José Joaquim Seabra, conhecido como J. J. Seabra (Salvador, — Rio de Janeiro, ), foi um político e jurista brasileiro. Foi um dos poucos parlamentares a participar do processo de promulgação das duas primeiras constituições republicanas (1891 e 1934). Foi Professor e Diretor da Faculdade de Direito do Recife.
Governou a Bahia em duas ocasiões, de 1912 a 1916 e de 1920 a 1924. No intervalo entre seus mandatos (1916-1920), foi governador seu aliado político Antonio Moniz, razão pela qual o "seabrismo" na Bahia se estendeu por 12 anos. Sua posse no governo foi marcada pelo Bombardeio de Salvador em 1912, quando, para evitar a manobra da transferência da capital da Bahia para Jequié que visava a postergar eleições, ordenou o bombardeio do palácio do governo.
Família e Formação José Joaquim Seabra nasceu em Salvador, capital da Bahia, no dia 21 de agosto de 1855, filho de José Joaquim Seabra e de dona Leopoldina Alves Seabra. Estudou em Salvador e depois seguiu para a Faculdade de Direito de Recife, onde se formou em 1877, recebendo o prêmio de melhor aluno.
Ao retornar a seu estado natal, foi nomeado pelo presidente provincial Henrique Pereira de Lucena promotor público na capital.JUNQUEIRA, Eduardo. LUCENA, Henrique Pereira de. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/LUCENA,%20Henrique%20Pereira%20de.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026. Logo em seguida, retornou a Recife para um doutorado em direito. Em 1880, por meio de concurso público, tornou-se lente substituto em sua alma mater.COUTINHO, Amélia. SEABRA, J. J. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/SEABRA,%20J.%20J..pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.
Carreira Política no Império Grande orador, Seabra se tornou fervoroso abolicionista. Elegeu-se, em 1889, deputado pela Bahia para a próxima legislatura da Câmara Geral do Império, cargo que não chegou a ocupar devido à proclamação da República, em 15 de novembro do mesmo ano.CASTRO, Celso. PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/PROCLAMA%C3%87%C3%83O%20DA%20REP%C3%9ABLICA.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026. Durante a campanha, defendeu seus ideais federalistas. Com a República, tornou-se lente catedrático de economia política na referida faculdade de Pernambuco.
Carreira Política na República Deputado Constituinte Apesar do incidente republicano, Seabra não desistiu da política. Em setembro de 1890, elegeu-se deputado federal para a 21ª Legislatura (1890-1891), de caráter constituinte. Após a promulgação da Constituição de 1891, seguiu para a legislatura ordinária, a 22ª, de 1891 a 1893.
Deputado Federal Durante esse período, apoiou o governo constitucional do marechal Deodoro da Fonseca, as políticas do ministro Barão de Lucena e o golpe de três de novembro.LEMOS, Renato. FONSECA, Deodoro da. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/FONSECA,%20Deodoro%20da.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.
O golpe, porém, levou à 1ª Revolta da Armada e, não havendo outros meios, à renúncia de Deodoro. Com isso, assume seu vice, o marechal Floriano Peixoto, opositor de seu antecessor.LEMOS, Renato. PEIXOTO, Floriano. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/PEIXOTO,%20Floriano.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026. J. J. Seabra passou a fazer violenta oposição ao presidente, criticando veementemente deodoristas que se juntaram ao marechal, como o general e deputado federal por São Paulo Francisco Glicério.RIBEIRO, Antônio Sérgio. GLICÉRIO, Francisco. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/GLIC%C3%89RIO,%20Francisco.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.
2ª Revolta da Armada Como opositor, o deputado baiano participou de manifestações em 1892 que pediam a deposição de Floriano e o retorno de Deodoro. Como muitos, foi perseguido, sendo exilado em Cucuí, no Amazonas, e perdendo o cargo adquirido de diretor da Faculdade de Recife. Anistiado, voltou a combater o governo dentro da Câmara. Participou da 2ª Revolta da Armada, liderada pelo almirante Custódio de Melo, contra o marechal.SILVA, Beatriz Coelho. REVOLTA DA ARMADA. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/REVOLTA%20DA%20ARMADA.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.
Considerado traidor da pátria, contraiu malária e se exilou em Montevidéu, onde escreveu várias críticas ao governo do Brasil nos jornais El Siglo e La Razón. Também escreveu para o jornal El Diario, de Buenos Aires. Com a ascensão de Prudente de Morais, houve um processo de desmilitarização; uma mudança de postura. Com isso, uma nova anistia em 1895.LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo. MORAIS, Prudente de. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MORAIS,%20Prudente%20de.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.
Retorno à Câmara Federal Advogado por Ruy Barbosa, retornou ao Brasil em 1895, sendo reintegrado em sua antiga faculdade em 1897.ALENCAR, José Almino de. BARBOSA, Rui. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/BARBOSA,%20Rui.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026. No mesmo ano, lançou candidatura para retornar à Câmara, novamente representando a Bahia, para a 25ª Legislatura, de 1897 a 1899. Todavia, foi alvo de forte conspiração liderada pelo general Francisco Glicério, ainda deputado federal por São Paulo, mas agora presidente do maior partido da República, o Partido Republicano Federal. O general pediu ao deputado pela Bahia Artur César Rios que operasse conjuntamente ao presidente do mesmo estado Luís Viana, ambos de seu partido, para envitar a eleição de Seabra.FREITAS, Liliane de Brito; SAMPAIO, Consuelo Novais. RIOS, Artur. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/RIOS,%20Artur.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.SARMENTO, Silvia Noronha; SAMPAIO, Consuelo Novais. VIANA, Luís. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/VIANA,%20Luis.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026. Entretanto, o candidato contou com a influência do tio, o ministro da Marinha Manuel José Alves Barbosa, além do vice-presidente da República Manuel Vitorino, político baiano e também do PRF. Com isso, garantiu seu retorno à Casa.NASCIMENTO, Jaime Oliveira do. BARBOSA, Manuel Alves. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/BARBOSA,%20Manuel%20Alves.pdf. Acesso em: 7 de janeiro de 2026.SARMENTO, Silvia Noronha. VITORINO, Manuel. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/VITORINO,%20Manuel.pdf. Acessoe em: 7 de janeiro de 2026.
Assim que chegou, foi convidado por Artur Rios, já então presidente da Câmara, e pelo deputado federal por Pernambuco Francisco de Assis Rosa e Silva para integrar grande conspiração contra Glicério, líder da maioria de Prudente de Morais.SAMPAIO, Juliana. SILVA, Rosa e. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/SILVA,%20Rosa%20e.pdf. Acesso em: 8 de janeiro de 2026. Na mesma época, houve uma revolta na Escola Militar de Porto Alegre contra as medidas civis do governo. Rios e Rosa e Silva acusaram o seu diretor partidário, nos bastidores, de ter organizado a revolta militar. Para dar base à acusação, o ressentido J. J. Seabra apresentou uma moção de solidariedade ao então presidente por sufocar a revolta. A moção, apresentada no dia 28 de maio, foi repudiada por Glicério, que considerava a escola militar um reduto das glórias republicanas.
A postura do general deu crédito às acusações dos deputados, levando a uma cisão no PRF. Agravando a crise, Rios renunciou, propositalmente, à presidência da Câmara, levando a uma eleição especial, cujo candidato foi o próprio Glicério. Ao apresentar a candidatura, o general, não ciente da crise, acreditava que receberia o apoio do presidente da República. Entretanto, informado dos boatos, Prudente pediu o retorno de Rios, acreditando que apenas o ex-presidente da Casa poderia derrotar Glicério. Rapidamente, estabeleceu-se uma disputa acirrada entre os dois partidários, levando Prudente a pedir ao presidente de São Paulo Campos Sales para que convencesse a bancada paulista a votar no baiano Rios, contra o colega Glicério. Diante disso, Campos Sales, colega de infância tanto do general quanto do presidente da República, tentou acalmar a situação; de nada adiantou.FREIRE, Américo. SALES, Campos. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/SALES,%20Campos.pdf. Acesso em: 8 de janeiro de 2026.
A conspiração obteve êxito: o general foi derrotado na Casa, Prudente rompera laços com o líder e, como consequência, o PRF começou a ruir. Durante essa época também ocorreu a impopular Guerra de Canudos.JUNQUEIRA, Eduardo. Guerra de Canudos. FGV. Disponível em:https://atlas.fgv.br/verbetes/guerra-de-canudos. Acesso em: 8 de janeiro de 2026. Ao fim dessa, Prudente de Morais, no dia 5 de novembro de 1897, organizou uma cerimônia de congratulação dos combatentes. Durante esse evento, sofreu um atentado que acabou por vitimar o seu ministro da Guerra Carlos Machado de Bittencourt.VASCONCELOS, Cláudio Bezerra de. BITTENCOURT, Carlos Machado. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/BITTENCOURT,%20Carlos%20Machado.pdf. Acesso em: 8 de janeiro de 2026.
O delegado que conduziu as investigações aproveitou a oportunidade para indiciar diversos políticos opositores, entre eles o senador pelo Rio Grande do Sul Pinheiro Machado, o general Francisco Glicério e o próprio vice-presidente da República, Manuel Vitorino, que havia rumado para a oposição após ter recebido fortes críticas de Prudente por sua gestão interina enquanto o presidente se encontrava enfermo.SILVA, Izabel Pimentel da. MACHADO, Pinheiro. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MACHADO,%20Pinheiro.pdf. Acesso em: 8 de janeiro de 2026.WESTIN, Ricardo. Prudente de Moraes enfrentou birra do antecessor, trama do vice e até atentado. Agência Senado. Disponível em:https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2014/10/02/prudente-de-moraes-enfrentou-birra-do-antecessor-trama-do-vice-e-ate-atentado. Acessoe em: 8 de janeiro de 2026.
Ao ver seu algoz indiciado, Seabra subiu à tribuna e fez discurso avassalador contra o general que respondeu na mesma altura. O processo não seguiu adiante por falta de provas, mas Glicério sofreu a temida degola. Reeleito para a 26ª Legislatura, de 1900 a 1902, chegou a assumir, nesse último ano, a liderança da maioria do governo Campos Sales.
Ministro da Justiça e Interior Em 15 de novembro de 1902, renunciou ao cargo de deputado federal para assumir o Ministério da Justiça e Interior do governo Rodrigues Alves.LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo. Rodrigues Alves. FGV. Disponível em:https://atlas.fgv.br/verbetes/rodrigues-alves. Acesso em: 8 de janeiro de 2026. No cargo, ajudou a combater a Revolta da Vacina, dando maior atenção aos militares revoltosos, entre eles o ex-presidente do Pará e então senador pelo Distrito Federal Lauro Sodré.GAGLIARDI, Juliana; CASTRO, Celso. REVOLTA DA VACINA. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/REVOLTA%20DA%20VACINA.pdf. Acesso em: 8 de janeiro de 2026.SETEMY, Adrianna. SODRÉ, Lauro. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/SODR%C3%89,%20Lauro.pdf. Acesso em: 8 de janeiro de 2026.
Em maio de 1906, renunciou à pasta para concorrer à 27ª Legislatura do Senado, de de 1906 a 1908, dessa vez por Alagoas. Foi eleito, mas sua eleição não foi reconhecida pela Comissão de Verificação dos Poderes.