thumb|right|Que Viene el Coco, (1799) de Goya
A coca ou cuca é um ser mítico, uma espécie de fantasma, bruxa ou bicho-papão com que se assustam as crianças. Embora não tenha uma aparência definida, este ser assustador tinha uma representação figurada, a sua cabeça era uma espécie de abóbora ou cabaça da qual saía luz (ou fogo). A representação da coca era feita com uma panela ou abóbora oca em que se faziam três ou quatro buracos, imitando olhos, nariz e boca, e em que se colocava uma luz dentro e deixava-se, durante a noite, num lugar bem escuro para assustar crianças e pessoas que passavam.Figueiredo, Cândido. Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa. Livraria Bertrand. Lisboa 1940Nuno Matos Valente, Bestiário Tradicional Português, 2016, Edições Escafandro, pp 15
A coca é um ser feminino, o equivalente masculino é o coco.
Etimologia O mito do Coco teve origem em Portugal e na Galiza. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola,Diccionario de la lengua Española “el coco” (também chamado de “el cuco” na América Latina) teve origem no fantasma português: “(Del port. côco, fantasma que lleva una calabaza vacía, a modo de cabeza). Fantasma con que se mete miedo a los niños”Coco2. A palavra coco é usada em linguagem coloquial para significar a cabeça humana em português e espanhol.A Portuguese-English dictionary pg 164 Coco também significa crânio.The concise dictionary of English etymology pg 91 A palavra "cocuruto" em português significa a coroa da cabeça e o lugar mais alto.A dictionary of the Portuguese and English languages, in two parts pg "Gogo" em basco significa espírito.Morris Student PlusDiccionario etimológico vasco-español-francés Na Galiza "crouca" significa cabeça,Dicionario de Dicionarios. Corpus lexicográfico da lingua galegaJareño,Pedro Benavente. Diccionario de Sinonimos Da Lingua Galega pg250Romania Gallica Cisalpina: Etymologisch-geolinguistische Studien pg 148 deriva do proto-celta *krowkā-,Cf. , s.v. crūca e tem a variante "croca";Dicionario de Dicionarios e quer coco ou coca também significam cabeça.Dicionario de Dicionarios. Corpus lexicográfico da lingua galega São cognatos o córnico "crogen" que significa crânio,Lexicon Cornu-Britannicum pg73 o bretão "krogen ar penn" que significa crânio,Lexicon comparativum linguarum Indogermanicarum pg599Dictionnaire français-breton pg178 e o irlandês "clocan" que também significa crânio.
Na mitologia Calaico-Lusitana Crouga (do proto-celta *krowkā-) é o nome de uma divindade ainda com contornos obscuros,Los Dioses de la Hispania Céltica pg57Religión, lengua y cultura prerromanas de Hispania pg370 a quem são feitas oferendas, no entanto na inscrição de Ginzo de Limia é a Crouga que é oferecida.Indogermanica et Caucasica pg322
Nas Ordenaçõe e Leis Extravagantes, "dar coca a alguém" significa "trazê-lo sujeito e à sua disposição com carícias e afagos, trazê-lo tonto, manso com amavias" Diccionario da lingua portugueza: composto, Volume 1 pg 400-401 Collecção de proverbios, adagios, rifãos, anexins sentenças moraes e idiotismos da lengoa Portugueza.pg40A Dictionary of the Portuguese and English Languages, in Two Parts
Coco era o nome do fruto de uma espécie de carvalho. Por sua vez o nome cuca era dado a uma "espécie de bugalho que se cria nos carvalhos e que, quando verde, tem côr avermelhada que faz lembrar a de certas maçãs".André de Resende. Vocabulário da Vida de frei Pedro(vide maçã-de-cuco). O vocábulo transmontano "cócora" significa 'castanha cozida, que se não descascou parcialmente', e deriva de coco, coca.Nueva revista de filología hispánica - Volume 6 - Página 24. Colegio de México., 1952 Em provençal "coca" é o nome que se dá à castanha.Dictionnaire provençal-français, ou Dictionnaire de langue d'oc ancienne pg 513
Lenda
O nome do coco é usado frequentemente como aviso de um mal iminente nos países de língua castelhana, tal como acontecia em Portugal, quando as crianças desobedecem a seus pais, não querem dormir, não querem comer, ou para as dissuadir de ir para lugares perigosos e de se afastarem de casa. Não é o aspecto do coco mas o que ele faz que assusta a maioria das crianças. O coco é um comedor de criança (um papa-meninos)Novo Diccionario da lingua Portugueza. Lisboa 1817 e um sequestrador. Ele imediatamente devora a criança e não deixa rastro dela ou leva a criança para um lugar sem volta. Mas ele só faz isso às crianças desobedientes. A coca fica a vigiar as crianças mal comportadas do topo do telhado (fica à coca). O coco toma a forma de qualquer sombra escura e fica também de guarda. Eles são atraídos pela desobediência de uma criança. Ambos representam o oposto do anjo da guarda e são frequentemente comparados ao diabo. Há ainda quem veja o coco como a representação dos defuntos da comunidade local.Aproximación antropológica a Castilla y León
Cabeças thumb|right| Em Portugal a abobora iluminada é chamada de "coco" ou "coca"
thumb|left|180px|"Cabeça cortada" galaico-lusitana thumb|right|"Os nossos lhe chamaram coco"~João de Barros No Minho a máscara que se faz com a casca de uma abóbora é chamada de coco. Na antiga Beira Alta era costume os rapazes levarem espetada num pau, como símbolo das almas do outro mundo, uma abóbora esculpida em forma de cara, com uma vela acesa dentro, lembrando uma caveira.Beira Alta - Assembleia Distrital de Viseu, Junta de Província da Beira Alta, Arquivo Provincial (Beira Alta, Portugal), Junta Distrital de Viseu, Arquivo Distrital (Viseu, Portugal) - Beira Alta (Portugal) - 1946. Pg 296
Segundo Rafael Loureiro, a tradição de esculpir abóboras com rostos é uma tradição milenar na Península Ibérica que remonta ao tempo dos celtiberos,Pasado y presente de los estudios Celtas. Las calaveras de ánimas en la Península Ibérica pg 449 um costume parecido ao que Diodoro Sículo atribuía aos guerreiros Iberos na batalha de Selinunte em 469 a.C., que penduravam nas lanças as cabeças dos inimigos.La creencia en la ultratumba en la Hispania romana a través de sus monumentos pg 4
"O costume outonal e infantil de esvaziar abóboras e talhar na sua casca olhos, nariz e boca buscando uma expressão tétrica, longe de ser uma tradição importada por um recente mimetismo cultural americanizante, é um rasgo cultural antiquíssimo na Península Ibérica" ~ Rafael López Loureiro [in Samain: A Festa das Caveiras]
Esta tradição estaria ainda relacionada com o culto celta das "cabeças cortadas" na Península Ibérica As caveiras de colondros e o tempo de Samaín pg 6Las «cabezas cortadas» en la Península Ibérica
Nas Décadas da Ásia (1563), João de Barros descreve como o nome do coco (fruto), teve origem nesta tradição Barros, João de. Da Ásia de João de Barros e de Diogo do Couto: dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento dos mares e terras do Oriente. Década Terceira. Lisboa: Na Régia Officina Typografica, 1777-1788 (Biblioteca Nacional Digital):
“Esta casca per onde aquelle pomo recebe o nutrimento vegetal, que he pelo pé, tem uma maneira aguda, que quer semelhar o nariz posto entre dous olhos redondos, per onde elle lança os grellos, quando quer nascer: por razão da qual figura, sem ser figura , os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, com que querem fazer medo ás crianças, o qual nome assi lhe ficou, que ninguem lhe sabe outro, [...]”
Rafael Bluteau, no primeiro dicionário da língua portuguesa o Vocabulario Portuguez e Latino (1712) define o coco e a coca como caveiras: “O Coco ou a Coca. Usamos destas palavras, para pôr medo aos meninos, porque a segunda casca do Coco tem na sua superfície três buracos com feição de caveira.“Dalgado, Sebastião. Glossário luso-asiático, Volume 1 pg 291
Na primeira metade do século XX a coca era parte integrante de festejos como o do Dia de Finados ou o peditório ritual do Pão-por-Deus. O Pão-por-Deus, já mencionado no século XV,Elucidario das palavras, termos e frases, que em Portugal antigamente se usárão..., Volume 1 é um peditório ritual feito por crianças, embora antigamente participassem também os pobres, feito com o fim de partilhar o pão ou guloseimas com as alminhas queridas, os defuntos da comunidade, que eram aguardados ansiosamente e chegavam de noite em forma de borboletas ou pequenos animais.[Ernesto Veiga de Oliveira. Festividades cíclicas em Portugal - Pg 189] Conforme a região, este peditorio assume diferentes nomes: santoro ou santorinho, dia dos bolinhos, fieis de Deus,[Pimentel, Alberto. Espelho de portuguezes - Volume 2 - Página 1191] já na Galiza o peditório tem o nome de migalho (migallo).Real Academia GalegaOuteiro, David. Do Sámonios ao Magusto: Uma porta aberta ao AlémDicionario de Dicionarios. Corpus lexicográfico da lingua galega
"Nesta mesma cidade de Coimbra, onde hoje nos encontramos, é costume andarem grupos de crianças pelas ruas, nos dias 31 de Outubro e 1 e 2 de Novembro, ao cair da noite, com uma abóbora oca e com buracos recortados a fazer de olhos, nariz e boca, como se fosse uma caveira, e com um coto de vela aceso por dentro, para lhe dar um ar mais macabro."Manuel de Paiva Boléo, Universidade de Coimbra. Instituto de Estudos Românicos. Revista portuguesa de filologia - Volume 12 - Página 745 - 1963 -
"Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós», e o grupo traz uma abóbora esvaziada com dois buracos a figurarem os olhos de um personagem e uma vela acesa dentro[...]outro exemplo da utilização da abóbora ou cabaço como figuração humana, nas máscaras dos embuçados das esfolhadas de Santo Tirso de Prazins (Guimaräes), que depois, estes passeiam, alçadas num pau e com uma vela dentro, e deixam espetados em qualquer sitio mais ermo, para meterem medo a quem passa." Renato Almeida, Jorge Dias. Estudos e ensaios folclóricos em homenagem a Renato Almeida. Ministério das Relações Exteriores, Seção de Publicações, 1960
Os embuçados ou serandeiros das desfolhadas são rapazes mascarados, cobertos com um cobertor, lençol ou capa encapuzada, trazem uma "racha", pau de marmeleiro ou de lódão da sua altura numa mão, na outra trazem raminhos de manjerico ou maçãs que dão a cheirar ou fazem cocegas nas bochechas dos presentes, e às vezes, por travessura, trazem urtigas. Quando uma rapariga reconhece quem é o serandeiro ou se reconhece o seu namorado joga-lhe a maçã que ela tinha trazido de casa. Os serandeiros representam os espíritos dos mortos, os espíritos da natureza.Portugal: A Book of Folk-ways pgs 184-185
"Em Landim (Famalicão) fingia-se, para amedrontar a gente das esfolhadas, um rosto humano com um cabaço ôco onde se metia uma vela a arder. A seguir espetava-se o cabaço num espeque, e deixava-se num ponto de passagem."Leite de Vasconcelos. Revista lusitana: arquivo de estudos filológicos e etnológicos ... - Volume 22 - Página 215. Lisbon (Portugal). Museu Ethnologico Português - 1919
Na Galiza começava-se a talhar as cabaças com cara de caveiras perto do dia de São Miguel (21 de Setembro), e continuava-se pelo outono dentro. Toda a estação do outono era tempo de fazer caveiras com as cabaças.As caveiras de colondros e o tempo de Samaín
As cabeças teriam poderes protectores, protegiam as pessoas ou comunidades. Teriam também poderes divinatórios ou proféticos e de cura. O ALENTEJO E O CULTO CÉLTICO DAS CABEÇAS. Almanaque Alentejano.Nº7Religion and Religious Practices of the Ancient Celts of the Iberian Peninsula Os locais de exibição das cabeças cortadas, da Idade do Ferro, situavam-se dentro e fora dos edifícios, notando-se uma preferência por locais públicos, de trânsito e locais altos acima do nível de circulação das pessoas (ruas, varandas ou entradas de edifícios, paredes e pilares), sempre com uma preferencia pelos locais mais visíveis.Hortalá. M. Carme Rovira. Las armas-trofeo en la cultura ibérica: pautas de identificación e interpretación