thumb|right|300px|Mapa da Província de Goiás em 1830.

A história de Goiás se inicia no fim do século XVI, quando as explorações portuguesas já não se limitavam à região do litoral. A caça ao índio, a busca por riquezas minerais e a evangelização foram os principais responsáveis pela exploração do centro-oeste. O desbravamento inicial da região deve-se aos missionários do norte e aos bandeirantes do sul. Já no século XVII, em função da catequese empreendida pelos jesuítas na Amazônia, missionários sob a chefia de frei Cristóvão de Lisboa percorrem a área do Tocantins, onde fundam missões religiosas em 1625. As origens históricas de Goiás estão diretamente ligadas à corrida do ouro empreendida pelos bandeirantes paulistas, em razão da qual o território goiano é esquadrinhado ao longo do século XVIII.

Período Pré-Colonial

Embora existam estudos propondo que a chegada dos primeiros humanos às Américas tenha ocorrido em um período bem mais antigo do que se acreditava anteriormente,Ferramenta recua ocupação da América pesquisas desenvolvidas no município de Serranópolis indicam que a ocupação no atual território goiano tenha iniciado há 11 mil anos. Nesse espaço estima-se a ocupação de 500 gerações de humanos no decorrer de três grandes fases de ocupação. A fase Paranaíba, composta por grupos de caçadores e um clima mais frio e úmido que o atual. A fase Serranópolis, mais quente e composta por grupos humanos que praticavam a caça generalizada, coleta, pesca e agricultura incipiente. Por fim, a fase Jataí, a partir do ano 1000 d.C., na qual se identifica sedentarismo incipiente com o cultivo de milho, algodão e fumo, com grupos estabelecidos em aldeias até o início do século XVIII.Schmitz, P. I. Contribuiciones a la Prehistoria de Brasil. Instituto Anchietano de Pesquisas, São Leopoldo-RS, 1981.

Há também novos estudos e pesquisas que abordam a posição do centro-oeste brasileiro como área de confluência para deslocamento relacionado a grupos ceramistas e também as significativas influências desses grupos tanto na origem de outros grupos como na história de seu desenvolvimento cultural. Diversos são os sítios arqueológicos encontrados no estado de Goiás que contêm registros que nos permitem entender as particularidades étnicas relacionados a esses grupos. A posição dos 47 sítios que estão sendo escavados no estado de Goiás também remonta às relações sociais desses grupos e também as distribuições geográficas dos mesmos. A cerâmica, o principal vestígio arqueológico, foi criada sobre a necessidade de armazenar alimentos, águas e sementes, e a partir da análise das funções desses objetos conseguimos entender hábitos de um determinado grupo. Os diversos modelos e formas de vasilhames nos permitem identificar os diversos grupos ceramistas e as características singulares destes na produção da cerâmica.

Os grupos ceramistas se posicionavam geograficamente de forma bastante plural com distintas áreas de ocupação, fluxos migratórios e características. A produção da cerâmica é anterior a chegada dos portugueses e teve um papel fundamental na formação cultural dos povos indígenas do estado de Goiás. As peças encontradas expressam atos do cotidiano religioso, artístico entre outras práticas, o que nos dá a ideia clara de que funcionam como forma de afirmação da cultural popular e também oral da região.

Os sítios arqueológicos ceramistas em Goiás podem ser assimilados a duas tradições principais, a Aratu e Uru, porém entre esses grupos há significativas diferenças. Podemos entender como essas diferenças se relacionam ao fluxo migratório, de bens e pessoas a partir da análise do tipo de cerâmica presente naquele local. Nos sítios de tradição Aratu podemos encontrar objetos e artefatos de outras tribos, portanto houve um fluxo de informação. Nesses sítios encontramos vestígios, principalmente, de tradição tupi-guarani.

Os estudos a cerca do pré-colonialismo são fundamentais para entendermos que existiam dinâmicas internas e relações sociais regionais antes da chegada da população europeia. Novas pesquisas antropológicas e arqueológicas são capazes de identificar cada vez mais a riqueza dos povos nativos e entender a sua sociedade não mais como primitiva e inferior, mas sim dotada de complexidade.

Período Colonial thumb|300px|Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, Construída em 1728 em Pirenópolis. O maior e mais antigo patrimônio histórico e eclesiástico, e maior exemplo barroco de Goiás. O atual território goiano só começa a ganhar algum contorno de interesse quando da descoberta dos primeiros veios auríferos em Minas Gerais, no final do século XVIII. Os paulistas Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, João Leite e Domingos Rodrigues do Prado, em troca da isenção de impostos pela passagem dos rios da região, por três gerações, e outras vantagens, saem de São Paulo em 1722 para descobrir as abundantes lavras de Goiás em 1725. Com o objetivo de novas descobertas, Bartolomeu Bueno retorna ao território goiano em 1726 quando é levantada a primeira povoação goiana, o Arraial da Barra, na confluência dos rios Vermelho e Bugre. Achadas depois as minas de Vila Boa, em meados de 1727, para aí se passarem quase todos os habitantes da Barra e levantarem o arraial de N. S. de Sant'Ana e a respectiva capela no local em que hoje se ergue a futura matriz.

As descobertas auríferas se sucedem, próximas à Barra: além de Santana, origem de Vila Boa (1727), São João Batista (Ferreiro), Ouro Fino, Anta, Santa Rita e Tesouras. Na região dos Parque dos Pireneus e junto ao Rio das Almas as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte (1727), atual Pirenópolis. As incursões se aprofundam pelo território e a zona do Tocantins é explorada, vindo a serem descobertas as minas mais produtivas de Goiás: Maranhão (1730), Água Quente (1732), Traíras (1735) e Cachoeira (1736).

Antes disso, Domingos Rodrigues do Prado havia descoberto minas quase tão ricas quanto as do Tocantins em Crixás (1734). Ao final da década de 1730 se descobrem jazidas na região montanhosa localizada entre o Tocantins e a Bahia: São Luís (Natividade) em 1734, São Félix (1736), Pontal, Porto Real (1738), Arraias, Cavalcanti (1740) e Pilar. E entre 1740 e 1750, Carmo (1746), Santa Luzia, Conceição, Bonfim, Caldas e Cocai (1749). Em paralelo à descoberta de veios auríferos por toda capitania, houve uma introdução maciça de mão de obra Africana. Consequentemente, como em outras capitanias, houve fugas e formação de quilombos.

A formação dos quilombos Durante o século XVII e início do XVIII, a região de Goiás é ainda uma ponte de passagem para a capitania do Mato Grosso, para ocupação e mineração das cercanias de Cuiabá e defesa da fronteira contra a expansão hispânica. Nesse contexto, Goiás encontra-se em “isolamento geográfico”, tendo em vista que apesar de relativamente conhecido o território, não haviam arraiais, “facilitando assim a vinda de escravos fugitivos de outras regiões e a consequente formação de quilombos” (SILVA, 1998, p. 282)

A formação de arraiais e exploração do ouro fomentaram a concentração de escravos na capitania, como mão de obra para mineração, extração rural, serviços domésticos e escravos de ganhos. Essa exploração da força de trabalho cativa em condições desumanas resultava em fugas, como demonstra Palacín, “A brutalidade dessa vida, cercando-o por todos os lados, é o que empurrava o escravo a fugir para os quilombos.” (PALACIN, 1979) Na mineração, foco de trabalho em Goiás no século XVIII observamos que “os maus-tratos e a brutalidade nas minas e nos engenhos levavam os escravos à revolta e, se bem sucedidos, a formar quilombos nas montanhas vizinhas” (SILVA, 1998).

Contrariando a visão de passividade do negro no cenário escravista, podemos salientar formas de resistência do “dia a dia”, como “roubos, sarcasmos, sabotagens, suicídios, abortos”, etc. Mais radicalmente temos a formação dos quilombos, onde se veem condicionados “a fugir para os matos onde fizeram roças de subsistência, surgindo assim uma espécie de melhora, lenta mas progressiva no “status” social.” A fuga para territórios interiores da capitania fazia com que esses negros acabassem por se deparar com indígenas, vezes resultando em combates, vezes se aliando, geralmente quando os negros tinham superioridade numérica.

Havia um clima de tensão na sociedade do século XVIII, pois a formação de quilombos era, de fato, um elemento que gerava um sentimento de medo na sociedade branca, que se via literalmente ameaçada diante de tantos escravos fugidos. Os embates entre negros e brancos são mais bem percebidos ao analisarmos o caso de Pilar, único quilombo com registro de destaque na historiografia brasileira, onde houve uma verdadeira “conjuração dos negros de Pilar”. Essa comunidade quilombola chamou tanta atenção por seus ataques violentos que o próprio governador-general e governador da capitania, Dom Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos, foi ao local para analisar a situação. Para tanto, radicalizou a busca por escravos escravos fugidos, ordenando plena liberdade de ataque aos quilombos da região, mandando mesmo que se matassem "todos os quilombolas que acaso resistissem, como em Minas Gerais se praticava", restando aos assassinos trazer como prova da efetivação do ato os muitos pares de orelhas dos negros mortos, como, aliás, se praticara no Sertão da Farinha Podre, caminho entre São Paulo e Goiás. (SILVA, 1998)

A situação chegou a tal ponto que “o governo [...] não conseguia mais distinguir o escravo quilombola do escravo de setor urbano, também revoltado e que mais das vezes auxiliava os escravos aquilombados”. Esses fatores deram condição para a conjuração de negros de Pilar, uma onda de revolta por parte dos negros quilombolas: "aproveitavam-se até da festa religiosa na articulação contra o impiedoso sistema escravista da Colônia. Por isso, adquiriam pólvora e chumbo; aliavam-se os de setor rural aos de setor urbano; assaltavam, de dia e de noite; derrubavam mastros, aumentando a 'síndrome do medo' nas autoridades." (SILVA, 1998).

Como fator preponderante para essa situação estava a grande quantidade de quilombos em Goiás, dizendo-se até que “não havia arraial sem a ‘sombra do seu quilombo’”. Isso nos serve de base para entendermos melhor o período colonial goiano, a formação dos quilombos, os fatores para sua formação e os embates entre as polícias e os fugitivos. Eis uma lista com os principais quilombos de Goiás:

Quilombo do Ambrósio; Quilombo do arraial de Três Barras; Quilombos próximos da Vila Boa; Quilombo do Arraial de Tesouras; Quilombo do Vale do Paranã; Quilombo do arraial de Jaraguá; Quilombo do arraial de Pilar; Quilombo do Muquém; Quilombo do Papuão; Quilombo do “acaba vida”; Quilombo do Corumbá de Goiás; Quilombo do Mesquita; Quilombo do Meia Ponte; Quilombo do Santa Rita do Araguaia; Remanescente do Quilombo do Cedro; Remanescente do Quilombo de Calunga.

Administração No período que se estende de 1728 a 1748, a administração política das minas era regida pela provisão real de 1728, que criou a Superintendência das minas de Goiás. O primeiro superintendente das minas foi Bartolomeu Bueno da Silva e o primeiro guarda-mor seu genro, João Leite Ortiz. O governo teria sua sede em Meia Ponte, atual Pirenópolis, mas houve desavenças entre Meia Ponte e a Capitania de São Paulo. Então Vila Boa; que posteriormente seria desmembrado em dois distritos : Meia Ponte e Santana. Posteriormente, em 1733, o ouvidor de São Paulo, Gregório Dias da Silva, foi designado para o cargo de superintendente-geral das minas de Goiás, restando a Bartolomeu Bueno da Silva o título honorífico de capitão-mor.