arcaísmo da estrutura e da linguagem do divã um forte argumento em favor de sua autenticidade. Os temas tratados por Abide não diferem substancialmente daqueles característicos da cássida clássica. Sua poesia caracteriza-se pela melancolia e austeridade, acompanhadas por uma dignidade orgulhosa que encontra sua expressão mais adequada no fakhr, o orgulho individual e tribal. O sentimento amoroso aparece de forma muito contida e já fortemente estilizada, e o é mais frequentemente dedicado à recordação coletiva de um acampamento abandonado do que à evocação de uma mulher específica. A reflexão sobre a fugacidade da vida aparece com acentos considerados particularmente originais por Gabrieli e deu origem à tradição que incluiu Abide entre os , personagens aos quais se atribuía excepcional longevidade. Gabrieli considera mais provável, contudo, que o poeta tenha morrido relativamente jovem, talvez antes de completar cinquenta anos. Sua poesia exprime tanto nostalgia pelo passado como orgulho de si próprio e de sua tribo e contém ainda violentas polêmicas contra Inru Alcaice e outros poetas cuja identidade é desconhecida.

Sua linguagem é considerada relativamente simples, suas comparações são frequentemente longas e expressivas e suas descrições, vívidas. Caracterizado como poeta de temperamento sensível e meticuloso, demonstrava preferência por metros breves. Sua habilidade artística manifesta-se particularmente nas descrições da natureza e dos animais. Os críticos árabes antigos destacaram sobretudo suas descrições de tempestades e da chuva, enquanto entre as passagens mais apreciadas por leitores modernos estão a descrição de uma águia perseguindo uma raposa e a de um peixe no mar. Gabrieli observa ainda que essas composições revelam uma clara consciência de sua inspiração e de sua técnica artística e situa Abide entre os mais poderosos poetas descritivos da Jailia. O divã atribuído a Abide contém ainda versos de caráter sapiencial e passagens que exprimem a crença em um único deus, apresentado como origem de todo o bem e de todo o mal. Seu Divã foi publicado por Charles James Lyall em Leida, em 1913, juntamente com o de Amir ibne Atufail, acompanhado de tradução inglesa. Posteriormente, Ḥusayn Naṣṣār preparou uma edição crítica acompanhada de comentários, publicada no Cairo em 1957 e reimpressa em Beirute em 1958 e 1964. Parte de sua poesia, incluindo trechos da composição em rima bāʾ considerada por alguns autores uma das Muallaqat, foi também traduzida para o turco e comentada por Bağdatlı Mehmed Fehmî em sua Târîh-i Edebiyyât-ı Arabiyye.

Bibliografia

Categoria:Poetas árabes do século VI Categoria:Açaditas