A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) é uma Igreja autônoma da Comunhão Anglicana que abrange todo o território do Brasil. É formada por nove dioceses e um distrito missionário, cada um deles dirigida por um bispo, dentre os quais um é eleito como primaz (superior). A atual bispa primaz é Marinez Rosa dos Santos Bassotto, bispa da Diocese Anglicana da Amazônia, eleita em 2022, no XXXV Sínodo Geral, em Belém, Pará. Bassotto é a primeira mulher a assumir o cargo no Brasil, América Latina e Caribe. A IEAB é a mais antiga Igreja não católica romana do país,Calvani, Carlos Eduardo. "Anglicanismo no Brasil". Revista USP. São Paulo: n.67, p. 36-47, setembro/novembro 2005. Página visitada em 6 de julho de 2015. tendo suas origens no Tratado de Comércio e Navegação firmado em 1810 entre Portugal e Inglaterra e que permitiu à Igreja da Inglaterra estabelecer capelanias no país. Em 1890, aportaram no país missionários da Igreja Episcopal dos Estados Unidos para realizar cultos em português e converter brasileiros. A IEAB foi um distrito missionário da Igreja Episcopal americana por 74 anos, obtendo sua autonomia eclesiástica em 1965, quando se tornou a décima-nona província da Comunhão Anglicana. Vinte anos depois, começou a ordenar mulheres. Já em 2018, passou a permitir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. A Igreja se destaca por seu compromisso em combater problemas que afetam a sociedade brasileira, tais como a desigualdade social, a concentração fundiária, a violência doméstica, o racismo, a homofobia e a xenofobia. Sua postura inclusiva em relação às minorias tem provocado cismas, ao mesmo tempo em que atrai fiéis de outras denominações em busca de aceitação e acolhimento. Em 2021, a denominação tinha uma total de 207 comunidades, sendo 96 paróquias e 109 missões e pontos missionários.Costa, Rafael Vilaça Epifani. 'Unidade na diversidade, unidade na adversidade' : a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e as múltiplas identidades do anglicanismo no século XXI. 2017. 650 f. Tese (Doutorado) - Universidade Católica de Pernambuco. Pró-Reitoria Acadêmica. Coordenação Geral de Pós-Graduação. Doutorado em Ciências da Religião, 2021.
História
O Cristianismo chegou na Inglaterra entre os séculos I e II, antes do fim da perseguição aos cristãos no Império Romano. Inspirada na antiga religião celta, a fé cristã desenvolveu tradições e práticas distintas nas ilhas britânicas, se tornando o que estudiosos chamaram de cristianismo céltico. Esta forma de religiosidade seria mais espiritual, ecológica e mística, embora não haja um consenso entre os acadêmicos. Em 597 o então Bispo de Roma, Papa Gregório enviou Agostinho e 40 monges beneditinos numa missão para converter os anglos e unificar os celtas à Igreja Católica. Através de um acordo, os líderes religiosos locais se submeteram à autoridade papal. Com a ajuda de cristãos residentes em Kent, Agostinho estabeleceu a sé da Igreja Católica na Inglaterra em Cantuária, capital do Reino de Kent, e se tornou o primeiro Arcebispo de Cantuária em 598. Embora algumas práticas do cristianismo céltico tenham sido alteradas após o Sínodo de Whitby, em 664, a Igreja britânica já se encontrava sob a autoridade papal. A rainha Berta de Kent já reconhecia a autoridade papal antes mesmo da chegada de Agostinho e os cristãos celtas já realizavam trabalho missionário com o apoio do papa antes do Sínodo de Whitby.
A separação do anglicanismo do catolicismo romano iniciou-se em 1534, quando o rei Henrique VIII da Inglaterra, movido a interesses políticos e pessoais, proclamou a independência da Igreja da Inglaterra da Igreja de Roma, rechaçando a autoridade papal. A nova Igreja, que se considera uma continuidade da Igreja primitiva por não haver rejeitado a fé católica e apostólica, logo se espalhou pelas colônias britânicas no Novo Mundo. No Brasil, no entanto, a religião oficial imposta pelos colonizadores portugueses era o catolicismo romano e as tentativas de missionarismo protestante – de huguenotes franceses e calvinistas holandeses – fracassaram.Kickhofel, Oswaldo. "Apontamentos de História da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil". Centro de Estudos Anglicanos. s/d. Página visitada em 6 de julho de 2015. O primeiro missionário anglicano a pisar em solo brasileiro foi Henry Martin, em 1805, que aportou em Salvador, na Bahia quando seu navio seguia viagem para a Índia. Ele permaneceu por duas semanas na cidade, onde manteve contato com padres que falavam francês e latim.
Em 1808 a corte portuguesa se transfere para o Brasil e o país, embora continuasse uma colônia, ganha maior proeminência nas relações exteriores. Em 1810 Portugal e Inglaterra assinam o Tratado de Comércio e Navegação, o que permite a construção de capelas anglicanas em terras brasileiras, contanto que elas não tivessem a aparência de templos religiosos. Nesse ano, ocorreram os primeiros cultos anglicanos do país – em inglês e voltados exclusivamente para estrangeiros.Member Church - Brazil. Anglican Communion. s/d. Página visitada em 5 de julho de 2015.
Em meados daquele século, as três principais cidades brasileiras, que haviam ganhado ainda na década de 1810 cemitérios para a colônia inglesa, já abrigavam templos anglicanos: em maio de 1822, a primeira capela anglicana do país, a Christ Church, foi aberta no Rio de Janeiro; em maio de 1838, houve a fundação do primeiro templo anglicano no Recife, a Holy Trinity Church; e em outubro de 1853, foi inaugurada a capela de Saint George's Church em Salvador. Surgiram ainda capelas anglicanas em Nova Lima e Mariana, em Minas Gerais, cidades estas que desenvolveram numerosas colônias britânicas devido à exploração das minas de Morro Velho e da Passagem por empresas inglesas.Silva, Hernani Francisco. "10 fatos que você não sabia sobre a escravidão nas igrejas evangélicas no Brasil" . Afrokut. 21 de junho de 2016. Página visitada em 10 de janeiro de 2017. Os capelães anglicanos não faziam oposição ao status quo vigente, sendo alguns fiéis donos de escravos, em oposição aos esforços da Igreja da Inglaterra para abolir a escravidão. Segundo o reverendo Boys, capelão da ilha de Santa Helena, que permaneceu no Rio de Janeiro a partir de 1819 devido à enfermidade de sua esposa, havia naquela época cerca de 1.500 comerciantes ingleses na então capital do Brasil que possuíam, juntos, pelo menos dois mil escravos. Embora o proselitismo dos anglicanos fosse proibido segundo os termos do tratado de 1810, há registros do batismo forçado de escravos pertencentes a James Thornton, Robert Palmer (fiéis da Christ Church) e John Alexander e coronel Skerit (da colônia mineira). Segundo Silva, a comunidade anglicana era "ausente dos problemas sociais e políticos da população".Silva, Elisete. "Visões protestantes sobre a escravidão". Centro de Estudos Anglicanos. s/d. Página visitada em 20 de julho de 2015. 320px|thumb|left|A Capela Anglicana do Recife (1838-1946) em fotografia do estadunidense Charles Fredricks, 1851. 320px|thumb|left|A Capela Anglicana de Salvador (1853-1975) em fotografia do suíço Guilherme Gaensly, circa 1870.
Após a independência do Brasil, foram realizados os primeiros trabalhos missionários por religiosos anglicanos no país. Em 1853, o reverendo William Cooper foi enviado pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos para realizar trabalho missionário no país, a pedido de um episcopaliano do Rio de Janeiro, provavelmente membro da colônia americana. No entanto, o navio de Cooper naufragou no Caribe a caminho do Brasil e ele desistiu da missão, retornando para os Estados Unidos. Em 1860, o reverendo escocês Richard Holden desembarcou em Belém, no Pará, também enviado pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Holden conduziu a menos fracassada das missões, permanecendo no país por doze anos. Ele escolheu Belém devido à existência de um posto de distribuição de bíblias na cidade e à expectativa de que o Rio Amazonas fosse aberto à navegação internacional. Em Belém, tentou criar uma comunidade anglicana, mas não obteve sucesso. Usou a imprensa local para difundir a religião, escrevendo artigos em jornais que provocaram a ira do então bispo católico da cidade, Antônio de Macedo Costa. Holden foi responsável pela primeira tradução do Livro de Oração Comum em português e por uma dezena de hinos — dois deles presentes no hinário de 1962 — e viajava pelos afluentes do Rio Amazonas para vender bíblias nas comunidades ribeirinhas. Em 1862, após o fracasso da missão no norte, mudou-se para Salvador, onde também valeu-se da imprensa para propagar o anglicanismo. Encontrou forte oposição na capital baiana e sofreu três tentativas de assassinato. Devido à sua personalidade forte e seu estilo polêmico de pregar, Holden começou a encontrar oposição também na Igreja Episcopal dos Estados Unidos, que havia patrocinado sua vinda ao Brasil. Em 1864, aceitou convite do Dr. Robert Kalley para atuar como pastor na Igreja Congregacional Fluminense no Rio, onde a consciência social era mais profunda.Silva, Hernani Francisco. "10 fatos que você não sabia sobre a abolição da escravatura nas igrejas evangélicas no Brasil" . Afrokut. 28 de junho de 2016. Página visitada em 10 de janeiro de 2017. Mais tarde abandonou o anglicanismo e se tornou darbista.
Embora os anglicanos tenham tido pouco destaque na luta pela abolição da escravidão no Brasil, é importante notar o papel do anglicanismo na Revolta dos Malês, ocorrida em 1835 em Salvador. Os ingleses residentes naquela cidade, que frequentavam cultos anglicanos — à época realizados em residências —, eram proprietários de escravos que utilizavam como mão de obra doméstica ou em empreendimentos de caráter manufatureiro que mantinham. Seus escravos, em sua maioria de origem muçulmana, estiveram entre os líderes do movimento, segundo os anais do Arquivo Público do Estado da Bahia. Dos 160 acusados de liderar a revolta, 45 pertenciam a ingleses residentes no bairro da Vitória. Ainda em Salvador, é possível constatar que embora alguns anglicanos não estivessem interessados em manter escravos, tampouco eram sensíveis à luta e às condições deles. Alguns ingleses que congregavam na Saint George's Church, como Edward Jones, George Mumford e George Blandy tentaram deixar seus escravos de herança para seus sucessores. Seus herdeiros, cidadãos da Coroa britânica, se recusaram a manter os escravos, pois eram impedidos pela legislação inglesa. Ao invés de conceder alforria aos escravos, o que poderiam fazer como novos donos, negociaram uma barganha financeira com os demais herdeiros, cidadãos brasileiros, que poderiam ser proprietários de escravos. Para o reverendo Robert Walsh, incrédulo de que cidadãos britânicos pudessem comprar e vender seres humanos, o Brasil mudava a natureza das pessoas. Sobre uma cena que presenciou, o capelão — que esteve no país entre 1828 e 1829 acompanhando a missão liderada por Lorde Strangford — escreveu: "[estando] em um país estrangeiro e em contato com a escravidão a sua natureza parece modificar-se, e ele passa a vender não só a mãe de crianças como as crianças também, e com tanta indiferença como se tratasse de uma porca com a sua ninhada".Silva, Hernani Francisco. "Pedir perdão ao povo negro". Igreja Metodista de Vila Isabel. 15 de novembro de 2007. Página visitada em 10 de janeiro de 2017.