Budismo é uma religião, filosofia e estilo de vida baseada nos ensinamentos de Sidarta Gautama, conhecido como o Buda. De caráter filosófico e religioso é considerado uma fé não teísta, pois o conceito budista de “Deus” é diferente do existente nas religiões ocidentais, onde um único ser supremo, divino, eterno, celestial e todo-poderoso é criador de todas as coisas.

Entre as suas maiores linhas de pensamento, o controle dos eventos da Terra e do universo está nas mãos de Devas, de Bodisatvas, dos próprios seres humanos, dos espíritos famintos e de seres dos infernos (ou Naraka, pois a visão budista sobre o inferno não tem semelhança ao conceito ocidental). O Budismo surgiu na Índia Antiga como uma tradição ascética entre os séculos VI e IV a.C. É a quarta maior religião do mundo, com mais de 520 milhões de seguidores espalhados pelos continentes (cerca de 7% a 8% da população global),"Christianity 2015: Religious Diversity and Personal Contact" (PDF). gordonconwell.edu. Janeiro de 2015. Arquivado do original em 25 de maio de 2017. conhecidos como budistas. No Brasil, segundo no censo de 2010, residem aproximadamente 245 mil budistas.Magalhães, Thamiris. "O budismo étnico está gradativamente envelhecendo". IHU Online. 27 de agosto de 2012. Em Portugal, há cerca de 64 mil budistas."Table: Religious Composition by Country". Global Religious Landscape 2010. Pew Research.

Como expresso nas Quatro Nobres Verdades do Buda, a meta do budismo é a superação do sofrimento (dukkha) causado pelo desejo e pela ignorância em relação à verdadeira natureza da realidade, formada pela impermanência e não existência de fenômenos condicionados (saṅkhāra) mentais permanentes, negando que eles tenham uma realidade substancial independente e que sejam um eu/self (anatta).

O budismo abrange diversas tradições, crenças e práticas espirituais baseadas nos ensinamentos do Buda e em suas interpretações. Os dois maiores ramos do budismo são o Theravāda ("Escola dos Anciões", em páli) e o Mahāyāna ("O Grande Veículo" em sânscrito). A maioria das tradições budistas se concentram na superação do eu individual através da conquista do Nirvana ou da busca do caminho de Buda, o que leva ao fim do ciclo de mortes e renascimentos.Harvey, Peter (2013). An Introduction to Buddhism: Teachings, History and Practices. Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-67674-8.Gethin, Rupert (1998). Foundations of Buddhism. Oxford: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-289223-2Powers, John (2007). Introduction to Tibetan Buddhism. Ithaca, NY: Snow Lion Publications. ISBN 978-1-55939-282-2. As escolas do budismo divergem em suas interpretações sobre a natureza exata do caminho para a libertação, a importância e a canonicidade dos textos sagrados budistas e, especialmente, seus ensinamentos e suas práticas.Robinson et al., Religião Budista (Buddhist Religions), pág. xx; Filosofia Oriental e Ocidental, vol. 54, ps 269f; Williams, Budismo Maaiana, Routledge, 1st ed., 1989, pp. 275f (2nd ed., 2008, p. 266) Entretanto, as bases de todas as tradições e práticas são as Três Joias: o Buda (o mestre), o Dharma (os ensinamentos baseados nas leis do universo) e a Sangha (a comunidade budista). Encontrar refúgio espiritual nas Três Joias ou Três Tesouros é, em geral, o que distingue um budista de um não-budista. Outras práticas incluem a renúncia à vida secular para se tornar um monge (bhikkhu) ou monja (bhikkhuni), a meditação e o cultivo das paramitas.

O budismo theravada é amplamente seguido no Sri Lanka e em países do Sudeste Asiático, como Camboja, Laos, Mianmar e Tailândia. A tradição mahayana, que inclui escolas como o Zen (Chan), a Terra Pura, o Nichiren, o Shingon e o Tendai (Tiantai), é mais difundida nos países do Leste Asiático, tais como China, Coreia, Japão, Singapura, Taiwan e Vietnã. O vajrayana, um conjunto de ensinamentos surgidos nas comunidades tântricas da Índia, pode ser visto tanto como uma escola separada do budismo quanto como uma tradição esotérica do budismo mahayana. Seu maior expoente, o budismo tibetano, é praticado na região dos Himalaias (Butão, Nepal, Tibete e partes da Índia), na Mongólia e nas repúblicas de Buriácia, Calmúquia e Tuva da Federação Russa. Na Índia, a tradição mais seguida é a navayana ("Novo Veículo" em sânscrito), um movimento neo-budista fundado por B.R. Ambedkar, que rejeitou as doutrinas originais das tradições theravada e mahayana para interpretar o budismo sob um viés de luta de classes. Ele inspirou milhares de dálites, membros da casta inferior no hinduísmo, a se converterem ao budismo.

A vida de Buda

thumb|upright|A grande estátua do Buda Amitaba em Kamakura, no Japão

De acordo com a narrativa convencional, o Buda nasceu em Lumbini (hoje, patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) por volta do ano 566 a.C. e cresceu em Capilvasto:Darmapada: a doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16. ambos, atuais localidades nepalesas.TEZUKA, Osamu. Buda - Vol. 1 - No Reino de Kapilavastu. Conrad Editora. ISBN 85-7616-079-X. Logo após o nascimento de Sidarta, um astrólogo visitou o pai do jovem príncipe, Suddhodana, e profetizou que Sidarta ou iria se tornar um grande rei, ou renunciaria ao mundo material para se tornar um homem santo se, porventura, visse a vida fora das paredes do palácio.

O rei Suddhodana estava determinado a ver o seu filho se tornar um rei e, assim, impediu que ele saísse do palácio. Mas, aos 29 anos, apesar dos esforços de seu pai, Sidarta se aventurou por além do palácio diversas vezes. Em uma série de encontros (em locais conhecidos pela cultura budista como "quatro pontos"),|titulo=Buddhism |trabalho=Barbara O'Brien |data= |acessodata=8 de Fevereiro de 2010}} ele soube do sofrimento das pessoas comuns, encontrando um homem velho, um outro doente, um cadáver e, finalmente, um asceta sadhu, representando a busca espiritual. Essas experiências levaram Gautama, finalmente, a abandonar a vida material e ir em busca de uma vida espiritual.

Sidarta Gautama estudou sob diferentes mestres e desencantou-se com o resultado alcançado pelo que ensinavam. Chegou a praticar ascese rígida, como jejum prolongado, restrição da respiração, e outras formas de exposição a dor, muito comuns naquele tempo na Índia, e quase morreu ao longo do processo. Mas houve um episódio no qual uma jovem lhe ofereceu comida e ele aceitouː isso marcou sua renúncia a tais práticas. Concluiu que as práticas ascéticas extremas não traziam os resultados que buscava. Deduziu, então, que as práticas eram prejudiciais aos praticantes. Ele abandonou o ascetismo, concentrando-se na meditação anapanasati, através da qual descobriu o que hoje os budistas chamam de "caminho do meio": um caminho que não passa pela luxúria e pelos prazeres sensuais, mas que também não passa pelas práticas de mortificação do corpo. Em outras palavras, o caminho do meio não seria o caminho do apego a qualquer coisa, nem também o caminho da negação ou aversão a qualquer coisa, e sim uma terceira via.

Quando tinha 35 anos de idade, Sidarta sentou-se embaixo de uma figueira-dos-pagodes (Ficus religiosa)FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.776 hoje conhecida como árvore de Bodhi, localizada em Bodh Gaya, na Índia, e prometeu não sair dali até conseguir atingir a iluminação espiritual.

A lenda diz que Sidarta conheceu a dúvida sobre o sucesso de seus objetivos ao ser confrontado por um demônio chamado Mara, que simboliza o mundo das aparências, a tentação, comparado ao papel de Satanás no cristianismo, e muitas vezes representado por uma cobra naja. Mara teria oferecido todos os tipos de prazeres e tentações a Sidarta, que, implacavelmente, repeliu Mara. Vencido Mara, Sidarta acordou para a Verdade, a Verdade da origem, da cessação e do caminho que levava ao fim do sofrimento, e se iluminou. Assim, por volta dos quarenta anos, Sidarta se transformou no Buda, o Iluminado.

Logo, atraiu um grupo de seguidores e instituiu uma ordem monástica. A partir de então, passou seus dias ensinando o darma, viajando por toda a parte nordeste do subcontinente indiano. Ele sempre enfatizou que não era um deus e que a capacidade de se tornar um buda pertencia ao ser humano. Morreu aos oitenta anos de idade, em 483 a.C., em Kushinagar, na Índia.

Os estudiosos têm diversas hipóteses em relação às afirmações sobre a história e os fatos da vida do Buda histórico. A maioria aceita que ele viveu, ensinou e fundou uma ordem monástica, mas não aceita de forma consistente os detalhes de sua biografia. Segundo o escritor Michael Carrithers, em seu livro O Buda, o esboço de uma vida tem que ser verdadeiro: o nascimento, a maturidade, a renúncia, a busca, o despertar e a libertação, o ensino e a morte.CARRITHERS, Michael. The Buda. Estados Unidos: Oxford University Press, 1984, pág. 10. ISBN 0-19-287589-2.

Ao escrever uma biografia sobre Buda, Karen Armstrong disse: "É obviamente difícil, portanto, escrever uma biografia de Buda, atendendo aos critérios modernos, porque temos muito pouca informação que pode ser considerada 'histórica'... mas podemos estar razoavelmente confiantes, pois Siddhartta Gautama realmente existiu e os seus discípulos preservam a sua memória, sua vida e seus ensinamentos".ARMSTRONG, Karen (28 de Setembro de 2004). Buddha. Penguin Press. p. XII. ISBN 0-14-303436-7.

Conceitos budistas A vida e o mundo Carma: lei de causa e efeito

thumb|upright|Tradicional thangka do budismo tibetano alusivo à "Roda da Vida", com seus seis reinos

No budismo, o Carma (do sânscrito कर्म, transl. karmam, e em pali, kamma, "ação") é a força de samsara sobre alguém. Boas ações (páli: kusala), e/ou ações ruins (páli: akisala) geram "sementes" na mente, que virão a aflorar nesta vida ou em um renascimento subsequente. Com o objetivo de cultivar as ações positivas, o sila é um conceito importante do budismo, geralmente, traduzido como "virtude", "boa conduta", "moral" e "preceito".

O carma, na filosofia budista, refere-se especificamente a essas ações (do corpo, da fala e da mente) que brotam da intenção mental (páli: cetana)HARVEY, Peter. An Introduction to Buddhism: Teachings, History and Practices (Introduction to Religion). Cambridge University Press, 1990. ISBN 0-521-31333-3. / .2: Página 56; .3: Página 57; .4: Página 58; .5: Página 59; .6: Página 60; e que geram consequências (frutos) e/ou resultados (vipaka). Cada vez que uma pessoa age, há alguma qualidade de intenção em sua mente e essa intenção muitas vezes não é demonstrada pelo seu exterior, mas está em seu interior e determinará os efeitos dela decorrentes.

No budismo Teravada, não pode haver salvação divina ou perdão de um carma, uma vez que é um processo puramente impessoal que faz parte do Universo. Outras escolas, como a Maaiana, porém, têm opiniões diferentes. Por exemplo, os textos dos sutras (como o Sutra do Lótus, Sutra de Angulimala e Sutra do Nirvana) afirmam que, recitando ou simplesmente ouvindo seus textos, as pessoas podem expurgar grandes carmas negativos. Da mesma forma, outras escolas, Vajrayana por exemplo, incentivam a prática dos mantras como meio de cortar um carma negativo.PAYNE, Richard. Tantric Buddhism in East Asia. Wisdom Publications, 2005. ISBN 0-86171-487-3.

Renascimento

Renascimento refere-se a um processo pelo qual os seres passam por uma sucessão de vidas como uma das muitas formas possíveis de senciência. Entretanto, o budismo, natural da Índia, rejeita conceitos de "autoestima" permanente ou "mente imutável", eterna, como é chamada no cristianismo e até mesmo no hinduísmo, pois, no budismo, existe a doutrina do anatta, sobre a inexistência de um "eu" permanente e imutável.