Papagaio-de-bico-largo (nome científico: Lophopsittacus mauritianus) é uma espécie extinta de papagaio que era endêmica de Maurício, uma ilha no Oceano Índico a leste de Madagascar. Única espécie do gênero Lophopsittacus, foi descoberta por navegadores holandeses por volta de 1601, que a chamavam de "corvo indiano". Tinha um temperamento forte, descrito como "mal-humorado", e se recusava a se alimentar em cativeiro. Talvez pelo estigma em relação aos corvos, não há registros de exemplares transportados em navios. Acredita-se que a espécie se extinguiu por volta da década de 1680, menos de um século depois de ter sido avistada pela primeira vez. Além da caça e da predação por animais introduzidos, as palmeiras que lhe forneciam alimento foram derrubadas em larga escala pelos colonos.
Possuía uma distintiva crista frontal de penas e, diferentemente das cacatuas, não podia movê-la para baixo ou para cima. Ao contrário de outros papagaios das ilhas Mascarenhas, o papagaio-de-bico-largo tinha um crânio achatado. A espécie apresentava dimorfismo sexual: os subfósseis encontrados revelaram que os machos eram maiores: eles mediam 55 a 65 cm de altura, enquanto que as fêmeas mediam cerca de 10 cm a menos. Ambos possuíam cabeças e bicos desproporcionalmente grandes. A diferença entre os sexos no tamanho total e dos crânios é a maior entre todos os papagaios vivos. A cor de sua plumagem foi alvo de grande controvérsia. Hoje pensa-se que tinha bico e corpo vermelhos, e a cabeça azul.
Taxonomia miniaturadaimagem|260px|Desenho de 1601 com a primeira descrição de um papagaio-de-bico-largo, a legenda diz: "5 * é uma ave que chamamos de corvo indiano, mais de duas vezes maior que os periquitos, de duas ou três cores". As primeiras descrições conhecidas do papagaio-de-bico-largo foram feitas por viajantes da Segunda Expedição Holandesa à Indonésia. Liderados pelo almirante Jacob van Neck, os exploradores deixaram a cidade de Texel, nos Países Baixos, em 1598, rumo ao sudeste asiático. Alguns navios pararam numa ilha a leste de Madagascar, a qual batizaram de Maurício, avistando ali uma grande diversidade de novas espécies de aves. Nos relatos da viagem, publicados em 1601, estão a mais antiga ilustração do papagaio, juntamente com o primeiro desenho de um dodô. Os marinheiros holandeses se referiam ao papagaio-de-bico-largo separadamente de outros papagaios, chamando-os de Indische ravens ("corvos da Índia"). Mas as menções não eram acompanhadas de descrições úteis, o que gerou confusão quando seus diários de bordo foram analisados mais tarde.
O naturalista inglês Hugh Edwin Strickland classificou os "corvos indianos" dentro do gênero Buceros, que agrupa algumas espécies de calaus, pois interpretou que a projeção da testa, retratada num desenho da ave, era um chifre. Durante o século XVII, holandeses e franceses também chamavam as araras sul-americanas de "corvos indianos" , termo usado inclusive para designar as calaus das Índias Orientais por falantes das línguas holandesa, francesa e inglesa. O historiador Thomas Herbert se referiu ao papagaio-de-bico-largo como cacatoes (cacatua) em 1634, descrevendo-o como "aves semelhantes a papagaios, ferozes e indomáveis", mas os especialistas não têm certeza se ele estava se referindo a esta ave. Mesmo após o achado de subfósseis de um papagaio combinando com as descrições, o zoólogo francês Émile Oustalet argumentou que o "corvo indiano" era um calau cujos resquícios aguardavam ser descobertos. O renomado ornitólogo France Staub ainda defendia essa ideia em 1993. Contudo, nenhum resquício de calau jamais foi achado na ilha, e, exceto por uma espécie extinta da Nova Caledônia, aves desse tipo não são encontradas em ilhas oceânicas remotas.
A primeira evidência concreta do animal foi uma mandíbula subfóssil coletada junto com o primeiro lote de ossos de dodô encontrado no pântano Mare aux Songes, situado próximo ao litoral no sudeste da ilha Maurício. Richard Owen descreveu a mandíbula em 1866 e identificou-a como pertencente a um grande espécie de psitacídeo, a qual deu o nome binomial Psittacus mauritianus e o nome comum broad-billed parrot (papagaio-de-bico-largo). Este espécime-tipo foi perdido depois. Em 1868, logo após a redescoberta do diário de bordo (datado de 1601) do navio holandês Gelderland, o ornitólogo alemão Hermann Schlegel examinou uma imagem esboçada a pena e tinta e sem nenhuma legenda. Percebendo que o desenho, atribuído ao artista Joris Joostensz Laerle, representava o papagaio descrito por Owen, Schlegel fez a conexão com as descrições de relatos antigos. Em 1875, devido ao fato de ossos e cristas serem significativamente diferentes das espécies Psittacus, Alfred Newton categorizou a ave num novo gênero, batizado por ele de Lophopsittacus. Lophos é a palavra do grego antigo para crista, uma referência à crista frontal da ave, e psittakos significa papagaio nesse mesmo idioma.
Em 1973, com base em ossos subfósseis coletados por Louis Etienne Thirioux no início do século XX, Holyoak descreveu uma outra espécie. A ave, um pequeno papagaio, foi classificada no mesmo gênero do papagaio-de-bico-largo e batizada como Lophopsittacus bensoni. Em 2007, a partir da comparação de subfósseis e descrições dos séculos XVII e XVIII, o paleontólogo inglês Julian Hume moveu essa nova espécie para o gênero Psittacula, chamando-a de Thirioux’s grey parrot ("papagaio-cinzento-de-thirioux", em tradução livre) e formando assim seu nome científico aceito hoje: Psittacula bensoni (cujo nome popular em português papagaio-cinzento-de-maurício). Anteriormente, James Greenway havia erroneamente especulado que os relatos desse papagaio cinzento referiam-se ao papagaio-de-bico-largo.
Evolução miniaturadaimagem|260px|Desenho da mandíbula subfóssil usada para descrever a espécie (1866). As afinidades taxonômicas do papagaio-de-bico-largo ainda não estão bem definidas. Considerando sua grande mandíbula e outras características osteológicas, Edward Newton e Hans Gadow propuseram que a ave está estreitamente relacionada com o papagaio-de-rodrigues (Necropsittacus rodricanus), mas foram incapazes de determinar se ambos pertenciam ao mesmo gênero, pois a única parte que conheciam do papagaio-de-bico-largo era uma crista. Graham S. Cowles, por sua vez, achou os crânios das espécies muito diferentes para que fossem parentes próximos.
Muitas aves endêmicas das ilhas Mascarenhas, incluindo o dodô, são derivadas de ancestrais do sul da Ásia, e Julian Hume propôs que este pode ser o caso de todos os papagaios do arquipélago. O nível do mar era mais baixo durante o Pleistoceno, de modo que foi possível que algumas espécies colonizassem determinadas ilhas, menos isoladas na época. Embora a maioria das espécies de papagaios extintos das Mascarenhas sejam pouco conhecidas, restos subfósseis mostram que elas compartilhavam características tais como cabeças e mandíbulas ampliadas, ossos peitorais reduzidos e ossos das pernas robustos. Hume sugeriu que esses papagaios têm uma origem comum na radiação da tribo Psittaculini, baseando essa teoria nas características morfológicas e no fato de que os papagaios Psittacula conseguiram colonizar muitas ilhas isoladas no Oceano Índico. Os Psittaculini podem ter invadido a área várias vezes, visto que muitas das espécies estavam tão especializadas que podem ter evoluído significativamente em ilhas de pontos quentes antes das Mascarenhas terem emergido do mar. Um estudo genético, publicado em 2011, descobriu que o papagaio-das-mascarenhas (Mascarinus mascarinus) da vizinha ilha da Reunião era mais intimamente relacionado com o Coracopsis nigra de Madagascar e ilhas próximas, e, portanto, sem relação com os papagaios Psittacula, minando a teoria da origem comum deles.
Descrição miniaturadaimagem|260px|Adaptação artística baseada no traçado do desenho do diário de bordo do Gelderland. O papagaio-de-bico-largo possuía uma distintiva crista frontal de penas. Saliências do crânio indicam que esta crista era firmemente aderida, e que a ave, diferente das cacatuas, não podia movê-la para baixo ou para cima. O desenho do diário de bordo do Gelderland feito em 1601 foi examinado em 2003 por Julian Hume, que comparou o acabamento de tinta com o lápis do rascunho subjacente e descobriu que este último apresentava vários detalhes adicionais. O esboço de lápis mostra a crista como um tufo de penas arredondadas afixadas na frente da cabeça, bem na base do bico; revela ainda penas tectrizes primárias longas, grandes rêmiges (penas secundárias), e uma cauda ligeiramente bifurcada. A medição dos subfósseis descobertos em 1893 mostra que a mandíbula tinha de 6,5 a 7,8 cm de comprimento por 6,5 cm de largura; o fêmur media 5,8 a 6,3 cm de comprimento; a tíbia 8,8 a 9,9 cm; e o metatarso 3,5 cm. Ao contrário de outros papagaios das ilhas Mascarenhas, o papagaio-de-bico-largo tinha um crânio achatado.
Subfósseis mostram que os machos eram maiores: eles mediam 55 a 65 cm, enquanto que suas parceiras tinham 45 a 55 cm de altura. Ambos possuíam cabeças e bicos desproporcionalmente grandes. O dimorfismo sexual em relação ao tamanho dos crânios dos indivíduos do sexo masculino e feminino é o maior entre os papagaios. As diferenças nos ossos do resto do corpo e dos membros são menos acentuadas; no entanto, havia um maior dimorfismo sexual no tamanho total do que em qualquer papagaio vivo. As diferenças de porte entre as duas aves no esboço 1601 pode ser devido a esta característica. O relato de 1602 feito por Reyer Cornelisz tradicionalmente tem sido interpretado como a única menção contemporânea da diferença de tamanho entre os papagaios-de-bico-largo, listando "grandes e pequenos corvos indianos" entre os animais da ilha. Uma transcrição completa do texto original só foi publicado em 2003, e mostrou que uma vírgula tinha sido mal colocada na tradução para o inglês; "grandes e pequenos" se referia na verdade às "galinhas-do-campo", possivelmente a galinhola-vermelha (grande) e o Dryolimnas (pequeno).
Há controvérsias sobre a coloração do papagaio-de-bico-largo. O relatório de 1598 da viagem de van Neck, publicado três anos depois, continha a primeira ilustração da ave, com uma legenda dizendo que o papagaio tinha "duas ou três cores". O último relato sobre a espécie, e a única menção de cores específicas, foi feita por Johann Christian Hoffman entre 1673 e 1675:
Há também gansos, flamingos, três espécies de pombos de variadas cores, papagaios sarapintados e verdes, corvos vermelhos com bicos recurvados e com cabeças azuis, que voam com dificuldade e receberam dos holandeses o nome de "corvo indiano".Tradução livre de: "There are also geese, flamingos, three species of pigeon of varied colours, mottled and green perroquets, red crows with recurved beaks and with blue heads, which fly with difficulty and have received from the Dutch the name of 'Indian crow'."
miniaturadaimagem|260px|Imagem do papagaio-de-bico-largo no livro Extinct Birds (1907). Apesar da menção de várias cores, autores como Walter Rothschild alegaram que o diário de bordo do Gelderland descreveu a ave como inteiramente azul-acinzentado, e foi retratado com esta coloração no livro Extinct Birds, escrito por Rothschild em 1907. Uma análise posterior do diário de bordo, feita por Julian Hume, revelou apenas uma descrição do dodô. Ele sugeriu que a máscara facial desenhada de uma maneira distintiva pode representar uma cor diferente. A cabeça era, evidentemente, azul, e, em 2007, Hume sugeriu que o bico pode ter sido vermelho, e o resto da plumagem acinzentada ou enegrecida, o que também ocorre em outras espécies da tribo Psittaculini.