O Bandido da Luz Vermelha é um filme brasileiro dos gêneros drama policial de 1968, dirigido e escrito por Rogério Sganzerla, inspirado nos crimes do famoso assaltante João Acácio Pereira da Costa, apelidado pela mídia de "Bandido da Luz Vermelha", por entrar nas casas de madrugada e acordar as vítimas com o facho de luz da lanterna, que tinha a cor vermelha. Estrelado por Paulo Villaça, Helena Ignez, Luiz Linhares, Sérgio Hingst, Pagano Sobrinho e Roberto Luna, é considerado um marco do movimento cinematográfico brasileiro Cinema Marginal, propagado no Brasil entre 1968 e 1973, e um dos mais importantes filmes da cinematografia brasileira no geral. A trama acompanha Jorge, um assaltante de residências que utiliza de técnicas extravagantes para roubar casas luxuosas de São Paulo. Apelidado pela imprensa de Bandido da Luz Vermelha, pois está sempre com uma lanterna vermelha, seus crimes chamam a atenção de um implacável policial, que começa a persegui-lo. No exterior, é conhecido como The Red Light Bandit.
Sganzerla tinha 22 anos quando o dirigiu, sendo esse seu primeiro longa-metragem e seu único sucesso de público. O Bandido da Luz Vermelha recebeu resenhas positivas da crítica especializada, recebido “como inovador e radical em seu jogo de metalinguagem, a partir de referências de conotação popular, televisiva e musical”, segundo registro da Enciclopédia Itaú Cultural. Na 4.ª cerimônia do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1968, o longa saiu como o grande vencedor da edição, onde recebeu o Troféu Candango de Melhor Filme, Diretor, Diálogo, Montagem e Figurino. Pagano Sobrinho recebeu o Prêmio Air France de Cinema na categoria Revelação do Ano, pela sua performance na produção.
Uma continuação da obra intitulada Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha foi lançada em 2010 no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, com direção de Ícaro Martins e Helena Ignez, viúva de Sganzerla e intérprete de Janete Jane no longa original. Em 1999, em uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo realizada com 24 críticos e estudiosos do cinema brasileiro, indicou O Bandido da Luz Vermelha como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ficando entre os dez mais votados. Foi listado por Jeanne O Santos, do Cinema em Cena, como "clássicos nacionais". Em novembro de 2015, o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, atingindo a 6.ª posição. Em maio de 2026, foi incluído na lista dos 100 filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, da mesma associação.
Enredo left|thumb|200px|Cena de O Bandido da Luz Vermelha. As cenas são mostradas de forma fragmentada, narradas por dois narradores no estilo de um programa de rádio sensacionalista.
Nascido e criado nas favelas, Jorge (Paulo Villaça), um assaltante de residências de São Paulo, apelidado pela imprensa de "Bandido da Luz Vermelha", desconcerta a polícia ao utilizar técnicas peculiares de ação. Sempre auxiliado por uma lanterna vermelha, ele possui as vítimas, tem longos diálogos com elas e protagoniza fugas ousadas para depois gastar o fruto do roubo de maneira extravagante.
Se relaciona com Janete Jane (Helena Ignez), famosa em toda a Boca do Lixo, por quem se apaixona, conhece outros assaltantes e o político corrupto, gângster e populista J.B. da Silva (Pagano Sobrinho), que propaga soluções cínicas para os problemas da população. No final, acaba sendo traído por Janete Jane. Perseguido e encurralado, encontra somente uma saída para sua carreira de crimes: o suicídio.
Elenco
O elenco do filme foi o seguinte; Paulo Villaça.... Jorge, o bandido da luz vermelha Helena Ignez.... Janete Jane Sérgio Hingst.... milionário Luiz Linhares.... delegado Cabeção Pagano Sobrinho.... J.B. da Silva Roberto Luna.... Lucho Gatica Sônia Braga.... vítima Ítala Nandi Hélio Aguiar.... narrador Mara Duval.... narradora Sérgio Mamberti.... passageiro do táxi Carlos Reichenbach.... homem que sai do cinema com a câmera fotográfica na mão Renato Consorte.... apresentador de televisão Maurice Capovilla.... gângster Neville d'Almeida Miriam Mehler.... vítima Lola Brah
Antecedentes e produção
Rogério Sganzerla em 1959, aos treze anos, frequentava o cineclube do colégio onde estudava, em Florianópolis. Acabou por se interessar pelo Cinema Novo, movimento cinematográfico proeminente no Brasil durante os anos 1960 e 1970, que mais tarde influenciaria o Cinema Marginal, movimento o qual foi um dos principais diretores. Também descobre os filmes do cineasta estadunidense Orson Welles, diretor este que foi tema de seus filmes posteriores.ROGÉRIO Sganzerla. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/4989-rogerio-sganzerla. Acesso em: 03 de junho de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Sganzerla filma O Bandido da Luz Vermelha em São Paulo no ano de 1968, em 35 mm, com 22 anos. O filme marca a estreia do cineasta na direção de um longa-metragem. Anteriormente, o cineasta havia apenas dirigido o curta-metragem Documentário, em 1966. O longa marca também o surgimento do Novo Cinema Novo, também conhecido como Udigrudi, feito para retomar o foco inicial do Cinema Novo que, em sua chamada "Terceira Fase", se contradizia ao ter produções tecnicamente bem acabadas. O surgimento do Novo Cinema Novo retomou o foco inicial de seu antecessor, ao explorar personagens marginalizados "a beira da sociedade" e problemas sociais, com uma estética "suja", a chamada "estética do lixo".
O longa contou em seu elenco com a atriz Sônia Braga, sendo essa sua estreia nas telas de cinema. Sganzerla encontra no ator Paulo Villaça o tipo ideal para viver O Bandido da Luz Vermelha nas telas de cinema.
Lançamento O longa foi lançado comercialmente nas salas de cinemas brasileiras ainda em 1968, sendo um sucesso de público e crítica.
Home video e televisão No Brasil, o longa foi distribuído em DVD pela Versátil Home Video. Já nos Estados Unidos, teve lançamento em Blu-ray pela Severin Films, em 29 de outubro de 2024. Em 9 de janeiro de 2024, o filme foi disponibilizado no catálogo do streaming gratuito Itaú Cultural Play. Em 2025, O Bandido da Luz Vermelha, ao lado de outras quatro obras da Mercúrio Produções, foi exibido nos canais abertos TV Cultura e TV Brasil, como parte do edital de Licenciamento de Obras da Lei Paulo Gustavo, com objetivo de apresentar ao público produções com trajetórias marcadas por sua importância na cinematografia brasileira, prêmios e participações em festivais no Brasil e no exterior.
Temas e análises thumb|left|Paulo Villaça como Jorge, em cena de O Bandido da Luz Vermelha. O Bandido da Luz Vermelha foi um marco do Cinema Marginal, criado em contrapartida a chamada "Terceira Fase" do Cinema Novo, que se contradizia a sua ideia original. O filme retoma os conceitos da primeira fase do movimento, explorando personagens marginalizados, que vivem "a beira da sociedade". Aborda também os problemas sociais do Brasil, com um dos personagens que o protagonista conhece ao longo da trama sendo um político corrupto. Sganzerla chamou o filme de "um faroeste do Terceiro Mundo".
Por esta produção, Rogério Sganzerla acabou por virar um símbolo do cinema independente dos anos 60. O filme também marca a estreia de características que seriam marcas registradas do cinema de Sganzerla, como o baixo orçamento e o tom irônico e irreverente abordados nas cenas. O crítico de cinema Ismail Xavier afirmou que o longa trata o meio social do criminoso com ironia, fazendo uso de colagem, intertextualidade e pastiche, em contraste com a filmagem naturalista do Cinema Novo. O próprio diretor, ao lado do montador Sylvio Renoldi, pediu que os atores que interpretaram os locutores de rádio carregassem em um tom debochado, enfatizando o lado sensacionalista da mídia.
Segundo registro da Enciclopédia Itaú Cultural, em seu lançamento, O Bandido da Luz Vermelha foi recebido "como inovador e radical em seu jogo de metalinguagem, a partir de referências de conotação popular, televisiva e musical". A cena final contém trechos de alguns episódios do primeiro Ultraman, que havia estreado alguns anos antes e se tornaria sucesso enorme no Brasil, que contribui para a análise de referências de conotação popular.
Recepção Opinião da crítica Para o site UOL, o jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho disse que Sganzerla "fez um filme revolucionário na linguagem, que, de certa maneira, deu origem ao movimento udigrudi da Boca do Lixo paulistana (...)." Ainda acrescentou que o filme "é um delirante e bem-humorado exercício de linguagem cheio de performances marcantes (...)".
Listas de melhores filmes O Bandido da Luz Vermelha foi incluído em diversas listas de melhores filmes brasileiros de todos os tempos de diversos críticos de cinema. O longa foi incluído na prestigiada lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema dos melhores filmes brasileiros, atingindo o 6.º lugar. Em 2026, a Abraccine atualizou a lista, agora em ordem cronológica, ainda com a presença da obra de Sganzerla.
Prêmios e indicações O filme de Sganzerla foi o grande destaque da 4.ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1968, onde recebeu, entre outros, os prêmios de Melhor Filme e Diretor. O Bandido da Luz Vermelha ainda foi prestigiado no Prêmio Air France, Coruja de Ouro e Prêmio Governador do Estado. + Ano Cerimônia Categoria Indicado Resultado1968Festival de Brasília do Cinema BrasileiroMelhor FilmeO Bandido da Luz VermelhaMelhor DiretorRogério SganzerlaMelhor DiálogoMelhor FigurinoMelhor MontagemSylvio RenoldiPrêmio Air FranceRevelação do AnoPagano SobrinhoCoruja de OuroMelhor Ator CoadjuvanteMelhor Atriz CoadjuvanteHelena IgnezMelhor Fotógrafo Peter OverbeckMelhor MontadorSylvio RenoldiPrêmio Governador do EstadoMelhor DiretorRogério SganzerlaMelhor FotográficoPeter Overbeck
Refilmagem e continuação
thumb|225px|Ney Matogrosso em cena de Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Em entrevista ao jornal O Globo, em 1998, Sganzerla declarou que gostaria de fazer uma refilmagem de O Bandido da Luz Vermelha, afirmando que o ator Alexandre Borges seria perfeito para o papel do bandido.
Em 2010, uma sequência do filme, intitulada Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, foi lançada no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suiça, onde competiu pelo Leopardo de Ouro, prêmio máximo da cerimônia, e recebeu o Boccalino D'Ouro. Dirigida por Ícaro Martins e Helena Ignez com roteiro de Sganzerla, a continuação foi estrelada pelo cantor Ney Matogrosso, também estando no elenco Sérgio Mamberti e Djin Sganzerla, com a última sendo filha de Rogério Sganzerla com Helena Ignez. A história acompanha o bandido, que está preso e conhece o filho, fruto de uma aventura com uma mulher que o visitou na cadeia. Luz Vermelha rejeita o jovem, que acaba por seguir a "profissão" de seu pai.
Ignez recebeu das mãos de Sganzerla a incumbência de realizar Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha em 2003. Ao lado de sua filha, Sinai Sganzerla, Ignez produziu e dirigiu o longa. A obra conquistou indicações em diversas premiações, incluindo no Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, Prêmio APCA, Prêmio Contigo! de Cinema Nacional e Prêmio Guarani.
Ligações externas
Categoria:Filmes do Brasil de 1968 Categoria:Filmes baseados em casos reais Categoria:Filmes premiados no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro Categoria:Filmes dirigidos por Rogério Sganzerla Categoria:Filmes em língua portuguesa Categoria:Filmes policiais do Brasil