thumb|200px|Questo Libro e da Imparare Giocare a Scachi, o tratado de Damiano de Odemira, publicado em 1512 A história do xadrez tem origem controversa, mas é possível afirmar que o jogo foi inventado na Ásia. Atualmente, a versão amplamente difundida é a de que teria surgido na Índia com o nome de Chaturanga e dali se espalhou para a China, Rússia, Pérsia e Europa, onde se estabeleceram as regras atuais. Pesquisas recentes indicam uma possível origem na China do , na região entre o Uzbequistão e a Pérsia antiga (atual Irã).
Um dos primeiros registros literários sobre o xadrez é o poema persa Karnamak escrito no , e, a partir desta época, sua evolução é melhor documentada e amplamente aceita no meio acadêmico. Após a conquista da Pérsia pelos árabes, estes assimilaram o jogo e o difundiram no ocidente levando-o ao norte da África e Europa e até as atuais Espanha e Itália por volta do , de onde se expandiu para o resto do continente chegando até a região da Escandinávia e Islândia. No oriente, o xadrez se expandiu a partir da sua versão chinesa, o Xiangqi, para a Coreia e Japão no .
Por volta do o jogo estava amplamente difundido pela Europa e, dentre as variantes existentes do jogo, a europeia foi a que mais se destacou devido à rapidez proporcionada pela inclusão da Dama e do Bispo. Apesar de já existir literatura anterior sobre o xadrez na época, foi neste período que começaram a surgir as primeiras análises de aberturas em virtude das novas possibilidades do jogo.
As partidas começaram a ser registradas com maior frequência e mais estudos da teoria do xadrez foram publicados. No foram fundados os primeiros clubes para a prática do xadrez e federações esportivas na Europa e, em decorrência do grande número de pequenos torneios acontecendo por todo o continente, em 1851 foi realizado o primeiro torneio internacional em Londres. A popularidade das competições internacionais levou à criação do título de campeão mundial, vencido por Wilhelm Steinitz em 1886, e, em 1924, foi fundada a Federação Internacional de Xadrez (FIDE), em Paris, que organizou a primeira Olimpíada de Xadrez e o mundial feminino, vencido por Vera Menchik.
Com o avanço da computação a partir da década de 1950, começam a surgir os primeiros programas que jogam xadrez, que acompanharam a evolução do processamento de informação e introduziram o jogo na era moderna com competições on-line e acesso facilitado às análises das partidas.
Origem A origem do xadrez ainda é motivo de debate entre os historiadores do enxadrismo, mas a teoria mais difundida é que tenha sido criado na Índia, durante o Império Gupta por volta do . Esta teoria é atestada pelos primeiros registros literários persas e pela análise da etimologia das palavras empregadas no jogo e sua evolução conjunta com o xadrez.
Entretanto, teorias alternativas propõem que o xadrez tenha sido criado num período anterior, em diferentes localidades como China, Irã e Afeganistão. Estas versões exploram evidências arqueológicas, militares literárias e recursos da filogenética para contestar a teoria indiana. As similaridades entre o chaturanga e o Xiangqi, considerado a versão chinesa do xadrez, são exploradas indicando que estes jogos poderiam ter se influenciado mutuamente através do contato entre as civilizações através da rota da seda, assimilando alguns aspectos de suas regras e formando versões híbridas, o que poderia remontar à Grécia Antiga e à conquista de Alexandre, o Grande, sobre a Ásia Menor no Existe a perspectiva de que, no futuro, novas análises da literatura existente e descoberta de mais artefatos arqueológicos na Índia e China possibilitem esclarecer em definitivo a origem do xadrez.
Índia
thumb|Críxena e Radha jogando chaturanga em um tabuleiro do Ashtāpada
Segundo Harold Murray, a análise filológica conecta o jogo com clareza à palavra chaturanga, que designava as quatro partes do exército indiano - bigas, elefantes, cavalaria e infantaria — desde o Inicialmente, o jogo era praticado sobre o tabuleiro do Ashtāpada, um outro jogo cujo significado foi estabelecido por volta do e sugeria um objeto familiar.
O chaturanga é considerado o jogo mais antigo com características essenciais da definição do jogo encontradas nas versões posteriores - dois jogadores se enfrentando em um arranjo inicial e simétrico das peças, com peças de movimentos diferentes e a vitória dependendo da captura de uma única peça. Não está claro se o chaturanga utilizava dados para designar seus movimentos, embora a grande maioria dos jogos indianos os utilizasse.
Uma das lendas a respeito da origem indiana do xadrez, contada no poema persa Chatrang nâmag (c. ) e no livro persa Épica dos Reis (c. ) relata que um rajá indiano enviou seu vizir Tâtarîtos à corte de Cosroes I Anôšag-ruwân, xá da Pérsia, com tributos e um desafio para descobrir as regras do chaturanga. Cosroes pediu por quatro dias para resolver o enigma, tendo obtido êxito no tempo previsto.
O livro Shāh-nāmeh descreve ainda mais duas lendas a respeito da origem do xadrez. A primeira conta a história do brâmane Sessa ibn Daher, que criou o jogo a pedido de um rajá indiano e, como recompensa, pedira um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dobrando progressivamente a quantidade a cada nova casa. A outra história conta que o jogo foi inventado a pedido da mãe do rei Gav para provar que este não havia provocado a morte do irmão Talhend durante uma batalha, reconstituída sobre o tabuleiro.
China
Uma teoria alternativa sustenta que o xadrez surgiu do Xiangqi ou de seus predecessores, que existiriam na China desde o David H. Li, um contador aposentado e tradutor de textos chineses antigos, formulou a hipótese de que o general Han Xin inspirou-se em uma versão anterior do jogo Liubo para desenvolver uma versão primitiva do xadrez chinês no inverno de 204–Li, 1998. O historiador alemão Peter Banaschak, entretanto, pontua que a teoria de Li não tem fundamento, afirmando que a obra "Xuanguai lu", escrita pelo ministro Niu Sengru (779–847) da dinastia Tang permanece como a primeira fonte aceita da variante chinesa Xiangqi.Banaschak: A story well told is not necessarily true - being a critical assessment of David H. Li's "The Genealogy of Chess".
Irã
Historiadores iranianos questionam a ausência de evidências arqueológicas indianas anteriores ao , enquanto que evidências persas já foram encontradas a partir do , como uma hipótese da origem do xadrez pertencer à Pérsia, atual Irão. De fato, apesar da literatura indiana anterior ao ser rica, ela não faz menção específica ao chaturanga como nome de um jogo, sendo que as evidências mais claras neste sentido surgiram somente no . A etimologia também não seria objetiva a respeito do uso da palavra em sânscrito chaturanga, que significaria somente "exército", não ficando claro se é uma referência ao xadrez ou a outro jogo. A influência persa na nomenclatura, de cuja língua (pahlavi) provém a maioria das palavras relacionadas ao xadrez, também é considerada como argumento a favor da teoria iraniana.
A figura do elefante como justificativa para a origem indiana também é questionada. Esses animais não eram exclusividade da Índia, sendo conhecidos desde a dinastia ptolemaica no Egito, e foram regularmente utilizados nos exércitos persas. As obras persas Chatranj namâg e Shāh-nāmeh, que indicam a origem do jogo como de um outro reino a oeste, relatado como Hind e que trouxe o chaturanga para corte persa, poderiam indicar uma província oriental do império persa que inclui a província moderna do Sistão-Baluchistão, que durante o império Aquemênida era uma extensão da província do Cuzistão.
Difusão A Pérsia
thumb|esquerda|Ilustração do livro Shāh-nāmeh, mostrando uma partida na corte persa
O poema Mâdayân î chatrang, ou simplesmente Chatrang nâmag, é a primeira evidência literária que descreve as peças de xadrez e a chegada do chaturanga na Pérsia, embora a datação do texto seja controversa - historiadores estimam que ele date entre os séculos VII e IX.
Por volta do outro poema, Xusraw Kawadan ud redag, escrito na língua pahlavi, menciona o chaturanga, o Ashtāpada e o nard, antecessor do gamão. Cosroes foi o Xá da Pérsia de 531 a 579 e entre as possibilidades existentes, seria o primeiro a receber um conjunto de peças de xadrez da Índia.
Na região da Pérsia foram encontrados os vestígios arqueológicos mais antigos do jogo, localizados no sítio arqueológico de Afrassíabe, perto da cidade de Samarcanda, no atual Uzbequistão. As denominadas peças de Afrassíabe são sete em número (1 Rei, 1 Torre, 1 Vizir, 2 Cavalos e 2 Peões), com um tamanho médio de 3 cm de altura, e foram datadas do .
As primeiras adaptações ao chaturanga foram a tradução do jogo, que passou a se chamar Chatrangue, e das peças que mantiveram o significado indiano de representar no jogo os quatro componentes do exército na época: bigas, cavalaria, elefantes montados e soldados além do soberano e seu conselheiro. Os persas também introduziram expressões no jogo como Shāh, atual xeque, utilizado ao ameaçar o Rei adversário, Shāh-mat (xeque-mate) que o Rei foi emboscado, capturado ou morto, o que indica o término da partida e Shāh-rukh, que indica uma ameaça dupla ao rei e à Torre, que até então era a peça mais forte.
Desde o início o jogo foi popular, tendo sido criadas variantes citadas em diferentes manuscritos, como por exemplo o Murûj adh-dhahab e a enciclopédia Nafâ'is al-funûn, que descrevem um total de sete variantes praticadas na época, apesar de terem sido desenvolvidas já sob o domínio árabe sobre a Pérsia. A primeira descreve o xadrez oblongo, o xadrez decimal, o circular, celestial (al-Falakîya) e o limbo (al-Jawârhîya). A segunda descreve também o Xadrez cidadela (al-Husûn) e o xadrez grande (al-Kabîr) conhecido posteriormente como Xadrez de Tamerlão.
Os persas introduziram o Chatrangue no Império Bizantino por volta do que foi assimilado sob o nome de zatrício (). Porém, a primeira evidência do zatrício do qual é possível estabelecer uma data correta é do , em uma passagem da biografia do imperador Aleixo I Comneno, escrita por sua filha Ana Comnena. Não se conhece em detalhes as regras do jogo que era praticado na corte bizantina e com a derrocada do império em 1453, a versão existente do jogo foi substituída pela versão turca que viria a ser posteriormente substituída pela versão europeia.
A conquista árabe
thumb|Conjunto de peças do Xatranje, datadas do .
Quando os árabes dominaram a Pérsia, em 651, o profeta Maomé já havia falecido, o que provocou um longo debate entre os teólogos islâmicos sobre a legalidade da prática do jogo. Por fim, permitiu-se suas práticas sob determinadas condições, que incluíam não ser apostado, não levar a disputas ou linguajar impróprio e não representar as peças figurativamente.
O jogo tornou-se popular entre califas, como Harune Arraxide, que patrocinavam os melhores jogadores de sua corte, e, no final do , já era amplamente aceito e difundido no mundo árabe, sendo levado para o norte da África, Sicília e Península Ibérica. Surgiram então os primeiros grandes jogadores, notáveis em suas épocas, pela capacidade de jogar mesmo dando vantagens de peões até torres para seus adversários. Aladli, Rasis e Alçuli foram os grandes nomes deste período, tendo-se destacado tanto no xadrez como nas artes e ciências.
Os árabes foram os primeiros a estudar com um método analítico as fases do jogo de aberturas, meio-jogo e finais, buscando explorar as fraquezas existentes em cada uma delas. Criaram inúmeros problemas, denominados mansūbāt, representando os finais típicos de uma partida, com a utilização das regras do Xatranje, versão arabizada do Chatrangue persa. Desse período também é a primeira referência a uma partida de xadrez às cegas, relatado por Alçafadi num manuscrito árabe do .
Expansão pela Ásia