Maria de Jesus Simões Barroso Soares (Fuseta, Olhão, 2 de maio de 1925 ― São Domingos de Benfica, Lisboa, 7 de julho de 2015) foi uma atriz, professora e ativista política e social portuguesa, tendo sido uma das fundadoras do Partido Socialista (PS), na Alemanha, em 1973. Como esposa do 17.º presidente de Portugal, Mário Soares, foi primeira-dama do seu país entre 1986 e 1996.
Família Filha de Alfredo José Barroso (Alvor, Portimão, 15 de abril de 1887 — Campo Grande, Lisboa, 14 de janeiro de 1970), oficial do Exército, e de sua mulher Maria da Encarnação Simões (Sé Nova, Coimbra, 3 de janeiro de 1890 — Campo Grande, Lisboa, 26 de abril de 1970), casados em Alvor em 1912. Neta paterna de José Barroso de Sousa e de sua mulher Maria de Jesus Barroso, também naturais de Montes de Alvor, e neta materna de Manuel Maria dos Santos e de sua mulher Maria da Rainha Santa, naturais de Coimbra.
Era tia paterna do jornalista e político Alfredo Barroso e tia materna do cineasta Mário Barroso, do médico cirurgião Eduardo Barroso e da bailarina Graça Barroso.
Biografia De uma família numerosa — foi a quinta de sete irmãos — Maria de Jesus Barroso acompanhou na infância as mudanças da família, da Fuseta para Setúbal e, em seguida, de Setúbal para Lisboa. O pai, opositor à ditadura, esteve preso na Penitenciária de Lisboa e foi deportado para os Açores, onde foi encarcerado no Forte de Angra do Heroísmo. Depois da instrução primária, que fez em Setúbal e em Lisboa, frequentou os liceus D. Filipa de Lencastre e Pedro Nunes.
Na adolescência interessa-se pelo teatro e pela arte de dizer poesia, o que a levará a frequentar o Curso de Arte Dramática da Escola de Teatro do Conservatório Nacional. Terminou esse curso em 1943, com a classificação mais elevada do seu ano. Foi encenadora e professora de Arte de Dizer no Colégio Moderno, em substituição de Manuel Lereno. Em 1944, estreia-se no teatro profissional na peça Sua Excelência, o Ladrão, da Companhia Brunilde Júdice-Alves da Costa, levada à cena no Teatro Gymnasio. Por intermédio do ator Assis Pacheco entra na prestigiada companhia de teatro Rey Colaço-Robles Monteiro, sediada no Teatro Nacional , em substituição de Maria Lalande, onde se estreia também em 1944, na peça Auto da pastora perdida e da velha gaiteira, de Santiago Prezado. No Teatro Nacional, integrou o elenco de Aparências, de Jacinto Benavente, encenada por Palmira Bastos, e teve uma interpretação destacada em Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, em 1947. Em 1948, após representar em Coimbra A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, é impedida de continuar naquela companhia por interferência da PIDE. Participou nas campanhas presidenciais de José Norton de Matos (1949) e Humberto Delgado (1958).
Ao mesmo tempo que fazia carreira como atriz, Maria Barroso prosseguiu os estudos na Faculdade de Letras, onde viria a completar uma licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, em 1951, com a tese Valentim Fernandes e a sua obra. Foi na faculdade que conheceu Mário Soares, com o qual viria a casar a 22 de fevereiro de 1949, por procuração (mas com registo na 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa). Soares estava então preso por motivos políticos e foi representado no casamento por Rogério de Araújo. Foram padrinhos de casamento Joaquim Barradas de Carvalho e Ruth Arons, em casa de quem Mário Soares se refugiou pouco antes de ser preso pela PIDE em 15 de fevereiro de 1949, e também o escritor Manuel Mendes, que se encontrava igualmente preso, e a sua esposa Berta Júlia das Neves Mendes. Com Mário Soares teve dois filhos, João, que seguiu a carreira política; e Isabel, psicóloga e professora do Colégio Moderno, onde sucedeu a sua mãe como diretora.
Depois de ser impedida de trabalhar no teatro, Maria Barroso seria também proibida pelo governo de ser professora. Candidata ao estágio para o ingresso na docência, não foi admitida na escola pública, optando então por realizar o estágio no Colégio Moderno, dirigido pelo seu sogro, João Soares. Em 1959, porém, ser-lhe-ia rejeitada pelo Ministério da Educação Nacional o pedido de licença para o exercício da docência no ensino particular. Acaba por assumir a gerência do colégio familiar e só depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 assumiria, legalmente, a função de diretora do Colégio Moderno.Visão
Voltará à representação, em Antígona (1965), de Sófocles, no Teatro Villaret, e no cinema, com o surgimento da vaga do Cinema Novo Português, participando no filme de Paulo Rocha, Mudar de Vida, em que interpretou Júlia, uma mulher do mar. Em 1966, no Clube de Viseu, esteve prestes a interpretar o monólogo A Voz Humana, de Jean Cocteau, tendo a peça sido proibida pelo regime, pelo que Maria Barroso deixou de fazer teatro. Já na década de 1970 e década de 1980 participou em filmes de Manoel de Oliveira (1985 - Le Soulier de Satin, 1979 - Amor de Perdição, 1975 - Benilde ou a Virgem Mãe).
thumb|left|Mário Soares e Maria Barroso em 1974 Em 1968, acompanha o marido quando este é deportado para São Tomé, onde é de novo impedida de dar aulas, também a nível particular. Depois, já na década de 1970, quando o governo de Marcello Caetano permite a Soares o exílio em Paris, Maria Barroso volta a Portugal, continuando a assegurar a gestão do colégio familiar.
Em 1969, foi candidata a deputada pela Comissão Democrática Eleitoral (CDE) no círculo de Santarém. Em 1973 participou no III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, sendo a única mulher a intervir na sessão de abertura.
thumb|right|Mário Soares e Maria Barroso no funeral do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1989 Em 1973, foi a única mulher presente no congresso fundador do Partido Socialista, em Bad Münstereifel, na Alemanha. Nessa ocasião, foi uma das sete pessoas a votar contra a transformação da Acção Socialista Portuguesa em partido, contra a posição de Mário Soares.
Depois do 25 de abril de 1974, Mário Soares e Maria Barroso regressaram a Portugal no "comboio da liberdade". Maria Barroso foi eleita deputada à Assembleia da República, sucessivamente, pelos círculos de Santarém, Porto e Faro, nas legislaturas iniciadas em 1976, 1979, 1980 e 1983. Em 1976, foi eleita deputada à Assembleia Municipal de Sintra. Em 1977, foi eleita vice-presidente da Comissão de Educação da Assembleia da República.
Em 1986 Mário Soares é eleito Presidente da República e Maria Barroso assume o papel de primeira-dama de Portugal . Nessa qualidade a sua intervenção dirigiu-se à defesa do sentido da família e no combate à exclusão social e a todas as formas de violência, participando em diversas iniciativas quer em Portugal quer noutros países de língua oficial portuguesa. Em 1990 criou o movimento Emergência Moçambique, outorgando, no ano seguinte, a escritura da Associação para o Estudo e Prevenção da Violência. Em 1995 presidiu à abertura do ciclo de realizações do Ano Internacional de Luta contra o racismo, a xenofobia, o antissemitismo e a exclusão social.Universidade de Aveiro
Depois de deixar o Palácio de Belém, em 1997, assumiu a presidência da Cruz Vermelha Portuguesa, cargo que exerceu até 2003. Foi ainda sócia-fundadora e presidente do Conselho de Administração da Fundação Pro Dignitate, desde 1994 até ao seu falecimento, e ainda da Fundação Aristides de Sousa Mendes.
Foi distinguida com o doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lesley Past Honorary Degree Recipients Lesley University. lesley.edu. Recuperado em 7 de julho 2015 (3 de maio de 1994), pela Universidade de Aveiro (16 de dezembro de 1996), pela Universidade de Lisboa (3 de novembro de 1999) e pela Universidade Lusófona (18 de maio de 2012). Foi professora honorária da Sociedade de Estudos Internacionais de Madrid. Recebeu também a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade a 7 de março de 1997.
Maria Barroso faleceu aos 90 anos de idade, no dia 7 de julho de 2015, às 5h20m, no Hospital da Cruz Vermelha, freguesia de São Domingos de Benfica, em Lisboa, onde estava internada, em estado grave, desde 25 de junho de 2015, devido a uma queda que a deixou em estado de coma irreversível. Foi-lhe diagnosticado um derrame intracraniano e entrou em coma no mesmo dia. O funeral realizou-se dia 8 na Igreja dos Santos Reis Magos, no Campo Grande. Foi sepultada no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, em jazigo de família.
Maria Barroso abraçou a fé católica e era politicamente republicana.
Condecorações Grã-Cruz da Ordem da Bandeira da Hungria (25 de novembro de 1982) Grande-Oficial da Ordem da Fénix da Grécia (17 de maio de 1983) Grã-Cruz da Ordem Real da Estrela Polar da Suécia (28 de janeiro de 1987) 1.ª Classe da Ordem de Francisco de Miranda da Venezuela (18 de novembro de 1987) Cruz de Dama da Real e Distinguida Ordem Espanhola de Carlos III de Espanha (30 de março de 1988) Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco do Brasil (25 de julho de 1989) Grande-Colar da Ordem Nacional do Zaire (4 de dezembro de 1989) Grã-Cruz da Ordem Naciuonal do Mérito de França (7 de maio de 1990) Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito da Colômbia (8 de janeiro de 1991) Grã-Cruz de 1.ª Classe da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha (9 de janeiro de 1991) Grã-Cruz da Ordem do Mérito Civil e Militar de Adolfo de Nassau do Luxemburgo (9 de janeiro de 1991) Grã-Cruz da Ordem da Rosa Branca da Finlândia (8 de março de 1991) Grã-Cruz da Ordem do Dannebrog da Dinamarca (3 de agosto de 1992) Medalha de Ouro da Ordem da Rosa da Bulgária (26 de outubro de 1994) Grã-Cruz da Ordem de Ouissam Alaoui de Marrocos (20 de fevereiro de 1995) Grã-Cruz da Ordem da Liberdade de Portugal (7 de março de 1997) Grã-Cruz Honorária da Ordem Real de Santa Isabel de Portugal (3 de julho de 2002) Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública de Portugal (3 de junho de 2025, a título póstumo)
Publicações da autoria de Maria Barroso
Prefácio a "O mundo começa aqui", de Inês Fonseca (Chiado, 2016) Livro "A violência na comunicação social" (Novembro, 2015) Apresentação em "Era uma vez...", de Ana Paula Figueira (Calendário de Letras, 2015) Apresentação em "Será que amanhã ainda me amas?", de Ana Paula Figueira (Coisas de Ler, 2024) Livro "Cartas a Mário Soares: (1961-1974)", livro organizado por Maria Barroso e Vladimiro Nunes (Sol, 2012) Prefácio a "A voz dos avós: migração, memória e património cultural", de Natália Ramos, Manuela Marujo e Aida Baptista (Fundação Pro Dignitate, 2012) Prefácio a "Uma viagem pela história do cristianismo", de Florbela Nunes (s.n., 2012) Prefácio a "Proteja o seu filho do bullying", de Allan L. Beane (Porto, 2011) Prefácio a "Segredos do império da ilusitânia: a censura na Metrópole e em Angola", de José Filipe Pinto (Almedina, 2011) Texto em "As Mulheres que Marcaram a Minha Vida", de Carlos Castro (Livros d'Hoje, 2010) Prefácio a "Muros que separam: detenção de requerentes de asilo e migrantes irregulares na UE", de Nuno da Silva Gonçalves et al. (Paulinas, 2010) Prefácio a "Por que fui adoptado?", de Rosa Varela (Chiado, 2010) Livro "A viagem a Moçambique" (Fundação Pro Dignitate, 2009) Prefácio a "Etreins la vie", de Eduardo da Silva (Ramadas Press, 2009) Prefácio a "Os direitos humanos, a criança e a violência", do Seminário Internacional Os Direitos Humanos, a Criança e a Violência (Fundação Pro Dignitate, 2009) Texto de Maria Barroso em "Moita Macedo: o sentido da esperança" (Cruz Vermelha Portuguesa, 2009) Posfácio a "Sebastião da Gama: milagre de vida em busca do Eterno, de Alexandre Francisco Ferreira dos Santos" (Roma, 2008) Prefácio a "25 olhares de Abril: crónicas", de Carlos Garrido et al. (Campo das Letras, 2008) Prefácio a "Esmeralda ou Ana Filipa", de Margarida Neves de Sousa e Rita Marrafa de Carvalho (Oficina do Livro, 2008) Prefácio a "Seminário nacional que direitos humanos numa nova Europa social?"(Fundação Pro Dignitate, 2008) Prefácio a "Abraça a vida", de Eduardo da Silva (Ramadas Press, 2006) Prefácio a "Abraza la vida", de Eduardo da Silva (Ramadas Press, 2006)