Os Mistérios de Elêusis, também conhecidos como Mistérios Eleusinos, eram ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas Deméter e Perséfone, que se celebravam em Elêusis, localidade da Grécia próxima de Atenas.
Fundados em tempos pré-homéricos, no período Clássico foram assimilados e expandidos por Atenas, e se tornaram os mais importantes entre todos os que se celebravam na Grécia Antiga, e seu prestígio aumentou ainda mais nos períodos Helenístico e Romano. Os ritos mais solenes da iniciação eram guardados em segredo, só transmitidos a novos iniciados, e quase nada se sabe sobre o seu conteúdo, mas sobre seus efeitos, os numerosos relatos conhecidos de iniciados são unânimes em se referir à experiência como sublime, benéfica e transformadora, tornando as pessoas melhores e livrando-as do medo da morte. Alguns estudiosos propuseram que o poder dos Mistérios Eleusinos vinha do funcionamento da bebida ciceona como agente enteógeno.
Os Mistérios eram administrados por um grupo de famílias sacerdotais, destacando-se os Eumólpidas e os Cérices, que proviam os principais sacerdotes do culto. Os Mistérios de Elêusis foram extintos pelo imperador Teodósio em 392 d.C., depois da adoção do Cristianismo como a religião oficial do Império Romano, mas deixaram uma importante contribuição para a cultura do Ocidente: inspiraram gerações de poetas, escritores e filósofos; tornaram-se o centro de um rico folclore; foram estudados em copiosa bibliografia acadêmica; deram bases para cultos neopagãos, e hoje fazem parte da cultura de massa, aparecendo em romances, filmes, documentários e outros meios.
Mitologia
O mito em torno do qual giravam os Mistérios era o do rapto de Perséfone, filha de Deméter, pelo deus dos mortos Hades, que a queria para ser sua consorte. Deméter era a deusa da terra, dos grãos e frutas e da agricultura. Na simbologia eleusina clássica, a descida de Perséfone para o submundo era relacionada ao inverno no ciclo das estações: um período escuro, frio e estéril. Ao dar pelo desaparecimento da filha, Deméter, enfurecida e desesperada, jurou secar a terra até que a encontrasse, e a humanidade começou a passar fome. No meio da sua busca, acabou chegando a Elêusis, onde assumiu um disfarce e foi recebida pela família real. Sendo bem tratada, instituiu os Mistérios e fez os primeiros iniciados.
Depois de muito procurar, Deméter achou a filha, mas, entrementes, Perséfone havia comido grãos de romã. Segundo a lei do submundo, uma vez tendo comido algo, ficava-se preso ali para sempre. Inconformada, Deméter apelou para Zeus e obteve um acordo: a filha viveria parte do ano no submundo com o marido, e parte do ano na superfície com a mãe saudosa. Sua subida representava o brotamento das sementes e a chegada da primavera: trazia a felicidade para a mãe, que revogando sua maldição devolvia a fertilidade para a terra. Isso era o que produzia as colheitas fartas, e elas, a possibilidade de haver civilização. A renovação deste ciclo todos os anos representava para os iniciados a eternidade e a imortalidade da alma.Kerényi, Karl. Eleusis: Archetypal Image of Mother and Daughter. Bollingen Foundation, 1967, pp. 232–241"Demeter". In: Smith, William (ed.). 'Classical dictionary of biography, mythology and geography. Murray, 1859, pp. 212-213
Arqueologia
A área de Elêusis começou a ser povoada em torno de 2000 a.C., e os primeiros indícios materiais da existência de um culto de Deméter são encontrados entre c. 1450 e 1400 a.C., na época da construção do Mégaro B, um palácio pertencente à família governante, os Eumólpidas, provavelmente contendo um templo ou capela, pois em sua área foram encontrados restos de sacrifícios e ex-votos.Cosmopoulos, Michael B. Bronze Age Eleusis and the Origins of the Eleusinian Mysteries. Cambridge University Press, 2015, p. 90-93Glowacki, Kevin T. "New Insights into Bronze Age Eleusis and the Formative Stages of the Eleusinian Cults". In: American Journal of Archaeology, 2016; 120 (4): 673–677 A partir de c. 1300-1250 a.C., correspondendo ao início da Idade das Trevas grega, as evidências arqueológicas começam a se tornar muito escassas, e a cidade parece ter sido em sua maior parte despovoada. O Mégaro B parece ter continuado em uso por mais algum tempo, mas depois de c. 1050 a.C. já não é possível provar que o culto tenha sobrevivido.Maas, Manon van der. The Incorporation of Eleusis into the Athenian Polis: The City Eleusinion and the Sanctuary Material in the Wells of the Athenian Agora. Utrecht University, 2020, pp. 46-52
Somente no século VIII a.C. o culto é retomado inequivocamente, e no século VII a.C. já se encontrava em grande florescimento, adquirindo uma fama pan-helênica, sendo documentada a reconstrução do Mégaro B em maior escala, com um terraço e uma grande escadaria de acesso. Uma campanha de sucessivas ampliações do santuário se desenvolveu nos séculos seguintes, adicionando um novo templo de Deméter (o Telestério ou Sala de Iniciação), muros, uma avenida processional, altares para heróis, um grande cemitério e a Casa Sagrada, onde vivia o hierofante e a alta sacerdotisa de Deméter.Evans, Nancy A. "Sanctuaries, Sacrifices, and the Eleusinian Mysteries". In: Numen, 2002; 49 (3): 227-254Loukaki, Argyro. "Desacralised Eleusis. Contemplating the Impacts of Non-Restoration on a Major Classical and Poetic Locus". In: Aura, 2020 (3)
No século VII a.C. é provável que Elêusis já estivesse sob o domínio ateniense, embora haja controvérsia a respeito de quando isso realmente ocorreu.Maas, pp. 25-40Padgug, Robert A. "Eleusis and the Union of Attika". In: Greek, Roman and Byzantine Studies, 1972; 13 (2) Seja como for, durante o governo de Sólon, no século VI a.C., é certo que a cidade já estava assimilada por Atenas, e os Mistérios foram então incorporados aos cultos estatais atenienses e regulamentados.Spaeth, Barbette Stanley. "Athenians and Eleusinians in the West Pediment of the Parthenon". In: Hesperia: The Journal of the American School of Classical Studies at Athens, 1991; 60 (3): 331-362
Em 480-479 a.C., durante as Guerras Médicas, a cidade e o santuário foram destruídos. Depois da retirada dos persas, diz a tradição que a reconstrução foi promovida por Címon, mas mais provavelmente ocorreu no governo de Péricles (461-429 a.C.).Wilson, Nigel. Encyclopedia of Ancient Greece. Routledge, 2013, p. 256Struck, Peter T. "Background to the Eleusinian Mysteries". Department of Classical Studies, University of Pennsylvania, 2000-2020
As evidências arqueológicas mostram uma contínua expansão do santuário entre os séculos VIII e V a.C. O Telestério sempre permaneceu em uma posição central em relação às outras estruturas, situado sobre um terraço monumental e envolvido por fortes muros que impediam o acesso dos não iniciados. A cada vez que o santuário era ampliado o Telestério também aumentava, obrigando a uma constante substituição das estruturas secundárias, empurrando-as para as novas margens do complexo. Não há nenhuma evidência de altares de sacrifício no interior dos muros, mas há diversos nas áreas externas abertas ao público em geral, ao longo da Via Sacra e no Eleusínio, um santuário menor em Atenas. Em contrapartida, foram identificados dentro dos muros cinco poços profundos que eram usados para certo tipo de sacrifícios de leitões, contendo restos de ossos.
Em 170 d.C. o santuário foi novamente destruído durante a invasão dos sármatas, sendo reconstruído e embelezado sob o patrocínio dos romanos, que então dominavam a Grécia. Nesta época são adicionados templos secundários para Ártemis e Posídon e outros anexos. Com a adoção do Cristianismo como a religião do Império, os Mistérios foram suprimidos pelo imperador Teodósio em 392 d.C.Pek, Bernardine. The Sanctuary of Demeter and Kore at Eleusis in the Roman Period. McMaster University, 1998, pp. 42-47 Neste ano o exército de Alarico invadiu e destruiu o santuário. Os cristãos mais tarde acabaram de devastar o local, e no período Bizantino a área estava praticamente deserta, assim permanecendo até o século XVIII.
Escavações realizadas a partir do século XIX expuseram as grandes dimensões do santuário, consolidaram suas ruínas e revelaram a existência de uma cultura material milenar e extremamente rica no local, sendo recuperadas muitas relíquas em escultura, cerâmica, joalheria, inscrições, ferramentas, ofertas votivas e outros objetos.Perissato, Felipe. Eleusis: a relational and material-based approach to ritual practices in West Attica from the sixth to the fourth century B.C. Universidade de São Paulo, 2023, pp. 89-94; 100; 140
O culto
Não se conhece ao certo a origem do culto dos Mistérios de Elêusis, e muitas teorias foram propostas, sugerindo serem herdeiros de tradições egípcias, trácias, minoicas ou micênicas que adoravam figuras de Grandes Mães como Deméter.Kerényi), Karl. Dionysos. Archetypal image of indestructible life. Princeton University Press, 1976, p. 79Burkert, Walter. Greek Religion. Harvard University Press, 1985, p. 285Farness, Sherly. "A Re-Examination of the Cult of Demeter and the Meaning of the Eleusinian Mysteries". In: Phoebus: A Journal of Art History, 1979 (2): 31-38
Tampouco é bem conhecido o ritual desenvolvido no santuário, e sobre a etapa mais solene, a iniciação, um rito secreto, praticamente nada se sabe. Contudo, há diversos testemunhos a respeito do aparato externo do festival. O Hino Homérico a Deméter, composto entre os séculos VII e VI a.C., narra as circunstâncias do rapto de Perséfone e é a primeira fonte literária a descrever a fundação dos Mistérios. No hino, quando Deméter chega a Elêusis, disfarçada de velha, oferece seus serviços ao rei Celeu, sendo-lhe confiada a função de ama do filho temporão Demofonte. Deméter promete protegê-lo do mal, apega-se ao menino e pretende torná-lo imortal. Para isso, unta-o com ambrosia, e quando ia purificá-lo no fogo, chega a mãe Metanira, e pensa que a velha ia matá-lo. Deméter então diz que a interrupção do rito tornava impossível dar-lhe a imortalidade, e acusando Metanira de imprudência e insensatez, diz: "Agora, não há como da morte e do infortúnio escapar, honra imperecível, porém, sempre terá, porque em meus joelhos esteve e em meus braços dormiu".
thumb|Triptólemo sendo iniciado pelas deusas Deméter e Perséfone, relevo, c. 440-430 a.C.
Apesar de muito irritada, a deusa promete uma vida após a morte aos filhos de Elêusis, revela sua verdadeira identidade, e diz a Metanira: "Conduz-me ao grande templo e sob ele um altar erga o povo. Eu mesma os ritos instituirei para que depois, realizando-os impecavelmente, minha mente se torne propícia". Dito isso, a deusa assume sua gloriosa forma divina e inunda o palácio de luz e de um odor perfumado, ao que Metanira cai de joelhos, muda de terror e pasmo, e as damas do palácio, também cheias de medo, passam a noite apaziguando a deusa. Ao amanhecer, Celeu convoca o povo e ordena que "a Deméter, de belos cabelos, templo opulento construíssem e um altar na proeminente colina. E muito rapidamente o escutaram e obedeceram ao que ele disse, e prepararam tudo como ordenara".