José Maria Whitaker (São Paulo, — São Paulo, ) foi um advogado, banqueiro e servidor público brasileiro. Ocupou os cargos de ministro da Fazenda em dois períodos distintos: de 1930 a 1931 e novamente em 1955, além de ter sido presidente do Banco do Brasil entre 1920 e 1922 e governador de São Paulo durante alguns dias. Como empresário, foi o fundador do Banco Comercial do Estado de São Paulo.
Família e educação
thumb|esquerda|Whitaker e a esposa, Amélia Peres, durante a comemoração de suas bodas de ouro
Nascido na capital paulista em 1878, Whitaker era filho do comerciante descendente de irlandeses Firmino Antônio da Silva Whitaker e de Guilhermina Flora dos Anjos. Seu pai era um pequeno comerciante que construiu sua vida comercial na capital paulista. Tinha seis irmãos, incluindo Firmino Whitaker, que integrou o Supremo Tribunal Federal de 1927 a 1934.
A educação de Whitaker começou em externatos tradicionais paulistas, como Araújo, Santo Antônio e Minhoto, seguindo-se sua matrícula na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em 1895, graduou-se em Ciências Sociais pela instituição. No ano seguinte, obteve seu diploma em Ciências Jurídicas. Enquanto ainda era acadêmico, participou ativamente dos debates políticos e intelectuais que ocorriam entre os alunos, colaborando na redação de publicações estudantis, particularmente do jornal monarquista Autoridade, que se confrontava com órgãos de orientação republicana também editados pelos discentes.
Em 1897, casou-se com Amélia Peres, com quem teve 14 filhos. Eles completaram bodas de ouro em 1947, com a comemoração sendo realizada juntamente com o casamento de uma de suas netas.
Além de simpático ao republicanismo e ao liberalismo econômico, Whitaker era católico, e incluiu sua visão religiosa em suas reflexões sobre economia e política. Publicou três livros sobre assuntos econômicos e financeiros ao longo de sua carreira intelectual. Escreveu ainda uma autobiografia, O milagre de minha vida, que foi publicada postumamente em 1978.
Carreira
Primeiras atividades profissionais
Após sua formação jurídica, Whitaker abriu um escritório de advocacia na cidade de Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista, descrita naquela época como "urbe rica e de foro movimentado". Lá exerceu a advocacia durante alguns anos, desenvolvendo-se em um ambiente com considerável movimento forense. Durante esse período, começou a emprestar dinheiro para particulares utilizando o excedente de suas rendas profissionais, mas rapidamente abandonou essa prática, considerando-a improfícua. Voltou-se então para a aplicação em títulos hipotecários, adquirindo cem letras do Banco de Crédito Real de São Paulo, transação que resultou em perda significativa quando foi forçado a alienar os títulos pela metade de seu valor, em razão da deterioração da situação financeira daquela instituição, que posteriormente faliu.
Entre 1900 e 1903, dividiu seu consultório jurídico com Tomás Pimentel. Em 1903, fundou a Whitaker Bonfim & Cia, destinada à comercialização do café, em associação com Constantino Panayetti e Francisco de Azevedo Bomfim. Essa atividade mercantil o levou a transferir-se para o porto de Santos, onde residiu durante um ano, mantendo seus contatos comerciais mesmo após retornar à capital paulista. Em 1910, foi eleito diretor da Associação Comercial de Santos, cuja presidência assumiu logo após a primeira reunião da nova gestão. Sua empresa de comercialização de café abriu subsequentemente uma seção de exportação em parceria com Erasmo Teixeira de Assunção e Frederico de Barros Brotero, alcançando excelentes resultados naquele ramo durante vários anos.
Atividades bancárias e seguradora
Em 1912, Whitaker estabeleceu o Banco Comercial do Estado de São Paulo, contando com Erasmo Teixeira de Assunção como sócio e recebendo respaldo financeiro de Paulo Nogueira de Almeida e Vicente de Almeida Prado. A fundação dessa instituição resultava dos obstáculos que o banqueiro enfrentava ao buscar crédito nas organizações financeiras já consolidadas, levando-o a constituir uma nova entidade mais disposta a atender a demanda dos comerciantes paulistas. Em 1918, participou da formação da Companhia Americana de Seguros, que posteriormente foi transferida para um grupo inglês, desdobrando-se na criação da São Paulo - Companhia Nacional de Seguros de Vida, empreendimento dirigido por José Carlos de Macedo Soares durante várias décadas. Em 1920, fundou também uma segunda companhia de seguros, expandindo seus interesses nesse setor.
Presidente do Banco do Brasil (1920-1922)
Whitaker foi nomeado presidente do Banco do Brasil por Epitácio Pessoa, presidente da República, no final de 1920. Aceitou o cargo sob a condição de atuar com ampla margem de autonomia, situação particularmente importante dado que a instituição enfrentava dificuldades significativas de gestão naquele momento.
Durante seu período na presidência (1920-1922), empreendeu importantes transformações institucionais, criando a Câmara de Compensação de Cheques, a Carteira de Redesconto (considerada precursora de um banco central emissor) e a Carteira de Crédito Agrícola, além de reformular os estatutos da instituição. Ao final da gestão, o montante de recursos administrados pelo banco cresceu cinco vezes em volume, reforçando substancialmente seu papel na estrutura financeira do país.
Durante sua gestão, Whitaker não hesitou em discordar das diretrizes econômicas propostas pelo governo de Epitácio Pessoa, especialmente quanto à compra de estoques de café para garantir a valorização do produto, posição que não foi acolhida pelas autoridades federais. Também contestou o aumento de 2% na taxa operada pela Carteira de Redescontos, que havia sido fixada pelo titular da Fazenda Homero Batista, situação que provocou seu primeiro pedido de saída. O presidente da República, porém, revogou a ordem ministerial e não permitiu sua saída.
Whitaker voltou a requerer demissão em 20 de dezembro de 1922, logo após a posse de Artur Bernardes. Seu pedido se baseava em protesto contra a deliberação congressual de um plano de transformação da instituição que havia sido elaborado sem seu envolvimento. Em carta ao presidente, manifestou "sofrimento individual" e "apreensões de patriota", temendo pelos "riscos ameaçadores ao Banco do Brasil e ao depósito-ouro, os últimos baluartes de nossa vida financeira". O novo governo respondeu com argumentos diversos, afirmando que Whitaker se demitira porque não havia recebido autorização para transformar a instituição em banco emissor de moeda e enviar o estoque de ouro para Londres.
Período de afastamento (1923-1930)
Depois de deixar a presidência do banco, Whitaker retornou a São Paulo, dedicando-se a seus interesses privados. Durante esse período, presenciou a Revolução de 1924, sem se envolver nos confrontos. Em 1925, empreendeu longa viagem ao exterior, retornando em maio de 1926. Naquele final de ano, foi convidado por Washington Luís, novo presidente da República, a reassumir a direção do Banco do Brasil. Entretanto, suas divergências com o governo levaram-no a recusar a proposta. Esse plano, que seria aplicado em 1929, foi posteriormente apontado por muitos como fator de agravamento da crise que afetou a economia cafeeira.
No Ministério da Fazenda
Primeiro período (1930-1931)
Após o êxito da Revolução de 1930, que derrubou o governo de Washington Luís, São Paulo enfrentou período de incerteza política. O general Hastínfilo de Moura, responsável pela chefia do primeiro governo provisório paulista que se seguiu à deposição presidencial (24 de outubro de 1930), convidou Whitaker para assumir a Secretaria de Fazenda estadual. Embora inicialmente relutante em tomar o "perigoso encargo", o endosso do próprio Getúlio Vargas, líder do movimento revolucionário bem-sucedido, o convenceu a aceitar. Em 28 de outubro, tornou-se chefe do poder civil do governo paulista reorganizado, com a substituição do general Hastínfilo e designação do líder tenentista João Alberto Lins de Barros como delegado das forças revolucionárias. Em 4 de novembro, foi designado ministro da Fazenda do Governo Provisório chefiado por Vargas, deixando a administração paulista para Plínio Barreto.
Sua designação para a pasta federal repercutiu favoravelmente nos meios financeiros internacionais, particularmente entre os banqueiros Rothschild, principais credores do Brasil naquele contexto. Sua gestão ocorreu sob as consequências agudas da crise econômica internacional de 1929, que intensificava os problemas estruturais do setor cafeeiro. Com a queda acentuada dos preços de exportação do café e o acúmulo de sacas invendáveis, a economia brasileira enfrentou perturbações generalizadas: redução da capacidade de importar, dificuldades no cumprimento de obrigações externas, desaceleração de todas as atividades econômicas, redução do poder aquisitivo dos salários e aumento do desemprego.
Nesse contexto adverso, Whitaker, conforme suas próprias palavras um "antigo opositor a todas as intervenções estatais", viu-se impelido a incrementar substancialmente o papel do Estado nos negócios econômicos, prestando auxílio ao setor cafeeiro através da aquisição de 18 milhões de sacas do produto. Naquele momento, declarou que "perante a urgência não há leis: ou procedemos agora - ou testemunharemos o colapso integral de nossa economia". Essa medida exacerbou as dificuldades do Tesouro, forçando a emissão de moeda (recurso teoricamente combatido pelo ministro), aumento dos impostos sobre a produção e o consumo do café, e proibição do plantio durante cinco anos.
Em fevereiro de 1931, o Banco da Inglaterra enviou um enviado para fazer diagnóstico das dificuldades financeiras do país e avaliar o programa do Governo Provisório. Seu parecer, divulgado em julho daquele ano, apontava "otimismo excessivo em relação à emissão de papel-moeda, endividamento custoso no exterior para fins economicamente questionáveis e gastos públicos elevados demais, que resultaram em processo de inflação", sugerindo a busca de equilíbrio nas contas públicas, estabilização da moeda e constituição de um banco emissor central. Essas recomendações alinhavam-se com os pontos de vista de Whitaker, que iniciou então intensificação do combate aos desequilíbrios via redução de despesas, compressão de vencimentos públicos e promulgação do Código dos Interventores, destinado a reforçar a supervisão federal sobre gastos estaduais e municipais.
Na tentativa de enfrentar o grave desequilíbrio do balanço de pagamentos e a escassez de divisas, Whitaker viu-se forçado a afastar-se de sua formação econômica liberal, criando a Comissão Central de Compras (para coordenar e controlar aquisições governamentais), reformulando o sistema contábil fazendário (possibilitando publicação de balancetes mensais) e autorizando o Lóide Brasileiro e a Estrada de Ferro Central do Brasil a adquirirem toda a produção de companhias mineradoras de carvão nacionais. Adotou também diversas medidas protecionistas, como proibição de importação de maquinário para indústrias já instaladas (por três anos) e determinação de que importadores adquirissem pelo menos 10% de seus produtos no mercado interno.
O mercado cambial permaneceu restrito às necessidades comerciais externas e foi monopolizado pelo Banco do Brasil, que evitou quedas bruscas nas taxas mas não impediu a desvalorização gradual da moeda nacional, fator de estímulo às exportações e proteção à produção industrial interna. Posteriormente, o monopólio estatal foi atenuado mediante decreto que permitia ao banco conceder licença às instituições financeiras privadas para compra de divisas estrangeiras.