thumb|250px|Tímpano do portal da Igreja de São Pedro de Rates, Portugal. A figura de Cristo encontra-se envolta por uma mandorla. A mandorla é uma figura geométrica de formato oval ou amendoado, que corresponde à intersecção de dois círculos com o mesmo raio, de maneira a que o centro de cada círculo esteja no perímetro do outro. Também é conhecida como amêndoa mística ou vesica piscis («bexiga de peixe» em latim).
Este tipo de figura geométrica é usada como motivo decorativo em arte sacra. Com efeito, a mandorla é comummente usada à guisa de uma auréola oval, para envolver figuras sagradas, sobretudo representações de Jesus Cristo ou da Virgem Maria, bem como de santos, sendo um motivo geométrico característico da arte românica e bizantina.
miniatura|Pormenor central da verga do Mosteiro de Saint-Genis-des-Fontaines miniatura|esquerda|Jesus no interior de uma forma de mandorla ou vesica piscis num manuscrito medieval (o Evangelho de Speyer / das Speyerer Evangelistar, 1220) miniatura|A Vesica Piscis
História A mandorla provém de um elemento arquitetónico romano que consistia em colocar figuras dentro de um círculo. A rodela que apresenta o retrato de uma pessoa falecida num epitáfio surge rapidamente em sarcófagos cristãos.
Em França, uma das mandorlas mais antigas encontra-se num sarcófago merovíngio na cripta de Jouarre. Na couceira do sarcófago de São Agilberto, existe uma de quatro formas cristalinas diferentes que envolve uma Maiestas Domini dentro de uma mandorla. Os escultores do século VII fixaram aí a imagem de um Cristo jovem, imberbe, com uma representação próxima da estética bizantina.
Uma representação, também de tradição pré-românica, encontra-se na igreja do Mosteiro de Saint-Genis-des-Fontaines. Situada na respetiva fachada, a verga (em mármore branco de Ceret) constitui uma obra monumental. Esta escultura românica é conhecida como a mais antiga em pedra (data de 1019-1020) e representa Cristo a abençoar, inscrito numa mandorla perlada, sustentada por dois arcanjos e enquadrada por dois grupos de três figuras bíblicas.
Existem muitas representações de Cristo inscrito em mandorlas em igrejas românicas occitanas, tais como em Sainte-Foy de Conques, na igreja de Saint-Trophime ou na basílica de Saint-Sernin de Toulouse.
O mesmo motivo reencontra-se na arte iconográfica ortodoxa bizantina, como no ícone da Transfiguração, na Descida aos Infernos ou no ícone de Cristo Pantocrator (mandorla tripla). No ícone da Natividade, a Virgem também é representada numa mandorla, que se funde com o seu leito. Em contrapartida, no ícone da Dormição da Virgem, já não se encontra numa mandorla; é a sua alma que Cristo vem buscar no interior de uma mandorla.
miniatura|Pintura mural de São Clemente de Taüll com a Maiestas Domini no interior da mandorla Em Espanha, encontra-se esculpida em locais como a igreja de Santa Maria de Covet (Lleida), a igreja de Santiago de Carrión de los Condes (Palência) ou a igreja de San Esteban de Moradillo de Sedano (Burgos). Na igreja de Santo Domingo de Soria, como raridade, surge a Santíssima Trindade na mandorla, rodeada por anjos com os símbolos dos evangelistas e as figuras sedentes da Virgem e de São João Batista.
Encontram-se igualmente mandorlas em manuscritos iluminados, na pintura medieval, preferencialmente situadas no eixo das ábsides, como na igreja de São Clemente de Taüll (Lleida), na igreja dos santos Julião e Basilisa de Bagüés (Huesca) ou no Panteão dos Reinos da basílica de San Isidoro de Leão, bem como na ourivesaria, como é o caso do retábulo do santuário de São Miguel de Aralar ou da urna de Santo Domingo de Silos (Burgos).
Forma e Símbolo miniatura|Forma horizontal A utilização do círculo para inscrever uma figura, para além da sua localização no topo de um elemento arquitetónico, evoca a esfera celeste. A mandorla conduz a outra dimensão: trata-se de uma figura geométrica desenhada com dois círculos que se interceptam. Na sua interseção encontra-se uma pessoa, pela qual é necessário passar para percorrer o caminho entre os dois círculos, os dois hemisférios ou os dois mundos, o terrenal e o celestial. A implantação de Cristo numa mandorla no tímpano da porta de uma igreja revela o simbolismo da passagem do exterior para o interior do templo e, por conseguinte, anuncia a transição dos vivos do mundo terrenal para o celestial. A mandorla é, pois, utilizada para exprimir uma passagem ou uma porta.
De acordo com o simbolismo de santa Hildegarda de Bingen, a mandorla remete para o cosmos.
Na arquitetura gótica, para além das vantagens arquitetónicas da abóbada de cruzaria que permitem a entrada de luz no edifício, surgiu o arco ogival, que possui a aparência de uma mandorla aberta à plena luz. O simbolismo da mandorla continua a ser passível de utilização, agora sob uma vertente luminosa (em articulação com a românica). Esta aplicação da mandorla corresponde ao período de busca pelo realismo, caracterizado também pela sua estatuária mórbida.
Este símbolo é, além disso, empregue fora do âmbito do cristianismo. Em diversas religiões, a amêndoa é associada ao nascimento virginal. Por exemplo, a ninfa virgem Nana concebeu miraculosamente Atis ao colocar uma amêndoa junto ao peito.
Na arte cristã, algumas auréolas assumem a forma de uma vesica piscis horizontal, existindo também sinetes de organizações eclesiásticas envolvidos por uma vesica piscis horizontal (em detrimento da forma circular mais habitual).
Significado Místico e Religioso Em vários períodos históricos, tem constituído tema de especulações místicas; provavelmente, os primeiros foram os pitagóricos, que a consideravam uma figura sagrada. A razão matemática entre a sua largura (medida pelos pontos extremos do «corpo», sem incluir «a cauda») e a sua altura foi acotada entre 1351/780 e 265/153. Esta última razão, que resulta em 1,73203, foi considerada um número sagrado designado por «a medida do peixe». De forma exata, a razão geométrica destas dimensões corresponde à raiz quadrada de 3, ou 1,7320508076... (uma vez que, ao traçar a linha reta que une os centros de ambos os círculos, juntamente com os dois pontos de interseção das circunferências, obtêm-se dois triângulos equiláteros unidos por um lado, com uma altura equivalente a metade de e sendo o lado do triângulo a unidade). O quociente 265:153 constitui uma aproximação à raiz quadrada de 3, possuindo a propriedade de não ser possível obter nenhuma aproximação superior com números mais pequenos. O número 153 figura no Evangelho de João (21:11) como a quantidade de peixes que Jesus fez pescar na «pesca milagrosa», o que alguns interpretam como uma referência cifrada às crenças pitagóricas.Arquimedes de Siracusa: Da medida do círculo.
Esta aproximação à raiz de três pode ser expressa através da seguinte desigualdade:
Bibliografia Bango Torviso, Isidro G. (1992). *El románico en España*. Madrid: Espasa Calpe. .
Categoria:Elementos arquitetónicos Categoria:Românico Categoria:Símbolos do cristianismo
Etimologia O substantivo «mandorla» entrou no português por via do italiano mandorla, «amêndoa», termo este que, por seu turno, proveio do latim vulgar amandula, que por sua vez é uma deturpação do latim clássico ămygdăla, o qual remonta ao grego antigo ἀμυγδάλη (amygdálē), «amêndoa».
Ver também Tímpano (arquitetura) Halo (iconografia religiosa) Vesica piscis Limão (geometria) Lente (geometria)
Categoria:Arte da Idade Média Categoria:Arte cristã Categoria:Forma geométrica Categoria:Curvas