Anna Rosa Termacsics dos Santos, nascida em 1821, foi uma professora de canto, piano, idiomas e primeiras letras, escritora e defensora dos direitos das mulheres. Nasceu na região do antigo Império Austríaco, território atualmente correspondente à Hungria. Migrou para o Brasil em 1828, acompanhada do pai, Antônio Termacsics e de Teresa e Amália, suas irmãs. Não há registros sobre sua mãe. Publicou o livro “Emancipação Política da Mulher e o Direito de Votar” obra pioneira na discussão sobre o sufrágio feminino e a participação política de mulheres no Brasil.
Infância e juventude Anna Rosa Termacsics dos Santos migrou com sua família para o Brasil com cerca de sete anos. Sua família proporcionou acesso a uma educação de qualidadeRIBEIRO, Cristiane de Paula. A vida caseira é a sepultura dos talentos: Gênero e participação política nos escritos de Anna Rosa Termacsics dos Santos (1850-1886). 2019., seu pai valorizava o crescimento intelectual. Devido a uma crise econômica familiar estabeleceram-se inicialmente em São Paulo, diante de dificuldades financeiras, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu grande parte de sua vida e desenvolveu suas atividades profissionais e intelectuais.
Anna Rosa iniciou sua atividade docente aos 15 anos, como professora interdisciplinar: lecionou aulas de piano, costura e correlatos. Por motivos financeiros se tornou docente de línguas e boas maneiras, precisava ministrar muitas aulas para garotas de diferentes classes sociais e percorrer longas distâncias até os locais de ensino. A docência foi importante meio de subsistência para arcar sozinha com suas despesas. A inserção na docência, foi atribuída à vocação feminina, pois não ameaçava os padrões patriarcais vigentes. E, ao longo do tempo, precisou ampliar para outras áreas a fim de custear a própria subsistência, já que não era casada e vivia sozinha. Seus serviços eram divulgados em diferentes periódicos da épocaRIBEIRO, Cristiane de Paula. A discussão sobre sufrágio em circulação nas páginas femininas durante o Segundo Reinado do Império Brasileiro. Faces de Clio, Juiz de Fora, v. 4, n. 8, p. 110-128, jul./dez. 2018a. RIBEIRO, Cristiane de Paula. Cânone literário e o lugar das mulheres na literature brasileira oitocentista. História e Cultura, Franca, v. 7, n. 1, p. 30-51, 2018b. .
Morou em bairros simples, em casas para “senhoras sós”, continuou como professora de letras, línguas e música e buscou outros empregos no âmbito dos serviços como governanta. Como mulher solteira de família sem fortuna, sua condição financeira continuou sem privilégios e não teve descendentesRIBEIRO, Cristiane de Paula. Anna Rosa Termacsics dos Santos. Mulheres na Filosofia (Blog), Campinas: UNICAMP, 20 ago. 2024. Disponível em:https://www.fg2021.eventos.dype.com.br/resources/anais/8/fg2020/1611327147_ARQUIVO_ca251202a5cfb4183946aae5ee286efd.pdf.
Realizou viagens para França, Inglaterra, Chile e Argentina entre 1853 e 1858. O dinheiro para financiar essas viagens resultou do trabalho docente e da venda de móveis e objetos. Nas viagens, fez contatos e teceu relações que influenciaram sua obra e vida intelectual notando-se nas inserções de vasta comparação e aprofundamento do contexto político desses países. Bem como citações de filósofos como Stuart Mill, Platão e Condocert.
Anna Rosa utilizou da exploração de mão de obra escravizada. Em 1857 anunciou à venda de três pessoas escravizadas no Jornal do Commercio número 88 de 1857, é possível que essa venda se relacione com os custos das viagens internacionais que fez durante o período. Anos mais tarde em 1864, anunciou outra venda de pessoa escravizada. Mais tarde, em 1869, quando Anna Rosa tinha 48 anos de idade, buscou a compra de pessoas escravizadas.
Obra miniaturadaimagem|Capa do livro "Emancipação Política da Mulher e Direito de Votar" (Santos, 1868) Em 1868, aos 47 anos, assinando com o pseudônimo de A.R.T.S, Anna Rosa Termacsics dos Santos publicou o “Tratado Sobre a Emancipação Política da Mulher e Direito de Votar”. É sua única obra conhecida, nas 128 páginas reflete sobre a imposição do matrimônio, da maternidade e as desigualdades do acesso das mulheres à educação, participação política e o mercado de trabalho. O livro foi publicado pela Tipografia Paula Brito de propriedade do renomado editor Francisco de Paula Brito (1809-1861) quem já havia falecido, de modo que a responsável pela edição da obra foi Rufina Rodrigues da Costa, sua viúva. O livro foi republicado em 2022, após 154 anos da primeira edição, na Coleção Vozes Femininas, da Câmara dos Deputados, a partir da pesquisa da historiadora Cristiane de Paula Ribeiro.
A obra baseada na legislação, critica a desigualdade social e defende os direitos das mulheres. Para além do direito ao voto, a obra aborda temas como direito a serem votadas, a ocupar cargos governamentais e à salário justoMOREIRA-FERREIRA VASCONCELOS, Bruna Maria. Autoras brasileiras oitocentistas: contribuições do primeiro quarto do século XIX para o pensamento latino-americano. Informe de pesquisa de iniciação cientifica. Brasília: PROIC UnB. 2026. CUNHA, Karolina Dias da. As mulheres brasileiras no século XIX. In: ENCONTRO NACIONAL DO GT–GÊNERO/ANPUH, 1., 2014, Vitória, ES. Anais eletrônicos... Acesso em: 14 nov. 2025. https://legpv.ufes.br/sites/legpv.ufes.br/files/field/anexo/karolina_dias_da_cunha.pdf É pertinente destacar a agudeza de sua escrita em frases como “não queremos menosprezar outros métodos de defender a mulher, mas o direito de votar é na minha opinião a pedra angular da empresa desde que não só procuramos proteger a mulher, mas antes pô-la em uma posição do se proteger ela mesma”.
Para Anna Rosa, é contraditório que a civilização conceda a mãe ser “tutora de seus filhos”, mas a mantenha “impossibilitada de votar” pois é mediante essa inserção a política que poderá defender os direitos e “proteger a si e seus filhos”SANTOS, Anna Rosa Termacsics dos. Tratado sobre a emancipação política da mulher e o direito de votar: 1868. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2022. P. 13-14 Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/b8101b42-71ac-45e3-ae04-920d3a07c243. Acesso em: 14 de outubro de 2025. . Assim fortalece seu argumento da inseparabilidade da maternidade e dos direitos políticos das mulheres, votar e serem votadas. Anna Rosa equipara a casa com a nação e com o Estado para defender a capacidade das mulheres de governarem: “[...] não há casa tão mal-governada como as Nações. [...] A família sem a presença da mulher, sem a mãe, sem a irmã, é uma triste coisa. Um estado sem a ação da mulher, é como uma casa sem ela”SANTOS, Anna Rosa Termacsics dos. Tratado sobre a emancipação política da mulher e o direito de votar: 1868. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2022. p. 43 Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/b8101b42-71ac-45e3-ae04-920d3a07c243 Acesso em: 14 de outubro de 2025. .
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