Charles Joseph Messier (Badonviller, 26 de junho de 1730 – Paris, 12 de abril de 1817) foi um astrônomo francês, conhecido pela compilação e publicação, com a coautoria de Pierre Méchain, de seu catálogo de objetos de céu profundo, uma lista de 110 objetos astronômicos como nebulosas, aglomerados estelares e galáxias que vieram a ser conhecidos como os "objetos Messier". Pretendia, com a publicação do catálogo, auxiliar a si mesmo e outros astrônomos e observadores em sua atividade astronômica principal durante sua carreira, a investigação de cometas, listando todos os objetos que pôde identificar e que poderiam ser facilmente confundidos com cometas transientes, mas que, na realidade, tinham naturezas completamente diferentes e eram fixos no céu noturno. Contudo, Messier, sem intenção, catalogou alguns dos astros mais interessantes para a atual astronomia amadora.

Tornou-se um observador do céu ao trabalhar para Joseph-Nicolas Delisle em seu observatório em Paris, aos 21 anos. Foi o primeiro astrônomo a dedicar-se quase exclusivamente à procura de cometas e, enquanto aguardava o retorno do cometa Halley, deparou-se com um falso positivo ao confundir uma nebulosa com o cometa. Para evitar novos enganos, começou a compilar os objetos fixos no céu profundo que poderiam ser facilmente confundidos com um cometa, objeto difuso e de fraco brilho. De 1758 a 1782, com a ajuda de Pierre Méchain após 1774, compilou 107 objetos entre nebulosas, aglomerados estelares e galáxias. Três objetos adicionais foram mais tarde adicionados ao catálogo, após a morte de Messier, completando 110 objetos ao todo.

Contudo, foi bem-sucedido em sua principal atividade astronômica, a descoberta e acompanhamento de cometas, Descobriu vinte ao todo, treze descobertos originalmente por ele e outras 7 codescobertas independentes. Também foi membro de várias academias científicas espalhadas pela Europa, sendo membro estrangeiro da Royal Society e membro efetivo da Académie des sciences. Em 1806, recebeu de Napoleão Bonaparte a Ordem Nacional da Legião de Honra e dedicou ao imperador francês o Grande Cometa de 1769, considerado "o último cometa astrologicamente apresentado ao público por um astrônomo ortodoxo".

Origem e juventude thumb|270px|esquerda|O grande cometa de 1744, com seis caudas. Charles Messier nasceu em Badonviller, atualmente no departamento de Meurthe-et-Moselle, Lorena, à época pertencente ao Principado de Salm-Salm, pequeno estado independente nas montanhas Vosges, encravado entre o Ducado da Lorena e o Reino da França. Era o décimo dos doze filhos de Nicolas Messier, que servia na administração do Principado, e de Françoise B. Grandblaise.

Em 1741, quando tinha 11 anos, seu pai morreu e seu irmão mais velho, Hyacinthe, tornou-se chefe de família e responsável por sua educação. Por oito anos treinou Charles em tarefas metódicas e administrativas e este adquiriu um senso de observação de detalhes finos, habilidade importante para a conquista de seu primeiro e único emprego como astrônomo. Interessava-se pela observação do céu e pela astronomia desde a adolescência: alguns raros eventos astronômicos, como a passagem do grande cometa de seis caudas e o eclipse solar anular visível em Badonviller em 25 de julho de 1748, podem ter estimulado ainda mais seu interesse pela astronomia.

Em 1751, seu irmão ofertou-lhe uma oportunidade como auxiliar de astrônomo em Paris e em setembro daquele ano, Charles deixou Badonviller para se tornar empregado de um astrônomo da marinha francesa, Joseph-Nicolas Delisle. Delisle deu-lhe abrigo em sua própria residência no Collège Royal de France e sua primeira tarefa era copiar detalhadamente um mapa da Grande Muralha da China.

No observatório de Delisle thumb|240px|O Hôtel de Clugny, em 1829, poucos anos após a morte de Messier. O observatório de Delisle foi fundado em 1748 em uma torre do Hôtel de Clugny (atualmente Museu de Cluny), construído em 1480 sobre as ruínas de termas romanas do século IV. No século XVIII, o local foi alugado para a administração da Marinha Real Francesa. Com Delisle, Messier aprendeu a usar os instrumentos astronômicos e anotar cada detalhe de suas observações. A primeira observação registrada foi o trânsito de Mercúrio em 6 de maio de 1753. O próprio Delisle introduziu-o à astronomia elementar e convenceu-o sobre a utilidade das medições exatas das posições dos objetos em todas as suas observações, característica encontrada em seu futuro catálogo.

Primeiras descobertas thumb|esquerda|Charles Messier, data incerta Em 1757, Messier iniciou sua busca pelo cometa Halley. O retorno deste corpo celeste era esperado para 1758, o que muitos astrônomos consideravam ser apenas uma especulação científica. O auxiliar de astrônomo chegou a elaborar uma carta celeste com a provável trajetória do cometa, calculada erroneamente por Delisle. Durante sua procura por Halley, descobriu outro cometa em 14 de agosto de 1758, observando e anotando suas posições na abóbada celeste dia após dia cuidadosamente até 2 de novembro daquele ano. A descoberto desse objeto levou-o à procura de novos cometas com auxílio de telescópios, inventando, assim, a "caça de cometas", uma nova área da astronomia.

Durante estas observações, descobriu em 28 de agosto um objeto muito semelhante a um cometa de brilho fraco. Inicialmente, tratou-o como outro cometa, mas concluiu que este objeto não se movia em relação às estrelas vizinhas, descobrindo, assim, seu primeiro objeto de céu profundo, uma nebulosa que posteriormente viria a ser chamada como "Messier 1" (M1). Messier determinou sua posição dias mais tarde e este se tornou a primeira entrada no seu famoso catálogo. A nebulosa tornou-se um dos objetos mais vistos no céu profundo atualmente, tanto por astrônomos amadores quanto por profissionais, tratando-se do remanescente da supernova de 1054, comumente chamado de Nebulosa do Caranguejo. A descoberta de M1 levou-o a compilar seu próprio catálogo de objetos nebulosos, que possivelmente poderiam ser confundidos com cometas.

O cometa Halley finalmente foi redescoberto pelo astrônomo alemão Johann Georg Palitzsch (1723-1788) na noite de Natal de 1758. Dias depois, Messier encontrou-o independentemente, duvidando finalmente da exatidão da trajetória calculada por Delisle. O empregador de Messier, no entanto, não reconheceu sua falha, recusando-se a aceitar e anunciar a descoberta de Charles e aconselhou-o a continuar observando na direção previamente indicada. Como resposta, declarou que "Era um empregado fiel de Delisle, vivia com ele em sua casa e conformei-me com sua ordem." Quando Delisle finalmente anunciou a descoberta de Messier, em 1 de abril de 1759, a comunidade astronômica francesa simplesmente não acreditou na independência da descoberta, tendo decorrido mais de três meses da descoberta original de Palitzsch.

Início da compilação de seu catálogo

thumb|250px|Primeira página do Catálogo Messier, contendo os objetos M1 ao M5. O catálogo está contido a partir da página 118 do almanaque francês Connaissance des temps, de 1784 Desde então, Delisle apoiou e deixou seu empregado realizar seu próprio trabalho de observação de forma independente. Messier descobriu sua segunda nebulosa, M2, descoberto originalmente por Jean-Dominique Maraldi anos antes. Inseriu-o em um mapa que mostrava também a trajetória do cometa Halley. Messier observou o trânsito de Vênus de 6 de junho de 1761 e a reaparição dos anéis de Saturno. Também observou o cometa de Klinkenberg (C/1762 K1) entre maio e julho daquele ano, e no ano seguinte descobriu mais um cometa (C/1763 S1). Nos primeiros dias de 1764, descobriu mais um cometa (C/1764 A1), que já apresentava magnitude aparente 3 no momento da descoberta. A primeira tentativa para entrar na Académie royale des sciences em 1763 não obteve sucesso.

thumb|esquerda|250px|Carta celeste de Messier de 1764, mostrando a trajetória do cometa Halley. Com a descoberta de mais uma nebulosa, (M3 - sua primeira descoberta original) Messier decidiu realizar um grande exame do céu com o intuito de descobrir outros objetos semelhantes, já que esses poderiam enganar com frequência caçadores de cometas. Sua investigação resultou em 19 descobertas originais ainda em 1765, usando para sua pesquisa todos os catálogos de objetos do céu profundo compilados anteriormente por outros astrônomos que ele tinha acesso, como a lista de seis objetos de Edmond Halley, o catálogo de William Derham, que por sua vez havia sido extraído principalmente do catálogo de estrelas de Johannes Hevelius, o Prodomus Astronomiae, que estava disponível em francês graças a Pierre Louis Maupertuis, além do Catálogo das Nebulosas do Sul, de Nicolas Louis de Lacaille, de 1755, bem como as listas de Maraldi e Guillaume Le Gentil, com algumas referências a Jean-Philippe de Chéseaux, provavelmente a partir do próprio Le Gentil. Messier catalogou os objetos M3 ao M40, encontrando várias nebulosas inexistentes nos catálogos mais antigos (a compilação de objetos de seu catálogo a partir de outros catálogos explica porque a estrela dupla M40 foi listada por Messier).

Naquela época, Messier comunicava-se com frequência com astrônomos e outros acadêmicos da Grã-Bretanha, Alemanha e Rússia. Seu correspondente russo, Frederick La Harpe, estava em exílio na Suíça e era membro da Académie des sciences. Em 21 de maio de 1764, foi selecionado como membro da Academia de Harlem (Países Baixos) e em 6 de dezembro foi eleito membro estrangeiro da Royal Society, em Londres. Em 1765, a academia de Auxerre e o Instituto de Bolonha fizeram o mesmo.

Usou vários telescópios, tendo como favorito um refletor gregoriano com distância focal de 113,28 cm e uma abertura de 26,55 cm. Isso era equivalente a um refrator de 8,54 cm de largura, com uma abertura efetiva de 12,39 cm, embora menos poderoso do que um telescópio newtoniano octogonal de 24,4 cm de largura, o qual havia pertencido a Delisle e que foi sem dúvida o instrumento original no seu observatório no Hôtel de Clugny. Anos depois, usou um telescópio acromático de 12,39 cm de abertura: àquela época telescópios acromáticos começavam a ser usados.

Astrônomo oficial da Real Marinha Francesa thumb|esquerda|Joseph Lalande, amigo de Messier No início de 1765, Delisle se aposentou e Messier encontrou o aglomerado de estrelas M41. Continuou a observar no observatório do Hôtel de Clugny, mas sua nomeação como astrônomo da Marinha Real Francesa ocorreu muito mais tarde, apenas em 1771.

Em 1766, descobriu mais dois novos cometas, sendo uma descoberta original. Em 1767, participou da única viagem naval de sua vida, a serviço da Real Marinha Francesa, com o propósito de testar e regular alguns cronômetros marítimos novos, construídos pelo relojoeiro Julien Le Roy. Ficou a bordo do navio L'Aurore por três meses e meio no Mar Báltico. Durante sua ausência, entre 12 de maio e 1 de setembro de 1767, Jérôme Lalande continuou o programa de observação no Hôtel de Clugny.

No início em 1769, Messier decidiu publicar sua primeira versão de seu catálogo e, para ampliar o número de objetos catalogados, incluiu outros objetos bem conhecidos, como a Nebulosa de Órion (M42), a Nebulosa de Mairan (M43), o Aglomerado do Presépio (M44) e as Plêiades (M45). Descobriu mais um novo cometa (C/1769 P1 (Messier)), o grande cometa daquele ano e, ao enviar a descrição e um mapa da trajetória desse novo cometa para o rei da Prússia, este ficou tão impressionado que, sob sua influência, Messier foi eleito membro da Academia das Ciências de Berlim em 14 de setembro daquele ano. Ele já havia sido selecionado anteriormente como membro da Academia Real da Suécia, em Estocolmo.

thumb|241x241px|As Plêiades, conhecidas desde a antiguidade, incluída como o 45º objeto de seu catálogo, o último objeto incluído antes da primeira versão publicada em 1770