A Igreja de São Lourenço de Carnide é uma Igreja localizada na Estrada da Pontinha, em Lisboa. Encontra-se junto ao Centro Paroquial de Carnide.

O lugar de Carnide, que faz parte agora da capital portuguesa, é muito antigo; existia, já povoado e cultivado, no meado do século XIII.

História

Origens Após a conquista da cidade aos mouros, a povoação de Carnide detinha já um núcleo habitacional relevante, reordenado administrativa e religiosamente por volta de 1279. Os registos fidedignos mais recuados datam de 25 de Março de 1321, no âmbito da recolha da décima de apoio às cruzadas, mas vários historiadores parecem apontar a construção para duas décadas mais tarde, em 1342.

Provavelmente, esse ano marca, na verdade, a primeira grande reedificação promovida pelo Bispo D. João Afonso de Brito, que ao mesmo tempo elevou o templo a sede paroquial, tornando-o um ponto central da comunidade. A confusão cronológica é ampliada por uma epígrafe colocada após o sismo setecentista que dita:era de 1380 14 de Maio o Bispo Dõ João mandou edificar esta igreja por P.º Sanches Chãtre de LX.ª A hõra de sã LC.º e deu a João Dõr seu capelam aos 24 dias de Iulho da dita era ao qual Deus perdoa AmenO mosteiro de S. Vicente possuía aqui uma vinha e uma herdade, como se lê nas inquirições do reinado de D. Afonso III. Por esse documento, importante para a história de Lisboa e seus termos, se vê que em tão remota época já nestes lugares de Carnide, Charneca, Queluz, Falagueira, Odivelas, Palma e Telheiras havia culturas, vinhas e povoados que contribuíam para o rei, para as ordens militares, e para os grandes mosteiros.

A igreja paroquial era inicialmente dedicada a Nossa Senhora da Assunção, mudando ainda para Santo Amaro antes de se fixar no orago actual, São Lourenço.

Os magistrados régios tributaram o bispado lisboeta, documentando que o edifício, inserido no termo de Tomar e nos bens da Ordem de Cristo, foi taxado em conjunto com a sua ermida em 50 libras, registando-se ainda uma ração de 40 libras. Nesta época inicial, a vizinha ermida do Espírito Santo estava sob a sua alçada tutelar.

O templo primitivo ostentava traços românicos, sobrevivendo elementos da fundação como uma pia de água benta, vestígios de um capitel decorado com figuras grotescas e peças tumulares epigráficas.

O prior José Baptista Pereira, nos finais do século XIX, teorizou que o prelado detinha uma residência de Verão na actual Rua do Machado, o que justificaria o investimento na reconstrução do espaço religioso local para serventia própria e da população.

A igreja e a zona envolvente serviu também de necrópole. O estrato social ditava o local exacto de inumação. A sacristia operava como sepultura clericorum, acolhendo apenas padres desde Diogo Monteiro, sepultado a 10 de Outubro de 1648, até Frei João de Santa Joana, em 11 de Fevereiro de 1853.

A capela-mor e o corpo da nave serviam as elites e a fidalguia que "podiam pagar à fábrica da igreja suas sepulturas", ficando o adro exterior reservado aos menos abastados. Esta prática hierárquica vigorou até Maio de 1869, data em que os restos mortais começaram a transitar para o novo cemitério público de Benfica e de Carnide.

Terramoto e campanha oitocentista O edifício conheceu reformulações profundas no século XVI (com registos numa verga datados de Fevereiro de 1592) e em 1730, recebendo vastos painéis de azulejos ilustrativos da vida do orago, saídos da oficina de Policarpo de Oliveira Bernardes. Todavia, o terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou a ruína total da nave, salvando-se apenas a capela-mor.

A reconstrução operou-se com pedras cedidas pelos priores e auxílio popular, resultando numa feição final que se "livrou de ruína [...] e com ajuda do povo se reedificou de sorte que hoje se acha em melhor estado porque lhe fizeram uma boa Casa de Despacho que não tinha e uma boa torre de cantaria em que puseram os sinos". Diversas pedras tumulares medievais foram reaproveitadas na escadaria de acesso ao púlpito.

Nas memórias paroquiais redigidas a 21 de Abril de 1758, o cura Manuel José Nunes Tavares descreve o valioso espólio de então:Tem a Capella Mor Com boa tribuna em q[ue] se vê u[m] ademiravel paynel do famoso Bento Coelho q[ue] com toda aprefeyçaõ da arte immitou ao natural o Misterioso Cenaculo […] Nesse Altar mor esta da parte direita u[m]a bella imagem de Nossa Senhora da Purificação, e da parte esquerda outra do glorioso Mártir, q[ue] da a freguesia o nome. […] Tem essa Igreja Mais quatro Capellas, duas por cada banda, sendo a da parte direyta de Nossa Senhora do Rosario, com Irmandade da mesma Senhora e a do Santo Christo […] e as da outra parte a das Almas com zeloza irmandade […] a outra capella é de Jesus Maria Jose Imagens belíssimas.As empreitadas de consolidação ficaram concluídas apenas em 1808, com o arranjo do adro e a fixação de um cruzeiro. A administração do templo pertencia aos priores do Convento de Nossa Senhora da Luz, sendo o respectivo cura anual remunerado com 15$000 réis de côngrua e o pé-de-altar, coadjuvado ainda por cinco capelães quotidianos.

O terreiro onde se implanta a igreja serviu até à segunda metade do século XIX como cemitério, sendo este extinto em 1869. Várias ossadas e lápides acabaram assim transferidas para o cemitério de Benfica.

Declínio no século XIX A crescente devoção real e popular em torno da vizinha Igreja da Luz acabou por ofuscar o prestígio de São Lourenço ao longo dos anos. Em 12 de Março de 1822, propunha-se activamente nas Cortes a transferência definitiva das funções paroquiais, argumentando-se que "no estado de ruína e indecência, em que se acha a igreja paroquial, seria economia, providente, e decoroso para a decência do culto divino, e comodidade dos povos, passar a paróquia para a igreja da Luz".

A continuada degradação física forçou encerramentos pontuais. Entre Fevereiro de 1833 e Setembro de 1834, as cerimónias decorreram na ermida do Espírito Santo, "pois desde de 10 de fevereiro de 1833, em que casou, na Ermida, Manuel Gregório Tavares, até setembro do ano seguinte todos os atos de casamentos foram ali praticados". Mais tarde, o Ministério das Obras Públicas interveio em 1897 para tentar reparar o edifício que jazia fechado há já oito anos. Um fresco de Bento Coelho da Silveira sofreu danos irreversíveis por outro pintor durante um restauro prévio ocorrido em 1860.

A I República e a laicização da igreja Com o advento da República em 1910, exacerbou-se o processo de laicização. O último baptizado decorreu em 1913, oficializando a dessacralização do sítio. A Câmara Municipal de Lisboa planeou instalar no recinto duas escolas primárias (as escolas 45 e 46). O valor do património foi fixado em 4703 escudos para uma área total murada de 3869 metros quadrados, prevendo-se 9100 escudos de orçamento para adaptar as infraestruturas em 1916.

O Conselho de Arte e Arqueologia exigiu então a remoção imediata dos azulejos setecentistas que relatavam o percurso de vida de São Lourenço para esbater a carga eclesiástica, terminando este acervo disperso por depósitos, pelo Jardim das Amoreiras, Palácio Galveias, Alfama e Rua da Judiaria.

O processo de expropriação atrasou-se devido à Primeira Guerra Mundial e aos veementes protestos públicos do capitão António Bivar de Sousa, sendo a escritura autárquica selada apenas a 8de Dezembro de 1922.

Da Ditadura Militar à actualidade As tentativas legislativas de Bivar de Sousa para anular a expropriação durante a Ditadura Militar redundaram em fracasso. Transferido para o Ministério da Instrução Pública em 1927, o projecto educativo acabou por ser descartado no ano seguinte, ficando a antiga igreja abandonada até a sua venda em hasta pública.

O Estado Novo cedeu o local em 1937 à Junta de Freguesia para funções logísticas, existindo ainda registo de um excêntrico projecto em 1952 para converter a nave numa sala de cinema dotada de 270 lugares de plateia e 110 de balcão.

Foi preciso aguardar por Maio de 1945 para que a posse regressasse formalmente à jurisdição paroquial. Alojando episodicamente rapazes da escola da Educação Popular em 1951 e um agrupamento de escuteiros em 1957, o templo foi sujeito às suas mais rigorosas obras de conservação pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais a partir de 1987.

A profunda intervenção, dirigida pelo arquitecto Paulo Duarte de Melo Gouveia, revelou frescos ocultos e um ossário central, viabilizando por fim a sua reabertura ao culto em 1990. Em 1993, a ousia foi enriquecida com um novo retábulo assinado por Margarida Cepêda, elaborando-se em Novembro de 1998 a respectiva carta de risco. O monumento integra actualmente o Centro Paroquial de Carnide, que se dedica ao apoio à terceira idade e à comunidade.

Descrição

Exterior A igreja, de cariz barroco e pombalino, situa-se no meio de um amplo terreiro murado, orlado de oliveiras e com larga vista para os campos e colinas. A planta do edifício resulta da justaposição de dois rectângulos, respeitantes à capela-mor e ao corpo da nave.

Fachada principal Voltado para nascente, o alçado principal divide-se em dois corpos estruturais, apartados através de uma pilastra calcária e cingidos nos extremos laterais por cunhais de cantaria.

O pano central remata num frontão em empena triangular encimada por uma cruz. Ao centro rasga-se o portal de ingresso, provido de um emolduramento em pedra calcária, cujo topo exibe fogaréus e um frontão curvo. Esculpido neste frontão, pode-se observar um relevo com uma palma e uma grelha, insígnias do martírio de São Lourenço. Imediatamente por cima da entrada principal abre-se um janelão desenhado com verga curva.

Justaposta a este alçado, está uma pedra de armas onde "se vê uma bota alta sobre uma nuvem e encimada por uma estrela de seis pontas". Não deve, porém, estar relacionada com a nobreza local.

Fachada lateral esquerda O segundo corpo da frontaria, voltado a Norte, integra a torre sineira de base quadrangular, equipada com ventanas de arco de volta perfeita e finalizada por uma cobertura de perfil bolboso. Foi aqui adossada a Casa do Despacho após o sismo de 1755.

Adro No espaço do adro adjacente, sobrevivem fragmentos arqueológicos do primitivo recinto sepulcral da povoação. Repousam no local diversas estelas funerárias, lajes e cabeceiras de sepultura que remontam aos séculos XV e XVI.

Praticamente todas as campas e ossadas foram removidas para o cemitério dos Arneiros, em Benfica, restando somente uma grande pedra, com inscrição latina, que era o túmulo de José João de Pinna de Soveral e Barbuda, falecido em 1710.

Sobressaem dois exemplares de cabeceiras ornadas com uma cruz pátea nas suas faces primárias, a par de pedaços de campas rasas gravadas com caracteres de origem gótica.

Na zona posterior do templo, defronte da entrada do perímetro, ergue-se um cruzeiro construído em cantaria, delineado por um fuste delgado e liso que suporta uma cruz latina. Este pilar assenta sobre um pedestal de formato quadrangular onde se lê a inscrição "ANNO DE MDCCCVIII".

Interior miniaturadaimagem|Interior da igreja O espaço interior organiza-se em nave única e abside rectangular, ambas abrigadas sob tectos forrados a madeira e telhados de duas águas. As profundas campanhas de consolidação revelaram a existência de um ossário sob o pavimento e permitiram a descoberta de frescos preservados nas paredes laterais do templo.

Ao nível da ornamentação e do património móvel e integrado histórico, o altar-mor abrigava o quadro A Ceia, pintado por Bento Coelho da Silveira, dispondo ainda de duas mísulas laterais onde assentavam as esculturas de Nossa Senhora dos Prazeres, no lado do evangelho, e do orago padroeiro, no lado oposto. Actualmente, o retábulo-mor acolhe uma obra pictórica contemporânea, executada por Margarida Cepêda em 1993.

Existem ainda, na capela-mor, algumas campas com letreiros no chão da e duas pias de água benta escavadas em capitéis trecentistas.