thumb|300px|Árvore genealógica de Maria Justina e seu irmão Johann Maximilian zum Jüngen, patrícios de Frankfurt Genealogia (, composto de γενεά- "genea-", origem, nascimento, e -λογία "-logia", estudo, conhecimento"Genealogy". Online Etymological Dictionary, 19/03/2016) é uma ciência auxiliar da História que estuda a origem, a evolução e a dispersão das famílias, assim como dos seus respectivos nomes, sobrenomes ou apelidos,Silva, José Pereira da. "Os Sobrenomes da Antroponímia e na Genealogia". In: Revista Philologus, 2019; 25 (75) e as suas estirpes (linhagens)"Genealogia". Vocabolario Treccani, acesso em 03/12/2020 para traçar um mapa das ligações biológicas e de afinidade entre diferentes indivíduos e gerações."Genealogy or Family History? What's the Difference?" Society of Genealogists, acesso em 10/08/2013 Os genealogistas usam registros históricos, entrevistas orais, análise genética e fontes secundárias para construir árvores genealógicas, tratando das ligações de parentesco tanto em sentido vertical (dos ancestrais para os descendentes ou vice-versa) quanto em sentido horizontal (dos irmãos e primos entre si).
Em tempos passados era praticada exclusivamente pela elite,"Genealogia". Enciclopedia Treccani, acesso em 03/12/2020 declarando parentescos a fim de consolidar o prestígio das famílias e legitimar suas pretensões ao poder, mas não havia preocupação em provar as ligações documentalmente ou preservar uma memória familiar no sentido moderno, em geral misturando indiscriminadamente mitos, lendas e fatos. A partir de fins do século XVII, passou a ser investigada de maneira científica, mas manipulações ideológicas persistem até hoje. A genealogia tem associações profundas com uma ampla variedade de políticas e ideologias raciais, sociais, culturais e nacionalistas, e é um elemento fundamental na estruturação, coesão e funcionamento das sociedades.
Sua relevância em múltiplos níveis justifica a vasta bibliografia existente sobre o tema. Uma pesquisa genealógica consistente, em particular quando vai remontando a séculos recuados, está além da capacidade dos leigos, exigindo conhecimento em diversas disciplinas especializadas, como a paleografia, diplomática, sociologia, história, filologia, onomástica e outras, além de trabalhar numa metodologia científica. Contudo, na contemporaneidade a pesquisa genealógica se tornou uma atividade extremamente popular, que tem provocado um impacto importante nas formas de entendimento do passado e das origens pela população em geral, fenômeno que tem atraído a atenção dos especialistas pelos problemas que a atividade leiga desencadeia no sentido de uma divulgação acrítica da história e de informações que muitas vezes são falsas ou distorcidas.
Definição e objetivos alt=|miniaturadaimagem|Árvore genealógica com os graus de parentesco.
A genealogia se ocupa da identificação da ligação biológica entre diferentes indivíduos e da reconstituição da sequência ordenada de gerações dentro de um grupo familiar, buscando determinar as origens, a rede de parentescos e a evolução cronológica da família. Numa perspectiva mais abrangente, onde se associa à prosopografia, à história, às ciências humanas e sociais, procura reconstituir o perfil e a história política, econômica e cultural da família e seus integrantes, suas associações com outros grupos e seu papel na sociedade.Mena-Chalco, Jesús. "Genealogia acadêmica: Um novo olhar sobre impacto acadêmico de pesquisadores". In: I Seminário de Avaliação de Políticas de CT&I. Brasília: Sede do CNPq, 12-13/09/2018 No âmbito da história, a genealogia está centrada no estudo das famílias, dando subsídios para e sendo subsidiada por outras ciências, como a sociologia, a economia, a história da arte, a genética, a medicina ou o direito.Schaeffer, Enrico. "Noções de Genealogia Científica". In: Revista de História, 1960 (44)Zsindely, Sándor. "From vanity fair to scientific research: The place of genealogy in contemporary science. A scientometric approach". In: Scientometrics, 2008; 77 (1):197–206
O terno também é empregado em outras áreas de estudo significando a pesquisa das origens, ligações e desdobramentos de determinada ciência, corrente, ideologia, ideia, moda ou tendência, de outros seres vivos, ou mesmo de objetos e invenções, como por exemplo a genealogia da moral, a genealogia da matemática, a genealogia da filosofia de Kant, a genealogia do cão doméstico, a genealogia do violino.Zambenedetti, Gustavo & Silva, Rosane Azevedo Neves da. "Cartografia e genealogia: aproximações possíveis para a pesquisa em psicologia social". In: Psicologia & Sociedade, 2011; 23 (3)
Fontes e dificuldades thumb|Árvore genealógica de Jesus, iluminura no Hortus Deliciarum.
A genealogia é reconstituída através de documentos escritos, como atos legais (certidões de nascimento, casamento e óbito, contratos, inventários, testamentos, etc.), bibliografia histórica, crônicas, arquivos cívicos, familiares, judiciais, militares e religiosos, correspondência, inscrições, lápides, imprensa e outros, mas também pode se valer de tradições orais e imagens. A genealogia pode ser ascendente, partindo do sujeito presente e retrocedendo pelas gerações antepassadas, ou descendente, partindo do fundador da família e acompanhando a evolução da sua posteridade.
Um dos principais problemas da pesquisa genealógica é assegurar a veracidade das informações transmitidas pelos documentos e tradições. A oralidade em geral é uma fonte pouco confiável, sendo particularmente propensa a distorções e imprecisões, mas usualmente conserva uma parte de verdade. Documentos podem conter erros inadvertidos, e podem conter informações deliberadamente falseadas. Falsificação de fontes e de árvores genealógicas foram e ainda são expedientes comuns. A documentação pode atestar uma filiação oficialmente reconhecida, mas também pode dissimular uma adoção secreta ou o fruto de um adultério. Quando o pesquisador imagina estar seguindo a linha do sangue, pode estar seguindo uma linha que é apenas cartorial, e quanto mais se recua no tempo, mais difícil é descobrir se esses desvios ocorreram ou não.Bellis M. A. et al. "Measuring paternal discrepancy and its public health consequences". In: Journal of Epidemiology and Community Health, 2005; 59 (9): 749–754 Estimativas precisas são impossíveis, mas calcula-se que na população europeia exista uma taxa média de até 4,5% de falsa paternidade.King, Turi E. & Jobling, Mark A. "Founders, Drift, and Infidelity: The Relationship between Y Chromosome Diversity and Patrilineal Surnames". In: Molecular Biology and Evolution, 2009; 26 (5):1093–1102Gilding, Michael. "Rampant misattributed paternity: the creation of an urban myth". In: People and Place, 2005; 13 (12):1-11
Determinar a veracidade nem sempre é possível, e por isso a genealogia é uma ciência que tem de lidar com grandes doses de incerteza. Mesmo quando se sabe que as informações são inverossímeis, elas podem conter elementos verdadeiros e podem apontar para pistas que levem ao descobrimento da verdade. Podem auxiliar a diminuir as dúvidas a comparação entre documentos diferentes tratando do mesmo tópico, a análise do perfil prosopográfico do grupo familiar, a análise científica da documentação na tentativa de descobrir falsificações, comparação do material genético dos alegados membros da família, etc., o que requer conhecimento especializado e grande experiência, e geralmente tem um alto custo. A genealogia a todo momento envolve o trabalho com documentos antigos, muitas vezes em línguas diferentes ou em dialetos já poucos compreensíveis, em caligrafias difíceis, ou com expressões de significado múltiplo ou dúbio, elementos cuja decifração e interpretação correta estão além do alcance de amadores.Serafinn, Lynn. "How the wrong information ends up in your family tree". Trentino Genealogy, 30/04/2017 thumb|left|Árvore genealógica da família Chouteau
Outro problema relevante é a dificuldade de traçar a genealogia europeia para trás da Idade Moderna, primeiro pela crescente escassez de fontes, e segundo pela inconsistência nas maneiras de denominação das pessoas, que não usavam sobrenomes antes do século XI; no século XVI a adoção de sobrenomes ainda não se generalizara, e a inconsistência na onomástica se perpetuaria em certas regiões até hoje. Por muito tempo as pessoas foram denominadas pela sua ocupação, pelo nome do pai, pelo lugar de origem ou por algum apelido, como por exemplo João Ferreiro, Antônio de Batista [filho de Batista], Pedro de Florença ou José o Velho, ou de maneiras arbitrárias. Muitos desses apelativos acabaram se fixando como sobrenomes."Surname". In: Encyclopædia Britannica online, consulta em 10/11/2018Instituto Genealógico de Santa Catarina. Genealogia para Iniciantes. Em outras culturas, porém, como a chinesa, os sobrenomes se fixaram muito mais cedo, mas em muitas outras nunca foram usados.
Mesmo depois de estabelecidos, os sobrenomes podem mudar por várias razões, como para evitar perseguições políticas, para ocultar uma origem indigna, por tradições locais, por apadrinhamentos, por erros de registro que se perpetuam nas gerações sucessivas. Costumes locais podem influir muito. A tradição portuguesa, por exemplo, foi muito livre quanto à adoção de sobrenomes, podendo ocorrer vários na mesma célula familiar, usados sem continuidade consistente, e isso se reproduziu no Brasil até a padronização imposta no século XX. Além desses problemas, a existência de muita homonímia frequentemente leva à confusão entre indivíduos diferentes.Ferreira, Sérgio Luiz. "Transmissão de sobrenomes entre luso-brasileiros: uma questão de classe". In: Boletim de História Demográfica, 2005; XII (36)Hameister, Martha Daisson. "Uma contribuição ao estudo da onomástica no período colonial: os nomes e o povoamento do Extremo Sul da Colônia (Continente do Rio Grande de São Pedro, 1735-c. 1777)". In: Doré, A. & Santos, A. C. (eds.). Temas setecentistas: governos e populações no Império Português. UFPR-SCHLA/Fundação Araucária, 2008, pp. 459-478
Tampouco a posse de um mesmo sobrenome é garantia de parentesco; de fato, a homonímia entre famílias não consanguíneas é extremamente comum. Inúmeros sobrenomes familiares no Ocidente se originaram de alcunhas, de patronímicos, de nomes de coisas, animais, ofícios, santos ou lugares que tinham uso generalizado, a exemplo de Ferreira (do ofício de ferreiro), Peixe (animal), Carneiro (animal), Pilar (objeto), Barros (material), Cardoso (da planta do cardo), Castro (castelo), Moreira (da árvore amoreira), Alves (antigamente Álvares, significando "filho de Álvaro"), Fernandes ("filho de Fernando"), Santana (Santa Ana), Serra (ferramenta), Carreiro (caminho), Cunha (ferramenta), e muitos outros, todos de larga difusão no mundo lusófono, pertencentes cada um a numerosas famílias de origens biológicas, cronológicas e geográficas inteiramente diferentes.Nunes, Naidea Nunes. "Antroponímia primitiva da Madeira (séculos XV e XVI)". In: Franco, José Eduardo & Trindade, Cristina (coords.). Aprender Madeira – Dicionário Enciclopédico da Madeira. Agência de Promoção da Cultura Atlântica, 2015"A origem dos 50 sobrenomes mais comuns do Brasil". Revista Superinteressante, 04/08/2017
Política e sociedade thumb|Iluminura representando o deus Odin e seus filhos, um frequente ponto de partida das antigas genealogias das casas reais nórdicas.