Abu Albaracate Abederramão ibne Maomé Alambari (), conhecido pelo título de Camaladim (; Ambar, – Baguedade, ), foi um gramático, filólogo, teólogo e jurista árabe. Formado na Nizamia de Baguedade, onde estudou diversas disciplinas religiosas e linguísticas, destacou-se particularmente nos estudos da língua árabe e vinculou-se à escola gramatical de Baçorá. Posteriormente, tornou-se professor da própria Nizamia e formou numerosos discípulos.

Autor prolífico, Alambari produziu obras de gramática, léxico, literatura, teologia, história e jurisprudência. Entre seus trabalhos mais importantes encontram-se o al-Inṣāf fī masāʾil al-khilāf bayna al-naḥwiyyīn al-Baṣriyyīn wa-l-Kūfiyyīn, dedicado às divergências entre as escolas gramaticais de Baçorá e Cufa, o Nuzhat al-alibbāʾ fī ṭabaqāt al-udabāʾ, história biográfica dos estudiosos da língua e literatura árabes, e o manual gramatical Asrār al-ʿArabiyya. Sua produção compreendeu ainda numerosos trabalhos lexicográficos e literários e escritos sobre jurisprudência e história.

Alambari dedicou também parte de sua obra à teologia e à defesa das crenças islâmicas, recorrendo ao calâm na discussão da existência e unidade de Deus, da profecia e de doutrinas religiosas e filosóficas que procurava refutar. Embora tenha recebido formação teológica por meio de fontes axaritas, sua filiação doutrinal definitiva é incerta, pois também declarou sua preferência pela crença dos . Em seus últimos anos, retirou-se da vida pública em Baguedade e passou a dedicar-se ao culto religioso e à composição de suas obras.

Vida e formação

Abu Albaracate Abederramão ibne Maomé Alambari, conhecido pelo título de Camaladim, nasceu em Ambar em Rabi II de 513 A.H. (julho de 1119). Também conhecido simplesmente como Ibne Alambari, iniciou seus estudos em sua cidade natal com Califa ibne Mafuz ibne Ali Almuadibe e recebeu posteriormente ensinamentos de seu pai e de seu tio materno . Ainda jovem, mudou-se com a família para Baguedade, onde ingressou na Nizamia de Baguedade. Na Nizamia, estudou jurisprudência xafeíta com , gramática com , léxico e literatura com e ciências corânicas com , com quem também estudou o comentário de ao Kitāb de Sibauai. Além desses mestres, recebeu formação em jurisprudência e hádice com outros estudiosos de sua época. A diversidade de sua formação estendeu seus conhecimentos para além da filologia e da gramática, abrangendo jurisprudência, teologia, hádice, história, divergências jurídicas, história das religiões e das seitas.

Posteriormente, Ibne Alambari foi nomeado professor da própria Nizamia de Baguedade. Formou numerosos discípulos, entre os quais se encontravam , e . Brockelmann também destaca sua formação filológica na Nizamia sob Aljaualiqui e Ibne Axajari e sua posterior atuação como professor da mesma madraça. Ibne Alambari permaneceu em Baguedade pelo restante da vida. Em seus últimos anos, retirou-se para sua casa e passou a dedicar-se ao culto religioso e à composição de suas obras. Vivia dos rendimentos de uma casa que herdara do pai e recusava presentes e benefícios, inclusive os oferecidos pelo califa. As fontes o caracterizam por sua austeridade, piedade e integridade. Morreu em Baguedade em 9 de Xabã de 577 A.H. (18 de dezembro de 1181). Brockelmann igualmente registra seu afastamento da vida pública para dedicar-se aos estudos e às práticas religiosas, embora converta a data de sua morte em 19 de dezembro de 1181.

Obras

Alambari foi um autor prolífico. As fontes lhe atribuem cerca de noventa obras, das quais se conhece a preservação de apenas 22. Aproximadamente sessenta dos títulos registrados dizem respeito à gramática, nove ao léxico, sete à literatura, cinco à teologia, quatro à história e quatro à jurisprudência. Entre suas obras mais importantes está o al-Inṣāf fī masāʾil al-khilāf bayna al-naḥwiyyīn al-Baṣriyyīn wa-l-Kūfiyyīn, dedicado às questões gramaticais que suscitaram divergências entre as escolas de Baçorá e Cufa. Kılıç o caracteriza como o mais pormenorizado dos trabalhos escritos sobre essas controvérsias e aquele que reúne o maior número de questões científicas. Alambari, que se vinculava à escola de Baçorá, considerou correta a posição dos baçoritas em quase todas as questões examinadas, divergindo deles em apenas sete casos. A obra foi publicada parcialmente por diferentes orientalistas no , e sua primeira edição integral foi preparada por Gustav Weil, com notas em alemão, em Leida em 1913. Posteriormente, Muḥammad Muḥyī al-Dīn ʿAbd al-Ḥamīd publicou-a em dois volumes e produziu sobre ela o comentário al-Intiṣāf min al-Inṣāf. Brockelmann também considera o al-Inṣāf a grande coleção de Alambari sobre as divergências entre as escolas de Cufa e Baçorá.

Outro de seus principais trabalhos é o Nuzhat al-alibbāʾ fī ṭabaqāt al-udabāʾ, história biográfica dos estudiosos da língua e literatura árabes desde o início dos estudos linguísticos até a época do próprio autor. A obra contém biografias de 180 estudiosos e dedica maior atenção e espaço aos representantes da escola de Baçorá, à qual Alambari pertencia. Além das biografias, aborda ocasionalmente controvérsias entre as escolas gramaticais de Baçorá e Cufa, relações dos estudiosos com governantes, aspectos de suas personalidades religiosas e morais e problemas de gramática, retórica e leituras corânicas. Para os estudiosos contemporâneos do autor, constitui também uma fonte de primeira mão, e posteriormente esteve entre as fontes utilizadas por Iacute Alhamaui no Muʿjam al-udabāʾ. Brockelmann igualmente descreve o Nuzhat al-alibbāʾ como uma história biográfica da filologia desde seus primórdios até a época de Alambari. No campo gramatical, escreveu ainda o Asrār al-ʿArabiyya, manual de gramática igualmente registrado por Brockelmann, e numerosas outras obras, entre elas Ishtiqāq al-fiʿl min al-maṣdar, al-Uṣūl fī ʿilm al-ʿArabiyya, al-Ḥaḍḍ ʿalā taʿlīm al-ʿArabiyya, Ḥilyat al-ʿArabiyya, Ḥawāshī al-Īḍāḥ, ʿUqūd al-iʿrāb, Ḥilyat al-ṭirāz fī ḥall al-alghāz, Masʾalat dukhūl al-sharṭ ʿalā al-sharṭ, al-Muʿtabar fī al-farq bayna al-waṣf wa-l-khabar e Mīzān al-ʿArabiyya. Entre seus trabalhos de morfologia encontram-se o al-Kalām ʿalā ʿIṣiy wa-maghzūw e o al-Wajīz fī ʿilm al-taṣrīf, ambos preservados em manuscrito.

Sua produção lexicográfica compreendia obras como Faʿaltu wa-afʿaltu, Dīwān al-lugha, Tafsīr gharīb al-Maqāmāt al-Ḥarīriyya, al-Bulgha fī asālīb al-lugha, al-Aḍdād, al-Alfāẓ al-jāriya ʿalā lisān al-jāriya, Qabsat al-adīb fī asmāʾ al-dhiʾb e Hidāyat al-dhāhib fī maʿrifat al-madhāhib. Brockelmann registra ainda que um dicionário denominado al-Zāhir é atribuído a Alambari por Abede Alcadir Albaguedadi. Na literatura, são mencionados al-Bulgha fī naqd al-shiʿr, um comentário à Ḥamāsa, comentários aos divãs de poetas, Qabsat al-ṭālib fī sharḥ khuṭbat Adab al-kātib, Lubāb al-adab, Maghānī al-maghānī e Basṭ al-maqbūḍ fī ʿilm al-ʿarūḍ. No campo histórico, escreveu Akhbār al-nuḥāt e Tārīkh al-Anbār. Alambari escreveu também sobre jurisprudência, entre outros trabalhos o al-Tanqīḥ fī masāʾil al-tarjīḥ bayna al-Shāfiʿī wa-Abī Ḥanīfa, dedicado à comparação de questões jurídicas relacionadas a Axafii e Abu Hanifa, e o al-Lubāb al-mukhtaṣar. Uma parcela importante de sua produção pertence ainda à teologia, destacando-se o Kitāb al-Dāʿī ilā al-Islām fī uṣūl ʿilm al-kalām, escrito para refutar religiões, seitas e correntes consideradas contrárias ao Islã. A obra é dividida em dez partes e trata, entre outros assuntos, da criação temporal do mundo, da existência de Deus, do dualismo, das doutrinas naturalistas, da astrologia, do zoroastrismo, da negação da profecia, do judaísmo e do cristianismo, encerrando-se com uma defesa da profecia de Maomé. Ao expor as doutrinas que pretendia refutar, Alambari procurava inicialmente apresentá-las por meio da terminologia de seus próprios adeptos antes de formular suas objeções.

Entre seus demais escritos teológicos figuram al-Asnā fī sharḥ asmāʾ Allāh al-ḥusnā, al-Ikhtiṣār fī al-kalām ʿalā alfāẓ tadūru bayna al-nuẓẓār, al-Tafrīd fī kalimat al-tawḥīd, al-Nūr al-lāʾiḥ fī iʿtiqād al-salaf al-ṣāliḥ e Uṣūl al-fuṣūl fī al-taṣawwuf. Nem todas as obras transmitidas sob seu nome, contudo, lhe pertencem. O al-Jawhara fī nasab al-nabī wa-aṣḥāb al-ʿashara, atribuído a Alambari nos catálogos da , é obra de ; do mesmo modo, o trabalho publicado por Nuʿmān al-Ālūsī como Kitāb Alfāẓ al-ashbāh wa-l-naẓāʾir e atribuído a Alambari corresponde ao al-Alfāẓ al-kitābiyya, de .

Pensamento teológico

Além de seus trabalhos de língua e literatura árabes, Alambari escreveu obras destinadas à defesa das crenças islâmicas contra concepções materialistas e contra doutrinas religiosas como o dualismo, o zoroastrismo, o bramanismo, o judaísmo e o cristianismo. Entre seus principais escritos nesse campo figuram o Kitāb al-Dāʿī ilā al-Islām fī uṣūl ʿilm al-kalām, o al-Nūr al-lāʾiḥ fī iʿtiqād al-salaf al-ṣāliḥ e o al-Asnā fī sharḥ asmāʾ Allāh al-ḥusnā. Alambari estudou calâm na Nizamia de Baguedade por meio de fontes axaritas e empregou o método do calâm no Kitāb al-Dāʿī ilā al-Islām. No final dessa obra, contudo, declarou que a crença mais correta a ser adotada era a dos e afirmou tê-la exposto no al-Nūr al-lāʾiḥ. Yavuz considera essa declaração um possível indício de sua inclinação à doutrina dos salafes, mas ressalva que o al-Nūr al-lāʾiḥ não chegou à atualidade e que a expressão utilizada por Alambari também poderia designar de maneira mais ampla a doutrina sunita. Por isso, não considera possível determinar com segurança sua filiação teológica. As concepções conhecidas por meio do Kitāb al-Dāʿī, entretanto, apresentam-se em linhas gerais de acordo com as posições do sunismo.

Para Alambari, todo ser humano dotado de razão sã reconhece por uma necessidade inata a existência de Deus. Como quase todos os pensadores, à exceção dos materialistas, reconheciam um criador supremo do universo, os profetas teriam convocado os homens sobretudo ao reconhecimento da unidade divina, e não propriamente à descoberta de sua existência. Alambari também expôs argumentos fundamentados na criação temporal do universo e respondeu às objeções dos materialistas, rejeitando a tese de que somente aquilo que pode ser percebido pelos sentidos pode ser considerado existente. Para ele, o conhecimento da existência de algo pode ser alcançado não apenas pelos sentidos, mas também pela razão. Na defesa da unidade divina, rejeitou tanto o dualismo atribuído aos zoroastristas quanto a concepção cristã da divindade composta de três elementos, recorrendo ao argumento da impossibilidade da coexistência de múltiplas vontades divinas independentes. Admitia ainda a interpretação não literal de determinadas passagens corânicas relativas a Deus. Assim, a afirmação de que Deus está com os seres humanos onde quer que estejam era entendida por ele como referência ao conhecimento que Deus possui deles e de suas ações.